Túlio me liga "Preciso de você para uma música". E eu, triste "Ruim pra chuchu Túlio, ensiaos e tal..." Mas a curiosidade falou mais alto, perguntei
- É do que hein?
- Conheci uma mulher que não sorri.
Parei tudo, até mesmo o GTA, que estava jogando (quase consigo as seis estrelas). "Como é?" Desliguei o jogo e corri ao bloco de notas, o quadro que me pintaram foi esse que humilde, e com as flores da minha imaginação, apresento.
Na faculdade Maurício de Nassau há uma mulher que não sorri. Seu nome ainda me é um mistério, o que reforça a poder de mito de Fulana. Seu rosto é bonito e geométrico como
As Senhoritas de Avingnon, de Picasso, olhos agudos, queixo anguloso, bochechas lisas e testa retangular. Entretanto a boca é uma linha árida e imóvel.
"Mas ela nunca sorri?" E Túlio como quem diz amém para o padre na missa "Nunca, é como se ela tivesse transtorno bipolar de um lado só. Seu rosto é tinta seca na tela".
Me surpreendi com aquela estátua, aquele monumento vivo à beleza estática, proporcional e completamente desprovida de vida. "Ela ao menos fala?" Eu queria qualquer coisa, queria ao menos imaginar o timbre de sua voz.
"Ih..." Foi a resposta profunda de Túlio. Eu não entendi, tão profundo que foi "O quê?". Ao que parece, uma amiga em comum classifica Fulana e suas amigas como o "grupo da cobra lagartixa". Não me explicaram o que exatamente a expressão quer dizer, mas alguns dados podem levar o leitor às próprias conclusões:
1) ambos são répteis, sem qualquer calor próprio.
2) ambos rastejam
3) lagartixas são esguias, e sobem pelas paredes quado ameaçadas
4) ambas vivem abrindo a boca para não dizer nada
5) (meu favorito) cobras - não todas, eu sei - são venenosas. Mas as que não são venenosas esmagam a presa até morte. Tanto melhor.
Eu me pergunto, eu quase a posso ver em meus olhos de dentro: nem alta, nem baixa, nem gorda, nem magra, nem branca, nem preta; Enfim, nem bela, nem feia - o corpo definido na acadêmia. Os cabelos, nem assim nem assados - escondidos pelos cremes e o salão. Da personalidade, nem se sabe, é definida pela roupa, pelo sapato, pelo batom.
Nelson criou para seu imaginário a grã-fina das narinas de cadáver, e há quem pense "é um tipo do século". É nada. Há mulheres cuja mulher interior jamais transparesse, jamais se expõe - verdadeiras bruxas da aparência.
O que me tocou foi que de toda a descrição, e pedi detalhes, pedi qualquer detalhe, sórdido, ciumento, belo, poético, ridículo, qualquer detalhe me era importante. Mas tudo que ele pode fazer foi descrevê-la. "É uma obsessão Diogo, o gelo de seus lábios me enlouquece". Imagino.
E vale aqui espaço para um alto contraste e alguns elogios deslavados à uma grande amiga. Calu, namorada de Túlio, justo oposto à 'bruxa da aparência' sem sorriso. Calu é assim como é - basta olhar se vê que é morena, que de olhos fechados sempre parece sonhar. É possível ver seus olhos, a curva de seus lábios, as sombras de seu nariz. A luz refletir em sua testa. Há mulheres tão enfeitiçadas pelo próprio blush que a luz é absorvida pela rubra maquiagem antes mesmo de atingir seus rostos. Assim é possível ver a mulher e admirar a mulher. Só num mundo completamente artificial, com pessoas completamente artificiais, somente no tempo dos "filhos de incubadora", somente na era do enlatado, do conservante, da anorexia um homem poderia amar a máscara de mulher frente à uma mulher deveras.
Me dispus inclusive a imaginar razões racionais para justificar a maldição de seu sorriso.
- será banguela? Se banguela for e filha de família afeiçoada, pode achar pouco educado mostrar as gengivas nuas em público, e assim é na verdade uma mulher de família, com pudores. Mas nem para contrair os lábios? Acho pouco provável. E se qualquer fiteiro, desses que ficam na porta do Teatro Santa Isabel em dia de espetáculo, exibe até com certo orgulho um sorriso de três, às vezes dois dentes, que mal faria se banguela fosse mostrar as gengivas nuas. Vemos tantas outras coisas nuas na televisão que um par de gengivas ao vivo não machucaria muito.
- Será cardíaca? É possível, assim, talvez tenha medo de num excesso de fôlego ter, por exemplo, um enfarte. Mas mesmo assim, nem um leve crepitar, uma contorção, ainda que grotesca. Será possível?
- Terá uma doença grave nos músculos? Pouco provável, Túlio não citou tal e essas coisas se percebem fácil.
Quanto mais penso no assunto, mais me convenço que para uma existência sem sorriso não existe poesia, amor, ódio. O homem que nunca sorri é com uma pedra jogada no mundo para ser devorada pelo vento sem jamais ter dado um passo por vontade própria.
Outra coisa que vale é o caso, que a amiga em comum descreveu - Fulana tem duas amigas - Cicrana e Beltrana (perdão não ter os nomes, no futuro tenho certeza que eles virão). Bem, Cicrana viu que Beltrana usava o mesmo esmalte que ela, com as unhas à mesma maneira (à francesinha) e exigiu que a outra, em nome da preservação da identidade de ambas como indivíduo, se retratasse e mudasse de esmalte.
Beltrana, indignada, alegou que fazia as unhas àquela maneira muito antes de Cicrana e que ela deveria mudar as unhas a fim de recuperar sua identidade como indivíduo, há muito perdida na cópia de Beltrana.
A discussão se estendeu semanas, há quem diga meses, sem novos argumentos de ambas as partes e sem que qualquer uma arredasse o pé. Falam até mesmo em trapaças, em trocas de esmalte furtivas nas bolsas, ou até mesmo pimenta em baixo de unhas. No entanto, esse carnaval de 69 apoteoses só encontrou seu fim quando
Caras mostrou, em reportagem de cinco páginas, as novas unhas da Amy Whinehouse (não leitor, ela ainda está viva, pois é) - quando ambas mudaram discretamente as unhas e ainda não perceberam que continuam se copiando.
Túlio está obstinado, é um compositor talentoso e decidiu conseguir uma música, uma melodia poderosa o suficiente para derreter o gelo nos lábios de Fulana. Uma melodia capaz de fazer uma mulher sorrir. (como isso é lindo, boa sorte em sua empreitada Túlio).
De mim ele queria ajuda com a letra. Diga que tem medo que ela seja banguela, pode ser que isso empurre uma risada. Mas acho que a solução é pueril para um desafio tão nobre.
Apesar de tudo, ainda falho para explicar o mistério da mulher que não sorri, que sente, imagino, mas se permite sentir apenas até a estátua, até o frio mármore de seu batom.