quarta-feira, março 11

O banco

Minha dedicação profissional é notável, pelo menos para a literatura. Já à engenharia...

Túlio me ligou "saudade da porra!" eu "Também ouxe, vamos tomar uma no Mercado da Boa Vista?" ele "bora"

Inventei uma entrevista profissional no serviço e fui ver Túlio.

Não importa se você ganha nove ou nove mil reais por mês, não há dinheiro que pague uma uma tarde de papo-furado com um amigo, e Túlio não foge da regra. "Mas o dinheiro da cerveja?" Perguntarão os idiotas do consumo, "se não houvesse dinheiro, sentaríamos num banco de praça e conversariámos do mesmo jeito" eu remendo.

Falando em banco de praça, um protesto. Estava voltando da Aliança Francesa com Lydia Mesquita e Roberto França, futuro professor de inglês da universidade federal e gatinho solteiro, a quem interessar possa conferir no nucleo de línguas do CAC - e é comum sentarmos nos balanços da praça do Derby para batermos papo.

Aquela foi a primeira noite que fizemos isso após a reforma na praça. Aliás, sobre a reforma na praça, perdão minha falta de informação, mas por quê os corredores de areia? Faltaram os blocos, os operários para os blocos ou o dinheiro para os blocos? O governo não costuma aprovar obras sem orçamento e eu duvido que exista um paisagista burro o suficiente para assinar um parque com aqueles grotescos corredores de areia.

Ademais, dinheiro para os funcionários não faltou, foi o que descobrimos eu, Roberto e Lydia, quando um grupo de serventes que pernoita na guarita, no meio do parque, veio nos dizer que não podíamos sentar no balanço, ora veja.

Quase pus um ovo. Primeiro porque o servente lembrava o Leoncio do pica-pau - gordo, bigode de leão marinho e palpebras de Buldog, e nunca me imaginei submisso à Leoncio, culpa do meu ego, claro. Segundo, e me perdoem os defensores dos direitos do uso dos balanços para as crianças, mas o homem não tinha mais nada para fazer?

Já passavam de dez da noite, não havia mais crianças no parque, eu não fico empurrando meninos de dez anos para sentar no balanço. O charme, a poesia está na praça deserta (nem deserta ela fica agora, com os amargos dos serventes) e no movimento humilde do balanço.

Se alguém com mais instrução se dispor a me mostrar que meus assutadores 60 kilos ou os 50 e pouco de Roberto ou a levíssima Lydia são capazes de prejudicar o brinquedo e por tabela as crianças, humilde eu me retrato deste protesto. Mas caso contrário o homem que vá descascar bananas.

Nada mais inconveniente que um amargurado. Os executivos os adoram para posições de chefia, são incansáveis, minuciosos e notavelmente chatos. Meu chefe, por exemplo, mas dele falo depois.

Ignorei sumariamente o homem, compreendi que ele tinha ordens, mas só as exerceu pela própria tristeza que carregava na alma. Mas Roberto e Lydia, aturdidos pelo senso de ordem começaram "Vamos Diogo, não tem mais clima". Por mim só saia levado pela PM.

Contei o caso em casa e meu pai me perguntou "E se a PM pedisse?" eu, muito sério, não vendo o sinistro humor de meu progenitor escondido na pergunta "Eu saia, claro". Os abjetos me verão como um rebelde, um metido. Mas não, a PM tem mais o que fazer, e há sempre uma viatura rondando a praça do Derby, justamente pelos indigentes que rondam o lugar à noite. Outro motivo para a dispensa do servente, que fica ali fazendo nada e enchendo meu saco. E se a PM, que tem mais o que fazer, for se incomodar em me tirar de um balanço, ou eu realmente estou oferecendo um perigo à segurança nacional ou a amargura do servente é sem precedentes, de ambas as formas eu jogaria a toalha branca.

Joguei por Roberto e Lydia, mas aquilo me marcou como o primeiro tapa de um pai marca um filho. Aquele balanço era um lugar meu para ficar sozinho, e o dinheiro dos serventes, que poderia ao menos terminar a obra que sabe Deus por que está pela metade, serve para manter um bando de velhos amargos roubando uma parcela da poesia da cidade do Recife - A solidão de um balanço, na praça deserta, sob a luz sépia dos postes, lado a lado com a multidão do terminal, apressada e atarantado em ir e vir para lugar nenhum.

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