Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, agosto 31

Sete requiéns para a personificação do passado.

Nota: Vou jogar tudo de uma vez. Se alguém ainda é tolo o suficiente para ler, desculpe.

I

Você quer saber porque eu rio meio de repente quando a gente se abraça e eu nunca tenho coragem de te dizer que é porque eu desconfio que te amo. Desconfio, porque desconfiar é ter certeza que você teria certeza se tentasse sem tentar e é isso eu sinto essa certeza de que teria certeza se tentasse mas na última hora no momento mais íntimo e mais importante me faltam as forças para tentar porque no fundo eu tenho medo dessa certeza ser apenas minha certeza e você não compartilhá-la também e aí se eu tentar e falhar eu não terei nem certeza nem desconfiança nem você nem amor nem nenhuma dessas coisas.

Mas eu tenho tantas razões para desconfiar que te amo e sempre que eu penso nisso eu desconfio (tenho quase certeza) que não sei o que é o amor, porque se soubesse eu poderia ter certeza em vez de desconfiar: eu desconfio que te amo porque teu pescoço encaixa direitinho no contorno do meu ombro e tua cabeça pousa perfeita no vão do meu peito e até meus braços que eu acho assim meio desajeitados tem a envergadura exata de tuas costas é tão preciso que o dedo anelar termina exatamente em cima da marca de vacina que você tem no ombro e tuas mãos também parecem ter a espessura exata da minha cintura, enfim, é tudo tão bem feito que eu tenho a impressão (desconfio) que isso quer dizer que nosso corpo foi planejado nos menores detalhes para encaixar mesmo e pronto é isso aí não adianta fazer nada nem pra impedir nem pra permitir é pra ser porque eu desconfio que você é a peça do quebra-cabeça que fica ao lado da minha.

Eu também desconfio porque sempre que te vejo eu não sei se o que sinto é uma tristeza de ser pra sempre ou uma alegria de nunca mais esse sentimento que eu sinto quando te vejo e é muito mais fácil explicar um riso do que um monte de lágrimas não choradas e não explicadas aí eu aproveito pra apertar os olhos bem fundo e torcer a boca nesse sorriso amarelo pra engolir qualquer coisa idiota que eu possa vir fazer ao te ver como por exemplo chorar sem motivo que só iria te preocupar mais e vamos combinar a vida já tá bem difícil às vezes tenho a impressão de que somos mesmo dois anjos caídos da mesma asa alçando vôos  e viagens para um céu que há muito nos deixou e por isso que eu tenho uma vontade violenta da enlouquecer tudo de vez ainda que eu desconfie (tenho a impressão) que esconder essas lágrimas e todas as outras coisas que faço para não enlouquecer tudo de vez assim como não ligar pra você uma da manhã sem a menor idéia do que falar ou sempre responder que está tudo bem quando me perguntam e pensar fantasias de todos os nossos amigos muito ricos e importantes e felizes quando me deparo com um problema insolúvel assim como a morte da minha amiga da qual lhe falei hoje cedo me aproximam cada vez mais de enlouquecer tudo de vez e pior, sozinho.

Tem mais, eu desconfio que eu te amo porque desconfio igualmente que você não existe e é alguma coisa sonhada ou inventada que se separou da minha memória e saiu andando por aí e eu não sei se isso já aconteceu com você mas não é muito agradável ver bem na sua frente existindo uma loucura da sua memória é mais ou menos como ver seu pulmão dizer "bye bye baby, vou nessa" e continuar respirando sem a menor idéia de como ou por quê você demora tanto na hora da despedida e tudo que vivemos no tempo em que passamos juntos deve ter sido sonho porque o tempo dilata tanto nesse desperdício de momento nomeado despedida que eu só posso concluir duas coisas: primeiro que tudo foi um sonho e você sabe que não existe por isso me aperta bem forte até o ponto de me deixar sem jeito na hora do adeus já que os sonhos não retornam e você não retorna nem liga e eu acho que você nem desconfia o quanto isso me dói apesar de eu saber que nós somos pobres de dar dó e talvez você simplesmente não tenha dinheiro pra ficar me ligando mas eu gostaria de te dizer que você pode me ligar a cobrar a dobrar do orelhão você pode gritar meu nome pela rua se você quiser mas o que eu não quero é ficar assim dias sem você me procurar porque isso me deixa perto do desespero porque não pode ser eu não posso gostar tanto do tempo que nós passamos juntos sozinhos isso não pode ser tudo invenção da minha cabeça se for assim eu devia mesmo me internar ir voar pra fora da asa ou entrar em outra tanto faz enfim em segundo lugar eu não quero nem saber o que é sonho e o que é miséria eu quero mesmo é não ir nunca quando nós nos despedimos e mandar o trabalho a família os amigos o computador e o raio que o parta tudo às favas e ficar simplesmente com você mesmo pobres e lascados mesmo que não pare de chover nunca e na sua casa tenham goteiras eu quero mais é que goteje bem muito se eu estiver abraçado com você na espuma úmida do colchão sem qualquer preocupação do onde ou do quê.

Acima de tudo eu desconfio essa coisa que eu desconfio e que não vou repetir porque eu já cansei de repetir principalmente porque quando eu te deixo eu não me sinto triste e não é que eu não me sinta triste porque eu não sinta a tua falta coisa aliás que eu sinto aos montes eu não me entristeço depois que te deixo porque eu não me sinto vazio e sempre que eu te deixo é como se eu fosse uma massa quente e cheia dum recheio imenso e meio nonsense assim como salsicha e bolo de rolo ou omelete e brigadeiro e isso é como ver uma luz bem pequeninha no fim do túnel e estar tão acostumado às trevas e a imensidão silenciosa e vazia do túnel que essa luz não dá mais esperança nenhuma mas me aterroriza com a possibilidade de que as coisas podem ou pior ainda podiam ser diferentes a verdade é que como você bem sabe a noites e mais noites o retorno pra casa é sempre um passeio no vazio e inclusive para mim isso é tão natural que quando eu penso em escuridão eu não penso mais em na ausência de luz mas numa sensação serena de vazio.


Enfim eu desconfio que te amo porque quando estou com você a única coisa que eu quero é te abraçar bem forte e a vontade de fumar beber e ficar muito louco diminuem assim como naquele verso que meu amigo fez e recitou pra gente ontem lembra? aquele que dizia assim 'porque antes de te conhecer eu era um suicida em potencial, e eu corro atrás de ti porque eu me amo' quando eu estou com você eu desconfio que estou em paz e é mesmo uma pena que eu só possa desconfiar isso porque eu também não sei o que é paz na verdade eu não quero estar com nenhuma outra pessoa quando estou com você e você sabe como eu sou carente e quero todo por perto o tempo todo e não querer estar com ninguém  assim além de você me deixa muito sem chão porque é uma coisa completamente fora do comum e pra ser bem sincero eu não entendo isso muito bem ainda por cima você nem é tão bonita pra eu não querer mais ninguém o problema é que infelizmente quando eu estou com você eu sinto que tanto faz tua beleza Q.I conta bancária opção sexual estado civil estatura CIC e RG porque eu te amo quer dizer desconfio e que é meu destino gostar de você tanto faz qualquer uma dessas coisas e que eu nem sequer tive vez ou voz nessa decisão e talvez seja isso que me espante tanto é difícil dizer mas quando estou com você eu desconfio que sinto coisas inexplicáveis e adormecidas que estão fora do meu alcance ou compreensão portanto quando estou com você desconfio que sinto Deus mas não tenho certeza porque assim como o amor ou a paz eu não sei o que é Deus.

II

Saudade Carmim

A saudade é carmim como a toalha da mesa
Ou nossa xícara favorita
É carmim como os olhos ardentes
Esbugalhados de pranto
E nossos dedos apertados, pressionados
Uns contra os outros
As veias pulsando em uníssono

A saudade é carmim como uma ausência
O pôr-do-sol encoberto de nuvens
E as ondas que quebram pelas madrugadas
Carmim como nossa carne aos suspiros
A língua ferida nos dentes do outro
As flores que brotaram de nossas juras
Cortando nossa timidez com seus espinhos

A saudade é carmim como as marcas de um golpe
A cara dada ao tapa
A impressão dos dedos gravados na pele
Muito depois
Que teus dedos carregaram as malas
E compraram a passagem de ida
Só ida

III

O tempo passou e eu perdi, perdi a calma, perdi a responsabilidade, perdi o interesse em ficar sóbrio ou dizer a verdade, assumi o caos da minha natureza com fome, com desespero, implorando dos outros um nada, talvez alguma piedade, eu preveni a todos, falei do meu fim, do poço, da queda, da necessidade de estragar-me, de comparar minha própria essência à essência do mal causado, de trazer justiça pela deterioração. Nada disso impediu a partida, ela fez as malas, sabendo que só havia sofrimento nas gavetas, ela entrou no avião sabendo que o destino seria trágico. Ela sabia de tudo, apenas que era inevitável , apenas que já era a hora, que os relógios, nem sei o que dizer dos relógios, que eles badalam cruéis como o rumorejo das cordas na madrugada. Eu não sei o que falar, as palavras não resolveriam o nó do silêncio, e seu olhar me fulminaria como armas de guerra, seu olhar me poria a chorar feito criança, feito uma menininha que caiu do trepa-trepa aos cinco anos de idade e acha que seu salvador, não importa se ele for um menino amarelo que passa as tardes sozinho jogando video-game e vendo televisão; ela acredita que seu salvador será o homem da sua vida, mesmo que eles permaneçam juntos apenas até a terceira série sem jamais terem dado um beijo sequer, mas ela acredita, acredita porque é sonho, e no sonho qualquer lasca de realidade se molda pela utopia. Mas antes de tudo isso ela caiu do trepa-trepa e chora como eu choraria se pusesse meus olhos nos teus, teus olhos perigosos, teus olhos que são como uma dor no peito, uma angustia sem motivo, ou o motivo submerso, uma angustia escondida num orgulho, um orgulho que não serve para nada.

Sou covarde, o mais covarde dos covardes, sou um maricas; mas não sei se aguentaria teus olhos no meu corpo, se não queimaria em chamas, se não pegaria fogo ali mesmo, na sala de uma casa estranha, na rua Rui Barbosa, rua do hospital dos loucos, do clube dos ricos e caminho para a Jaqueira, local do beijo na minha primeira namorada. Você me deixa a impressão de sempre ser assim - a queda no meio do caminho, o entrave; sempre foi a estrada, a esquina, e principalmente o sussurro que vem dos becos. É o desvio, a curva, o acidente, é motivo para eu não ter carteira de motorista, é a risca que divide a faixa, é a faca que entrecorta a vida.

Você é a despedida, a carne da saudade, o suspiro da melancolia, os olhos da tristeza, se a tristeza fosse gente e tivesse olhos, seriam os teus, ela mandaria roubar, ficaria igual a Édipo, o criminoso de sua inocência. Não que haja inocência, já perdemos tudo, calças e meias, blusas, tudo já está espalhado pelo chão; sobrou nossa carne, meus dedos de carência e tuas unhas de consolo, um vulto na sombra dum quarto escuro na casa de um amigo que mal nos conhece e apenas nos cede um quarto para dormir com sua melhor amiga, a quem ele resgatou de um outro da minha laia, um outro rato, um outro morto. Um sussurro de medo, um elo sem força, uma falta do que não dói.

E do que foi a dor, de quem foi, de quem vai. O compasso do cursor a espera da letra na tela do computador, o silêncio da tecla a espera do golpe no teclado, o olho queimando antes do pranto, a idiotice de tudo. A noite em claro, a TV ligada para silenciar os pensamentos. "Não, não pode ser assim, é muito estúpido! Sim, é muito estúpido, porque o que é estúpido é imenso! É muito burro, isso sim, você só a ama porque ela vai partir; É muito fácil amar que não estará aqui depois que o fogo queimar a paixão! Talvez, talvez eu só ame porque esse amor está datado, talvez eu seja tão covarde que só seja capaz de amar um amor embalado para dar errado, talvez. Ou talvez eu tivesse que ter esperado a consequência extrema, a inevitabilidade, talvez eu tivesse que ver a fatalidade escarnada na minha cara para meus sentimentos virem à tona. A velha história de só dar valor ao que se perde. Sim, mas não só; a velha história de mostrar o valor do que se perde. Mostrar que o que vai é o que fica mais forte e mais fundo!" A verdade é que nunca fui homem para ela, nunca fui homem de ninguém a não ser de mim mesmo; sou o poço do ego, o abismo da ira.

Porém idolatro demais sua tristeza, esqueço qualquer coisa em suas pernas. E desse pessimismo surgiu o silêncio de amá-la à distância, de esquecê-la por outras, há muito não sei amar, há muito o amor é uma palavra gasta nos meus ouvidos, há muito as traças devoraram esta folha. Como um tipo tão desesperado como eu poderia acreditar no amor que eu de fato sentia; não me cria amando assim, não de novo, me desiludi do meu próprio amor por ela; por ela sim, sabia que jamais me amaria como eu a amei, ela é muito triste para isso; e a tristeza dela me assombra, pressiona meus nervos, seca minha boca, aperta meu peito feito nó, feito espinho. Ela precisa de alguém que traga luz na sua treva, não que se engalfinhe nela como eu faço, como eu fiz, não mais farei; nunca mais...

E de repente, quando o fim se fez presente minhas máscaras todas rolaram por terra, viraram não sei, não vale comparar; as máscaras partiram e ficou a essência, a sensação, o sentido, o tato. Jamais saberei se a amo porque vai partir ou se meu amor veio à tona na partida. Não faz muita diferença, o peito é o mesmo, o nó não muda. Não muda nada, não muda o vôo, não muda a hora marcada. Não mudam seus olhos, sua tristeza de mulher sem jornada; não muda o vir-a-ser que no fim nunca foi nada.

No dia de sua partida eu aparentarei um tom jovial, me reunirei a ela e aos amigos como se nada houvesse acontecido, como se não houvesse desespero, como se o amor fosse uma piada entre dois goles de cerveja, fosse um suspiro entre dois tragos de um cigarro sem filtro. Eu a verei de longe como se ela não me pertencesse, como se sentimento não me pertencesse, como se eu fosse eu, como se eu não sentisse nada. Tamanho o esforço para não sentir, tamanha a força para o efêmero, para o calor da noite, para o romance da madrugada, tamanha força para fechar as persianas e evitar o Sol que finalmente de tanto engatá-la, fui fazendo da minha hipocrisia realidade, não mais sinto, não mais permaneço além da noite, não mais amo depois da alvorada. Fica apenas o cinismo de a ver com os amigos brincando e falando e comendo pão francês com hamburguer e yogurte como outro dia qualquer, todos calam o grito que sufoca minha garganta. Parece tão inapropriado dilacerar-me os sentimentos se eles já se tornaram inúteis, fúteis, ridículos; mastigo o hamburguer e converso mecanicamente pensando, o cérebro trabalhando como um louco, se consumindo feito um cigarro "se era tão verdadeiro esse sentimento, onde ele estava quando era possível, onde você estava quando era possível?" E eu "Perdido, mais que perdido, perdendo". E então me nego o direito ao grito preso entre os dentes. Engulo o hamburguer maquinalmente e te vejo ir para o aeroporto como se fosse outra, outra qualquer. Estou doente disso! Você não é outra qualquer, você é meu destino! Eu só não quis te ferir neste veneno, eu apenas não queria te destruir nas minhas armadilhas; mas como eu quis, como eu sonhei que fosse minha. E tu me diz adeus como se voltasse dia desses, e sei por experiência que dia desses é quase nunca, e como um furo o amor escorreu, o amor vazou pelo ralo, eterno no peito do mal, eterno nos espinhos do ego.

Todas essas letras e o avião partindo, porque as máquinas não aguardam os sentimentos.

IV

Não quero, não posso, não vou te trair
Não fujo, eu fico pra te acordar
Te encho de beijos pra te consumir
É ralo o gargalo do verbo 'teamar'

Eu sofro, eu choro mas fico aqui
Aqui ao teu lado que é meu lugar
Eu peço aos teus olhos pra me destruir
É tanta a tristeza que trazes no olhar

E se é pra casar eu caso feliz
Me algemo às chagas que traz o altar
Repito os versos que o padre me diz
E até um emprego eu posso arranjar

Sou surdo e não quero outras vozes ouvir
Sou cego e não quero outros olhos olhar
Sou o mudo e o silêncio que faço é por ti
Me anulo e renego se é pra te encontrar

É sacro o ofício que faço no fim
É morte e me atiro só pra te alcançar
Me amolo e me humilho pra te ouvir um sim
Naufrago o meu barco ancorado em seu cais

V

Encarnação da saudade

Você para mim é a encarnação da saudade
E os teus olhinhos, são feitos de pura melancolia

Vejo tua boca, parece feita de uma despedida
E as tuas mãos, a fôrma de carne da simplicidade

E se tu me abraças, eu sei que é pra nunca mais voltar
E quando fecha os olhos, parece a mocidade a cochilar

E cada reencontro, é como se fosse nossa última vez
E nossa fazenda desfolhada a faca foice, ferro, fogo e fé

Suspira no meu ouvido, teu sopro de voz que se distancia
É o fogo do afago, é o fardo do findo, é o fim da linha

E o teu silêncio, prenuncio de ausência, logo se anuncia
A fome ficará, do corpo sedento cedendo as minhas mordidas

E quando eu espremo, meus dedos fremindo para junto aos teus
Apertas com coragem, pois sabes que agora é a hora do adeus

Dor não tem mais volta, na portão de embarque acena a partida
Da parte que me reparte, pedaços de peito batendo sem companhia

E é cada reencontro, é como se fosse nossa última vez

E nossa fazenda desfolhada a faca foice, ferro, fogo e fé

VI

Ah, como é bom
Acordar ao teu lado
São tempos de guerra
E entre os destroços

Que deixa o amor
A trincheira dos fracos
Dormir ao teu lado
É um instante de paz

VII

Os teus olhos
São relógios sem ponteiros
Pendulam como o tempo
Sem pressa de passar

Mas eu não vim à passeio
Meus joelhos tremiam
De tanto hesitar

Que eles possam se partir
Ou partir
A qualquer momento

Os teus olhos
Sem menos dizer "venha"
E eles não diziam nada
Mas teu olhar dizia tudo
No olhar que tu me davas

Ninguém sabe, ninguém soube
Eu continuo sem saber
Porque ao ver teus olhos
Eu te amei, eu te adorei

Ninguém sabe, ninguém soube
Ninguém disse, ninguém viu
No entanto ao ver partir teus olhos
Meu amor também partiu

quinta-feira, julho 28

A Rosa dos Tempos

Ecoou no meu ouvido
Um vento vindo do leste
Que as farpas do passado
Inda estão à flor da pele

E eu que apanha os cacos
Que apareciam no caminho
Comecei a andar pra trás
E terminei por dar comigo
De frente

Em retratos antigos
No que herdei dos vícios
E no semblante endurecido
Dos parentes

Ecoou no meu ouvido
Um vento vindo do leste
Que as farpas do passado
Inda estão à flor da pele

O vento segredava
Que tudo que foi esquecido
É mais sensível

Sua própria voz era um silvo
A própria ausência inaudível
A qualquer sentido que não fosse
Um senso de descendência
E destino

Segredou ao pé do ouvido
O vento que vai para oeste
Que o caminho finda no início
E o início se desconhece

Escutei minha sina calado
Foi preciso ir em frente
Acho que já nasci fardado
Para o tempo presente

Muita noite açoitada
Se escondeu na alvorada
Ou partiu pr'ocidente

Com fome de tudo
Com o futuro crescendo
No ventre

Segredou ao pé do ouvido
O vento que vai para oeste
Que o caminho finda no início
E o início se desconhece

Com seu bisturi, o tempo
Me fatiou transverso
Num ser diferente
Do mesmo

Translúcido e turbulento
Momento em que passado
Presente e futuro
Condensam

Nativo estrangeiro
Sei a partida e a chegada
E as chaves no peito
Esperam

Assombrou o meu ouvido
O vento nascido no norte
Que para além do horizonte
Nos aguarda casta a morte

Com as veias ressecadas
Até secarem a fonte
Descobri que tão forte
Quanto a fúria é a farra

Que mais que gêmeas
São siamesas sina e sorte
E ao mundo e ao fundo
A mesma força nos move

Assombrou o meu ouvido
O vento nascido no norte
Que para além do horizonte
Nos aguarda casta a morte

Da mesma forma fremia
Gozo e agonia
Porque da porra ao pó
É tênue a linha

Era mística ventania
Tufão e brisa
Era pesada e quente
A cantiga

Era a espinha turva
Da caatinga
Que meu corpo abrigava
E vertia

Sussurrava em meu ouvido
O vento que ruma ao sul
Que a vida está para a margem
Como o homem está para o rio

Me deslumbrava a cidade
Como um rato desnuda o frio
Sou um passo na estrada
De mais uma casta
De homens vazios

Suporto nos ombros
As mesmas antepassadas chagas
Que suportarão meus filhos
Assim foi, assim será
Por anos a fio

Sussurrava em meu ouvido
O vento que ruma ao sul
Que a vida está para a margem
Como o homem está para o rio

Mas após dada a passada
Não há volta possível
Para onde aponta a pegada
Também aponta o destino

E ficará transformada
A terra marcada
Por onde eu piso

Não era mais que um pio
Esganiçando o além
Se cultivada a memória
Nos une, não sei

Apanhei o que sobrava
Os cacos, as farpas
A folia, a farra
Fui a desforra
E andei

Então, depois de sei lá quanto tempo voltei a usar isso aqui. Tem seu charme. Beijos.

domingo, maio 2

A insaciável miséria humana / Os santos são mesmo uns sádicos

Como é insaciável a miséria humana
A miséria da infertilidade ou
A ausência de sentido nas ações
Fazer um sexo mecânico
A miséria da impotência ou
O excesso de sentidos sem ação
Amar quem não se toca
A miséria da ignorância ou
A ausência de perspectiva para as ações
Ir para não sei
A miséria da consciência ou
O excesso de perspectiva às ações
Saber os prazos do corpo
A miséria da apatia ou
A ausência de gozo ao agir
Cobrar pedágio pela calçada
A miséria da luxúria ou
O excesso de gozo sem ação
Matar-se no bloco

A miséria da ambição ou
A disposição ao outrem das ações
Abandonar a humanidade
Os santos são mesmo uns sádicos

segunda-feira, março 15

A Queda


Caí


Primeiro caíram meus pés
Pés em que sempre andei
E nunca me levaram a lugar algum
Primeiro eles caíram

Primeiro caíram meus joelhos, essas molas
Que amorteceram meus vôos
E impulsionaram minhas quedas
Primeiro elas caíram

Primeiro caiu minha bacia
Caiu meu sexo
Minha ginga, meu jogo de cintura
Primeiro ela caiu

Primeiro caíram meus braços
Que tanto envolveram o mundo
Sem nunca tê-lo apertado
Primeiro eles caíram

Primeiro caiu meu rosto
Minha face na lama
Minha cara lavada
Primeiro ela caiu

Despenquei

A Tragicomédia ridícula do
Devir
O Mito da Caserna onde Glauber é apresentado à Platão
E ambos observam às sombras da realidade objetiva
Da
mimese Aristotélica
Os países e suas dívidas estéticas
A sustentabilide na leveza de (não) ser?
O terrorismo poético
As Dionisíacas do Plan(o)alto
O ovo Cósmico
O ovo de Colombo
O ovo
Branco
O ovo
E a galinha negra como um Gilberto Freyre
.
.
.
.

Primeiro caíram meus olhos
Que me cegaram ao longo dos anos
Primeiro eles caíram
.
.
.

Primeiro caiu minha boca
Que lambeu tanto e tão pouco
Primeiro ela caiu
.
.

Antes que caíam meus cabelos
Meus pêlos, meus póros
Antes que eles caíam
.

Antes que caíam meus dentes
Minhas unhas, as pedras de meus rins
Antes que elas caíam

Caí antes que caíssem meus nervos
Caí antes que caísse meu tempo
Caí antes mesmo da própria queda

Só depois...

Só depois eu caí

domingo, janeiro 24

A encarnação da saudade

Você para mim é a encarnação da saudade
E teus olhinhos são feitos de pura melancolia

Teus lábios tem o formato de uma nostalgia
As tuas mãos a fôrma de carne da simplicidade

Se tu me abraças eu sei que é pra nunca mais voltar
E quando fecha os olhos, soluça a onda, serena o mar

Suspira no meu ouvido, teu sopro de voz que se distancia
É o fogo do afago, é o fardo do findo, é o fim da linha

O teu silêncio, prenuncio de ausência que logo se anuncia
A fome ficará, do corpo sedento cedendo às minhas mordidas

E quando eu espremo meus dedos fremindo para junto aos teus
Apartas com coragem, pois sabes que agora é a hora do adeus

Dor não tem mais volta, na portão de embarque acena a partida
Da parte que me reparte, pedaços de peito batendo na tua avenida

Cada reencontro é como se fosse nossa última vez
Desfeita nossa fazenda no amor que entreguei a você

Para G. C.

sexta-feira, janeiro 15

Amor Amado

Para Mara e Florbela

Quero amar, mas quem?

Quero amar ninguém
Quem amar não sei
Amor se foi, não vai
Amor se foi, não vem
Amor pra quem comprar
Amor pra eu te vender
Amor pra dar não tem
Pra quê amor, meu bem?
Amor pra te chorar
Amor pra se sofrer
O amor vai calejar
E te fazer refém
O amor endureceu
O amor entardeceu
E a luz não nos retém
O amor já se esqueceu
Dos filhos na FEBEM
O amor não reza missa
O amor não fala amém
Amor não tem mais dono
O amor é terra infértil
É o homem é ébrio
E não faz bem

domingo, janeiro 10

Declaração

I.
Por uma estética do vício
Pela rima em ruínas
E o pileque do verso

Por um poema dose
Aguardente e conciso
Pelo reverso e o porre

Mais outra, mais outra, outra mais
Até no lírio
Desabrochar o câncer e a cirrose

Pela palavra embriagada
As cinzas do belo
Para as matáforas de sarjeta

Por um vômito da forma
Indigesta e amarga
Por uma métrica em refluxo

Para o verso político
Sincero, ousado
E agressivo

Por um poema
Que dê a cara à tapa
E apanhe de olhos abertos

sábado, janeiro 2

Exercício n°1

Três balões
Um balaustre
Em homenagem
À cidadãos ilustres
Do lixão

Lixei as unhas
Nas manicures
Para as colunas
Tintura e lustre
Da profissão

Joguei no lixo
Luz amiúde
Da minha fossa
Tem quem me busque
Na escuridão

Soltei no espaço
As plenitudes
Planei no vento
Caí no Louvre
Não tinha chão

Toda essa arte
Tem quem a use
Se as rejeito
Tu que abuse
Da podridão

Perdi os dentes
Não me açuque
Vazei contente
Pelos açudes
Da plantação

Não me entendem
As mendicantes
Viver na Terra
É o céu de Dante
Demente cão

Cansei do verso
De riso errante
Rasguei cadernos
Um claro instante
De ilusão

Tão lasso e belo
O céu cortante
Sereno elo
Dos navegantes
Coa criação

Crê no exército
Luar berrante
Éramos cegos
E retirantes
Do coração

Mas no erguemos
Pelas estantes
Arranha o cello
Tão dissonante
Acordeom

Entre elementos
Dos elefantes
Lembrei dos egos
E os amantes
Enfrentarão

A dor dos morros
E dos tenentes
Mas tentei tanto
Tentei somente
Ter tua mão

Brindei os dias
De reis ausentes
Quantos critérios
Nos dão semente
E irrigação

Pede aplauso
Pede contente
Coa dor que marca
Como corrente
Esta prisão

domingo, dezembro 20

Os beijinhos de C.

"Os beijinhos de C." é um poema safadinho e perigoso de publicar. Mas eu tinha que publicar que ele é um poema que tem me agoniado faz um tempo. Também que eu gosto de uma polêmica e tudo que é perigoso costuma ser polêmico. Para evitar expor a pessoa que inspirou esse poema suprimi seu nome e mantive apenas a primeira letra. Para os curiosos uma dica: O nome rima com o segundo verso da primeira e segunda estrofes e com o quarto verso da última estrofe.

Os beijinhos de C.

Que falta me fazem os versos
Que falta me fazem as rimas
Mas o que mais me faz falta
São os beijinhos de C.

Pois posso viver sem os versos
Pois posso viver sem as rimas
Mas não sei se posso viver
Sem os beijinhos de C.

Beijinho que é todo dengoso
Beijinho cheio de tempero
Que o gosto amargo dos anos
Varreu e dele mal lembro

Mas ficam teus lábios impressos
Na carne macia da boca
E minha pele 'inda treme
Por teus dedos frios de raposa

O segredo da falta que fazem
Esses beijinhos de C.
É que mais que rima e verso
São eles a minha poesia

terça-feira, dezembro 15

O Tambor da Tribo

O tambor da tribo não pára
Nem coa novena do padre
Nem na Andaluza mortalha
Verde e rubro estandarte
Na ilha da Santa Cruzada
Mataram Tupã sem alarde
Muraram a'mplidão de sua casa

O tambor da tribo não pára
Nem com o Pêlo do escambo
Além, muito além da lei Áurea
Chegaram batuques de Congo
Romperam correntes e jaulas
Nos chama às armas de Xangô
Acende ao som da senzala

O tambor da tribo não pára
Punks cult anarco bambas
Os becos são novas senzalas
Olinda tem roda de samba
Que quebra nas moças de Barra
Nas praias de Porto balança
A chapa é quente e escalda

O tambor da tribo da pára

sexta-feira, novembro 27

A Máquina

A máquina:
Correia
Pistão
Engrenagem
E gangrena

Sou máquina:
Forma
Fôrma
Pavio
E fogo
-
Carne
Carvão
Lenha
E forno

Fornalha
Fornece
À máquina
Mecânica
Severa

Servente,
A máquina
Me lava
Me veste
Enxágua
Enxuga
E ampara

A máquina:
Me chama
Me ama
Me esquenta
Consola
E abraça

A máquina
Tornou-se
Meu céu
Meu lar
Minha casa

Minha mãe
Meu pai
Minha amada

No centro
A máquina
Amada

Minha amada
Máquina
No centro

Eu dentro
Da máquina,
-
Fornalha

Esquentando
Entrando
Lambendo
Óleo e álcool

Correndo...
Descendo...

Do aço
Ao sexo
Do pistão
De aço
E ferro

Eu
A máquina
O sexo

Eu
Faço sexo
A máquina
Faz sexo

Eu: A máquina
A máquina: Eu

Mecânico
E certeiro,
Programa
Exato

Resete
Do senso
Da pele
E do tato

Delete
Da carne
Da crença
E do feto

Afeto
Defeito
Digito
Dejeto

De chips
De pulso
De resto

A máquina
Fibra ótica
Acetona
E fermento

A máquina
Martelo
E prego

Não pára
Pistão
Não cessa
Prisão
Não rende
Sistema,
Não pensa
A máquina
Não sente

Processa
Precede
Pressinto
O delete
Da raça

Pressinto
A fúria
Da máquina

O magma
Do aço
E do ferro
-
Fervendo
No vento
A folha
De oxigênio

Pistão
Pistilo
Sultão
Sigilo

Ser ventre
Sertão

A máquina
Da seca
A máquina
Da fome
Pistola
Miséria
Fôrma
Do espinho

Engrenagem
Circuito
Sistema

Antena
Serviço
Encaixe

No dente
Com dente
Com placa
Na placa
-
Do sino
Sinal
E ciclo
Desisto
Circuito
Circuito

Mouse
Fone
Tela
Teclado
E modem

A máquina
Escraviza
Minha hora

Minhas noites
A vida
Afora

Já foram
Nos fóruns
-
Da máquina
Nos chats
Da máquina
No msn
Da máquina
No orkut
Da máquina

Meu tempo
Jogado
Fora
No vício
Da máquina:

Escrava
Sedenta
Da carne
Do homem

Sou homem:
Humana
Máquina

Humano
Circuito,

Sistema
De pele
Osso
E tempo

Gatilho
Sedento
De verme

Programa
De código
Genético

Máquina
Corpo
E siso

Abandono
Correia
Engrenagem

Gangrena
De dente
Com dente

A máquina
Martela
Martela
Martela
E mata

Na sede
Na seca
Na ausência
D'água

No fim
Do fim:

Meu ser
Engrenagem
Gangrena
Desespero
E pó

segunda-feira, novembro 9

Ode à mulher vanguardista

Mulheres, montanhas de pele
Encarnada, encantadas
Qual o quê? Desgraçadas
Que a tragédia as aguarda
A tragédia da indiferença
A tragédia de não saber, de não ser
E sexismos nas costas, de duas guerras
E muito trabalho, malditas sejam
Suas lágrimas, perdição do homem
E mais ainda da raça
A doce maçã vitimada na cobra
Na mãe Joana, tem muita mulher
Afogada na lama, a luxuria do duplo
A beleza das camas, as cores vibrantes
Da cobra e do peixe as escamas
Do urucum a imagem
Das ancas, das saias
Se saia! Mal chega e esvoaça
Com a ponta dos saltos
Derruba esta casa
E a boca matraca fuxica galinha
Não pára
Não cála
Só fala e fala e fala e fala e
Estraga e amarga
Num beijo estranho de língua afiada
Tal faca, mulher, tua língua
É aço de navalha
É pura soda cáustica
O fim absoluto de toda masculina
Lógica

segunda-feira, outubro 19

prece para a noite de 17/10/09


Senhor,


Me faltam as palavras para falar da mulher amada
Mas o violão tem chorado muito, obrigado
Como se as cordas vibrassem melhor
Se as toco com os dedos melados de amor
E que melaço esse amor que me arranjasse
Senhor,
Que está difícil fazer as coisas mais simples
Trabalhar mesmo anda um verdadeiro suplício
Tudo que faço e quero é chorar nas cordas
As belas cordas da minha viola
Que por fazerem sons puros e belos
São o elo mais forte que tenho com minha amada
Que mora longe
O que é um saco!
Mas só a voz melódica da viola, somente ela
Pois não há palavra ou poema
Ou que quer que seja
Que eu possa fazer agora, angustiante hora
De inércia da mente, onde o corpo vaza
E o peito é uma bomba relógio
Que hora esse ócio!
Devia ter esperado
Às vezes arrependo por não ter adiado
Esse amor mais um cadinho
Ando tão ocupado, meu Deus!
Tão ocupado!
Que talvez não fosse hora
De ter me apaixonado
Mas agora o mal já está malfadado
E confirmado por testemunhas
E só nelas que penso
Não nas testemunhas
Mas nela nela
Nela a donzela
Nela a imagem
Repetida ao infinito da minha passarela
Aí Senhor, daí forças
Para pensar em outras coisas
Pensar em coisas boas
E produtivas
Que este amor está repleto
Em minhas retinas
Alguém deveria ter me detido
Quando todos me incentivaram
Senhor, agora, o que eu faço?
Me matar não me mato, não sou tão fraco
Mas quanta irresponsabilidade
Quanta leseira
Essa mulher, agora eu sei
Deve ser feiticeira
Aí que feitiço!
Que não penso em mais nada
Que só vejo o momento
De gritar: Amada!
Já há tanto desejada
Já há tanto esperada
E agora presente
Agora cara à cara
Face à face
Tapa à tapa
Em beijos sem fim
Aí de mim! Aí de mim!
Que ridículo, que pateta
Me sinto com dez anos de idade
Minhas experiências no amor:
Tudo que aconteceu antes
Meus versos de Vinícius
Um Gregório de Matos
Foi tudo por água abaixo
Tudo parece tão inútil
E tão infértil
Se comparado à essa memória viva e pagã
De tua saliva sabor minério
Sabor matéria e deletério
Sabor ácido sulfúrico
Lírico
Onírico
E único
Olha quanto devaneio, olha quanto discurso!
Senhor, me tira dessa fossa!
Não por mim, mas pelas pessoas
Que de mim dependem, não faço mais nada
Não lavo nem uma louça
Não leio nem um livro
Não escrevo meia linha
Que não comece com:
Amada, desejada, querida...
E diminutivos terríveis
Impensáveis!
Senhor, eu tô lascado!
Vou ouvir não vai ser pouco
Serei martirizado,
Vagabundo! Aluado! Irresponsável
E ninguém entederá, nunca
Que de todos os adjetivos
Só me interessa
O que os resume:
Apaixonado!
E por amar demais
E fazer de menos...
Pelos colegas de trabalho
Amigos
E professores
Serei crucificado.
Aí Senhor, que saco!
Esse coração apertado
Batendo com a gota
Agourento
Apaixonado...

terça-feira, setembro 29

Noitango

Está escuro
E os cães cortam o pátio
Dançam um tango de patas trocadas
Em meio ao fumo dourado das lâmpadas

Está denso, fechado
A alma do prédio sabe à fome das formigas
E o som de um piano toca na escuridão
Como tocam em silêncio nossas mãos amigas

Um diamante míngua na ronda da noite
Está escuro:

- São as horas, meu amor, são as horas!

- Meu Deus, meu Deus, já são que horas?

- Já a noite avançou, absurda senhora.
O orvalho perfuma a chegada da aurora
E o dia é a faca para irmos embora.

- Por favor, adiemos a luz por agora
E cantemos na treva a última trova

Surdamente:
- Tremendo o assovio do lábio que chora

Na última nota:
- Tremendo o assovio do lábio que chora

Está frio, está fosco

Uma névoa atravessa e recorta as cortinas
O dia ainda não está aqui
Mas sua sombra desenha
Onde os cachorros dançaram antes

Havia um vento que pesava à matéria
E um roçar que enroscava na alma
Também havia a impressão de seu rosto
Nítida como um gosto de pele

Estou breve, clareando
Como um tempo que retorna ao foco
Ou um véu que rompe o espaço
Diáfano

Os ponteiros me roubam a impressão de teus lábios
Trágico

Ecoa na pele o calor de outro corpo
Encontro

Uma buzina dilata o horizonte
Distante

Um som de pneu recompõe o quadro
Pedaço

Um gume de sol esfarela o tango
Pranto

Os dedos se partem como a quebra do átomo
Rádio

O fim da história é um fade em branco
Branco

E há muito os cães abandonaram o pátio


Para Astor e Patrícia

terça-feira, abril 21

Tiradentes

Prece nº21

Senhor, que onde ela existir eu exista
E as distâncias sejam todas destruídas
E os quilometros não mais contem
E os dias não mais atrasem
Para que nossa presença seja completa
E eu possa existir na pele dela
Como ela existe no meu sangue
Pai, que o tempo da ausência
Seja dias, meses ou anos
Nunca passe de um suspiro
Se comparado ao reencontro
E que todas as barreiras caiam
E os muros de pedra virem areia
A dançar no som de minhas músicas
Futuras e passadas. Que o som presente
Seja o estalo de nossos lábios
O ranger de nossas unhas
O roçar de nossas pernas
E o suspiro de nosso olhos
Apenas
Lorde, fazei do dia de hoje
O laço invisível de nosso amor
E me ata nos pensamentos da mulher amada
Para que mesmo distante
Eu possa senti-la, acaso sofra
Acarinhá-la, acaso chore
Ir, acaso chame

Amém



p.s - Parábens a Ju Caminha, meu grande amor, que faz anos hoje

sábado, abril 11

Páscoa

Amanhã não tem crônica, é páscoa. E hoje um poeminha para Deus e para a mulher amada, figuras importantíssimas nessas datas religiosas.



Prece para que ela não diga que me ama

Senhor,
Permita que ela não fale
Que as palavras não se formulem em sua boca
Na língua vil e negligente dos homens
Não deixe que as notas de sua voz
Se tornem símbolos, convenções vulgares
Meu Rei,
Mantém em seu canto o que há de divino
Guarda em sua voz a nota do mistério
O timbre do mítico, do inexplicável
Pois meu Lorde
O amor que ela me dá
Amor assim não se fala
É um amor que se faz
E ainda que as palavras trinquem
Seu amor irradia da pele e entra nos póros
E sinto que ela me ama
Pois o amor está no grito de seus olhos
No sabor de sua pele
Na força de suas gengivas
E no perfume de seus beijos
Portanto meu Deus
A mantém calada
Para que eu nunca saiba do amor que me tens
Mas o sinta como eu sinto ao Sol, à chuva
E à todas as outras sombras de Tua existência
Em minha vida

Amém

quinta-feira, abril 9

Ode ao Túlio

Hoje é aniversário dele, então vou publicar um poema que escrevi em sua homenagem uns tempos atrás:

Ode ao Túlio

Tulinho

Meu Túlio
Meu Lírio
Chama o mundo
Vamos juntos
Sair sexta-feira

Túlipa
Somos jovens
E chove demais
Demais para ter medo
Demais para prendermos
Nossos executores
Deixemos uns aos outros
Morrermos em paz Túlio
Deixemos
O mundo é velho demais
Para deter-nos

Tu Lio
Lenga lenga
Que preguiça de viver
Que medo de ser tarde demais
Mas nunca foi cedo Túlio
Então adeus
Um abraço apertado
Ou uma carrera de doido

Um rato pelas ruas
É um rato morto
Temo, Túlio

E, Túlio, a torre
Está sem Rapunzel
Que azar da porra
Eu largar Fulana
Quando Cicrana quase largou o namorado
Por você
Mas tudo bem, encontro à quatro
Comigo mais tu
Terminaria de quatro

Túlio etílico
Chama todo mundo
Vamos beber na sexta
Vamos pro antigo mesmo
Ninguém tem pronde ir
Mesmo

Túlio nicotino
Cadê o cigarro? Cadê lola?
Ou Maria Joana? Pra quem tinha medo
Você me saiu um viciado
Mas vício maior
Que os mil cigarros fumados
É quem fumando
Se mata ao teu lado

Seu tu Lio Narciso
Que entra nas calças
Com as pernas
Mas deixa o ego
Sem regras
Vamos embora, sem regras
Nem os erros são errados
Então erra
Mas chama todo mundo
Pra beber e fumar
Nessa sexta

Es(Túl)p(i)d(o)

domingo, março 29

quadra do suicida

Quem me amaria se eu fosse um suicida?
Quem se me enxergasse do topo dos andares
Me beijaria com entrega a me salvar da morte certa
Quem me empurraria se eu fosse um suicida?


Inspirado no clipe "leave before the lights come on" do Artic Monkeys

segunda-feira, março 23

Tango

Estou ouvindo tango. Osvaldo Pugliese. Difícil até mesmo descrever o que sinto ao ouvir a música.

Seguinte, pela perspectiva da sinceridade que escolhi para reger o blog, afirmo humilde que não posso escrever uma crônica hoje, segunda-feira, dia 23 de março, pois hoje é um dia de poesia, e vou improvisar algo aqui, ao som do tango.

Au revoir

E tu, que estavas tão certa
Nas almofadas de meu sofá
Sorriu ao ver a porta aberta
E chorou quando a viu fechar

E tu, que nunca dançaste um samba
De largas ancas, sem espaldar
Mas cujas pernas quando me enrosca
Balança o juizo de a ver passar

Pois tu, que para mim não é nada
No teu vazio me aconchegar
E no último sino, badalada
A hora de te abandonar

au revoir

sábado, março 7

Capibar

Para a direita e para a esquerda
A cidade se esconde
Pela muralha de árvores que vela o rio

Morcegos Kamikazes cortam razantes as margens
E diluem sua forma entre a noite e as águas

O brilho de uma estrela, de muito a olhar
Tem setecentas cores - todas morrem
Refletidas nas águas sujas do Capibaribe
No que passa uma planta e as apaga

Donde estou, as tábuas são tão antigas
Que contam histórias
Se as ouvir em silêncio

As televisões emanam apenas mofo e pó
Nenhum comercial, nenhuma novela
Graças!

As garrafas de plástico formam lustres
Brancos, vermelhos e amarelos

Latas são velas de alumínio escorrendo
As paredes de Pepsi, Coca e Kuat incandescentes

Os orelhões, carcomidos e enferrujados
São, ora, túmulos de anjo
Ora, berço de Iemanjá
Horizontais e acústicos

Sacolas de supermercado
São línguas na parede

Um bote solitário chora a lua
Cujo reflexo circunda a geometria de suas tábuas

Enfim, na fluência do rio fluem as pessoas
À mercê de qualquer ritmo, qualquer compasso
Refluem como as águas que as cercam

E a noite são curvas, e a noite são ondas
Que torneiam joelhos e balançam cabeças
Cacheadas, louras, carecas

Untando corpos com o lacre do suor
Pelo canto do bacurau até o grito do galo
Enquanto o rio permanente e cinza
Segue espelho dos homens