sábado, fevereiro 28

O Ratão

É fato que do tempo que o cronista leva para escrever uma crônica, metade é gasto no início. Escrever é como essas locomotivas antigas que precisam esquentar para pegar no tranco. Ainda no que tange essa inspiração, para o início da crônica, o tempo gasto na procura de um começo impactante é ainda maior. Pura vaidade - também medo do leitor cansar antes mesmo de ler o que você julgava ter de melhor.

Gastei meu tempo pensando em como começar bem essa crônica, mas não conseguindo nada de muito imediato irei direto ao ponto.

Nasce uma nova boemia na cidade do Recife, não uma boemia qualquer, mas uma verdadeira elite de pândegos unidas sobre a bandeira do ratão.

Outro escrúpulo que tive e mandei às favas foi quanto ao uso dessa palavra: ratão, me lembra ratos de porão, que me lembra o vendido do João Gordo e guitarras maltratadas, e ambos não correspondem ao movimento, mas optei por escrever estas palavras com sinceridade e sem muitos floreios, portanto vá lá, somos os ratos, discípulos do ratão.

Não conheço ao certo as origens do ratão, o que fortalece ainda mais sua força de mito, como essas coisas que existem misteriosamente, como o programa do Faustão e os erros gramaticais do presidente. Há muito que deveriam acabar, ou melhor, jamais deveriam ter existido, mas existem.

O que é certo são os mais de cinquenta jovens já unidos sobre a bandeira. E a cifra aumenta a cada noite, em cada copo, bituca ou guardanapo; a cada beijo, em cada língua o ratão se prolifera.

Por exemplo, Basílio, um grande amigo e sem dúvida um dos fundadores do rato, anteontem, explicava para um grupo de iniciados sobre os preceitos do movimento, depois de uma partida de frisbee com um desconhecido na praia de Boa viagem. Ele falava assim "sobretudo o rato não se mistura com o amor, negócios negócios, prazeres à parte e coisa e tal" enquanto atrás um casal de amigos se agarrava descaradamente. Não foi o momento mais feliz de Basílio, mas acho a passagem didática, sem dúvida.

Quem me iniciou no rato foi Túlio, tínhamos uma amiga em comum, uma moça careca, linda. Túlio é músico e prometeu tocar para ela no Senart, um evento promovido pelo Senai com seus alunos. Ela faz inglês lá e o grupo dela apresentou uma paródia do caldeirão do Huck no idioma dos gringos, com direito à um Luciano Huck coberto da cabeça aos pés com tinta guache verde e um dos piores sotaques que já ouvi na vida.

Pronto, eu estava só enchendo linguiça, esse é o assunto da crônica (descobri agora, é verdade). O assunto é arte, o que vou dizer é o óbvio ululante, mas a verdadeira obra de arte é sincera.

Escrito assim todo dirá "disso eu sei". Sabe nada. Uma análise do mercado de entreterimento, em qualquer meio - filmes, seriados, novelas, artes plásticas, cênicas, música - o que mais encontramos é a cópia, e pior, a cópia que se diz original. Existe algo menos sincero que isso?

Um filme, por exemplo. Vi um filme caseiro de um amigo e o achei ótimo. Não era um primor de acabemento técnico, não teve orçamento milhonáiro, mas ele soube admitir cada limitação na concepção da película. Aí a veradeira genialidade do artista! A maioria da produção artística é uma disputa mesquinha, sem qualquer humildade, para o melhor copydesk.

Essa é a reflexão que faço ao assistir um evento como Senart, daí surgiu a crônica. Nennum profissional, Luciano Huck pintado de verde da cabeça aos pés com tinta Guache, cheio de falhas ao longo do corpo, os sotaques todos horríveis, muitos risos. Porém todos os participantes se assumiram, ninguém fingiu que hulk era realmente verde e gigante, ninguém fingiu ser nativo da inglaterra. E a sinceridade das pessoas em cima do palco permitiu à imaginação da platéia voar. A mentira polui e neblina qualquer possibilidade imaginação.

Percebo, ao digitar essas palavras, que o ratão surgiu para mim anterior a si mesmo, e continuará existindo na exibição visceral de nós mesmos.

Ratão.

Voltei. Por quê?

Voltar a postar no desconceito parece piada após um ano sem escrever nesse blog. Meu projeto do ano passado, "conselhos de um poeta", terminou e algumas pessoas leram e ele deu o que tinha que dar.

Já sou outro, já não escrevo para o elogio, como fazia quando montei o blog. Mas ainda escrevo para o outro, por isso certas coisas quero publicar.

Como Desconceito é uma coisa transitória, estou mudando a linguagem, meus poemas andam chatos, obedecendo a projetos literários, coisa e tal, portanto vou experimentar certas crônicas, se possível trarei linhas novas todos os dias, acho difícil, veremos.

Abraços