Talvez a coisa mais bonita de um edifício seja o nome. Monstrusidades de concreto, o edifício é um memorial do egoísmo e megalomânia humana, mas observar um e vêlo finalizado, talvez já com algumas infiltrações, talvez com ladrilhos já soltos, talvez com pichações, talvez com o servente já dormindo e ver-se obrigado a vê-lo na sua composição sem um nome que o indentifique é angustiante, quiçá cruel.
Pensei isso quando passando na orla de Piedade encontrei um Edifício com o seguinte nome - Hilda - é quase uma torre de uns nove, dez andares no meio de uma enorme área vazia, me lembrou a torre de Rapunzel. Pensei que talvez fosse uma analogia à Hilda Hilst, um edifício árido e solitário batizado com o nome de uma mulher árida e solitária. Mas isso é mera suposição.
No caminho de Piedade à minha casa ainda há dois que me chamaram a atenção pelos nomes - Vinícius de Moraes e Pasárgada - não que eles tenham algo a ver com a literatura, para mim são depravações da natureza; mas o nome, admito, os preenche de poesia.
Passei a noite de sexta para sábado no último andar de um pequeno prédio em boa viagem, acho que tinha uns seis andares e fica à umas boas seis quadras da beira mar. Ao chegar no último patamar corri aos muros da laje para admirar a vista. E o que vi foi o anão onde eu estava cercado por montes de pedra e granito, foi uma sensação curiosa, no último andar de um prédio de uns seis andares, há algo entre vinte e trinta metros do chão, eu me senti claustrofóbico, não havia paisagem, simplesmente não havia. Há mais de dez metros do chão minha vista não se podia estender além de uns cem metros de horizonte. E olhe lá!
Daí vale olhar o egoísmo humano. Fulano quer ser mais bonito e faz uma casa maior para ter mais vista que Cicrano. Cicrano não quer deixar por menos e constrói uma nova maior que a de Fulano. Beltrano vai lá e supera os dois. Os dois indignados, cada um constrói mais alto para superar Beltrano e quando se pára a ver os cacos dessa guerra, encontramos estilhaços de paisagem destroçados por uma guerra fútil de egos e concreto. Ao passo que se todos tivessem uma casa baixa, humilde, ao fim da tarde, todos poderiam subir em um muro, um teto ou mesmo uma colina próxima e admirar o mar - infinatamente maior que qualquer coisa que um ser humano fará em sua existência.
Inclusive, uma das coisas mais lindas do caminho é o terreno dos Cactos, mostrei-o para dois amigos dia desses que fizeram pouco da minha cara. Entre dois prédios monstruosos da beira mar de Candeias há um terreno completamente abandonado, cercado por um muro de pedra onde crescem cactos, aos montes. Crescem tão livremente que suas folhas violentas e ásperas já rompem o muro e invadem, ainda que timidamente, a calçada.
Meus amigos não puderam entender, entretanto faço votos que o leitor possa. Não há quem regue, não há quem cuide da terra, os cactos passam o dia respirando o stress dos transeuntes e o carbono dos carros. À direita uma monstruosidade de vinte andares, de Fulano; À esquerda outra de vinte e cinco, de Cicrano. No meio, rebelde, inviolável, cactos brotando no meio da cidade cinza como que por mágica, como se as suas palmas verdes e grossas fossem a palma de Deus a implorar pela misericórdia dos homens. Digo mais, eles estão florindo. Não há andares suficientes para encerrar a beleza de uma flor de cacto, minúscula.
Não desmereço o crédito de um arquiteto - edifícios são verdadeiras obras de arte. Mas me perdoem os antropológicos, o que é a arte dos homens frente à arte de Deus?
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segunda-feira, março 30
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