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segunda-feira, setembro 28

Domingo, onze e meia da noite

Para quem ligo e confesso minha saudade? Para as mulheres que me abandonaram ou para as que abandonei? Para os amigos que me esqueceram ou para os que esqueci? Na verdade, entre mortos e feridos ninguém é inocente.

Não há inocência, nem trégua. Para o coração iniciado nas batalhas do amor todos os dias são dias de guerra, de luta árdua e inútil como são sempre os conflitos armados e o coração bate ao som das marchas militares se questionando se hoje é dia de morrer ou de matar.

Assim, neste quarto silêncioso e sem vida, meu coração é como o soldado já tão habituado às batalhas que só encontra paz no barulho das granadas e entre o aço das espadas. Que se entende vivo por ver a morte nos olhos, bem de perto.

Neste quarto de paredes brancas e luz fria, neste silêncio sepulcral, sinto definhar como muralhas a flor desta lira.

Como os domingos são tediosos, meu Deus! E esse telefone que não toca, esse e-mail que não chega! Queria que meus amigos entendessem que não ligo para eles porque tenho pudores de incomodá-los de meia em meia hora com minhas carências. Meus afetos, modéstia aparte, são pessoas importantes e ocupadas, tenho vergonha de querê-los só pra mim, para os carinhos que venho guardando de meia em meia hora, para toda essa saudade cá comigo, a fim de vazar.

Queria mesmo que eles pressentissem, por esses mistérios da amizade, minha saudade e lembrassem de mim. Talvez verdadeiras amizades não devessem ter pudores, e as mulheres que fiz sofrer não mais sofressem e as pelas quais sofri se arrependessem. Mas aí já é querer demais.

Vou dormir, amanhã é outro Sol.

terça-feira, maio 5

A bailarina sem corpo

Uia, quanto tempo que não escrevo aqui. Primeiro espero com todas as forças aqui no blog uma "crônica dos brothers" escrita por Túlio Albuquerque, com muita idealização do Túlio, o primeiro romântico do novo século.

Falando no novo século, festival do Palco Giratório acontecendo na cidade com muitas apresentações de tudo cunté tipo de coisa, o link para a programação é esse:

http://www.sesc-pe.com.br/palco_2009/index.asp

Confiram. Falando no palco vou falar também da politicagem que invade e corrompe a arte, que só é pura enquanto é pobre. A peça de estréia foi "Castanha sua cor", do grupo Grial Recife, que nunca ouvi falar antes, dito dança contemporânea, dirigido por Maria Paula Costa Rêgo e Eric Valença, com uma mulher chamada Maria Paula no elenco, que nunca ouvi falar, ignorância minha, claro. Música de Helder vasconcelos e Direção de arte de Dantas Suassuna.

Quanto ao espetáculo, é uma porcaria. O que me faz conjecturar que as celebridades na produção são as responsáveis pela blindagem do espetáculo à curadoria do palco giratório, de qualidade incontestável, ou talvez cujo único fraco seja a política, câncer da humanidade.

Maria Paula, seja ela quem for, é uma bailarina gorda, caucasiana e despreparada, cujo corpo não responde com a prontidão e energia necessárias a quem se diz uma bailarina, e sua exposição no palco foi, por baixo, vergonhosa. Além, seu figurino era sumário da cintura para baixo, o que apenas ressaltava sua inconsciência corporal.

Não estou dizendo que os bailarinos devem ser todos magros e músculosos, mas devem, e é sim dever de qualquer bailarino, assim como é dever do ator representar com verdade, ser cônscio do próprio corpo, não são as celulites da bailarina que são feias, é ela fingir que não as tem e querer agir como se não as tivesse. Se o corpo dela tem limitações, como o de todo mundo, ela deveria, óbvio, usar essas limitações, pois ao ignorá-las, elas a traem.

Sem falar que esses espetáculos contemporâneos sempre correm o risco de serem 'esquisitos' e esse foi, uma amiga minha saiu dizendo "me senti burra, não entendi nada", e não é pela falta de conhecimento do público, é pela má organização do espetáculo; que não precisa ser verborrágico, mas deve, no mínimo, ser claro e verdadeiro em seus signos, e eles passaram longe disso.

Quem salvou meu tédio foi Sebastião Martelo, mestre de cavalo marinho que fazia ele mesmo mas fazia muito bem e foi ovacionado da maneira correta, em contraponto à bailarina, que se recebeu duas palmas deveria dormir feliz.

quarta-feira, abril 15

O músico

Lúcio Mendonça é compositor e grande amigo. Escreve uma poesia rara, rica em metáforas das coisas mais simples da vida, como um copo de cerveja ou um aperto de mão.

Nunca acertou no amor entretanto. No filme do Woody Allen "Vicky Christina Barcelona" há um narrador que diz a respeito da personagem de Javier Barden, que é artista plástico "e como todo artista, ele não sabia viver sem a companhia de uma mulher". Ponho um adendo na frase "e não saberá nuna viver na companhia de apenas uma". Na última crônica discuti o quanto a sensibilidade de artista pode sensibilizar em excesso o heterossexual, hoje discuto o quanto a inquietação de artista pode inquietar em excesso o monogâmo, modelo de nossa sociedade.

Assim é com Lúcio, tadinho. No filme The Spirit (uma porcaria, não assistam) tem uma frase mais ou menos assim "Você é apaixonado por toda mulher que conhece, e ama a todas do seu jeito", mais ou menos isso. Assim é Lúcio, tadinho - ama tudo, todas e um bocado; Mas seu envolvimento com mulheres tem sempre um prazo fixo - uma música. Já chegou a me dizer, outro dia - 'Diogo, não seria lindo se eu fizesse uma música pra cada mulher que eu conhecesse, mas uma música de verdade, a altura de fulana?" Eu achei lindo.

Até ver a galeria das desquitadas, e o pior é ouvir a música, hoje para mim sempre a 'música da véspera' e ver em cada nota as curvas do corpo da fulana da vez, ver na letra da música os sorrisos, os trejeitos de olhar com a certeza que no dia seguinte ele romperá com ela.

Quer dizer, o que é isso? Há realmente os casos de pessoas tão devotadas à própria arte que esquecem da existência mundana para enobrecê-la. Mas não sei, não sei.

Sei de Martinha, cuja música me foi apresentada ontem, é linda. Que será dela hoje?

segunda-feira, abril 13

O armário

Eita, tempo de renascer. Mas renascer não é sair do armário, se controlem, moças e rapazes.

Estou falando de Ópera, espetáculo do coletivo Angu de Teatro em pauta até próxima sábados e domingos no Teatro Apolo, às 21:30, que aborda o universo homossexual e dá pontadas também na sua relação com a arte contemporânea.

Isso é algo que sempre me perguntei, e nunca me perguntei pouco. Existem homossexuais em todos os lugares óbvio, mas os do meio artístico são mais óbvios que os outros. Não são estereotipados, cada um é cada um, uns mais escandalosos, outros mais discretos, uns falam da própria condição, outros falam da condição dos heterossexuais com mais sensibilidade que alguns dos próprios heterossexuais, uns são politicos... enfim; mas sua presença é marcante e desperta minha curiosidade acerca do assunto.

Eu fico me perguntando coisas como - é necessário mais sensibilidade para gostar do semelhante fisiológico? Eu procuro entender o que essa distorção de orientação causa na alma da pessoa e o que nisso a aproxima da sensibilidade e fazer artístico.

E até os heteros artistas são meio homossexuais. Os ratos, por exemplo. Para uma pessoa formada nos generalismos da classe média recifense, o primeiro contato com o movimento do ratão pode parecer uma verdadeira gaiola das loucas. Com homens se abraçando, beijando e paquerando (todos, ou quase, hetero, até onde eu sei) num impudor danado. "Homofobia zero" como diria Fred Fonseca, grande ator e amigo.

Daí já passo para os reflexos da sociedade patriarcal nas classes instruídas de nossa capital. O liberalismo, os movimentos feministas e anti-homofóbicos do século terminou por estruturar famílias e tendencias de pensamento menos preconceituosas. Ainda um pouco afetadas, com cacuetes e gírias, mas menos preconceituosas.

Feliz mesmo eu fico quado tenho a presença de espiríto ou ouço alguém dizer assim "Fulando, que é namorado de Cicrano" ou o extremo oposto. Sem afetação, sem risinhos, sem gírias coloridas, apenas aceita com naturalidade o amor da forma que ele se manifesta.

Outra reflexão do espetáculo é o poder da comunidade. Certas características da classe dominante não são fortes o suficiente para uni-la em comunidade, entretanto nas classes marginais qualquer semelhança é dispositivo de união. Assim é com a orientação sexual. Os gays realmente constituem uma comunidade, com gírias, movimentos, entreterimento e visual próprios. Isso também leva sociólogos a associar o homossexualismo à necessidades de atenção, à falhas na estrutura familiar, coisa e tal. É possível, bastante possível.

Enfim é páscoa, tempo de Renascer. Sair do armário não. Renascer.

sexta-feira, abril 10

A esquisita

Nada mais estranho que Mallu Magalhães. O mundo cult é um fenômeno estranho, que promove pessoas como ela, João do Morro, DJ dolores e tal. Não são artistas ruins, dentro da minha concepção do universo, vejo como artistas de talento duvidoso.

A verdade é que não são artistas acabados, exceto João do Morro, que está acabado e fala para as massas, na verdade o curioso é sua adoção pelo mundo cult, provavelmente o principal motivo disso seja o produtor dele ser o mesmo de Cordel. Simples assim. Mas no geral o mundo cult, na ânsia de promover suas idéias tem promovido artistas imaturos, pois o mundo cult é um mundo imaturo.

Comecei essa reflexão ao assistir um vídeo de Marcelo Camelo, outro idiota cult, explicando sua relação com Mallu. Me perdoem pelo tradicionalismo, não é uma questão de bagagem cultural, o homem é culto. É uma questão de idiotice mesmo. O aclamado vocalista dos los hermanos (muertos) não soube falar, expressar suas idéias de maneira coesa e lógica, falava o tempo todo "porque a parada com Mallu... E o lance de Mallu..." viesse do morro nos anos 70 Marcelo?

Sem falar que é ridículo, o relacionamento deles não mostra que Mallu é uma criança, assisti a entrevista dela com Jô Soares pensando "Deus do céu! Jô vai comer essa menina viva, ela não sai daí com vida" Me enganei, a menina é surpreendentemente espontânea e adivinhem... Uma menina; uma menina que colocou as músicas na internet. O resto foi circo da mídia e uma família bem relacionada. Chico Buarque vazia músicas na idade dela, Vínicius de Moraes vazia música. Mas no tempo deles não tinha Internet, nem circo da mídia. Só famílias bem relacionadas e com valores o suficiente para esperar a maturidade do artísta antes de atirá-lo aos leões e aos cornos carentes.

Se eu estou dizendo que Marcelo Camelo é corno? Vejam por esse ângulo - o homem é, depois de Reginaldo Rossi, Wando, Fagner e afins, o maior cantor de dor de cotovelo do País. Mas os nomes que citei antes são maduros, tiveram seu tempo para sentir no fundo de suas almas a mais completa depreciação e decadência de suas ilusões amorosas. Marcelo não chegou nem na metade do caminho e já saiu choramingando. Além de praticar abertamente a pedofília.

Na entrevista ele falava justamente isso sobre os diários da Maluzinha "Tipo ela escreve coisas muito parecidas com a do meu amigo, que é poeta, só o que ele escreve tem valor porque ele é casado e duas filhas" Ele diz como se isso fosse ruim. Não é. Mallu é um gênio? Talvez. Para mim ela é apenas uma cópia muito bem feita do Dylan e do Cash, outros fenômenos cult, mas do gênero da ressurreição esses dois.

O fato é que quem dirá é o tempo. Promovê-la assim de imediato é o pecado da antecipação, mal muito comum de nosso mundo e péssimo filtro para o verdadeiro motivo da arte: A sensibilidade humana

Feliz páscoa a todos

domingo, março 29

mundo cínico e mundo lírico

Antes de mais nada, para os que pensam que atores são uns vagabundos inconsequentes (há quem ainda pense isso) a crônica de hoje surgiu de uma discussão entre atores e suas visões de mundo.

Colonialismo, estudamos no colégio como movimento político tipicamente europeu, onde os estados descobriam ou conquistavam uma nova terra e em troca de levar à essa terra inexplorada o progresso, exigiam o direito à livre exploração da mesma, chamada colônia.

Acabou mesmo? Nem oito nem oitenta, como diria a minha avó. Ninguém descobriu nada e tudo que se fez foi subjulgar e explorar os povos que já habitavam as novas terras. A América Latina, o Sudeste da Ásia e a África são heranças da colonização. Mas o que me impressionou foi o novo arranjo social Europeu - os imigrantes.

É comum aqui no Brasil agências de intercâmbio que oferecem empregos no exterior, é uma boa linha de cúrriculo, acrescenta bagagem cultural, consolida o conchecimento em língua estrangeira e geralmente paga em dolar ou euro, ambas atualmente mais fortes que o real (aliás, com o governo assumindo o mercado imobiliário e bancário americano, ambos de forma geral à égide da falência, como a moeda america ainda não desvalorizou diante tamanha fraude?).

O que eu desconhecia era a posição do Europeu frente ao emigrante - descobri dia desses que as tarefas de subsistência ou menores não são dignas dos nobres europeus - serviço doméstico e de atendimento em geral, por exemplo - assim, qualquer tarefa considerada pela cultura européia como de "menor importância" é trabalho de imigrantes.

O que me assusta, o que me revolta nesse senso de globalização - como as fábricas de multinacionais na China, por exemplo - são dois conceitos que faço questão de desconstruir no blog: 1- Infelizmente, ao fazer tal discernimento, fica implícita idéia que os imigrantes são inferiores aos magnânimos povos brancos. 2- Fica caracterizado o gênero de subdesenvolvimento entre as nações.

Thiago Godin, ator e advogado, fez o favor de me informar que as constituições de certos paises da Europa, como a Espanha, por exemplo, foram baseadas também nesse mecanismo, onde a desigualdade é necessária para o abastecimento da mão de obra inferior e barata dos imigrantes.

Trocando em miúdos, fica claro o completo desinteresse das nações ricas e decadentes em combater o subdesenvolvimento, pois nele elas se alicerçam. Me parece uma piada de muito mal gosto. Acabar com a fome na Africa? Tudo bem, se não interferir com o petróleo (outro com os dias contados) e os diamantes. Dar anistia, perdão de dívida externa, o diabo a quatro... Tudo bem. Abolir a idéia de subdesenvolvimento e dar início a um trabalho em prol do fim da desigualdade. Adotar a idéia que estamos todos no mesmo barco - desculpe, meu filho, aí já é demais.

Talvez se eu fosse Espanhol, ou Alemão, eu mesmo Canadense, eu pensasse diferente, mas sou brasileiro, e cada um de nossos estados vale um país inteiro na Europa. E sim, há uma classe dominante no país que não se interessa em combater a desigualdade. Há sim no país os que recorrem ao assistencialismo, à aglomeração e alienação do cidadão ordinário - principalmente para angariar votos, há sim camadas intrísecas e inacabáveis de corrupção no poder. Mas, às vezes, por graça divina, nos une a consciência que somos todos brasileiros; e, mais raro ainda, às vezes a nação brasileira inteira se lembra que faz toda parte da mesma humanidade. E nossa constituição, antiga, frouxa e sem graça ainda pensa que a declaração dos direitos humanos não é estória de carochinha.

Tomei uma decisão - De hoje em diante chamo o que se convencionou 1º mundo de 'mundo cínico' e o 3º mundo de 'mundo lírico', porque aqui em baixo do mundo ainda há quem acredite no que diz.

Coisas assim me deixam desgostoso com o mundo.

quinta-feira, março 26

Seis em uma

Suzane Elisa Camilla Gabriela Fontes Rios, nascida e registrada em cartório assim, talvez com um ene a mais ou a menos, pois nunca vi o nome escrito por extenso, mas sei que ele é assim.

E pra quê tanto nome? Para proteger a dona. Nasceu prematura, era miúda, leve e pequena, portanto a família decidiu que ela deveria ter alguma coisa de grande, nem que fosse o nome. Hoje de pequeno tem pouco, talvez a altura, talvez o tamanho da boca, mas em geral é uma grande e adorável mulher.

Vale notar como cada nome representa uma personagem de si mesma. Camilla é ela mesma, Suzane é a mulher que existe nela, Elisa foi a criança e Gabriela será a memória de tantas mulheres que viveram numa só.

Sem falar que não é todo mundo que pode mudar de nome assim, como quem muda de roupa. Nada mais natural que fosse atriz, que tivesse o gosto pela multiplicidade, pela transição.

Dia desses estávamos voltando para casa Eu, Mauro Monezi e ela, no meio do caminho ela pára "meu celular sumiu. Estava na pasta antes, quando começamos a andar, e agora sumiu". Pensei "pronto, é agora".

Na verdade a princípio não entendi, não assimilei direito a informação. Depois fui compreendendo e vi que só tinha uma solução - voltar e procurar o bicho.

Pensei "que saco" eram para lá de dez da noite, estávamos todos cansados e pela frente ainda tinha quinze minutos de caminhada, janta e banho para eu finalmente dormir, tudo que eu mais queria. E ela ia deixando a responsabilidade fugir "Não, vamos não, está tarde, deixa para lá, já foi..." - Mauro estava pela metade, pelo que vi, por ele voltávamos para procurar, mas também estava cansado e não queria contradizer ela.

Entretanto perdi o celular dia desses em circunstância parecida. Ela não sabe, mas uma verdadeira revolução se passou em minha mente naqueles poucos momentos entre a descoberta da perda e minha resolução; mais ou menos essa "Que saco, o jeito é voltar... Eita, ela não quer, então que se dane, vou para casa dormir... Diogo, isso não se pensa, e se fosse com você?... Diogo, você não tem bondade nenhuma dentro de você, você não dá a mínima para os outros..."

E foi assim, não num acesso de bravura, mas esmagado pela mais abjeta culpa, que a vi lamentando a perda do telefone e decidi "eu vou, se vocês quiserem ir embora, vão; tu não precisa se preocupar Camilla, eu vou voltar e acho o celular".

Foi de tal forma definitivo que eles, como as pessoas maravilhosas - e boas - que são voltaram comigo para procurar o aparelho. A noite estava deserta e umas três quadras atrás ela viu o celular caido no meio da rua. "Encontrei" ela disse "tá ali".

O celular era da mãe dela, que há poucos dias perdeu outro aparelho, seria uma desgraça em cadeia perder o segundo. Eu, ao mesmo tempo, me lavei da frustração de perder o meu como da culpa do lobo que existe em mim.

A crônica de hoje tem duas funções - 1ª pedir cuidado com os gestos nobres, pois eles não partem da nobreza de espíritos elevados, mas da culpa de almas atormentadas.

E 2º) Dar os meus grandes e sinceros parabéns à Suzane Elisa Camilla Gabriela Fontes Rios, seis mulheres encarnadas em uma, que faz anos hoje.

É o tempo senhores, varrendo todos nós...

quarta-feira, março 25

Meu fundinho


Ontem não teve crônica. Culpa do modem.

Couso de Petrolina. Era feriado, primeiro de maio, dia do trabalho, acho. Estávamos todos no terceiro ano colegial - Eu, Raimundo, Tarina, Raissa, Laíse, Cássia e Akemi Toma Keiko - e decidimos cozinhar um almoço comunitário no feriado, não tínhamos nada para fazer mesmo.

Explico, em Petrolina não se vende queijo de fundue, os motivos são por demais metafísicos para que eu os compreenda, mas suspeito que não tenha quem o compre. Mas tenho uma panela para fundue em casa, comentei isso com Akemi, matuta de gosto refinadíssimo. Na época meu pai estava em Recife à trabalho e comentei "Aka, eu podia pedir para meu pai comprar o queijo e nós podíamos comer fundue" ela "Adoro, tão europeu fundue" e eu "foi, agente chama o povo e come no feriado" ela "fechou, vai ser na minha casa, vou fazer yaksoba".

E fomos, painho comprou o queijo, akemi com a ajuda das meninas fez muita bagunça na cozinha e macarrão com shoyo, daí para yaksoba são quinhentos, não é akemi? E eu trouxe o fundue e panelinha, que logo foi apelidado de "o fundinho do Diogo" e passei a tarde ouvindo comentários do tipo "então, hoje todo mundo vai comer o fundinho do Diogo" ou então "Nossa, teu fundinho é tão bom Diogo..." coisa e tal.

O fundue de queijo deu certo, graças, nunca tinha feito antes, exceto pelo calor, que já é excepicional em Petrolina, somado às panelas, comemos numa sauna e todos perdemos uns dois quilos durante a refeição.

Passava ou alugaram o filme do 007 mas ninguém conseguia assistir por causa da zuada. Num descuido todos sairam do sofá para comer e deitei, quando as moças me viram esparramado no sofá, como um rei, me confundiram com a mobília e tiraram essa foto, a primeira que publico no blog.

O sucesso do meu "fundinho de queijo" foi tão grande que decidi tentar o "fundinho de chocolate". Havia uma barra de chocolate meio amargo e imaginei que se derretéssemos na panela o chocolate e passássemos no pão seria uma delícia. E seria mesmo.

Se eu não tivesse inventado de no meio do derretimento do chocolate jogar vinho branco na mistura. Não sei porque, mas tive uma dessas certezas inapeláveis que seria delicioso se eu jogasse vinho no chocolate derretido.

Minha certeza estava errada, óbvio. O chocolate virou uma gosma dura que sinceramente lembrava... Bem, o leitor é inteligente o suficiente para saber o que lembra uma gosma marrom grudenta e meio dura.

Akemi salvou o dia e fez brigadeiro para a gente. Mas meu fundinho permanece na memória.

A crônica de hoje é uma homenagem à Akemi Toma Keiko, Design em Curitiba. Que no tempo em que passamos juntos em Petrolina, foi uma mestre, mãe, professora, amiga, irmã, consciência, coragem e acima de tudo muito amada. Apesar dos pesares. Como ela fez anos ontem, hoje com a crônica a dou meus parabéns.

domingo, março 22

Todo homem é uma ilha

Todo homem é uma ilha, e só a cerveja é capaz de reuní-los em arquipélagos.

Percebi isso voltando para Candeias de carona. Mauro, que também voltava na mesma carona ia de um lado do carro pensando na sua vida e eu do outro pensando na minha. Por quê não nos confessávamos um ao outro? Por quê não dividiámos nossos pesares? Falta de cerveja, logicamente. Viemos de uma pizzaria e tudo que tomaram foi refrigerante.

Quão diferente de ontem, que me encontrei com os ratos no Novo Pina não sei depois de quanto tempo. E que saudade! Vi Tulinho, Calú, Basílio, Joca, Laís. E nem deu meia hora, estavámos confessando tudo, eu gritava meus maiores pecados para e mesa, e a mesa respondia seus próprios maiores pecados. Bravo!

Menos Basílio, que discutia em vão filosofia e mitologia grega, mas talvez essa intelectualidade exarcebada seja o pecado inconfessável de Basílio, vai saber.

Domingo é sempre mais triste, talvez seja apenas isso, não sei. Domingo é o dia da praça, da preguiça. Eu ia explicando tudo isso na mesa para Roberto Brandão, grande amigo, hoje "Temos que deixar as meninas de lado e sentar os caras num boteco para beber" E ele, "é mesmo Diogo, bora" e eu "Não tô aguentando mais, preciso me confessar" e ele "bote fé".

Engraçado, hoje assisti com o big brother do SESC de Piedade Rasif, do coletivo Angu de Teatro, um sério parabéns para eles pelo trabalho bem feito. O espetáculo é uma junção de esquetes que discutem a realidade urbana, destaque para o esquete do carro "minha namorada me deixou, culpa do carro. A fome, o petróleo, a guerra no oriente médio, tudo culpa do carro, você não vê" que entra em perfeita comunhão com a crônica 'Energia Solar' publicada nesse blog, dia 15 de março.

O que me deixou comovido foi ver a comunhão com algumas idéias que tenho faz tempo, mas que desenvolvi por observação, como a solidão dos prédios, por exemplo. As classes altas já há algumas décadas, e há alguns anos a classe média vem se privando do contato com o mundo dentro do conceito de condomínio. Bom era no tempo do meu pai, que menino jogava pelada na rua - erámos (nós humanos) menos preconceituosos. Hoje podemos definir o padrão financeiro da compainha de nossos filhos dentro da taxa de condomínio. Podemos oferecer piscinas, gramados, áreas de lazer. Podemos escondê-los do mundo, podemos reduzir a violência à uma estatística de jornal e ensiná-los a ter medo de qualquer indigente, a correr nas pontes do Recife pela madrugada como verdadeiros animais de medo, filhos do medo. Os pais podem moldar a visão de vida de seus filhos à uma gaiola dentro da taxa do condomínio.

Sem falar na questão do carro - ouvi uma moça dizer, dia desses "Estou no último período da faculdade, minha carona vai mudar-se e ir para a faculade no último período de ônibus é inadmissível" - outra prova da minha teoria das ilhas. Se para mim a coisa mais comum do mundo é o lotação. Comum e filosófico, posto que boa parte da minha visão da vida, do amor, da condição humana e da morte foram desenvolvidas no lotação. Mais especificamente na linha CANDEIAS/CDE. DA BOA VISTA, 071, da Borborema, onde passava duas horas por dia para ir e voltar do serviço por mais de um ano. Quando começar a faculdade começa também a linha 020, CANDEIAS/DOIS IRMÃOS; e estou ansioso pelas experiências, personagens e reflexões que a condução me trará.

E fulana achando um ultraje pegar um ônibus. Para mim a prova absoluta e definitiva da solidão que somos cada um de nós.

terça-feira, março 17

Galã não tem cor

Melhor escrever logo de manhã que é para não madrugar pensando no texto. Falando em pensar, surpreende como coisas simples, em teoria - como uma cena, dois atores, umas dez falas para cada lado - pode se tornar uma sombra te assombrando.

Vou falar de Anjo negro, tragédia de Nelson Rodrigues escrita em 1946 e encenada pela primeira vez em 1948. Conta a história do negro Ismael, que se odeia aos extremos mais violentos por ser preto. Viu a mãe preta trocar um marido preto por um branco, torturava o irmão branco de criação, Elias, com um chicote, como se ele fosse um escravo e depois pingou ácido em seus olhos para que ele não enxergasse, tornando-se o verdadeiro profeta cego.

O irmão tornou-se maltrapilho, a mãe está entrevada e Ismael é médico, sempre vestido à Panamà, em seu armário, as únicas roupas que existem é uma extensa coleção de ternos Panamá - tudo para ser mais que os brancos, tudo por orgulho, afirma seu irmão.

Além de médico é casado. Uma viúva cuidava de quatro filhas; todas feias e solteiras, menos a caçula, que estava para casar; e uma sobrinha, Virgína, branca como a neve e linda.

O noivo da caçula gostava mesmo é de Virgínia e Ismael também, mas Ismael é negro. Belo dia Virgínia e o noivo cruzam sozinho o corredor e ele a beija, definitivo, enquanto escorre sua mão por entre o vestido dela.

A tia vê tudo, o noivo foge, a noiva se suicida e Ismael é convidado pela tia, ardente de vingança, a subir no quarto de Virgínia durante o velório "deixa que ela grite, deixa ela gritar"

Ismael estupra a mulher todas as noites e com ela tem três filhos: todos homens e negros, que Virgínia mata para não perpetuar a cor. Ismael os isola, ninguém entra, ninguém sai, existem apenas os dois. Até o dia em que Elias, seu irmão cego e indigente, volta para amaldiçoar a todos.

A história é forte o bonita, mas o que realmente surpreende é que o espetáculo foi censurado numa época em que se dizia "no Brasil não há preconceito", nem oito, nem oitenta, como diria minha avó.

Mas pior que a censura, que foi vencida em questão de meses, foi que o primeiro ator a representar Ismael, na estréia do espetáculo, Orlando Guy, é branco como floco de neve. "Mas como branco se Ismael é negro?" pergunta o leitor. O que acontece, é que até dia desses, teatro brasileiro 'sério' não tinha negro no protagonista. Na mais completa abjeção, os 'artistas', adeptos ao 'livre pensamento' não acreditavam que um negro tivesse a intensidade dramática de um branco. Ora veja.

Mudou? Nem tanto. Em toda a dramaturgia da Rede Globo, não há um protagonista negro. Suzana Vieria, quando fez a nordestina, para ela ser morena, tinha que ser nordestina, ora veja, e usar aquele sotaque que, me pordoe, é de muito mal gosto. Taís Araujo, para ser a mocinha de 'da cor do pecado', precisou que no título se dissesse que sua cor de pele é pecaminosa, ou que ela viesse da Bahia, porque simplesmente não se pode crer, é assaz inverossímil uma preta com habilidade dramática carioca, por exemplo, quase impossível.

O preconceito no Brasil é cultural, e por mais que perca espaço todos os dias, continua escondido nos cantos mais profundos da alma. Pregando peças em nossa mente.

quinta-feira, março 12

A mulher sem sorriso

Túlio me liga "Preciso de você para uma música". E eu, triste "Ruim pra chuchu Túlio, ensiaos e tal..." Mas a curiosidade falou mais alto, perguntei

- É do que hein?

- Conheci uma mulher que não sorri.

Parei tudo, até mesmo o GTA, que estava jogando (quase consigo as seis estrelas). "Como é?" Desliguei o jogo e corri ao bloco de notas, o quadro que me pintaram foi esse que humilde, e com as flores da minha imaginação, apresento.

Na faculdade Maurício de Nassau há uma mulher que não sorri. Seu nome ainda me é um mistério, o que reforça a poder de mito de Fulana. Seu rosto é bonito e geométrico como As Senhoritas de Avingnon, de Picasso, olhos agudos, queixo anguloso, bochechas lisas e testa retangular. Entretanto a boca é uma linha árida e imóvel.

"Mas ela nunca sorri?" E Túlio como quem diz amém para o padre na missa "Nunca, é como se ela tivesse transtorno bipolar de um lado só. Seu rosto é tinta seca na tela".

Me surpreendi com aquela estátua, aquele monumento vivo à beleza estática, proporcional e completamente desprovida de vida. "Ela ao menos fala?" Eu queria qualquer coisa, queria ao menos imaginar o timbre de sua voz.

"Ih..." Foi a resposta profunda de Túlio. Eu não entendi, tão profundo que foi "O quê?". Ao que parece, uma amiga em comum classifica Fulana e suas amigas como o "grupo da cobra lagartixa". Não me explicaram o que exatamente a expressão quer dizer, mas alguns dados podem levar o leitor às próprias conclusões:

1) ambos são répteis, sem qualquer calor próprio.

2) ambos rastejam

3) lagartixas são esguias, e sobem pelas paredes quado ameaçadas

4) ambas vivem abrindo a boca para não dizer nada

5) (meu favorito) cobras - não todas, eu sei - são venenosas. Mas as que não são venenosas esmagam a presa até morte. Tanto melhor.

Eu me pergunto, eu quase a posso ver em meus olhos de dentro: nem alta, nem baixa, nem gorda, nem magra, nem branca, nem preta; Enfim, nem bela, nem feia - o corpo definido na acadêmia. Os cabelos, nem assim nem assados - escondidos pelos cremes e o salão. Da personalidade, nem se sabe, é definida pela roupa, pelo sapato, pelo batom.

Nelson criou para seu imaginário a grã-fina das narinas de cadáver, e há quem pense "é um tipo do século". É nada. Há mulheres cuja mulher interior jamais transparesse, jamais se expõe - verdadeiras bruxas da aparência.

O que me tocou foi que de toda a descrição, e pedi detalhes, pedi qualquer detalhe, sórdido, ciumento, belo, poético, ridículo, qualquer detalhe me era importante. Mas tudo que ele pode fazer foi descrevê-la. "É uma obsessão Diogo, o gelo de seus lábios me enlouquece". Imagino.

E vale aqui espaço para um alto contraste e alguns elogios deslavados à uma grande amiga. Calu, namorada de Túlio, justo oposto à 'bruxa da aparência' sem sorriso. Calu é assim como é - basta olhar se vê que é morena, que de olhos fechados sempre parece sonhar. É possível ver seus olhos, a curva de seus lábios, as sombras de seu nariz. A luz refletir em sua testa. Há mulheres tão enfeitiçadas pelo próprio blush que a luz é absorvida pela rubra maquiagem antes mesmo de atingir seus rostos. Assim é possível ver a mulher e admirar a mulher. Só num mundo completamente artificial, com pessoas completamente artificiais, somente no tempo dos "filhos de incubadora", somente na era do enlatado, do conservante, da anorexia um homem poderia amar a máscara de mulher frente à uma mulher deveras.

Me dispus inclusive a imaginar razões racionais para justificar a maldição de seu sorriso.

- será banguela? Se banguela for e filha de família afeiçoada, pode achar pouco educado mostrar as gengivas nuas em público, e assim é na verdade uma mulher de família, com pudores. Mas nem para contrair os lábios? Acho pouco provável. E se qualquer fiteiro, desses que ficam na porta do Teatro Santa Isabel em dia de espetáculo, exibe até com certo orgulho um sorriso de três, às vezes dois dentes, que mal faria se banguela fosse mostrar as gengivas nuas. Vemos tantas outras coisas nuas na televisão que um par de gengivas ao vivo não machucaria muito.

- Será cardíaca? É possível, assim, talvez tenha medo de num excesso de fôlego ter, por exemplo, um enfarte. Mas mesmo assim, nem um leve crepitar, uma contorção, ainda que grotesca. Será possível?

- Terá uma doença grave nos músculos? Pouco provável, Túlio não citou tal e essas coisas se percebem fácil.

Quanto mais penso no assunto, mais me convenço que para uma existência sem sorriso não existe poesia, amor, ódio. O homem que nunca sorri é com uma pedra jogada no mundo para ser devorada pelo vento sem jamais ter dado um passo por vontade própria.

Outra coisa que vale é o caso, que a amiga em comum descreveu - Fulana tem duas amigas - Cicrana e Beltrana (perdão não ter os nomes, no futuro tenho certeza que eles virão). Bem, Cicrana viu que Beltrana usava o mesmo esmalte que ela, com as unhas à mesma maneira (à francesinha) e exigiu que a outra, em nome da preservação da identidade de ambas como indivíduo, se retratasse e mudasse de esmalte.

Beltrana, indignada, alegou que fazia as unhas àquela maneira muito antes de Cicrana e que ela deveria mudar as unhas a fim de recuperar sua identidade como indivíduo, há muito perdida na cópia de Beltrana.

A discussão se estendeu semanas, há quem diga meses, sem novos argumentos de ambas as partes e sem que qualquer uma arredasse o pé. Falam até mesmo em trapaças, em trocas de esmalte furtivas nas bolsas, ou até mesmo pimenta em baixo de unhas. No entanto, esse carnaval de 69 apoteoses só encontrou seu fim quando Caras mostrou, em reportagem de cinco páginas, as novas unhas da Amy Whinehouse (não leitor, ela ainda está viva, pois é) - quando ambas mudaram discretamente as unhas e ainda não perceberam que continuam se copiando.

Túlio está obstinado, é um compositor talentoso e decidiu conseguir uma música, uma melodia poderosa o suficiente para derreter o gelo nos lábios de Fulana. Uma melodia capaz de fazer uma mulher sorrir. (como isso é lindo, boa sorte em sua empreitada Túlio).

De mim ele queria ajuda com a letra. Diga que tem medo que ela seja banguela, pode ser que isso empurre uma risada. Mas acho que a solução é pueril para um desafio tão nobre.

Apesar de tudo, ainda falho para explicar o mistério da mulher que não sorri, que sente, imagino, mas se permite sentir apenas até a estátua, até o frio mármore de seu batom.

quarta-feira, março 11

O banco

Minha dedicação profissional é notável, pelo menos para a literatura. Já à engenharia...

Túlio me ligou "saudade da porra!" eu "Também ouxe, vamos tomar uma no Mercado da Boa Vista?" ele "bora"

Inventei uma entrevista profissional no serviço e fui ver Túlio.

Não importa se você ganha nove ou nove mil reais por mês, não há dinheiro que pague uma uma tarde de papo-furado com um amigo, e Túlio não foge da regra. "Mas o dinheiro da cerveja?" Perguntarão os idiotas do consumo, "se não houvesse dinheiro, sentaríamos num banco de praça e conversariámos do mesmo jeito" eu remendo.

Falando em banco de praça, um protesto. Estava voltando da Aliança Francesa com Lydia Mesquita e Roberto França, futuro professor de inglês da universidade federal e gatinho solteiro, a quem interessar possa conferir no nucleo de línguas do CAC - e é comum sentarmos nos balanços da praça do Derby para batermos papo.

Aquela foi a primeira noite que fizemos isso após a reforma na praça. Aliás, sobre a reforma na praça, perdão minha falta de informação, mas por quê os corredores de areia? Faltaram os blocos, os operários para os blocos ou o dinheiro para os blocos? O governo não costuma aprovar obras sem orçamento e eu duvido que exista um paisagista burro o suficiente para assinar um parque com aqueles grotescos corredores de areia.

Ademais, dinheiro para os funcionários não faltou, foi o que descobrimos eu, Roberto e Lydia, quando um grupo de serventes que pernoita na guarita, no meio do parque, veio nos dizer que não podíamos sentar no balanço, ora veja.

Quase pus um ovo. Primeiro porque o servente lembrava o Leoncio do pica-pau - gordo, bigode de leão marinho e palpebras de Buldog, e nunca me imaginei submisso à Leoncio, culpa do meu ego, claro. Segundo, e me perdoem os defensores dos direitos do uso dos balanços para as crianças, mas o homem não tinha mais nada para fazer?

Já passavam de dez da noite, não havia mais crianças no parque, eu não fico empurrando meninos de dez anos para sentar no balanço. O charme, a poesia está na praça deserta (nem deserta ela fica agora, com os amargos dos serventes) e no movimento humilde do balanço.

Se alguém com mais instrução se dispor a me mostrar que meus assutadores 60 kilos ou os 50 e pouco de Roberto ou a levíssima Lydia são capazes de prejudicar o brinquedo e por tabela as crianças, humilde eu me retrato deste protesto. Mas caso contrário o homem que vá descascar bananas.

Nada mais inconveniente que um amargurado. Os executivos os adoram para posições de chefia, são incansáveis, minuciosos e notavelmente chatos. Meu chefe, por exemplo, mas dele falo depois.

Ignorei sumariamente o homem, compreendi que ele tinha ordens, mas só as exerceu pela própria tristeza que carregava na alma. Mas Roberto e Lydia, aturdidos pelo senso de ordem começaram "Vamos Diogo, não tem mais clima". Por mim só saia levado pela PM.

Contei o caso em casa e meu pai me perguntou "E se a PM pedisse?" eu, muito sério, não vendo o sinistro humor de meu progenitor escondido na pergunta "Eu saia, claro". Os abjetos me verão como um rebelde, um metido. Mas não, a PM tem mais o que fazer, e há sempre uma viatura rondando a praça do Derby, justamente pelos indigentes que rondam o lugar à noite. Outro motivo para a dispensa do servente, que fica ali fazendo nada e enchendo meu saco. E se a PM, que tem mais o que fazer, for se incomodar em me tirar de um balanço, ou eu realmente estou oferecendo um perigo à segurança nacional ou a amargura do servente é sem precedentes, de ambas as formas eu jogaria a toalha branca.

Joguei por Roberto e Lydia, mas aquilo me marcou como o primeiro tapa de um pai marca um filho. Aquele balanço era um lugar meu para ficar sozinho, e o dinheiro dos serventes, que poderia ao menos terminar a obra que sabe Deus por que está pela metade, serve para manter um bando de velhos amargos roubando uma parcela da poesia da cidade do Recife - A solidão de um balanço, na praça deserta, sob a luz sépia dos postes, lado a lado com a multidão do terminal, apressada e atarantado em ir e vir para lugar nenhum.

segunda-feira, março 9

O ovo

Numa vitrine do shopping Boa Vista, há um ovo de páscoa que custa R$150,00, o ovo é imenso, mas a etiqueta com o preço é quase tão grande quanto. Não cheguei a ver o ovo com meus olhos, me contaram o causo, minha primeira reação foi "e é de ouro é?" a pessoa que me contava enfatisou "mas é enorme o ovo!", "Não importa" disse eu, "fosse de ouro maçiço eu não acreditava no preço. O ovo é algo que que a galinha bota, e nada que uma galinha bota pode ser tão caro".

Agora o impressionante, o absurdo de lúcido foi a resposta de meu interlocutor "É verdade, se fosse tão bom ela guardava para ela e não botava pra fora". Assunto encerrado. Eu desafio qualquer 'intelectual' com vaidade por seus diplomas a atingir a metafísica dessa frase.

Falando em metafísica vou falar de Antonin Artaud. Eu sabia do causo, mas ainda não sabia do conteúdo da crônica até digitar metafísica. Artaud era um louco gerado, pode-se pressupor que sua lucidez era grande ao ponto da clarividência. Assim, quando suas idéias chegaram ao extremo oposto do moralismo hipócrita ele foi internado e tido como louco. Sua loucura era tão lúcida que seu médico no sanatório mantinha correspondência com ele, e o incentivava a escrever e a pensar enquanto o mandava para o eletrochoque "pense num soneto Artaud - enquanto se virava para seu assistente - Mais seis volts, por favor".

Artaud acreditava numa metafísica da cena e qualquer elemento que a compusesse - sonoplastia, cenografia, gesto, voz, raio laser. Eu não acredito em metafísica nenhuma. Mesmo num palco, qualquer ciclo fechado é frívolo. O que ele queria dizer, é claro, é que justamente meu argumento para contradizê-lo: Que nossos excessos de psicologia tornam a ação em cena vazia. Por isso o gesto preciso de um significado. Eis o argumento para a metafísica cênica. Nada mais claro que o diálogo dos loucos.

Além, ele escreveu em francês, e como diria Nelson Rodrigues "Toda idiotice escrita em francês soa como uma verdade absoluta e incontestável, enquanto nós temos que nos esmerar para parecermos inteligentes catando cacos em português" Nem tão verdade, nem tão mentira, não é Nelson?

Falando nele, outro louco. Acabei de ler que em vinte anos desde que seu teatro se iniciara nunca houve um que se manifestasse nas ruas contra a interdição de suas peças pela censura. E no primeiro movimento deste tipo a ser realizado no Brasil, já na ditadura, lá foi ele pedir pela liberação dos espetáculos alheios. Ao lado dos que o chamaram de tarado.

Falando em tarado, nada mais tarado que a imprensa brasileira. E agora hipócrita, antes do jornal limpo, de copydesk, pelo menos havia algum romance e nenhuma pretensão de imparcialidade no jornalismo. Hoje além de parcial, a impresna é hipócrita e insossa. Perdeu tudo numa só tacada. Puro medo da inteligência das classes menos abonadas.

Falando em medo não sei por quê. As classes menos abonadas estão às favas com o jornal. O jornal poderia ser o último reduto estilístico, pelo seu quase anonimato ou ancestralismo. Hoje a informação está na TV, acima de tudo. A internet está chegando, uma nova realidade desponta aos poucos para grupos emergentes. Mas olho para meus pais, olho para as casas dos vizinhos, dos parentes, e choro: Lá está ela, ainda dominando o pensamento.

A TV sim se dá o direito de alguma poesia vendendo idéias, comportamentos e estética em suas novelas, o instrumento mais poderosos de massificação já criado na história da humanidade. Minto? Talvez sim, talvez não.

sábado, março 7

O baile

A moça que intermediou meu encontro com Túlio, ou seja, a principal irresponsável pela minha participação no Ratão, Joana Liberal, a moça ex-careca mais linda que já tive o prazer de conhecer fez anos dia quatro de março e comemoramos ontem.

Coisa curiosa essas festas de aniversário. Mudam os dançarinos mas o baile é sempre o mesmo. O bar, Capibar, fica às orlas do rio e vale a propaganda: um decoração mais que interessante, que se vale de materiais recicláveis e quinquilharias, como globos de garrafas pet ou colunas de latinhas de alumínio, línguas de sacolas plásticas pelas paredes, orelhões espalhados em três pontos do bar, velhos, inúteis, como estandartes da decadência. Um grande espelho à la "Bonequinha de luxo" na entrada, segundo Dandara. Um casal de proprietários cujas barbas e a simplicidade exigem, no mínimo, dignidade. E conectando o bar ao Capibaribe as tábuas que servem de cais do porto para uma jangadinha devorada pelas traças.

Mas quanto aos dançarinos e o baile - primeiro todos estão sentados, um rapaz escolhe as músicas, primeiro sambinhas inteligentes, cult (porque todos são cult depois do João do Morro), as cervejas vão e vem, pessoas chegam, se reconhecem, se abraçam, mais cerveja e alguém vai para a pista, um mais corajoso.

A festa é definida sempre pela primeira pessoa que pisa na pista, ela é a responsável pela segunda, a terceira e todas as outras. Quando já existem rodas na pista, e tudo é calor, e o suor se confunde com as respirações a festa aproxima-se da apoteose.

E por apoteose eu digo a ignorância à qualquer inteligência. Do samba ao brega, do brega ao funk, e vemos, para qualquer alívio da evolução, moças lindas, engenheiras, psicólogas, envergadas como se envergavam os camponeses em certas torturas medievais enquanto gritam, enlouquecidas "sou uma cachorra!" Amém.

Pena que não dancei, ontem me senti um vouyer: observei muito amiúde a curva dos corpos, o detalhe dos vestidos, como uma moça tirou os sapatos para dançar e como era mais bonito o contato direto e carnal de seu pé com a pista em meio ao furor, ao esquecimento coletivo. Danado é o homem que por amar todos não ama ninguém, o asno.

E é como o relógio que para sempre se repetirá no ponteiro das doze. Dias atrás meus pais me contavam de seus bailes. Idênticos. Há coisas na vida que se repetirão à eternidade: o adultério, o furto, a falta de amor e os bailes de adolescentes, mudarão os instrumentos, mas a partitura permanecerá.

quarta-feira, março 4

Popularesco

A única sabedoria útil é a popular. Não confundamos com a unânime, mas a popular. A do indivíduo popular, da pessoa única, singular, que dentre a maioria e destacando-se como representante da mesma demonstra sabedoria.

O presidente é um nítido exemplo disso, pena que ignore os dizeres e só lembre que veio "do povo" ignorando o "para o povo e pelo povo". A grande inteligência de nosso 'Aurélio às avessas' é a esmola legislada, entregue como uma engrenagem à uma maioria campestre, marginalizada e alienada todos os meses pelas agências do banco do Brasil e postos credenciados.

Mas não é dessa sabedoria egoísta que trato. Trato da sabedoria de Onirê, que na mesa do bar me dizia "Diogo, você nunca vai se realizar como homem enquanto não assumir que é um cafajeste, põe isso na cabeça". E eu, relutante "Mas eu queria amar de verdade, queria experimentar um sentimento!" E ele, me lendo por dentro "Mas você não sonha, não fantasia só com cafajestagem?" Eu "sim, mas... tenho excrúpulos" E ele, definitivo "Então, são esses escrúpulos que te impedem de se realizar".

Fui vencido pela retórica. E pelo carnaval, ora veja. Tantas pessoas pelas ruas, pelas ladeiras, a multidão se funde tão profundamente em nosso espírito que ela nos acompanha à nossa casa, deita em nossa cama e assombra nossos sonhos. Antes da quarta-feira de cinzas já nos deitamos, acordamos e amamos não mais como indivíduo, mas como multidão. E durante as troças, ao passar dos blocos, em cada esquina uma fantasia, e todas solicitas, alegres, repletas de corpo e de fluídos. Nessas condições, ou se morre de solidão ou a folia enraiza na alma da gente.

E a retórica de Onirê foi clara, é preciso amar muito, todos que se puder. É preciso se doar aos outros tanto quanto os outros te desejam. Desejar não é satisfazer suas fantasias, mas satisfazer as alheias. Não digo que ninguém deva deitar-se com buchos porque elas querem, não desejo tal sorte a nenhum companheiro e à nenhuma companheira. Digo apenas que é melhor se dar.

E quanto à se dar e ainda sobre a útilíssima sabedoria popular, conto um causo. Sentaram conosco na mesa do cavanhaque duas amigas e uma fez uma lista das cantadas que recebera no carnaval, entre elas figurava "você pega ônibus? Porque você está no ponto." ou "Aposto um beijo que levo ou fora", etc. etc.

A cantada é um verdadeiro reflexo da cultura e criatividade de um povo. Você não vê literatos, velhos e chatos, publicando suas cantadas. Entratanto uma cantada não é qualquer texto à toa. É preciso o domínio da concisão, da função apelativa ou emotiva, de senso de humor e subtexto, sem falar das qualidades poéticas, como o uso de metáforas ou matonímias. Enfim, uma cantada é uma verdadeira pérola literária popular, como um berro de Dante proferido pela massa.

E isso sim é útil, assim como "cada macaco no seu galho", "passarinho que come pedra sabe o rabo que tem", "quem cochicha o rabo espicha" e tantos outros. A sabedoria acadêmica, que existe de si para si mesma, visando seu enobrecimento, é tão vistosa e vazia quanto as esmolas do Presidente.