sábado, março 28

O Prédio da Torre II

Há quem compare o ratão - boêmia artística emergente no Recife - a um Papado. Nem oito nem oitenta, como diria minha avó, mas com certeza o movimento propõe traços de uma ritualística, tem algo de mítico, capaz de tocar no mistério da alma humana.

E se o ratão fosse um papado o Recife Antigo seria nosso Vaticano, e nos finais de semana à noite nossos encontros seriam os Conclaves e o Novo Pina seria nossa Capela Sistina. Portanto, assim como a igreja Católica tem um estado, nós, os ratos, temos um bairro. Assim como a Sistina é protegida pela arte dos mestres - Pinturicchio, Botticelli, Cosimo Rosselli, entre outros - o Recife antigo, é cercado pela arte de Brennand e sua infamosíssima pica, Cícero Dias entre outros.

Ainda na analogida, se o ratão fosse um papado, o Recife Antigo seria nosso Vaticano, mas o Prédio de Bruninha seria a Catedral de N. S. Aparecida, a maior do Brasil.

Outro dia fui para lá mais Robertinho - Roberto França, professor de inglês do CAC, solteiro, à procura de sua gatinha manhosa, interessadas favor procurá-lo - e foi uma coisa dessas que não mais esqueço.

Larguei do serviço e fui para o cinema da Fundação, Roberto me encontrou no caminho, tinha um festival de cinema, com a coletânia dos filmes mais relevantes já exibidos lá. Isso era sexta, acho.

Fui lá para ver Bruninha, dar um oi, bater papo, coisa e tal. Ela tinha acabado de sair de uma sessão e ia emendar em outra. Mas papo vai, papo vem, terminámos eu, Roberto e ela no palco do jardim do andar térreo.

Não sei se todos estão familiarizados com o espaço, acho que só as pessoas que trabalham ou fazem cursos lá tem conhecimento do lugar - um lindo jardim em volta de um patamar para apresentaçõse e três degraus de platéia afastados em direção à uma das paredes. O que me facina no lugar é que é um dos poucos lugares que conheço no centro da cidade para roubar rosas - rosas vermelhas, o que não é pouca coisa.

Quem me mostrou as rosas foi Roberto, que olhou planta por planta para passar o tempo. Fiz um dos carinhos mais estéticos da minha vida soprando e despetalando as pétalas de uma rosa no rosto de Bruninha e vendo sua pele branca se fundir em sangue com o vermelho da rosa e o perfume da rosa aderir seu pescoço e a delicadez de uma pétala se imprimir em seu rosto.

Uma grande amiga, Clarissa Santos, escritora de mão cheia, estava na cidade e eu achei que tinha que ir embora para me encontrar com ela. Clarissa, para mim, é uma celebridade e quando ela está eu tenho que correr para vê-la. Foi assim aquela noite, mas no meio do caminho descobri que ela tinha ido com a família para o show do Rosas de Sharon e eu só a veria no dia seguinte.

Sentei no balanço da Praça do Derby com Roberto para jogar conversa fora. Naquela época bater papo num balanço de praça não era contra a lei - a praça era mais abandonada, contudo, pelo menos não havia os vagabundos pagos pela prefeitura para encher o meu saco e atrasar a conclusão da obra. Quando mando uma mensagem de texto para Bruninha, dando boa noite ou coisa parecida e ela responde que está numa festa - onde, ora vejam? No prédio dela - de pilhéria, respondi dizendo que estava de doce porque não fora convidado e ela disse vem.

Até aí nada demais, impressionante mesmo foi Roberto ter ido comigo e as peripécias pelas quais ele passou. Primeiro fomos comprar umas besterias para comer no Habib's da Rosa e Silva, depois pegamos um ônibus até a torre. Roberto é uma pluma, Fred Fonseca, um amigo da gente, diz que quem o vê correndo na praia de sunga pensa que é o homem invisível numa sunguinha amarela.

Enfim, ele comeu um pastel do Habib's e começou a regurgitá-lo no ônibus, quase põe pra fora em cima do cobrador, mas graças às energias ratônicas daquela noite, sobrevivemos todos.

E Roberto também não pode reclamar, quando chegamos havia uns homens, mas do meio parao final só havia mulheres para a festa, e na sua maioria, todas lindas. Ele não sabia ainda, mas quando eu ia para o prédio na Torre, eu ia para virar a noite. Naquela noite, eu tinha ganhado uma toca à la mano chao; mas naquela época eu e Bruna estávamos juntos e saímos da vista para fazermos juras de amor escondido entre os carros do estacionamento, embaixo das luzes frias, da noite fria.

Engraçado como quando a gente gosta esquece de tanta coisa, quanto mais rídiculo, melhor para o enamorado. O que sei é que no meio dessas juras eu perdi minha toquinha, para sempre.

E Roberto, esse rapaz de família, esse exemplo de bom comportamento, que não bebe (só vinho, isso mesmo garotas, é um rapaz de gosto refinado), não fuma passou a noite cercado de mulheres e ainda por cima roubou um beijinho de Bruna na minha frente num jogo de verdade ou desafio recheado de cubos de gelo que não sei de onde vieram ou para onde foram.

Toda noite é uma ilusão - quatro da manhã todas as mulheres foram dormir, pois todas moravam no prédio e nós dois - moços da zona sul, pobres e sem carro - fomos dormir no chão do salão de festas num frio de lascar. Não, não é meu fim de noite ideal.

Cinco e pouco acordamos e fomos embora, em poucas horas ele tinha psicólogo (e agora muito o que contar) e eu ia para casa. Fomos andando, paramos na padaria das cinco esquinas para comer pão com ovo e tomar café. A família dele ligou, estava preocupada, ele tranquilizou os parentes e ficamos na FAFIRE entre o dormindo e o alesado até a hora do psicólogo dele. Depois fui para casa.

Como os ratos são em maioria adolescentes, na árdua e interminável tarefa de tornarem-se adultos, conceito abstrato; muitas vezes temos que nos entender com nossas famílias antes de sairmos para nos encontrar pelas noites. E o curiosos como isso é uma questão de hábito.

Minha experiência me mostra que homem, mulher, velho ou novo, rico ou pobre - liberdade é uma questão de exercício, hábito e luta. Quem não luta pela liberdade, qualquer, dos pais, dos chefes, do sistema, do que for; viverá acorrentado ao próprio medo de modificar o mundo que o cerca com a misteriosa força do amor.

Tudo isso para avisar que dia quatro, haverá uma festa do ratão. Local - o Prédio na Torre, encontro meus ratos lá.

quinta-feira, março 26

Seis em uma

Suzane Elisa Camilla Gabriela Fontes Rios, nascida e registrada em cartório assim, talvez com um ene a mais ou a menos, pois nunca vi o nome escrito por extenso, mas sei que ele é assim.

E pra quê tanto nome? Para proteger a dona. Nasceu prematura, era miúda, leve e pequena, portanto a família decidiu que ela deveria ter alguma coisa de grande, nem que fosse o nome. Hoje de pequeno tem pouco, talvez a altura, talvez o tamanho da boca, mas em geral é uma grande e adorável mulher.

Vale notar como cada nome representa uma personagem de si mesma. Camilla é ela mesma, Suzane é a mulher que existe nela, Elisa foi a criança e Gabriela será a memória de tantas mulheres que viveram numa só.

Sem falar que não é todo mundo que pode mudar de nome assim, como quem muda de roupa. Nada mais natural que fosse atriz, que tivesse o gosto pela multiplicidade, pela transição.

Dia desses estávamos voltando para casa Eu, Mauro Monezi e ela, no meio do caminho ela pára "meu celular sumiu. Estava na pasta antes, quando começamos a andar, e agora sumiu". Pensei "pronto, é agora".

Na verdade a princípio não entendi, não assimilei direito a informação. Depois fui compreendendo e vi que só tinha uma solução - voltar e procurar o bicho.

Pensei "que saco" eram para lá de dez da noite, estávamos todos cansados e pela frente ainda tinha quinze minutos de caminhada, janta e banho para eu finalmente dormir, tudo que eu mais queria. E ela ia deixando a responsabilidade fugir "Não, vamos não, está tarde, deixa para lá, já foi..." - Mauro estava pela metade, pelo que vi, por ele voltávamos para procurar, mas também estava cansado e não queria contradizer ela.

Entretanto perdi o celular dia desses em circunstância parecida. Ela não sabe, mas uma verdadeira revolução se passou em minha mente naqueles poucos momentos entre a descoberta da perda e minha resolução; mais ou menos essa "Que saco, o jeito é voltar... Eita, ela não quer, então que se dane, vou para casa dormir... Diogo, isso não se pensa, e se fosse com você?... Diogo, você não tem bondade nenhuma dentro de você, você não dá a mínima para os outros..."

E foi assim, não num acesso de bravura, mas esmagado pela mais abjeta culpa, que a vi lamentando a perda do telefone e decidi "eu vou, se vocês quiserem ir embora, vão; tu não precisa se preocupar Camilla, eu vou voltar e acho o celular".

Foi de tal forma definitivo que eles, como as pessoas maravilhosas - e boas - que são voltaram comigo para procurar o aparelho. A noite estava deserta e umas três quadras atrás ela viu o celular caido no meio da rua. "Encontrei" ela disse "tá ali".

O celular era da mãe dela, que há poucos dias perdeu outro aparelho, seria uma desgraça em cadeia perder o segundo. Eu, ao mesmo tempo, me lavei da frustração de perder o meu como da culpa do lobo que existe em mim.

A crônica de hoje tem duas funções - 1ª pedir cuidado com os gestos nobres, pois eles não partem da nobreza de espíritos elevados, mas da culpa de almas atormentadas.

E 2º) Dar os meus grandes e sinceros parabéns à Suzane Elisa Camilla Gabriela Fontes Rios, seis mulheres encarnadas em uma, que faz anos hoje.

É o tempo senhores, varrendo todos nós...

quarta-feira, março 25

Meu fundinho


Ontem não teve crônica. Culpa do modem.

Couso de Petrolina. Era feriado, primeiro de maio, dia do trabalho, acho. Estávamos todos no terceiro ano colegial - Eu, Raimundo, Tarina, Raissa, Laíse, Cássia e Akemi Toma Keiko - e decidimos cozinhar um almoço comunitário no feriado, não tínhamos nada para fazer mesmo.

Explico, em Petrolina não se vende queijo de fundue, os motivos são por demais metafísicos para que eu os compreenda, mas suspeito que não tenha quem o compre. Mas tenho uma panela para fundue em casa, comentei isso com Akemi, matuta de gosto refinadíssimo. Na época meu pai estava em Recife à trabalho e comentei "Aka, eu podia pedir para meu pai comprar o queijo e nós podíamos comer fundue" ela "Adoro, tão europeu fundue" e eu "foi, agente chama o povo e come no feriado" ela "fechou, vai ser na minha casa, vou fazer yaksoba".

E fomos, painho comprou o queijo, akemi com a ajuda das meninas fez muita bagunça na cozinha e macarrão com shoyo, daí para yaksoba são quinhentos, não é akemi? E eu trouxe o fundue e panelinha, que logo foi apelidado de "o fundinho do Diogo" e passei a tarde ouvindo comentários do tipo "então, hoje todo mundo vai comer o fundinho do Diogo" ou então "Nossa, teu fundinho é tão bom Diogo..." coisa e tal.

O fundue de queijo deu certo, graças, nunca tinha feito antes, exceto pelo calor, que já é excepicional em Petrolina, somado às panelas, comemos numa sauna e todos perdemos uns dois quilos durante a refeição.

Passava ou alugaram o filme do 007 mas ninguém conseguia assistir por causa da zuada. Num descuido todos sairam do sofá para comer e deitei, quando as moças me viram esparramado no sofá, como um rei, me confundiram com a mobília e tiraram essa foto, a primeira que publico no blog.

O sucesso do meu "fundinho de queijo" foi tão grande que decidi tentar o "fundinho de chocolate". Havia uma barra de chocolate meio amargo e imaginei que se derretéssemos na panela o chocolate e passássemos no pão seria uma delícia. E seria mesmo.

Se eu não tivesse inventado de no meio do derretimento do chocolate jogar vinho branco na mistura. Não sei porque, mas tive uma dessas certezas inapeláveis que seria delicioso se eu jogasse vinho no chocolate derretido.

Minha certeza estava errada, óbvio. O chocolate virou uma gosma dura que sinceramente lembrava... Bem, o leitor é inteligente o suficiente para saber o que lembra uma gosma marrom grudenta e meio dura.

Akemi salvou o dia e fez brigadeiro para a gente. Mas meu fundinho permanece na memória.

A crônica de hoje é uma homenagem à Akemi Toma Keiko, Design em Curitiba. Que no tempo em que passamos juntos em Petrolina, foi uma mestre, mãe, professora, amiga, irmã, consciência, coragem e acima de tudo muito amada. Apesar dos pesares. Como ela fez anos ontem, hoje com a crônica a dou meus parabéns.

segunda-feira, março 23

Tango

Estou ouvindo tango. Osvaldo Pugliese. Difícil até mesmo descrever o que sinto ao ouvir a música.

Seguinte, pela perspectiva da sinceridade que escolhi para reger o blog, afirmo humilde que não posso escrever uma crônica hoje, segunda-feira, dia 23 de março, pois hoje é um dia de poesia, e vou improvisar algo aqui, ao som do tango.

Au revoir

E tu, que estavas tão certa
Nas almofadas de meu sofá
Sorriu ao ver a porta aberta
E chorou quando a viu fechar

E tu, que nunca dançaste um samba
De largas ancas, sem espaldar
Mas cujas pernas quando me enrosca
Balança o juizo de a ver passar

Pois tu, que para mim não é nada
No teu vazio me aconchegar
E no último sino, badalada
A hora de te abandonar

au revoir

domingo, março 22

Todo homem é uma ilha

Todo homem é uma ilha, e só a cerveja é capaz de reuní-los em arquipélagos.

Percebi isso voltando para Candeias de carona. Mauro, que também voltava na mesma carona ia de um lado do carro pensando na sua vida e eu do outro pensando na minha. Por quê não nos confessávamos um ao outro? Por quê não dividiámos nossos pesares? Falta de cerveja, logicamente. Viemos de uma pizzaria e tudo que tomaram foi refrigerante.

Quão diferente de ontem, que me encontrei com os ratos no Novo Pina não sei depois de quanto tempo. E que saudade! Vi Tulinho, Calú, Basílio, Joca, Laís. E nem deu meia hora, estavámos confessando tudo, eu gritava meus maiores pecados para e mesa, e a mesa respondia seus próprios maiores pecados. Bravo!

Menos Basílio, que discutia em vão filosofia e mitologia grega, mas talvez essa intelectualidade exarcebada seja o pecado inconfessável de Basílio, vai saber.

Domingo é sempre mais triste, talvez seja apenas isso, não sei. Domingo é o dia da praça, da preguiça. Eu ia explicando tudo isso na mesa para Roberto Brandão, grande amigo, hoje "Temos que deixar as meninas de lado e sentar os caras num boteco para beber" E ele, "é mesmo Diogo, bora" e eu "Não tô aguentando mais, preciso me confessar" e ele "bote fé".

Engraçado, hoje assisti com o big brother do SESC de Piedade Rasif, do coletivo Angu de Teatro, um sério parabéns para eles pelo trabalho bem feito. O espetáculo é uma junção de esquetes que discutem a realidade urbana, destaque para o esquete do carro "minha namorada me deixou, culpa do carro. A fome, o petróleo, a guerra no oriente médio, tudo culpa do carro, você não vê" que entra em perfeita comunhão com a crônica 'Energia Solar' publicada nesse blog, dia 15 de março.

O que me deixou comovido foi ver a comunhão com algumas idéias que tenho faz tempo, mas que desenvolvi por observação, como a solidão dos prédios, por exemplo. As classes altas já há algumas décadas, e há alguns anos a classe média vem se privando do contato com o mundo dentro do conceito de condomínio. Bom era no tempo do meu pai, que menino jogava pelada na rua - erámos (nós humanos) menos preconceituosos. Hoje podemos definir o padrão financeiro da compainha de nossos filhos dentro da taxa de condomínio. Podemos oferecer piscinas, gramados, áreas de lazer. Podemos escondê-los do mundo, podemos reduzir a violência à uma estatística de jornal e ensiná-los a ter medo de qualquer indigente, a correr nas pontes do Recife pela madrugada como verdadeiros animais de medo, filhos do medo. Os pais podem moldar a visão de vida de seus filhos à uma gaiola dentro da taxa do condomínio.

Sem falar na questão do carro - ouvi uma moça dizer, dia desses "Estou no último período da faculdade, minha carona vai mudar-se e ir para a faculade no último período de ônibus é inadmissível" - outra prova da minha teoria das ilhas. Se para mim a coisa mais comum do mundo é o lotação. Comum e filosófico, posto que boa parte da minha visão da vida, do amor, da condição humana e da morte foram desenvolvidas no lotação. Mais especificamente na linha CANDEIAS/CDE. DA BOA VISTA, 071, da Borborema, onde passava duas horas por dia para ir e voltar do serviço por mais de um ano. Quando começar a faculdade começa também a linha 020, CANDEIAS/DOIS IRMÃOS; e estou ansioso pelas experiências, personagens e reflexões que a condução me trará.

E fulana achando um ultraje pegar um ônibus. Para mim a prova absoluta e definitiva da solidão que somos cada um de nós.