"Os beijinhos de C." é um poema safadinho e perigoso de publicar. Mas eu tinha que publicar que ele é um poema que tem me agoniado faz um tempo. Também que eu gosto de uma polêmica e tudo que é perigoso costuma ser polêmico. Para evitar expor a pessoa que inspirou esse poema suprimi seu nome e mantive apenas a primeira letra. Para os curiosos uma dica: O nome rima com o segundo verso da primeira e segunda estrofes e com o quarto verso da última estrofe.
Os beijinhos de C.
Que falta me fazem os versos
Que falta me fazem as rimas
Mas o que mais me faz falta
São os beijinhos de C.
Pois posso viver sem os versos
Pois posso viver sem as rimas
Mas não sei se posso viver
Sem os beijinhos de C.
Beijinho que é todo dengoso
Beijinho cheio de tempero
Que o gosto amargo dos anos
Varreu e dele mal lembro
Mas ficam teus lábios impressos
Na carne macia da boca
E minha pele 'inda treme
Por teus dedos frios de raposa
O segredo da falta que fazem
Esses beijinhos de C.
É que mais que rima e verso
São eles a minha poesia
domingo, dezembro 20
terça-feira, dezembro 15
O Tambor da Tribo
O tambor da tribo não pára
Nem coa novena do padre
Nem na Andaluza mortalha
Verde e rubro estandarte
Na ilha da Santa Cruzada
Mataram Tupã sem alarde
Muraram a'mplidão de sua casa
O tambor da tribo não pára
Nem com o Pêlo do escambo
Além, muito além da lei Áurea
Chegaram batuques de Congo
Romperam correntes e jaulas
Nos chama às armas de Xangô
Acende ao som da senzala
O tambor da tribo não pára
Punks cult anarco bambas
Os becos são novas senzalas
Olinda tem roda de samba
Que quebra nas moças de Barra
Nas praias de Porto balança
A chapa é quente e escalda
O tambor da tribo da pára
Nem coa novena do padre
Nem na Andaluza mortalha
Verde e rubro estandarte
Na ilha da Santa Cruzada
Mataram Tupã sem alarde
Muraram a'mplidão de sua casa
O tambor da tribo não pára
Nem com o Pêlo do escambo
Além, muito além da lei Áurea
Chegaram batuques de Congo
Romperam correntes e jaulas
Nos chama às armas de Xangô
Acende ao som da senzala
O tambor da tribo não pára
Punks cult anarco bambas
Os becos são novas senzalas
Olinda tem roda de samba
Que quebra nas moças de Barra
Nas praias de Porto balança
A chapa é quente e escalda
O tambor da tribo da pára
sexta-feira, novembro 27
A Máquina
A máquina:
Correia
Pistão
Engrenagem
E gangrena
Sou máquina:
Forma
Fôrma
Pavio
E fogo
-
Carne
Carvão
Lenha
E forno
Fornalha
Fornece
À máquina
Mecânica
Severa
Servente,
A máquina
Me lava
Me veste
Enxágua
Enxuga
E ampara
A máquina:
Me chama
Me ama
Me esquenta
Consola
E abraça
A máquina
Tornou-se
Meu céu
Meu lar
Minha casa
Minha mãe
Meu pai
Minha amada
No centro
A máquina
Amada
Minha amada
Máquina
No centro
Eu dentro
Da máquina,
-
Fornalha
Esquentando
Entrando
Lambendo
Óleo e álcool
Correndo...
Descendo...
Do aço
Ao sexo
Do pistão
De aço
E ferro
Eu
A máquina
O sexo
Eu
Faço sexo
A máquina
Faz sexo
Eu: A máquina
A máquina: Eu
Mecânico
E certeiro,
Programa
Exato
Resete
Do senso
Da pele
E do tato
Delete
Da carne
Da crença
E do feto
Afeto
Defeito
Digito
Dejeto
De chips
De pulso
De resto
A máquina
Fibra ótica
Acetona
E fermento
A máquina
Martelo
E prego
Não pára
Pistão
Não cessa
Prisão
Não rende
Sistema,
Não pensa
A máquina
Não sente
Processa
Precede
Pressinto
O delete
Da raça
Pressinto
A fúria
Da máquina
O magma
Do aço
E do ferro
-
Fervendo
No vento
A folha
De oxigênio
Pistão
Pistilo
Sultão
Sigilo
Ser ventre
Sertão
A máquina
Da seca
A máquina
Da fome
Pistola
Miséria
Fôrma
Do espinho
Engrenagem
Circuito
Sistema
Antena
Serviço
Encaixe
No dente
Com dente
Com placa
Na placa
-
Do sino
Sinal
E ciclo
Desisto
Circuito
Circuito
Mouse
Fone
Tela
Teclado
E modem
A máquina
Escraviza
Minha hora
Minhas noites
A vida
Afora
Já foram
Nos fóruns
-
Da máquina
Nos chats
Da máquina
No msn
Da máquina
No orkut
Da máquina
Meu tempo
Jogado
Fora
No vício
Da máquina:
Escrava
Sedenta
Da carne
Do homem
Sou homem:
Humana
Máquina
Humano
Circuito,
Sistema
De pele
Osso
E tempo
Gatilho
Sedento
De verme
Programa
De código
Genético
Máquina
Corpo
E siso
Abandono
Correia
Engrenagem
Gangrena
De dente
Com dente
A máquina
Martela
Martela
Martela
E mata
Na sede
Na seca
Na ausência
D'água
No fim
Do fim:
Meu ser
Engrenagem
Gangrena
Desespero
E pó
Correia
Pistão
Engrenagem
E gangrena
Sou máquina:
Forma
Fôrma
Pavio
E fogo
-
Carne
Carvão
Lenha
E forno
Fornalha
Fornece
À máquina
Mecânica
Severa
Servente,
A máquina
Me lava
Me veste
Enxágua
Enxuga
E ampara
A máquina:
Me chama
Me ama
Me esquenta
Consola
E abraça
A máquina
Tornou-se
Meu céu
Meu lar
Minha casa
Minha mãe
Meu pai
Minha amada
No centro
A máquina
Amada
Minha amada
Máquina
No centro
Eu dentro
Da máquina,
-
Fornalha
Esquentando
Entrando
Lambendo
Óleo e álcool
Correndo...
Descendo...
Do aço
Ao sexo
Do pistão
De aço
E ferro
Eu
A máquina
O sexo
Eu
Faço sexo
A máquina
Faz sexo
Eu: A máquina
A máquina: Eu
Mecânico
E certeiro,
Programa
Exato
Resete
Do senso
Da pele
E do tato
Delete
Da carne
Da crença
E do feto
Afeto
Defeito
Digito
Dejeto
De chips
De pulso
De resto
A máquina
Fibra ótica
Acetona
E fermento
A máquina
Martelo
E prego
Não pára
Pistão
Não cessa
Prisão
Não rende
Sistema,
Não pensa
A máquina
Não sente
Processa
Precede
Pressinto
O delete
Da raça
Pressinto
A fúria
Da máquina
O magma
Do aço
E do ferro
-
Fervendo
No vento
A folha
De oxigênio
Pistão
Pistilo
Sultão
Sigilo
Ser ventre
Sertão
A máquina
Da seca
A máquina
Da fome
Pistola
Miséria
Fôrma
Do espinho
Engrenagem
Circuito
Sistema
Antena
Serviço
Encaixe
No dente
Com dente
Com placa
Na placa
-
Do sino
Sinal
E ciclo
Desisto
Circuito
Circuito
Mouse
Fone
Tela
Teclado
E modem
A máquina
Escraviza
Minha hora
Minhas noites
A vida
Afora
Já foram
Nos fóruns
-
Da máquina
Nos chats
Da máquina
No msn
Da máquina
No orkut
Da máquina
Meu tempo
Jogado
Fora
No vício
Da máquina:
Escrava
Sedenta
Da carne
Do homem
Sou homem:
Humana
Máquina
Humano
Circuito,
Sistema
De pele
Osso
E tempo
Gatilho
Sedento
De verme
Programa
De código
Genético
Máquina
Corpo
E siso
Abandono
Correia
Engrenagem
Gangrena
De dente
Com dente
A máquina
Martela
Martela
Martela
E mata
Na sede
Na seca
Na ausência
D'água
No fim
Do fim:
Meu ser
Engrenagem
Gangrena
Desespero
E pó
segunda-feira, novembro 9
Ode à mulher vanguardista
Mulheres, montanhas de pele
Encarnada, encantadas
Qual o quê? Desgraçadas
Que a tragédia as aguarda
A tragédia da indiferença
A tragédia de não saber, de não ser
E sexismos nas costas, de duas guerras
E muito trabalho, malditas sejam
Suas lágrimas, perdição do homem
E mais ainda da raça
A doce maçã vitimada na cobra
Na mãe Joana, tem muita mulher
Afogada na lama, a luxuria do duplo
A beleza das camas, as cores vibrantes
Da cobra e do peixe as escamas
Do urucum a imagem
Das ancas, das saias
Se saia! Mal chega e esvoaça
Com a ponta dos saltos
Derruba esta casa
E a boca matraca fuxica galinha
Não pára
Não cála
Só fala e fala e fala e fala e
Estraga e amarga
Num beijo estranho de língua afiada
Tal faca, mulher, tua língua
É aço de navalha
É pura soda cáustica
O fim absoluto de toda masculina
Lógica
Encarnada, encantadas
Qual o quê? Desgraçadas
Que a tragédia as aguarda
A tragédia da indiferença
A tragédia de não saber, de não ser
E sexismos nas costas, de duas guerras
E muito trabalho, malditas sejam
Suas lágrimas, perdição do homem
E mais ainda da raça
A doce maçã vitimada na cobra
Na mãe Joana, tem muita mulher
Afogada na lama, a luxuria do duplo
A beleza das camas, as cores vibrantes
Da cobra e do peixe as escamas
Do urucum a imagem
Das ancas, das saias
Se saia! Mal chega e esvoaça
Com a ponta dos saltos
Derruba esta casa
E a boca matraca fuxica galinha
Não pára
Não cála
Só fala e fala e fala e fala e
Estraga e amarga
Num beijo estranho de língua afiada
Tal faca, mulher, tua língua
É aço de navalha
É pura soda cáustica
O fim absoluto de toda masculina
Lógica
segunda-feira, outubro 19
prece para a noite de 17/10/09
Senhor,
Me faltam as palavras para falar da mulher amada
Mas o violão tem chorado muito, obrigado
Como se as cordas vibrassem melhor
Se as toco com os dedos melados de amor
E que melaço esse amor que me arranjasse
Senhor,
Que está difícil fazer as coisas mais simples
Trabalhar mesmo anda um verdadeiro suplício
Tudo que faço e quero é chorar nas cordas
As belas cordas da minha viola
Que por fazerem sons puros e belos
São o elo mais forte que tenho com minha amada
Que mora longe
O que é um saco!
Mas só a voz melódica da viola, somente ela
Pois não há palavra ou poema
Ou que quer que seja
Que eu possa fazer agora, angustiante hora
De inércia da mente, onde o corpo vaza
E o peito é uma bomba relógio
Que hora esse ócio!
Devia ter esperado
Às vezes arrependo por não ter adiado
Esse amor mais um cadinho
Ando tão ocupado, meu Deus!
Tão ocupado!
Que talvez não fosse hora
De ter me apaixonado
Mas agora o mal já está malfadado
E confirmado por testemunhas
E só nelas que penso
Não nas testemunhas
Mas nela nela
Nela a donzela
Nela a imagem
Repetida ao infinito da minha passarela
Aí Senhor, daí forças
Para pensar em outras coisas
Pensar em coisas boas
E produtivas
Que este amor está repleto
Em minhas retinas
Alguém deveria ter me detido
Quando todos me incentivaram
Senhor, agora, o que eu faço?
Me matar não me mato, não sou tão fraco
Mas quanta irresponsabilidade
Quanta leseira
Essa mulher, agora eu sei
Deve ser feiticeira
Aí que feitiço!
Que não penso em mais nada
Que só vejo o momento
De gritar: Amada!
Já há tanto desejada
Já há tanto esperada
E agora presente
Agora cara à cara
Face à face
Tapa à tapa
Em beijos sem fim
Aí de mim! Aí de mim!
Que ridículo, que pateta
Me sinto com dez anos de idade
Minhas experiências no amor:
Tudo que aconteceu antes
Meus versos de Vinícius
Um Gregório de Matos
Foi tudo por água abaixo
Tudo parece tão inútil
E tão infértil
Se comparado à essa memória viva e pagã
De tua saliva sabor minério
Sabor matéria e deletério
Sabor ácido sulfúrico
Lírico
Onírico
E único
Olha quanto devaneio, olha quanto discurso!
Senhor, me tira dessa fossa!
Não por mim, mas pelas pessoas
Que de mim dependem, não faço mais nada
Não lavo nem uma louça
Não leio nem um livro
Não escrevo meia linha
Que não comece com:
Amada, desejada, querida...
E diminutivos terríveis
Impensáveis!
Senhor, eu tô lascado!
Vou ouvir não vai ser pouco
Serei martirizado,
Vagabundo! Aluado! Irresponsável
E ninguém entederá, nunca
Que de todos os adjetivos
Só me interessa
O que os resume:
Apaixonado!
E por amar demais
E fazer de menos...
Pelos colegas de trabalho
Amigos
E professores
Serei crucificado.
Aí Senhor, que saco!
Esse coração apertado
Batendo com a gota
Agourento
Apaixonado...
terça-feira, setembro 29
Noitango
Está escuro
E os cães cortam o pátio
Dançam um tango de patas trocadas
Em meio ao fumo dourado das lâmpadas
Está denso, fechado
A alma do prédio sabe à fome das formigas
E o som de um piano toca na escuridão
Como tocam em silêncio nossas mãos amigas
Um diamante míngua na ronda da noite
Está escuro:
- São as horas, meu amor, são as horas!
- Meu Deus, meu Deus, já são que horas?
- Já a noite avançou, absurda senhora.
O orvalho perfuma a chegada da aurora
E o dia é a faca para irmos embora.
- Por favor, adiemos a luz por agora
E cantemos na treva a última trova
Surdamente:
- Tremendo o assovio do lábio que chora
Na última nota:
- Tremendo o assovio do lábio que chora
Está frio, está fosco
Uma névoa atravessa e recorta as cortinas
O dia ainda não está aqui
Mas sua sombra desenha
Onde os cachorros dançaram antes
Havia um vento que pesava à matéria
E um roçar que enroscava na alma
Também havia a impressão de seu rosto
Nítida como um gosto de pele
Estou breve, clareando
Como um tempo que retorna ao foco
Ou um véu que rompe o espaço
Diáfano
Os ponteiros me roubam a impressão de teus lábios
Trágico
Ecoa na pele o calor de outro corpo
Encontro
Uma buzina dilata o horizonte
Distante
Um som de pneu recompõe o quadro
Pedaço
Um gume de sol esfarela o tango
Pranto
Os dedos se partem como a quebra do átomo
Rádio
O fim da história é um fade em branco
Branco
E há muito os cães abandonaram o pátio
E os cães cortam o pátio
Dançam um tango de patas trocadas
Em meio ao fumo dourado das lâmpadas
Está denso, fechado
A alma do prédio sabe à fome das formigas
E o som de um piano toca na escuridão
Como tocam em silêncio nossas mãos amigas
Um diamante míngua na ronda da noite
Está escuro:
- São as horas, meu amor, são as horas!
- Meu Deus, meu Deus, já são que horas?
- Já a noite avançou, absurda senhora.
O orvalho perfuma a chegada da aurora
E o dia é a faca para irmos embora.
- Por favor, adiemos a luz por agora
E cantemos na treva a última trova
Surdamente:
- Tremendo o assovio do lábio que chora
Na última nota:
- Tremendo o assovio do lábio que chora
Está frio, está fosco
Uma névoa atravessa e recorta as cortinas
O dia ainda não está aqui
Mas sua sombra desenha
Onde os cachorros dançaram antes
Havia um vento que pesava à matéria
E um roçar que enroscava na alma
Também havia a impressão de seu rosto
Nítida como um gosto de pele
Estou breve, clareando
Como um tempo que retorna ao foco
Ou um véu que rompe o espaço
Diáfano
Os ponteiros me roubam a impressão de teus lábios
Trágico
Ecoa na pele o calor de outro corpo
Encontro
Uma buzina dilata o horizonte
Distante
Um som de pneu recompõe o quadro
Pedaço
Um gume de sol esfarela o tango
Pranto
Os dedos se partem como a quebra do átomo
Rádio
O fim da história é um fade em branco
Branco
E há muito os cães abandonaram o pátio
Para Astor e Patrícia
segunda-feira, setembro 28
Domingo, onze e meia da noite
Para quem ligo e confesso minha saudade? Para as mulheres que me abandonaram ou para as que abandonei? Para os amigos que me esqueceram ou para os que esqueci? Na verdade, entre mortos e feridos ninguém é inocente.
Não há inocência, nem trégua. Para o coração iniciado nas batalhas do amor todos os dias são dias de guerra, de luta árdua e inútil como são sempre os conflitos armados e o coração bate ao som das marchas militares se questionando se hoje é dia de morrer ou de matar.
Assim, neste quarto silêncioso e sem vida, meu coração é como o soldado já tão habituado às batalhas que só encontra paz no barulho das granadas e entre o aço das espadas. Que se entende vivo por ver a morte nos olhos, bem de perto.
Neste quarto de paredes brancas e luz fria, neste silêncio sepulcral, sinto definhar como muralhas a flor desta lira.
Como os domingos são tediosos, meu Deus! E esse telefone que não toca, esse e-mail que não chega! Queria que meus amigos entendessem que não ligo para eles porque tenho pudores de incomodá-los de meia em meia hora com minhas carências. Meus afetos, modéstia aparte, são pessoas importantes e ocupadas, tenho vergonha de querê-los só pra mim, para os carinhos que venho guardando de meia em meia hora, para toda essa saudade cá comigo, a fim de vazar.
Queria mesmo que eles pressentissem, por esses mistérios da amizade, minha saudade e lembrassem de mim. Talvez verdadeiras amizades não devessem ter pudores, e as mulheres que fiz sofrer não mais sofressem e as pelas quais sofri se arrependessem. Mas aí já é querer demais.
Vou dormir, amanhã é outro Sol.
Não há inocência, nem trégua. Para o coração iniciado nas batalhas do amor todos os dias são dias de guerra, de luta árdua e inútil como são sempre os conflitos armados e o coração bate ao som das marchas militares se questionando se hoje é dia de morrer ou de matar.
Assim, neste quarto silêncioso e sem vida, meu coração é como o soldado já tão habituado às batalhas que só encontra paz no barulho das granadas e entre o aço das espadas. Que se entende vivo por ver a morte nos olhos, bem de perto.
Neste quarto de paredes brancas e luz fria, neste silêncio sepulcral, sinto definhar como muralhas a flor desta lira.
Como os domingos são tediosos, meu Deus! E esse telefone que não toca, esse e-mail que não chega! Queria que meus amigos entendessem que não ligo para eles porque tenho pudores de incomodá-los de meia em meia hora com minhas carências. Meus afetos, modéstia aparte, são pessoas importantes e ocupadas, tenho vergonha de querê-los só pra mim, para os carinhos que venho guardando de meia em meia hora, para toda essa saudade cá comigo, a fim de vazar.
Queria mesmo que eles pressentissem, por esses mistérios da amizade, minha saudade e lembrassem de mim. Talvez verdadeiras amizades não devessem ter pudores, e as mulheres que fiz sofrer não mais sofressem e as pelas quais sofri se arrependessem. Mas aí já é querer demais.
Vou dormir, amanhã é outro Sol.
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terça-feira, maio 5
A bailarina sem corpo
Uia, quanto tempo que não escrevo aqui. Primeiro espero com todas as forças aqui no blog uma "crônica dos brothers" escrita por Túlio Albuquerque, com muita idealização do Túlio, o primeiro romântico do novo século.
Falando no novo século, festival do Palco Giratório acontecendo na cidade com muitas apresentações de tudo cunté tipo de coisa, o link para a programação é esse:
http://www.sesc-pe.com.br/palco_2009/index.asp
Confiram. Falando no palco vou falar também da politicagem que invade e corrompe a arte, que só é pura enquanto é pobre. A peça de estréia foi "Castanha sua cor", do grupo Grial Recife, que nunca ouvi falar antes, dito dança contemporânea, dirigido por Maria Paula Costa Rêgo e Eric Valença, com uma mulher chamada Maria Paula no elenco, que nunca ouvi falar, ignorância minha, claro. Música de Helder vasconcelos e Direção de arte de Dantas Suassuna.
Quanto ao espetáculo, é uma porcaria. O que me faz conjecturar que as celebridades na produção são as responsáveis pela blindagem do espetáculo à curadoria do palco giratório, de qualidade incontestável, ou talvez cujo único fraco seja a política, câncer da humanidade.
Maria Paula, seja ela quem for, é uma bailarina gorda, caucasiana e despreparada, cujo corpo não responde com a prontidão e energia necessárias a quem se diz uma bailarina, e sua exposição no palco foi, por baixo, vergonhosa. Além, seu figurino era sumário da cintura para baixo, o que apenas ressaltava sua inconsciência corporal.
Não estou dizendo que os bailarinos devem ser todos magros e músculosos, mas devem, e é sim dever de qualquer bailarino, assim como é dever do ator representar com verdade, ser cônscio do próprio corpo, não são as celulites da bailarina que são feias, é ela fingir que não as tem e querer agir como se não as tivesse. Se o corpo dela tem limitações, como o de todo mundo, ela deveria, óbvio, usar essas limitações, pois ao ignorá-las, elas a traem.
Sem falar que esses espetáculos contemporâneos sempre correm o risco de serem 'esquisitos' e esse foi, uma amiga minha saiu dizendo "me senti burra, não entendi nada", e não é pela falta de conhecimento do público, é pela má organização do espetáculo; que não precisa ser verborrágico, mas deve, no mínimo, ser claro e verdadeiro em seus signos, e eles passaram longe disso.
Quem salvou meu tédio foi Sebastião Martelo, mestre de cavalo marinho que fazia ele mesmo mas fazia muito bem e foi ovacionado da maneira correta, em contraponto à bailarina, que se recebeu duas palmas deveria dormir feliz.
Falando no novo século, festival do Palco Giratório acontecendo na cidade com muitas apresentações de tudo cunté tipo de coisa, o link para a programação é esse:
http://www.sesc-pe.com.br/palco_2009/index.asp
Confiram. Falando no palco vou falar também da politicagem que invade e corrompe a arte, que só é pura enquanto é pobre. A peça de estréia foi "Castanha sua cor", do grupo Grial Recife, que nunca ouvi falar antes, dito dança contemporânea, dirigido por Maria Paula Costa Rêgo e Eric Valença, com uma mulher chamada Maria Paula no elenco, que nunca ouvi falar, ignorância minha, claro. Música de Helder vasconcelos e Direção de arte de Dantas Suassuna.
Quanto ao espetáculo, é uma porcaria. O que me faz conjecturar que as celebridades na produção são as responsáveis pela blindagem do espetáculo à curadoria do palco giratório, de qualidade incontestável, ou talvez cujo único fraco seja a política, câncer da humanidade.
Maria Paula, seja ela quem for, é uma bailarina gorda, caucasiana e despreparada, cujo corpo não responde com a prontidão e energia necessárias a quem se diz uma bailarina, e sua exposição no palco foi, por baixo, vergonhosa. Além, seu figurino era sumário da cintura para baixo, o que apenas ressaltava sua inconsciência corporal.
Não estou dizendo que os bailarinos devem ser todos magros e músculosos, mas devem, e é sim dever de qualquer bailarino, assim como é dever do ator representar com verdade, ser cônscio do próprio corpo, não são as celulites da bailarina que são feias, é ela fingir que não as tem e querer agir como se não as tivesse. Se o corpo dela tem limitações, como o de todo mundo, ela deveria, óbvio, usar essas limitações, pois ao ignorá-las, elas a traem.
Sem falar que esses espetáculos contemporâneos sempre correm o risco de serem 'esquisitos' e esse foi, uma amiga minha saiu dizendo "me senti burra, não entendi nada", e não é pela falta de conhecimento do público, é pela má organização do espetáculo; que não precisa ser verborrágico, mas deve, no mínimo, ser claro e verdadeiro em seus signos, e eles passaram longe disso.
Quem salvou meu tédio foi Sebastião Martelo, mestre de cavalo marinho que fazia ele mesmo mas fazia muito bem e foi ovacionado da maneira correta, em contraponto à bailarina, que se recebeu duas palmas deveria dormir feliz.
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terça-feira, abril 21
Tiradentes
Prece nº21
Senhor, que onde ela existir eu exista
E as distâncias sejam todas destruídas
E os quilometros não mais contem
E os dias não mais atrasem
Para que nossa presença seja completa
E eu possa existir na pele dela
Como ela existe no meu sangue
Pai, que o tempo da ausência
Seja dias, meses ou anos
Nunca passe de um suspiro
Se comparado ao reencontro
E que todas as barreiras caiam
E os muros de pedra virem areia
A dançar no som de minhas músicas
Futuras e passadas. Que o som presente
Seja o estalo de nossos lábios
O ranger de nossas unhas
O roçar de nossas pernas
E o suspiro de nosso olhos
Apenas
Lorde, fazei do dia de hoje
O laço invisível de nosso amor
E me ata nos pensamentos da mulher amada
Para que mesmo distante
Eu possa senti-la, acaso sofra
Acarinhá-la, acaso chore
Ir, acaso chame
Amém
Senhor, que onde ela existir eu exista
E as distâncias sejam todas destruídas
E os quilometros não mais contem
E os dias não mais atrasem
Para que nossa presença seja completa
E eu possa existir na pele dela
Como ela existe no meu sangue
Pai, que o tempo da ausência
Seja dias, meses ou anos
Nunca passe de um suspiro
Se comparado ao reencontro
E que todas as barreiras caiam
E os muros de pedra virem areia
A dançar no som de minhas músicas
Futuras e passadas. Que o som presente
Seja o estalo de nossos lábios
O ranger de nossas unhas
O roçar de nossas pernas
E o suspiro de nosso olhos
Apenas
Lorde, fazei do dia de hoje
O laço invisível de nosso amor
E me ata nos pensamentos da mulher amada
Para que mesmo distante
Eu possa senti-la, acaso sofra
Acarinhá-la, acaso chore
Ir, acaso chame
Amém
segunda-feira, abril 20
Apresentando-me!
Olá a todos!! Bem, como Diogo disse, ele abriu o blog dele (só o blog) para outras pessoas, convidadas, postarem, e eu sou uma delas.
Meu nome é Onirê, tenho 20 anos, e sou um orc que sofre alguns surtos filosóficos de vez em quando (principalmente depois de uma cerveja - que, álias, me proporciona o melhor jeito de ficar bêbado - e outros sucos etílicos). Como Diogo é uma bi... Quero dizer, um rapaz muito ocupado, eu de vez em quando venho postar alguma loucura por aqui. Espero que cês curtam, e ajudem-me a tornar-me um escritor mais decente. XD
Enfim...
Fui povo.
o/
Meu nome é Onirê, tenho 20 anos, e sou um orc que sofre alguns surtos filosóficos de vez em quando (principalmente depois de uma cerveja - que, álias, me proporciona o melhor jeito de ficar bêbado - e outros sucos etílicos). Como Diogo é uma bi... Quero dizer, um rapaz muito ocupado, eu de vez em quando venho postar alguma loucura por aqui. Espero que cês curtam, e ajudem-me a tornar-me um escritor mais decente. XD
Enfim...
Fui povo.
o/
domingo, abril 19
No dia seguinte
Somos cínicos emocionais. Conceito do novo século, se o século XX será lembrado como os cem anos da velocidade absurda, do liberalismo e mecanização de nosso ser emocional. O novo século ressurge resgatando o valor do sentimento, relegado ao segundo plano, mas juntando-o com as 'asinhas de fora' que ganhamos anteriormente. Afinal, é difícil pensar em amor e moral como pensávamos antes da queima dos sutiãs, da eleição de Obama e coisas parecidas.
Isso porque somos todos uns antigos, quando digo todos, me refiro logicamente aos ratos. Túlio mesmo, é tão antigo que digita no teclado catando milho, quer dizer, feijão, acabo de ser informado que no sudeste se cata milho e nordeste feijão, ou fava, ou o que for.
Enfim, não dá pra dizer que quem ouve Chico Buarque nos tempos de João do Morro é um antenado, deixamos esse legado para os mangue boys. Não tenho certeza se fazemos por bem ou mal, mas às vezes somos verdadeiras personagens de "Álbum de Família" de mestre Nelson. É um tal amor que fulano que estava com cicrana ontem, hoje conheceu Beltrana, e levou ela para casa no meio da favela de Candeias, tão excitado que teve que dormir com ela, nem que fosse por uma noite.
Ou então às vezes estamos perdidos, sem ter quem amar - além de todo mundo, mas amar todo mundo também cansa - e temos que olhar para quem está só e dizer coisas como "Seu cabelo é tão volumoso" e beijar, como quem não tem mais amor para conter, como quem precisa se dar.
Onde está o cinismo? No dia seguinte contar tudo a todos, sem pudor, aí temos um traço do cinismo emocional; No dia seguinte olhar para todos com a cara mais lavada do mundo, fingindo que nada aconteceu; No dia seguinte voltar para a casa de antigos amores e passar horas lá, enquanto chove, fingindo que nada aconteceu.
Por quê, meu Deus, por quê: Como amar a todos amando um de cada vez? Por isso somos cínicos emotivos, por isso Chico Buarque vem nos salvar, de vez em quando pelo menos.
P.S - Dentro da nova proposta (ou propósta) comunitária do blog, essa crônica é escrita e assinada por Bruna Barros e Diogo Testa.
Isso porque somos todos uns antigos, quando digo todos, me refiro logicamente aos ratos. Túlio mesmo, é tão antigo que digita no teclado catando milho, quer dizer, feijão, acabo de ser informado que no sudeste se cata milho e nordeste feijão, ou fava, ou o que for.
Enfim, não dá pra dizer que quem ouve Chico Buarque nos tempos de João do Morro é um antenado, deixamos esse legado para os mangue boys. Não tenho certeza se fazemos por bem ou mal, mas às vezes somos verdadeiras personagens de "Álbum de Família" de mestre Nelson. É um tal amor que fulano que estava com cicrana ontem, hoje conheceu Beltrana, e levou ela para casa no meio da favela de Candeias, tão excitado que teve que dormir com ela, nem que fosse por uma noite.
Ou então às vezes estamos perdidos, sem ter quem amar - além de todo mundo, mas amar todo mundo também cansa - e temos que olhar para quem está só e dizer coisas como "Seu cabelo é tão volumoso" e beijar, como quem não tem mais amor para conter, como quem precisa se dar.
Onde está o cinismo? No dia seguinte contar tudo a todos, sem pudor, aí temos um traço do cinismo emocional; No dia seguinte olhar para todos com a cara mais lavada do mundo, fingindo que nada aconteceu; No dia seguinte voltar para a casa de antigos amores e passar horas lá, enquanto chove, fingindo que nada aconteceu.
Por quê, meu Deus, por quê: Como amar a todos amando um de cada vez? Por isso somos cínicos emotivos, por isso Chico Buarque vem nos salvar, de vez em quando pelo menos.
P.S - Dentro da nova proposta (ou propósta) comunitária do blog, essa crônica é escrita e assinada por Bruna Barros e Diogo Testa.
sexta-feira, abril 17
Chamado Ratatônico de Praia
Ahn, mais uma postadora aqui \o/
Não faço crônicas tão bem quanto diogo, mas pelo menos isso aqui vai continuar bem humorado =]
Sem muitas novidades por hora, vou tentar fazer com que as novidades surjam:
Porque tem muito ratinho precisando de um bronze.
quinta-feira, abril 16
Antes e Depois
Queria jogar video-game, acordei ontem com uma vontade furiosa de jogar video-game. Mas aí comecei a escrever num blog, no outro e já sabem né, vídeo-game se tornou apenas uma vontade roendo meu espírito, azar.
Bruninha andou viajando e ganhou um apelido: bêbada. Ele bebeu demais na viagem? Não. Mas toda santa foto que bateram dela... Já sabem, lá estava a garrafinha, ornamental.
Até porque, como já disse antes, o alcoolismo é um estado de espírito muito antes de biológico. A garrafa é um simbolo, um ícone, uma bandeira sobre a qual nos reunimos. Por isso que bruninha, mesmo que inteiramente sóbria durante toda a viagem, preservou-se perto da garrafa, para nos inspirar a todos. Temos que admitir, que bruninha, viajando o tanto que viaja (em ambos os sentidos) e galega, dos cabelos encaracolados, o 'leãozinho' do veloso é uma verdadeira musa. Sem falar de sua voz, linda quanto canta, engraçadíssima no Jiglypuf.
O que é o Jiglypuf? Um pokémon, logicamente. Para quem assistiu, um pokémon com o poder de adormecer os outros com seu canto, e foi assim que mazelados pela madrugada ardente ouvindo uma música em francês linda que tenho certeza que bruninha terá a bondade de dizer qual foi depois aqui no blog nós - Eu, Lis, Dandara, e Bruninha - inventamos o 'Jinkalinka back'n vocals' coro de back vocal que sintoniza qualquer melodia com o 'jinkaalinka, jinkalin...iinka' enobrecendo a música como um todo.
Falando nisso, as primeiras considerações do chamado ratônico. Como era de praxe, quase que estrago tudo mergulhando na piscina e gritando como um louco. Mil perdões pela milésima vez.
Tulinho fazia aniversário na semana seguinte e decidimos dar uma festa surpresa, assim que cheguei estavam todos enchendo bexiguinhas rosa e dispondo chapéu cônicos do Herby, o fusquinha, para que entrássemos no clima de festa, realmente a cara de Tulinho, inclusive para deixar claro meu ponto, decidi fazer um antes de depois, para explicar ao leitor o que os vinte anos podem fazer à uma pessoa:


Espero ser perdoado por isso, mas uma imagem vale por mil palavras. Como dizia, queria mesmo ter enchido a piscina de balões rosa, mas infelizmente não tive tempo. O bolo, por outro lado, estava delicioso, parabéns as cozinheiras. Por isso que eu sempre digo, lugar de mulher é na cozinha. Se eu e Onirê tivéssemos cozinhado o bolo, por exemplo, alguém conseguiria comê-lo? Não sei das destrezas culinárias de Onirê, é verdade, mas tenho as sutil suspeita que se cozinhássemos algo o resultado ficaria entre coriza e o esmalte.
Onirê tentou algumas frases de efeito mas não estava bêbado o suficiente, e quando finalmente atingiu o nirvana do rato, quem estava bêbado o suficiente era eu, então infelizmente não posso agora reproduzir sua sabedoria. Ele deveria andar com um linotipista atrás dele, registrando tudo que ele fala.
Por hora é só. Mas passagens do chamado ratônico no próximo capítulo. Não percam.
Bruninha andou viajando e ganhou um apelido: bêbada. Ele bebeu demais na viagem? Não. Mas toda santa foto que bateram dela... Já sabem, lá estava a garrafinha, ornamental.
Até porque, como já disse antes, o alcoolismo é um estado de espírito muito antes de biológico. A garrafa é um simbolo, um ícone, uma bandeira sobre a qual nos reunimos. Por isso que bruninha, mesmo que inteiramente sóbria durante toda a viagem, preservou-se perto da garrafa, para nos inspirar a todos. Temos que admitir, que bruninha, viajando o tanto que viaja (em ambos os sentidos) e galega, dos cabelos encaracolados, o 'leãozinho' do veloso é uma verdadeira musa. Sem falar de sua voz, linda quanto canta, engraçadíssima no Jiglypuf.
O que é o Jiglypuf? Um pokémon, logicamente. Para quem assistiu, um pokémon com o poder de adormecer os outros com seu canto, e foi assim que mazelados pela madrugada ardente ouvindo uma música em francês linda que tenho certeza que bruninha terá a bondade de dizer qual foi depois aqui no blog nós - Eu, Lis, Dandara, e Bruninha - inventamos o 'Jinkalinka back'n vocals' coro de back vocal que sintoniza qualquer melodia com o 'jinkaalinka, jinkalin...iinka' enobrecendo a música como um todo.
Falando nisso, as primeiras considerações do chamado ratônico. Como era de praxe, quase que estrago tudo mergulhando na piscina e gritando como um louco. Mil perdões pela milésima vez.
Tulinho fazia aniversário na semana seguinte e decidimos dar uma festa surpresa, assim que cheguei estavam todos enchendo bexiguinhas rosa e dispondo chapéu cônicos do Herby, o fusquinha, para que entrássemos no clima de festa, realmente a cara de Tulinho, inclusive para deixar claro meu ponto, decidi fazer um antes de depois, para explicar ao leitor o que os vinte anos podem fazer à uma pessoa:
Antes

Depois

Espero ser perdoado por isso, mas uma imagem vale por mil palavras. Como dizia, queria mesmo ter enchido a piscina de balões rosa, mas infelizmente não tive tempo. O bolo, por outro lado, estava delicioso, parabéns as cozinheiras. Por isso que eu sempre digo, lugar de mulher é na cozinha. Se eu e Onirê tivéssemos cozinhado o bolo, por exemplo, alguém conseguiria comê-lo? Não sei das destrezas culinárias de Onirê, é verdade, mas tenho as sutil suspeita que se cozinhássemos algo o resultado ficaria entre coriza e o esmalte.
Onirê tentou algumas frases de efeito mas não estava bêbado o suficiente, e quando finalmente atingiu o nirvana do rato, quem estava bêbado o suficiente era eu, então infelizmente não posso agora reproduzir sua sabedoria. Ele deveria andar com um linotipista atrás dele, registrando tudo que ele fala.
Por hora é só. Mas passagens do chamado ratônico no próximo capítulo. Não percam.
Vamos às apresentações.
Diogo me pediu pra dar uma ajuda a ele com o blog. Ele é um rapaz muito atarefado, como todo artista, faz três mil e quatrocentas coisas ao mesmo tempo, desde peças de teatro e roteiros pro cinema, a amar e farrear, enfim. Gostei disso de escrever umas crônicas aqui, e da ideia de convidar outras pessoas pra escreverem também. Esse era mais ou menos o propósito inicial da Bodega do Rato, eu ia chamar todos os ratos pra postarem nela, ia ser algo "público". Mas aos poucos o sentido da coisa foi mudando e eu havia desistido (ao menos por agora) de abrir o blog aos ratos. Acabou que Diogo decidiu por mim e abriu o DesConceito.
Então é isso, a partir de hoje vou dar as caras nesse espaço contando os acasos da rataria e os causos desse mundo.
Aos ratos e não ratos, Ratão!
Então é isso, a partir de hoje vou dar as caras nesse espaço contando os acasos da rataria e os causos desse mundo.
Aos ratos e não ratos, Ratão!
quarta-feira, abril 15
abertura
breve aviso. Abri o blog para outros autores, tá foda escrever a coluna todo dia entre as tantas outras coisas que ando fazendo. Agradeço pela força que de quem se dispuser, e se houver alguém que deseje e não recebeu o convite, basta entrar em contato comigo que o mando
O músico
Lúcio Mendonça é compositor e grande amigo. Escreve uma poesia rara, rica em metáforas das coisas mais simples da vida, como um copo de cerveja ou um aperto de mão.
Nunca acertou no amor entretanto. No filme do Woody Allen "Vicky Christina Barcelona" há um narrador que diz a respeito da personagem de Javier Barden, que é artista plástico "e como todo artista, ele não sabia viver sem a companhia de uma mulher". Ponho um adendo na frase "e não saberá nuna viver na companhia de apenas uma". Na última crônica discuti o quanto a sensibilidade de artista pode sensibilizar em excesso o heterossexual, hoje discuto o quanto a inquietação de artista pode inquietar em excesso o monogâmo, modelo de nossa sociedade.
Assim é com Lúcio, tadinho. No filme The Spirit (uma porcaria, não assistam) tem uma frase mais ou menos assim "Você é apaixonado por toda mulher que conhece, e ama a todas do seu jeito", mais ou menos isso. Assim é Lúcio, tadinho - ama tudo, todas e um bocado; Mas seu envolvimento com mulheres tem sempre um prazo fixo - uma música. Já chegou a me dizer, outro dia - 'Diogo, não seria lindo se eu fizesse uma música pra cada mulher que eu conhecesse, mas uma música de verdade, a altura de fulana?" Eu achei lindo.
Até ver a galeria das desquitadas, e o pior é ouvir a música, hoje para mim sempre a 'música da véspera' e ver em cada nota as curvas do corpo da fulana da vez, ver na letra da música os sorrisos, os trejeitos de olhar com a certeza que no dia seguinte ele romperá com ela.
Quer dizer, o que é isso? Há realmente os casos de pessoas tão devotadas à própria arte que esquecem da existência mundana para enobrecê-la. Mas não sei, não sei.
Sei de Martinha, cuja música me foi apresentada ontem, é linda. Que será dela hoje?
Nunca acertou no amor entretanto. No filme do Woody Allen "Vicky Christina Barcelona" há um narrador que diz a respeito da personagem de Javier Barden, que é artista plástico "e como todo artista, ele não sabia viver sem a companhia de uma mulher". Ponho um adendo na frase "e não saberá nuna viver na companhia de apenas uma". Na última crônica discuti o quanto a sensibilidade de artista pode sensibilizar em excesso o heterossexual, hoje discuto o quanto a inquietação de artista pode inquietar em excesso o monogâmo, modelo de nossa sociedade.
Assim é com Lúcio, tadinho. No filme The Spirit (uma porcaria, não assistam) tem uma frase mais ou menos assim "Você é apaixonado por toda mulher que conhece, e ama a todas do seu jeito", mais ou menos isso. Assim é Lúcio, tadinho - ama tudo, todas e um bocado; Mas seu envolvimento com mulheres tem sempre um prazo fixo - uma música. Já chegou a me dizer, outro dia - 'Diogo, não seria lindo se eu fizesse uma música pra cada mulher que eu conhecesse, mas uma música de verdade, a altura de fulana?" Eu achei lindo.
Até ver a galeria das desquitadas, e o pior é ouvir a música, hoje para mim sempre a 'música da véspera' e ver em cada nota as curvas do corpo da fulana da vez, ver na letra da música os sorrisos, os trejeitos de olhar com a certeza que no dia seguinte ele romperá com ela.
Quer dizer, o que é isso? Há realmente os casos de pessoas tão devotadas à própria arte que esquecem da existência mundana para enobrecê-la. Mas não sei, não sei.
Sei de Martinha, cuja música me foi apresentada ontem, é linda. Que será dela hoje?
segunda-feira, abril 13
O armário
Eita, tempo de renascer. Mas renascer não é sair do armário, se controlem, moças e rapazes.
Estou falando de Ópera, espetáculo do coletivo Angu de Teatro em pauta até próxima sábados e domingos no Teatro Apolo, às 21:30, que aborda o universo homossexual e dá pontadas também na sua relação com a arte contemporânea.
Isso é algo que sempre me perguntei, e nunca me perguntei pouco. Existem homossexuais em todos os lugares óbvio, mas os do meio artístico são mais óbvios que os outros. Não são estereotipados, cada um é cada um, uns mais escandalosos, outros mais discretos, uns falam da própria condição, outros falam da condição dos heterossexuais com mais sensibilidade que alguns dos próprios heterossexuais, uns são politicos... enfim; mas sua presença é marcante e desperta minha curiosidade acerca do assunto.
Eu fico me perguntando coisas como - é necessário mais sensibilidade para gostar do semelhante fisiológico? Eu procuro entender o que essa distorção de orientação causa na alma da pessoa e o que nisso a aproxima da sensibilidade e fazer artístico.
E até os heteros artistas são meio homossexuais. Os ratos, por exemplo. Para uma pessoa formada nos generalismos da classe média recifense, o primeiro contato com o movimento do ratão pode parecer uma verdadeira gaiola das loucas. Com homens se abraçando, beijando e paquerando (todos, ou quase, hetero, até onde eu sei) num impudor danado. "Homofobia zero" como diria Fred Fonseca, grande ator e amigo.
Daí já passo para os reflexos da sociedade patriarcal nas classes instruídas de nossa capital. O liberalismo, os movimentos feministas e anti-homofóbicos do século terminou por estruturar famílias e tendencias de pensamento menos preconceituosas. Ainda um pouco afetadas, com cacuetes e gírias, mas menos preconceituosas.
Feliz mesmo eu fico quado tenho a presença de espiríto ou ouço alguém dizer assim "Fulando, que é namorado de Cicrano" ou o extremo oposto. Sem afetação, sem risinhos, sem gírias coloridas, apenas aceita com naturalidade o amor da forma que ele se manifesta.
Outra reflexão do espetáculo é o poder da comunidade. Certas características da classe dominante não são fortes o suficiente para uni-la em comunidade, entretanto nas classes marginais qualquer semelhança é dispositivo de união. Assim é com a orientação sexual. Os gays realmente constituem uma comunidade, com gírias, movimentos, entreterimento e visual próprios. Isso também leva sociólogos a associar o homossexualismo à necessidades de atenção, à falhas na estrutura familiar, coisa e tal. É possível, bastante possível.
Enfim é páscoa, tempo de Renascer. Sair do armário não. Renascer.
Estou falando de Ópera, espetáculo do coletivo Angu de Teatro em pauta até próxima sábados e domingos no Teatro Apolo, às 21:30, que aborda o universo homossexual e dá pontadas também na sua relação com a arte contemporânea.
Isso é algo que sempre me perguntei, e nunca me perguntei pouco. Existem homossexuais em todos os lugares óbvio, mas os do meio artístico são mais óbvios que os outros. Não são estereotipados, cada um é cada um, uns mais escandalosos, outros mais discretos, uns falam da própria condição, outros falam da condição dos heterossexuais com mais sensibilidade que alguns dos próprios heterossexuais, uns são politicos... enfim; mas sua presença é marcante e desperta minha curiosidade acerca do assunto.
Eu fico me perguntando coisas como - é necessário mais sensibilidade para gostar do semelhante fisiológico? Eu procuro entender o que essa distorção de orientação causa na alma da pessoa e o que nisso a aproxima da sensibilidade e fazer artístico.
E até os heteros artistas são meio homossexuais. Os ratos, por exemplo. Para uma pessoa formada nos generalismos da classe média recifense, o primeiro contato com o movimento do ratão pode parecer uma verdadeira gaiola das loucas. Com homens se abraçando, beijando e paquerando (todos, ou quase, hetero, até onde eu sei) num impudor danado. "Homofobia zero" como diria Fred Fonseca, grande ator e amigo.
Daí já passo para os reflexos da sociedade patriarcal nas classes instruídas de nossa capital. O liberalismo, os movimentos feministas e anti-homofóbicos do século terminou por estruturar famílias e tendencias de pensamento menos preconceituosas. Ainda um pouco afetadas, com cacuetes e gírias, mas menos preconceituosas.
Feliz mesmo eu fico quado tenho a presença de espiríto ou ouço alguém dizer assim "Fulando, que é namorado de Cicrano" ou o extremo oposto. Sem afetação, sem risinhos, sem gírias coloridas, apenas aceita com naturalidade o amor da forma que ele se manifesta.
Outra reflexão do espetáculo é o poder da comunidade. Certas características da classe dominante não são fortes o suficiente para uni-la em comunidade, entretanto nas classes marginais qualquer semelhança é dispositivo de união. Assim é com a orientação sexual. Os gays realmente constituem uma comunidade, com gírias, movimentos, entreterimento e visual próprios. Isso também leva sociólogos a associar o homossexualismo à necessidades de atenção, à falhas na estrutura familiar, coisa e tal. É possível, bastante possível.
Enfim é páscoa, tempo de Renascer. Sair do armário não. Renascer.
sábado, abril 11
Páscoa
Amanhã não tem crônica, é páscoa. E hoje um poeminha para Deus e para a mulher amada, figuras importantíssimas nessas datas religiosas.
Prece para que ela não diga que me ama
Senhor,
Permita que ela não fale
Que as palavras não se formulem em sua boca
Na língua vil e negligente dos homens
Não deixe que as notas de sua voz
Se tornem símbolos, convenções vulgares
Meu Rei,
Mantém em seu canto o que há de divino
Guarda em sua voz a nota do mistério
O timbre do mítico, do inexplicável
Pois meu Lorde
O amor que ela me dá
Amor assim não se fala
É um amor que se faz
E ainda que as palavras trinquem
Seu amor irradia da pele e entra nos póros
E sinto que ela me ama
Pois o amor está no grito de seus olhos
No sabor de sua pele
Na força de suas gengivas
E no perfume de seus beijos
Portanto meu Deus
A mantém calada
Para que eu nunca saiba do amor que me tens
Mas o sinta como eu sinto ao Sol, à chuva
E à todas as outras sombras de Tua existência
Em minha vida
Amém
Prece para que ela não diga que me ama
Senhor,
Permita que ela não fale
Que as palavras não se formulem em sua boca
Na língua vil e negligente dos homens
Não deixe que as notas de sua voz
Se tornem símbolos, convenções vulgares
Meu Rei,
Mantém em seu canto o que há de divino
Guarda em sua voz a nota do mistério
O timbre do mítico, do inexplicável
Pois meu Lorde
O amor que ela me dá
Amor assim não se fala
É um amor que se faz
E ainda que as palavras trinquem
Seu amor irradia da pele e entra nos póros
E sinto que ela me ama
Pois o amor está no grito de seus olhos
No sabor de sua pele
Na força de suas gengivas
E no perfume de seus beijos
Portanto meu Deus
A mantém calada
Para que eu nunca saiba do amor que me tens
Mas o sinta como eu sinto ao Sol, à chuva
E à todas as outras sombras de Tua existência
Em minha vida
Amém
sexta-feira, abril 10
A esquisita
Nada mais estranho que Mallu Magalhães. O mundo cult é um fenômeno estranho, que promove pessoas como ela, João do Morro, DJ dolores e tal. Não são artistas ruins, dentro da minha concepção do universo, vejo como artistas de talento duvidoso.
A verdade é que não são artistas acabados, exceto João do Morro, que está acabado e fala para as massas, na verdade o curioso é sua adoção pelo mundo cult, provavelmente o principal motivo disso seja o produtor dele ser o mesmo de Cordel. Simples assim. Mas no geral o mundo cult, na ânsia de promover suas idéias tem promovido artistas imaturos, pois o mundo cult é um mundo imaturo.
Comecei essa reflexão ao assistir um vídeo de Marcelo Camelo, outro idiota cult, explicando sua relação com Mallu. Me perdoem pelo tradicionalismo, não é uma questão de bagagem cultural, o homem é culto. É uma questão de idiotice mesmo. O aclamado vocalista dos los hermanos (muertos) não soube falar, expressar suas idéias de maneira coesa e lógica, falava o tempo todo "porque a parada com Mallu... E o lance de Mallu..." viesse do morro nos anos 70 Marcelo?
Sem falar que é ridículo, o relacionamento deles não mostra que Mallu é uma criança, assisti a entrevista dela com Jô Soares pensando "Deus do céu! Jô vai comer essa menina viva, ela não sai daí com vida" Me enganei, a menina é surpreendentemente espontânea e adivinhem... Uma menina; uma menina que colocou as músicas na internet. O resto foi circo da mídia e uma família bem relacionada. Chico Buarque vazia músicas na idade dela, Vínicius de Moraes vazia música. Mas no tempo deles não tinha Internet, nem circo da mídia. Só famílias bem relacionadas e com valores o suficiente para esperar a maturidade do artísta antes de atirá-lo aos leões e aos cornos carentes.
Se eu estou dizendo que Marcelo Camelo é corno? Vejam por esse ângulo - o homem é, depois de Reginaldo Rossi, Wando, Fagner e afins, o maior cantor de dor de cotovelo do País. Mas os nomes que citei antes são maduros, tiveram seu tempo para sentir no fundo de suas almas a mais completa depreciação e decadência de suas ilusões amorosas. Marcelo não chegou nem na metade do caminho e já saiu choramingando. Além de praticar abertamente a pedofília.
Na entrevista ele falava justamente isso sobre os diários da Maluzinha "Tipo ela escreve coisas muito parecidas com a do meu amigo, que é poeta, só o que ele escreve tem valor porque ele é casado e duas filhas" Ele diz como se isso fosse ruim. Não é. Mallu é um gênio? Talvez. Para mim ela é apenas uma cópia muito bem feita do Dylan e do Cash, outros fenômenos cult, mas do gênero da ressurreição esses dois.
O fato é que quem dirá é o tempo. Promovê-la assim de imediato é o pecado da antecipação, mal muito comum de nosso mundo e péssimo filtro para o verdadeiro motivo da arte: A sensibilidade humana
Feliz páscoa a todos
A verdade é que não são artistas acabados, exceto João do Morro, que está acabado e fala para as massas, na verdade o curioso é sua adoção pelo mundo cult, provavelmente o principal motivo disso seja o produtor dele ser o mesmo de Cordel. Simples assim. Mas no geral o mundo cult, na ânsia de promover suas idéias tem promovido artistas imaturos, pois o mundo cult é um mundo imaturo.
Comecei essa reflexão ao assistir um vídeo de Marcelo Camelo, outro idiota cult, explicando sua relação com Mallu. Me perdoem pelo tradicionalismo, não é uma questão de bagagem cultural, o homem é culto. É uma questão de idiotice mesmo. O aclamado vocalista dos los hermanos (muertos) não soube falar, expressar suas idéias de maneira coesa e lógica, falava o tempo todo "porque a parada com Mallu... E o lance de Mallu..." viesse do morro nos anos 70 Marcelo?
Sem falar que é ridículo, o relacionamento deles não mostra que Mallu é uma criança, assisti a entrevista dela com Jô Soares pensando "Deus do céu! Jô vai comer essa menina viva, ela não sai daí com vida" Me enganei, a menina é surpreendentemente espontânea e adivinhem... Uma menina; uma menina que colocou as músicas na internet. O resto foi circo da mídia e uma família bem relacionada. Chico Buarque vazia músicas na idade dela, Vínicius de Moraes vazia música. Mas no tempo deles não tinha Internet, nem circo da mídia. Só famílias bem relacionadas e com valores o suficiente para esperar a maturidade do artísta antes de atirá-lo aos leões e aos cornos carentes.
Se eu estou dizendo que Marcelo Camelo é corno? Vejam por esse ângulo - o homem é, depois de Reginaldo Rossi, Wando, Fagner e afins, o maior cantor de dor de cotovelo do País. Mas os nomes que citei antes são maduros, tiveram seu tempo para sentir no fundo de suas almas a mais completa depreciação e decadência de suas ilusões amorosas. Marcelo não chegou nem na metade do caminho e já saiu choramingando. Além de praticar abertamente a pedofília.
Na entrevista ele falava justamente isso sobre os diários da Maluzinha "Tipo ela escreve coisas muito parecidas com a do meu amigo, que é poeta, só o que ele escreve tem valor porque ele é casado e duas filhas" Ele diz como se isso fosse ruim. Não é. Mallu é um gênio? Talvez. Para mim ela é apenas uma cópia muito bem feita do Dylan e do Cash, outros fenômenos cult, mas do gênero da ressurreição esses dois.
O fato é que quem dirá é o tempo. Promovê-la assim de imediato é o pecado da antecipação, mal muito comum de nosso mundo e péssimo filtro para o verdadeiro motivo da arte: A sensibilidade humana
Feliz páscoa a todos
quinta-feira, abril 9
Ode ao Túlio
Hoje é aniversário dele, então vou publicar um poema que escrevi em sua homenagem uns tempos atrás:
Ode ao Túlio
Tulinho
Meu Túlio
Meu Lírio
Chama o mundo
Vamos juntos
Sair sexta-feira
Túlipa
Somos jovens
E chove demais
Demais para ter medo
Demais para prendermos
Nossos executores
Deixemos uns aos outros
Morrermos em paz Túlio
Deixemos
O mundo é velho demais
Para deter-nos
Tu Lio
Lenga lenga
Que preguiça de viver
Que medo de ser tarde demais
Mas nunca foi cedo Túlio
Então adeus
Um abraço apertado
Ou uma carrera de doido
Um rato pelas ruas
É um rato morto
Temo, Túlio
E, Túlio, a torre
Está sem Rapunzel
Que azar da porra
Eu largar Fulana
Quando Cicrana quase largou o namorado
Por você
Mas tudo bem, encontro à quatro
Comigo mais tu
Terminaria de quatro
Túlio etílico
Chama todo mundo
Vamos beber na sexta
Vamos pro antigo mesmo
Ninguém tem pronde ir
Mesmo
Túlio nicotino
Cadê o cigarro? Cadê lola?
Ou Maria Joana? Pra quem tinha medo
Você me saiu um viciado
Mas vício maior
Que os mil cigarros fumados
É quem fumando
Se mata ao teu lado
Seu tu Lio Narciso
Que entra nas calças
Com as pernas
Mas deixa o ego
Sem regras
Vamos embora, sem regras
Nem os erros são errados
Então erra
Mas chama todo mundo
Pra beber e fumar
Nessa sexta
Es(Túl)p(i)d(o)
Ode ao Túlio
Tulinho
Meu Túlio
Meu Lírio
Chama o mundo
Vamos juntos
Sair sexta-feira
Túlipa
Somos jovens
E chove demais
Demais para ter medo
Demais para prendermos
Nossos executores
Deixemos uns aos outros
Morrermos em paz Túlio
Deixemos
O mundo é velho demais
Para deter-nos
Tu Lio
Lenga lenga
Que preguiça de viver
Que medo de ser tarde demais
Mas nunca foi cedo Túlio
Então adeus
Um abraço apertado
Ou uma carrera de doido
Um rato pelas ruas
É um rato morto
Temo, Túlio
E, Túlio, a torre
Está sem Rapunzel
Que azar da porra
Eu largar Fulana
Quando Cicrana quase largou o namorado
Por você
Mas tudo bem, encontro à quatro
Comigo mais tu
Terminaria de quatro
Túlio etílico
Chama todo mundo
Vamos beber na sexta
Vamos pro antigo mesmo
Ninguém tem pronde ir
Mesmo
Túlio nicotino
Cadê o cigarro? Cadê lola?
Ou Maria Joana? Pra quem tinha medo
Você me saiu um viciado
Mas vício maior
Que os mil cigarros fumados
É quem fumando
Se mata ao teu lado
Seu tu Lio Narciso
Que entra nas calças
Com as pernas
Mas deixa o ego
Sem regras
Vamos embora, sem regras
Nem os erros são errados
Então erra
Mas chama todo mundo
Pra beber e fumar
Nessa sexta
Es(Túl)p(i)d(o)
Sinto, logo existo
Capoeira que é bom não cai, e se um dia ele cai, cai bem. Já dizia o poeta. Perdi minha boina. Isso não se faz, não é Onirê? Pois me surpreendi ao constatar que nosso filosófo é também um punguista. Nada mais marginal que um pensador, já dizia minha avó. Vou reavê-la, espere e verá.
Pois fiquei com o cinto dele, como objeto de barganha na troca, descobri ontem, entretanto, que ele fica mais que folgado em mim, deveria ter suspeitado desde o princípio, pela diferença de nosso buchos, mas azar, azar.
Li o livro que Túlio me emprestou "Crônica de uma morte anunciada" do Gabriel García Márquez e aconselho seriamente aos meninos da Nassau lerem o livro. Já que a própria estética que eles adoram não condiz em absoluto com a do livro.
Entre os elementos que o autor trabalha no campo estético, e que podem ser defendidos na produção de um curta-metragem, se encontram:
- O narrador completamente distanciado da ação narrativa. Assim, é preciso explorar dentro da linguagem visual a reprodução desse fato, provavelmente com um protagonista que não é protagonista coisa nenhuma ou uma câmera objetiva em terceira pessoa. Isso é com vocês.
- O resgate da história pelos envolvidos. O livro é uma ficção que simula o trabalho jornalístico, possivelmente o motivo de sua escolha para esse trabalho. Portanto o curta deveria de alguma forma procurar contar a história a partir da reconstituição dos inúmeros pontos de vista que a permeiam e fragmentam. Sem dúvida o principal recurso formal e estético do livro.
- A banalização da tragédia a partir de sua revelação. Um argumento defendido à dentes pelo livro e que também seria bom se fosse pensado.
Enfim, muito trabalho pela frente meninos.
Vou sentar e esboçar essa parada, mas aqui em linhas gerais uma sugestão. Podemos combinar a metáfora de um com o desejo de promoção do outro. Ao invés de um ordinário que troca a namorada por um manequim, mostrando a maquinização da mulher, conceito do século passado, podemos banalizar plenamente nosso século XXI, um século de volta ao romantismo anos antes dos imbecis dos acadêmicos o perceberem; podemos banalizar o tempo do "sinto, logo existo" com o seguinte mote: Um músico que arranja namoradas para compôr suas músicas, quando consegue a plena expressão de seu sentimento abandona sua namorada, preferindo o ideal transposto na música. Morto e perfeito para sua alma de artista. Assim aproveitamos tudo nas devidas proporções. Mais, a ação se passa entre os relatos dos conhecidos de ambos, que já sabiam do fim do relacionamento muito, muito antes do mesmo. E o dissecaríamos pelos olhos de terceiros até que o fato fosse inevitável.
Sento para escrever em breve, se possível ainda hoje. Espero que dê certo, e Túlio podia me atender, para variar.
Pois fiquei com o cinto dele, como objeto de barganha na troca, descobri ontem, entretanto, que ele fica mais que folgado em mim, deveria ter suspeitado desde o princípio, pela diferença de nosso buchos, mas azar, azar.
Li o livro que Túlio me emprestou "Crônica de uma morte anunciada" do Gabriel García Márquez e aconselho seriamente aos meninos da Nassau lerem o livro. Já que a própria estética que eles adoram não condiz em absoluto com a do livro.
Entre os elementos que o autor trabalha no campo estético, e que podem ser defendidos na produção de um curta-metragem, se encontram:
- O narrador completamente distanciado da ação narrativa. Assim, é preciso explorar dentro da linguagem visual a reprodução desse fato, provavelmente com um protagonista que não é protagonista coisa nenhuma ou uma câmera objetiva em terceira pessoa. Isso é com vocês.
- O resgate da história pelos envolvidos. O livro é uma ficção que simula o trabalho jornalístico, possivelmente o motivo de sua escolha para esse trabalho. Portanto o curta deveria de alguma forma procurar contar a história a partir da reconstituição dos inúmeros pontos de vista que a permeiam e fragmentam. Sem dúvida o principal recurso formal e estético do livro.
- A banalização da tragédia a partir de sua revelação. Um argumento defendido à dentes pelo livro e que também seria bom se fosse pensado.
Enfim, muito trabalho pela frente meninos.
Vou sentar e esboçar essa parada, mas aqui em linhas gerais uma sugestão. Podemos combinar a metáfora de um com o desejo de promoção do outro. Ao invés de um ordinário que troca a namorada por um manequim, mostrando a maquinização da mulher, conceito do século passado, podemos banalizar plenamente nosso século XXI, um século de volta ao romantismo anos antes dos imbecis dos acadêmicos o perceberem; podemos banalizar o tempo do "sinto, logo existo" com o seguinte mote: Um músico que arranja namoradas para compôr suas músicas, quando consegue a plena expressão de seu sentimento abandona sua namorada, preferindo o ideal transposto na música. Morto e perfeito para sua alma de artista. Assim aproveitamos tudo nas devidas proporções. Mais, a ação se passa entre os relatos dos conhecidos de ambos, que já sabiam do fim do relacionamento muito, muito antes do mesmo. E o dissecaríamos pelos olhos de terceiros até que o fato fosse inevitável.
Sento para escrever em breve, se possível ainda hoje. Espero que dê certo, e Túlio podia me atender, para variar.
domingo, abril 5
confessionário
Coisa interessante a verdade. Principalmente a inconfessável, se gritada para todos, sem pudor algum, se torna silenciosa como um eco, torna qualquer mentira muda, e todos somos mudos.
Bem, viajei. Primeiro e muitíssimo importante, primeiro retifico todas as postagem em que escrevi o sobrenome de Ianah errado - o nome correto é Ianah Maia, meu erro, nunca mais cometo. Dois - comentarei a festa do ratão ao longo da semana mas hoje não. A festa foi um momento histórico e em respeito à todos os envolvidos prefiro checar todas as minhas fontes antes de teclar bobagens. Três - amanhã ou terça inauguro um novo blog - www.bbbsescdeteatro.blogspot.com - onde discorro dos temas do curso entre outras reflexões pertinentes, a quem interessar possa conferir.
Sem falar de ontem, mas ainda falando do ratão, a grande habilidade dos ratos é permanecer juntos. Julyana Carla - minha estrela derradeira, minha amiga e companheira no infinito de nós dois - teve seu primeiro contato com o ratão ontem e um dos comentários que ela fez foi "dá pra ver que vocês são muito de sentimento, não é? vocês se unem por dentro". Chamou a todos nós de feios, é verdade; mas falou algo importantíssimo - nosso elo é mais profundo que uma cervejinha ou sapatos que combinam. Por isso nessa longa história do rato, olhando para trás vou vendo e contando mortos e feridos, como disse bruninha na Bodega, e vejo todos vivos e unidos. O curioso é que vivendo apenas o momento presente eu não havia percebido, mas ao olhar para trás vi tantos laços trocarem de cor, de forma, às vezes se estreitarem e às vezes se afrouxarem, mas depois de ontem estou convencido que a força que nos une é maior que o álcool. Que existe o divino no nosso amor.
Quantas vezes mulheres já não trocaram de homens ou homens trocaram de mulheres, ou coisas foram ditas na hora errada mas nós continuamos e eu digo o motivo - eu me humilharia às últimas consequências por qualquer um deles, sem pensar duas vezes.
Errar erramos muito, mas pedir perdão com sinceridade é uma arte que cultivamos - Eu mesmo outro dia, ia dando uns beijinhos numa rata que não sabia comprometida, quando soube o estrago já estava feito, só faltei me matar na frente do traído para me desculpar. Levou um tempo mas fui perdoado. Outra vez saí falando da vida sexual de um para outro e fui censurado, enfim, a falta de discrição me persegue. Eu tenho a mania da exposição, da mostra.
Por isso que era preciso contar também meus pecados no blog, sem pudor. Além é semana santa, tempo de se confessar, e não há melhor lugar para isso que aqui.
Estou com uns parentes em casa - dois tios e uma avó, ficam até a páscoa, passei o almoço com eles ouvindo as histórias das bebedeiras do passado e pensando - dos que bebiam juntos, quantos ficaram? Poucos ou nenhum, foi a resposta que obtive.
Por isso, hoje faço alguns apelos
1º) me perdoem pela falta de tato com que conto tudo aqui, procurarei mais sutileza no futuro.
2º) nos mantenhamos unidos, pois para mim, o verdadeiro milagre do rato é o amor que transforma a nós, um bando de desconhecidos, numa família.
Alcides, meus parábens, sinto muito não ter ido hoje, faça muito barulho no cajon.
Bem, viajei. Primeiro e muitíssimo importante, primeiro retifico todas as postagem em que escrevi o sobrenome de Ianah errado - o nome correto é Ianah Maia, meu erro, nunca mais cometo. Dois - comentarei a festa do ratão ao longo da semana mas hoje não. A festa foi um momento histórico e em respeito à todos os envolvidos prefiro checar todas as minhas fontes antes de teclar bobagens. Três - amanhã ou terça inauguro um novo blog - www.bbbsescdeteatro.blogspot.com - onde discorro dos temas do curso entre outras reflexões pertinentes, a quem interessar possa conferir.
Sem falar de ontem, mas ainda falando do ratão, a grande habilidade dos ratos é permanecer juntos. Julyana Carla - minha estrela derradeira, minha amiga e companheira no infinito de nós dois - teve seu primeiro contato com o ratão ontem e um dos comentários que ela fez foi "dá pra ver que vocês são muito de sentimento, não é? vocês se unem por dentro". Chamou a todos nós de feios, é verdade; mas falou algo importantíssimo - nosso elo é mais profundo que uma cervejinha ou sapatos que combinam. Por isso nessa longa história do rato, olhando para trás vou vendo e contando mortos e feridos, como disse bruninha na Bodega, e vejo todos vivos e unidos. O curioso é que vivendo apenas o momento presente eu não havia percebido, mas ao olhar para trás vi tantos laços trocarem de cor, de forma, às vezes se estreitarem e às vezes se afrouxarem, mas depois de ontem estou convencido que a força que nos une é maior que o álcool. Que existe o divino no nosso amor.
Quantas vezes mulheres já não trocaram de homens ou homens trocaram de mulheres, ou coisas foram ditas na hora errada mas nós continuamos e eu digo o motivo - eu me humilharia às últimas consequências por qualquer um deles, sem pensar duas vezes.
Errar erramos muito, mas pedir perdão com sinceridade é uma arte que cultivamos - Eu mesmo outro dia, ia dando uns beijinhos numa rata que não sabia comprometida, quando soube o estrago já estava feito, só faltei me matar na frente do traído para me desculpar. Levou um tempo mas fui perdoado. Outra vez saí falando da vida sexual de um para outro e fui censurado, enfim, a falta de discrição me persegue. Eu tenho a mania da exposição, da mostra.
Por isso que era preciso contar também meus pecados no blog, sem pudor. Além é semana santa, tempo de se confessar, e não há melhor lugar para isso que aqui.
Estou com uns parentes em casa - dois tios e uma avó, ficam até a páscoa, passei o almoço com eles ouvindo as histórias das bebedeiras do passado e pensando - dos que bebiam juntos, quantos ficaram? Poucos ou nenhum, foi a resposta que obtive.
Por isso, hoje faço alguns apelos
1º) me perdoem pela falta de tato com que conto tudo aqui, procurarei mais sutileza no futuro.
2º) nos mantenhamos unidos, pois para mim, o verdadeiro milagre do rato é o amor que transforma a nós, um bando de desconhecidos, numa família.
Alcides, meus parábens, sinto muito não ter ido hoje, faça muito barulho no cajon.
sábado, abril 4
Tripé
Brasil! Os ratos agora ganharam representatividade no braço militar. Tenente Jardelino é nosso grande representante na infantaria nacional. Verdadeiro cão de guerra, desses que recarregam o fuzil com o dente e põe a mão no isqueiro aceso para provar que é macho.
O ilustríssimo tenente Jardelino (ou Fábio, como o chamávamos antes da transformação em cão do exército) mostra todas as características prezadas pela corporação - objetividade, clareza, força, velocidade, um verdadeiro cão artístico de Bukowski, pronto para pegar a boneca e dar na cara dela, assim, sem dó.
Alías, pensando no tenente, que ao me explicar que ele mandava nos soldados, nos cabos e nos sargentos disse "a tropa que eu comando é grande, brinque comigo!" e eu "brinco nada, tenho cara de quem leva tiro?" - pensei na capacidade de pessoas polares conviverem de forma rica e produtiva.
Como por exemplo Vínicius de Moraes, no tempo que passou em Buenos Aires, a casa dele dava de frente para um quintal onde viviam um pavão, uma galinha, um cachorro e um gato; de muito os observar, Vínicius fez a seguinte declaração à Toquinho, creio "Toquinho, eu aprendi mais com esses quatro bichos que a minha vida toda no Itamaraty. Eles vivem juntos Toquinho, um cachorro, um gato, uma galinha e um pavão, juntos!" Assim é o Ten. Jardelino, Tulinho e Jean.
Tu vê os três juntos pensa "mas será possível?", então vê - eles são como o cachorro, o gato, a galinha e o pavão; humanos o suficiente para viver juntos.
Quem é Jean? Não sei nem seu sobrenome, mas se Fábio é o braço do ratão na infantaria, Túlio na música, Jean é o braço silencioso do ratão. Escritor de mão cheia, violonista clássico e tímido convicto; o verdadeiro eixo desse tripé de artístas tão polares, entretanto tão produtivos, e por que não dizer bonitos, combinados.
Falando em tripé, uma anedota: existe um teórico de teatro que diz "o fenômeno cênico acontece quando se unem os três elementos: o público, o ator e o palco". Na Bahia, encenou-se um espetáculo chamado "R$1,99" cuja ficha técnica era:
Elenco: Ricardo Castro
Iluminação: Ricardo Castro
Sonoplastia: Ricardo Castro
Produção: Ricardo Castro
Diração: Ricardo Castro
Preço? - o Título, com direito, alías, com dever a um centavo de troco (assisti à peça duas vezes, tenho as moedas guardadas comigo até hoje, acho). Nesse monólogo, com um crítica seríssima ao teatro comercial, principalmente no Sudeste, já que aqui em Recife, pelo menos, teatro comercial é quase um sonho, salvo o Chocolate e o Hipopocaré; grande teatro comercial o nosso.
Enfim, durante o monólogo, enquanto operava a luz, o som, se dirigia e atuava Ricardo deu o seguinte texto, máxima da verdade teatral muito maior que essa história de ator, platéia e palco. "O teatro está baseado num tripé" ele começou "1-) prego. Não dá pra fazer teatro sem prego" explico - fixar cartazes na rua, prender as cordas da contra-regragem, preparar os movéis falsos "2-) fita crepe. Não existe teatro sem fita crepre" explico - toda a marcação de cena e da mesa de luz e som é feita com fita crepe, um espetáculo de teatro que não consuma uns dois rolos de fita crepe, acreditem, será ruim. O bilheteiro na porta do teatro deveria anunciar "ingressos a R$15,00, gastaram sete rolos de fita crepe, é ótimo, ótimo" extasiado. Por fim "3-) Viado. Não existe teatro sem viado" o último nem vou comentar, quem já foi ao teatro sabe. E se não sabe, levante as mãos para o céu e agradeça. Enfim, é tudo uma questão de tripé.
Dois avisos - hoje festa acontece a festa ratônica no prédio de Bruninha, desça mesmo a vitrola minha filha. Outra, Dandara Morais, bailarina lindíssima, estará lá, a partir das 18:30 da noite, à procura de seu moço dengoso. Quem for esperto não perderá a oportunidade.
O ilustríssimo tenente Jardelino (ou Fábio, como o chamávamos antes da transformação em cão do exército) mostra todas as características prezadas pela corporação - objetividade, clareza, força, velocidade, um verdadeiro cão artístico de Bukowski, pronto para pegar a boneca e dar na cara dela, assim, sem dó.
Alías, pensando no tenente, que ao me explicar que ele mandava nos soldados, nos cabos e nos sargentos disse "a tropa que eu comando é grande, brinque comigo!" e eu "brinco nada, tenho cara de quem leva tiro?" - pensei na capacidade de pessoas polares conviverem de forma rica e produtiva.
Como por exemplo Vínicius de Moraes, no tempo que passou em Buenos Aires, a casa dele dava de frente para um quintal onde viviam um pavão, uma galinha, um cachorro e um gato; de muito os observar, Vínicius fez a seguinte declaração à Toquinho, creio "Toquinho, eu aprendi mais com esses quatro bichos que a minha vida toda no Itamaraty. Eles vivem juntos Toquinho, um cachorro, um gato, uma galinha e um pavão, juntos!" Assim é o Ten. Jardelino, Tulinho e Jean.
Tu vê os três juntos pensa "mas será possível?", então vê - eles são como o cachorro, o gato, a galinha e o pavão; humanos o suficiente para viver juntos.
Quem é Jean? Não sei nem seu sobrenome, mas se Fábio é o braço do ratão na infantaria, Túlio na música, Jean é o braço silencioso do ratão. Escritor de mão cheia, violonista clássico e tímido convicto; o verdadeiro eixo desse tripé de artístas tão polares, entretanto tão produtivos, e por que não dizer bonitos, combinados.
Falando em tripé, uma anedota: existe um teórico de teatro que diz "o fenômeno cênico acontece quando se unem os três elementos: o público, o ator e o palco". Na Bahia, encenou-se um espetáculo chamado "R$1,99" cuja ficha técnica era:
Elenco: Ricardo Castro
Iluminação: Ricardo Castro
Sonoplastia: Ricardo Castro
Produção: Ricardo Castro
Diração: Ricardo Castro
Preço? - o Título, com direito, alías, com dever a um centavo de troco (assisti à peça duas vezes, tenho as moedas guardadas comigo até hoje, acho). Nesse monólogo, com um crítica seríssima ao teatro comercial, principalmente no Sudeste, já que aqui em Recife, pelo menos, teatro comercial é quase um sonho, salvo o Chocolate e o Hipopocaré; grande teatro comercial o nosso.
Enfim, durante o monólogo, enquanto operava a luz, o som, se dirigia e atuava Ricardo deu o seguinte texto, máxima da verdade teatral muito maior que essa história de ator, platéia e palco. "O teatro está baseado num tripé" ele começou "1-) prego. Não dá pra fazer teatro sem prego" explico - fixar cartazes na rua, prender as cordas da contra-regragem, preparar os movéis falsos "2-) fita crepe. Não existe teatro sem fita crepre" explico - toda a marcação de cena e da mesa de luz e som é feita com fita crepe, um espetáculo de teatro que não consuma uns dois rolos de fita crepe, acreditem, será ruim. O bilheteiro na porta do teatro deveria anunciar "ingressos a R$15,00, gastaram sete rolos de fita crepe, é ótimo, ótimo" extasiado. Por fim "3-) Viado. Não existe teatro sem viado" o último nem vou comentar, quem já foi ao teatro sabe. E se não sabe, levante as mãos para o céu e agradeça. Enfim, é tudo uma questão de tripé.
Dois avisos - hoje festa acontece a festa ratônica no prédio de Bruninha, desça mesmo a vitrola minha filha. Outra, Dandara Morais, bailarina lindíssima, estará lá, a partir das 18:30 da noite, à procura de seu moço dengoso. Quem for esperto não perderá a oportunidade.
quarta-feira, abril 1
A bodega
Venho, feliz da vida, dar o dito de outra crônica por não dito. Informei ao leitor que eu, eu sozinho e mais ninguém estava responsável pela documentação literária do ratão. Nem oito nem oitenta. Entretanto no mundo dos blogs eu ainda detinha a vaidade de ser o único a falar abertamente do ratão. Até hoje de manhã.
Hoje de manhã li um blog chamado bodega do rato, e portanto acho importantíssimo avisar ao leitor que desse momento em diante oficialmente divido a literatura ratônica com Bruna Barros, galega dos cabelos cacheados, gestora da informação e como soube recentemente, atriz. Enfim, uma pequena assim assim, que tem vivido para o amor.
Primeiro dou meu graças à Deus que alguém pegou essa bola comigo. Bruna está no ratão desde o início e sabe histórias e estórias que sequer imagino. Além, ela mora no Recife não é. Eu, na minha condição simplória de Jaboatonense sofro um pouco para documentar essas histórias da cidade grande.
Aproveitei para incluir outros blogs importantes na lista de indicações, como o do onirê, grande filósofo do ratão, o do cinerevezes, cineclube da Católica que acontece quinzenalmente às quartas-feiras, no caso de hoje à quinze, organizado pela musa do rato Gabriela Alcântara, que nunca pude comparecer a assistir por culpa do SESC, paciência. Dia desses ainda vou Gabi, espere eu tirar Stanislavski da minha vida, por favor.
Falando em Stanlislavski lembrei de Túlio; como o bom artista que é andou preocupado com sua performance em palco e me pediu conselho, disse "leia Stan, ele ajuda bastante". Vê, o rapaz nem pisou no palco e já está preocupado com a performace. Como diria minha tia Célia, que era dessas tias que gostava de apertar buchechas enquanto falava "que coisinha mais fofo o empenho de Tulinho"
Falando em Tulinho lembrei de Basílio e a cuíca inédita. Inédita porque nunca foi vista nem tocada. Não sei direito de onde nem porque Túlio estava um dia com uma cuíca para Basílio, de presente de uma moça - Isso mesmo, quem pensava que Basílio é solteiro, engana-se, Basílio é mineiro, come quieto, desconfiem sempre meninas... Desconfiem mas aproveitem, que ele é um pedaço de bom caminho. Enfim, a cuíca era dessas artesanais, para turista. Túlio deu, Basílio adorou e nós começamos "toca aí, pow" então ele tentou, mas estava meio estranho, primeiro pensamos que ele não sabia. Mas o som foi ficando estanho, estranho... até que o couro se separou da cabaça. Paciência, artigo de turista é assim mesmo.
Pelo menos esses, vivemos tão estigmatizados pela exportação, onde tudo que temos de melhor é dado de mão beijada para o gringo que conforta saber que quando ele está na terra é sumariamente passado para trás pela sabedoria popular.
Ainda hoje a cuíca enfeita a sala da casa de Basílio, como prova que se o cavalo for dado o negócio é não olhar os dentes.
Tudo isso para dizer - leiam a bodega, bruninha tem pegada no teclado
Hoje de manhã li um blog chamado bodega do rato, e portanto acho importantíssimo avisar ao leitor que desse momento em diante oficialmente divido a literatura ratônica com Bruna Barros, galega dos cabelos cacheados, gestora da informação e como soube recentemente, atriz. Enfim, uma pequena assim assim, que tem vivido para o amor.
Primeiro dou meu graças à Deus que alguém pegou essa bola comigo. Bruna está no ratão desde o início e sabe histórias e estórias que sequer imagino. Além, ela mora no Recife não é. Eu, na minha condição simplória de Jaboatonense sofro um pouco para documentar essas histórias da cidade grande.
Aproveitei para incluir outros blogs importantes na lista de indicações, como o do onirê, grande filósofo do ratão, o do cinerevezes, cineclube da Católica que acontece quinzenalmente às quartas-feiras, no caso de hoje à quinze, organizado pela musa do rato Gabriela Alcântara, que nunca pude comparecer a assistir por culpa do SESC, paciência. Dia desses ainda vou Gabi, espere eu tirar Stanislavski da minha vida, por favor.
Falando em Stanlislavski lembrei de Túlio; como o bom artista que é andou preocupado com sua performance em palco e me pediu conselho, disse "leia Stan, ele ajuda bastante". Vê, o rapaz nem pisou no palco e já está preocupado com a performace. Como diria minha tia Célia, que era dessas tias que gostava de apertar buchechas enquanto falava "que coisinha mais fofo o empenho de Tulinho"
Falando em Tulinho lembrei de Basílio e a cuíca inédita. Inédita porque nunca foi vista nem tocada. Não sei direito de onde nem porque Túlio estava um dia com uma cuíca para Basílio, de presente de uma moça - Isso mesmo, quem pensava que Basílio é solteiro, engana-se, Basílio é mineiro, come quieto, desconfiem sempre meninas... Desconfiem mas aproveitem, que ele é um pedaço de bom caminho. Enfim, a cuíca era dessas artesanais, para turista. Túlio deu, Basílio adorou e nós começamos "toca aí, pow" então ele tentou, mas estava meio estranho, primeiro pensamos que ele não sabia. Mas o som foi ficando estanho, estranho... até que o couro se separou da cabaça. Paciência, artigo de turista é assim mesmo.
Pelo menos esses, vivemos tão estigmatizados pela exportação, onde tudo que temos de melhor é dado de mão beijada para o gringo que conforta saber que quando ele está na terra é sumariamente passado para trás pela sabedoria popular.
Ainda hoje a cuíca enfeita a sala da casa de Basílio, como prova que se o cavalo for dado o negócio é não olhar os dentes.
Tudo isso para dizer - leiam a bodega, bruninha tem pegada no teclado
O Filme da meia-noite
A fundação Joaquim Nabuco, ano passado decidiu exibir um filme à meia noite, de zumbis. Eu não me recordo do nome, mas a onda de assisti-lo pareceu por demais irresistível e o ratão foi marcar presença. Fomos eu, Basílio, Túlio, Onirê, Pedro Augusto (praticamente, os pontos cardeais, a bússola do ratão) eu e Roberto França - Professor de inglês do núcleo de línguas do CAC, solteiro, a eterna procura de sua gatinha manhosa, interessadas favor procurá-lo.
A Fundação Joaquem Nabuco é um prédio com seu charme, escondida numa esquina sem rumo do Derby, vista de fora um grande cubo cinza, mas mesmo assim existe qualquer coisa de antiga no prédio, seja a fechada, sejam as pilastras, seja disposição altamente geométrica das janelas. O prédio me lembra meus antigos colégios de freira - os ladrilhos no piso, os desenhos do ferro do corrimão, a aparência geral das salas.
Entretanto no primeiro andar, o do cinema, sou completamente desiludido dessa impressão nostalgica - Cartazes de filmes, todos muito cult, o que mais me chama a atenção, sempre, é de Terra em Transe, do Glauber Rocha, genial. O corredor se estende à um café, outro ponto extremamente cult, e aproveitando que falo do café deixa eu contar uma histórinha.
O charme do café é inegável, bonito, chic, com mesinhas de cadeira, carta de menu bem desenhada, opções irreverentes, como sorvetes de milk-shake, milk-shakes de sorvete, bolbo com sorvete, lanches com queijos estranhos, coisa e tal. A cerveja vem no copo de cerveja, o rum no copo de rum e assim vai. Tudo à um preço relativo, que eu, um rapaz que anda mais duro que pinto saido da prisão, acho caro. Mas vá lá, tem seu valor.
O que me deixa indignado são os 10%. O garçon, uma bixa muito chata, certa vez me trouxe a conta e adicionou os 10% pelo serviço dele. Ok. Infelizmente o café da Fundação não é o tipo de lugar que realmente necessite de garçon, a cozinha é acessível à todos - fica logo depois do balcão - e da última mesa à ela são, se muito, dez passos.
Enfim, outro dia estava lá para ver um filme e fui tomar um suco, olhei minha carteira - as moedas contadas para o preço do cardápio - o que fiz foi pedir no balcão e tomar lá. Eis que o abjeto do garçon vem me cobrar seus 10%. Eu, muito humilhado por estar com o dinheiro contado e completamente possesso pela falta de educação da bixa digo "moço, perdão, mas o senhor não me atendeu, eu já paguei e tenho meu dinheiro contado" ele, como se ser panaca fosse a idéia mais genial desde a roda respondeu "mas aqui não interessa, tem sempre 10%"
Duas sugestões para a administração do café:
1º - demitir o infeliz - eu teria ido à um caixa e pago os 30 centavos do garçon se ele fosse educado e simpático.
2º - incluir os 10% nos preços da carta, mil vezes menos constragedor.
Enfim o filme. Como ia dizendo, o prédio tem seu charme, entretanto seus muros cinzas e àsperos, na contagem regressiva para a meia noite adquiriram um clima fantasmagórico. Na própria súcia de cults que foi assistir ao filme naquele sábado à noite era sensível uma tensão surda, um brilho no fundo de seus olhos, com o se os zumbis da película estivessem prestes a sair dos cartazes e atacar os espectadores a qualquer momento. Os rostos estavam mais pálidos, a luz mais fraca, as conversas eram ora histéricas e nervosas, ora sussuros desconfiados - salvo tudo isso, era uma súcia de cults muito agradável.
Começou o filme, Túlio achou genial, genial mesmo eu achei esse diálogo entre ele e Onirê no meio da sessão
Túlio - Nossa, confortável o braço dessa poltrona.
Onirê - Túlio.
Túlio - Sim?
Onirê - Esse não é o braço da poltrona.
Fizemos um barulho gigantesco, mas ninguém percebeu. No filme, os zumbis morriam e nasciam da forma menos pretensiosa possível - trash mesmo - e a platéia ria horrores, para mim a melhor foi a voadora do policial num zumbi logo na primeira sequência - golpe digno de qualquer jogo de street fighter.
Acabou o filme e estávamos todos leves pela morte coletiva em vídeo. Túlio achou genial, ele faz jornalismo e a perspectiva do filme aborda, dentro da sua forma despretensiosa, as relações entre a imprensa e a desgraça alheia com grande seriedade (no filme a pessoa que foge dos zumbis está muito mais preocupada em documentar a hitória do que solucioná-la, uma espécia de fuga do clímax); nós outros só estávamos tirando onda.
Entretanto desde aquela noite, as vezes andando nos corredores antigos da fundação ainda penso ver um zumbi me espianda por uma quina escura. Ou isso ou garçon, rancoroso.
A Fundação Joaquem Nabuco é um prédio com seu charme, escondida numa esquina sem rumo do Derby, vista de fora um grande cubo cinza, mas mesmo assim existe qualquer coisa de antiga no prédio, seja a fechada, sejam as pilastras, seja disposição altamente geométrica das janelas. O prédio me lembra meus antigos colégios de freira - os ladrilhos no piso, os desenhos do ferro do corrimão, a aparência geral das salas.
Entretanto no primeiro andar, o do cinema, sou completamente desiludido dessa impressão nostalgica - Cartazes de filmes, todos muito cult, o que mais me chama a atenção, sempre, é de Terra em Transe, do Glauber Rocha, genial. O corredor se estende à um café, outro ponto extremamente cult, e aproveitando que falo do café deixa eu contar uma histórinha.
O charme do café é inegável, bonito, chic, com mesinhas de cadeira, carta de menu bem desenhada, opções irreverentes, como sorvetes de milk-shake, milk-shakes de sorvete, bolbo com sorvete, lanches com queijos estranhos, coisa e tal. A cerveja vem no copo de cerveja, o rum no copo de rum e assim vai. Tudo à um preço relativo, que eu, um rapaz que anda mais duro que pinto saido da prisão, acho caro. Mas vá lá, tem seu valor.
O que me deixa indignado são os 10%. O garçon, uma bixa muito chata, certa vez me trouxe a conta e adicionou os 10% pelo serviço dele. Ok. Infelizmente o café da Fundação não é o tipo de lugar que realmente necessite de garçon, a cozinha é acessível à todos - fica logo depois do balcão - e da última mesa à ela são, se muito, dez passos.
Enfim, outro dia estava lá para ver um filme e fui tomar um suco, olhei minha carteira - as moedas contadas para o preço do cardápio - o que fiz foi pedir no balcão e tomar lá. Eis que o abjeto do garçon vem me cobrar seus 10%. Eu, muito humilhado por estar com o dinheiro contado e completamente possesso pela falta de educação da bixa digo "moço, perdão, mas o senhor não me atendeu, eu já paguei e tenho meu dinheiro contado" ele, como se ser panaca fosse a idéia mais genial desde a roda respondeu "mas aqui não interessa, tem sempre 10%"
Duas sugestões para a administração do café:
1º - demitir o infeliz - eu teria ido à um caixa e pago os 30 centavos do garçon se ele fosse educado e simpático.
2º - incluir os 10% nos preços da carta, mil vezes menos constragedor.
Enfim o filme. Como ia dizendo, o prédio tem seu charme, entretanto seus muros cinzas e àsperos, na contagem regressiva para a meia noite adquiriram um clima fantasmagórico. Na própria súcia de cults que foi assistir ao filme naquele sábado à noite era sensível uma tensão surda, um brilho no fundo de seus olhos, com o se os zumbis da película estivessem prestes a sair dos cartazes e atacar os espectadores a qualquer momento. Os rostos estavam mais pálidos, a luz mais fraca, as conversas eram ora histéricas e nervosas, ora sussuros desconfiados - salvo tudo isso, era uma súcia de cults muito agradável.
Começou o filme, Túlio achou genial, genial mesmo eu achei esse diálogo entre ele e Onirê no meio da sessão
Túlio - Nossa, confortável o braço dessa poltrona.
Onirê - Túlio.
Túlio - Sim?
Onirê - Esse não é o braço da poltrona.
Fizemos um barulho gigantesco, mas ninguém percebeu. No filme, os zumbis morriam e nasciam da forma menos pretensiosa possível - trash mesmo - e a platéia ria horrores, para mim a melhor foi a voadora do policial num zumbi logo na primeira sequência - golpe digno de qualquer jogo de street fighter.
Acabou o filme e estávamos todos leves pela morte coletiva em vídeo. Túlio achou genial, ele faz jornalismo e a perspectiva do filme aborda, dentro da sua forma despretensiosa, as relações entre a imprensa e a desgraça alheia com grande seriedade (no filme a pessoa que foge dos zumbis está muito mais preocupada em documentar a hitória do que solucioná-la, uma espécia de fuga do clímax); nós outros só estávamos tirando onda.
Entretanto desde aquela noite, as vezes andando nos corredores antigos da fundação ainda penso ver um zumbi me espianda por uma quina escura. Ou isso ou garçon, rancoroso.
segunda-feira, março 30
A flor do cacto
Talvez a coisa mais bonita de um edifício seja o nome. Monstrusidades de concreto, o edifício é um memorial do egoísmo e megalomânia humana, mas observar um e vêlo finalizado, talvez já com algumas infiltrações, talvez com ladrilhos já soltos, talvez com pichações, talvez com o servente já dormindo e ver-se obrigado a vê-lo na sua composição sem um nome que o indentifique é angustiante, quiçá cruel.
Pensei isso quando passando na orla de Piedade encontrei um Edifício com o seguinte nome - Hilda - é quase uma torre de uns nove, dez andares no meio de uma enorme área vazia, me lembrou a torre de Rapunzel. Pensei que talvez fosse uma analogia à Hilda Hilst, um edifício árido e solitário batizado com o nome de uma mulher árida e solitária. Mas isso é mera suposição.
No caminho de Piedade à minha casa ainda há dois que me chamaram a atenção pelos nomes - Vinícius de Moraes e Pasárgada - não que eles tenham algo a ver com a literatura, para mim são depravações da natureza; mas o nome, admito, os preenche de poesia.
Passei a noite de sexta para sábado no último andar de um pequeno prédio em boa viagem, acho que tinha uns seis andares e fica à umas boas seis quadras da beira mar. Ao chegar no último patamar corri aos muros da laje para admirar a vista. E o que vi foi o anão onde eu estava cercado por montes de pedra e granito, foi uma sensação curiosa, no último andar de um prédio de uns seis andares, há algo entre vinte e trinta metros do chão, eu me senti claustrofóbico, não havia paisagem, simplesmente não havia. Há mais de dez metros do chão minha vista não se podia estender além de uns cem metros de horizonte. E olhe lá!
Daí vale olhar o egoísmo humano. Fulano quer ser mais bonito e faz uma casa maior para ter mais vista que Cicrano. Cicrano não quer deixar por menos e constrói uma nova maior que a de Fulano. Beltrano vai lá e supera os dois. Os dois indignados, cada um constrói mais alto para superar Beltrano e quando se pára a ver os cacos dessa guerra, encontramos estilhaços de paisagem destroçados por uma guerra fútil de egos e concreto. Ao passo que se todos tivessem uma casa baixa, humilde, ao fim da tarde, todos poderiam subir em um muro, um teto ou mesmo uma colina próxima e admirar o mar - infinatamente maior que qualquer coisa que um ser humano fará em sua existência.
Inclusive, uma das coisas mais lindas do caminho é o terreno dos Cactos, mostrei-o para dois amigos dia desses que fizeram pouco da minha cara. Entre dois prédios monstruosos da beira mar de Candeias há um terreno completamente abandonado, cercado por um muro de pedra onde crescem cactos, aos montes. Crescem tão livremente que suas folhas violentas e ásperas já rompem o muro e invadem, ainda que timidamente, a calçada.
Meus amigos não puderam entender, entretanto faço votos que o leitor possa. Não há quem regue, não há quem cuide da terra, os cactos passam o dia respirando o stress dos transeuntes e o carbono dos carros. À direita uma monstruosidade de vinte andares, de Fulano; À esquerda outra de vinte e cinco, de Cicrano. No meio, rebelde, inviolável, cactos brotando no meio da cidade cinza como que por mágica, como se as suas palmas verdes e grossas fossem a palma de Deus a implorar pela misericórdia dos homens. Digo mais, eles estão florindo. Não há andares suficientes para encerrar a beleza de uma flor de cacto, minúscula.
Não desmereço o crédito de um arquiteto - edifícios são verdadeiras obras de arte. Mas me perdoem os antropológicos, o que é a arte dos homens frente à arte de Deus?
Pensei isso quando passando na orla de Piedade encontrei um Edifício com o seguinte nome - Hilda - é quase uma torre de uns nove, dez andares no meio de uma enorme área vazia, me lembrou a torre de Rapunzel. Pensei que talvez fosse uma analogia à Hilda Hilst, um edifício árido e solitário batizado com o nome de uma mulher árida e solitária. Mas isso é mera suposição.
No caminho de Piedade à minha casa ainda há dois que me chamaram a atenção pelos nomes - Vinícius de Moraes e Pasárgada - não que eles tenham algo a ver com a literatura, para mim são depravações da natureza; mas o nome, admito, os preenche de poesia.
Passei a noite de sexta para sábado no último andar de um pequeno prédio em boa viagem, acho que tinha uns seis andares e fica à umas boas seis quadras da beira mar. Ao chegar no último patamar corri aos muros da laje para admirar a vista. E o que vi foi o anão onde eu estava cercado por montes de pedra e granito, foi uma sensação curiosa, no último andar de um prédio de uns seis andares, há algo entre vinte e trinta metros do chão, eu me senti claustrofóbico, não havia paisagem, simplesmente não havia. Há mais de dez metros do chão minha vista não se podia estender além de uns cem metros de horizonte. E olhe lá!
Daí vale olhar o egoísmo humano. Fulano quer ser mais bonito e faz uma casa maior para ter mais vista que Cicrano. Cicrano não quer deixar por menos e constrói uma nova maior que a de Fulano. Beltrano vai lá e supera os dois. Os dois indignados, cada um constrói mais alto para superar Beltrano e quando se pára a ver os cacos dessa guerra, encontramos estilhaços de paisagem destroçados por uma guerra fútil de egos e concreto. Ao passo que se todos tivessem uma casa baixa, humilde, ao fim da tarde, todos poderiam subir em um muro, um teto ou mesmo uma colina próxima e admirar o mar - infinatamente maior que qualquer coisa que um ser humano fará em sua existência.
Inclusive, uma das coisas mais lindas do caminho é o terreno dos Cactos, mostrei-o para dois amigos dia desses que fizeram pouco da minha cara. Entre dois prédios monstruosos da beira mar de Candeias há um terreno completamente abandonado, cercado por um muro de pedra onde crescem cactos, aos montes. Crescem tão livremente que suas folhas violentas e ásperas já rompem o muro e invadem, ainda que timidamente, a calçada.
Meus amigos não puderam entender, entretanto faço votos que o leitor possa. Não há quem regue, não há quem cuide da terra, os cactos passam o dia respirando o stress dos transeuntes e o carbono dos carros. À direita uma monstruosidade de vinte andares, de Fulano; À esquerda outra de vinte e cinco, de Cicrano. No meio, rebelde, inviolável, cactos brotando no meio da cidade cinza como que por mágica, como se as suas palmas verdes e grossas fossem a palma de Deus a implorar pela misericórdia dos homens. Digo mais, eles estão florindo. Não há andares suficientes para encerrar a beleza de uma flor de cacto, minúscula.
Não desmereço o crédito de um arquiteto - edifícios são verdadeiras obras de arte. Mas me perdoem os antropológicos, o que é a arte dos homens frente à arte de Deus?
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do mistério e do divino
domingo, março 29
mundo cínico e mundo lírico
Antes de mais nada, para os que pensam que atores são uns vagabundos inconsequentes (há quem ainda pense isso) a crônica de hoje surgiu de uma discussão entre atores e suas visões de mundo.
Colonialismo, estudamos no colégio como movimento político tipicamente europeu, onde os estados descobriam ou conquistavam uma nova terra e em troca de levar à essa terra inexplorada o progresso, exigiam o direito à livre exploração da mesma, chamada colônia.
Acabou mesmo? Nem oito nem oitenta, como diria a minha avó. Ninguém descobriu nada e tudo que se fez foi subjulgar e explorar os povos que já habitavam as novas terras. A América Latina, o Sudeste da Ásia e a África são heranças da colonização. Mas o que me impressionou foi o novo arranjo social Europeu - os imigrantes.
É comum aqui no Brasil agências de intercâmbio que oferecem empregos no exterior, é uma boa linha de cúrriculo, acrescenta bagagem cultural, consolida o conchecimento em língua estrangeira e geralmente paga em dolar ou euro, ambas atualmente mais fortes que o real (aliás, com o governo assumindo o mercado imobiliário e bancário americano, ambos de forma geral à égide da falência, como a moeda america ainda não desvalorizou diante tamanha fraude?).
O que eu desconhecia era a posição do Europeu frente ao emigrante - descobri dia desses que as tarefas de subsistência ou menores não são dignas dos nobres europeus - serviço doméstico e de atendimento em geral, por exemplo - assim, qualquer tarefa considerada pela cultura européia como de "menor importância" é trabalho de imigrantes.
O que me assusta, o que me revolta nesse senso de globalização - como as fábricas de multinacionais na China, por exemplo - são dois conceitos que faço questão de desconstruir no blog: 1- Infelizmente, ao fazer tal discernimento, fica implícita idéia que os imigrantes são inferiores aos magnânimos povos brancos. 2- Fica caracterizado o gênero de subdesenvolvimento entre as nações.
Thiago Godin, ator e advogado, fez o favor de me informar que as constituições de certos paises da Europa, como a Espanha, por exemplo, foram baseadas também nesse mecanismo, onde a desigualdade é necessária para o abastecimento da mão de obra inferior e barata dos imigrantes.
Trocando em miúdos, fica claro o completo desinteresse das nações ricas e decadentes em combater o subdesenvolvimento, pois nele elas se alicerçam. Me parece uma piada de muito mal gosto. Acabar com a fome na Africa? Tudo bem, se não interferir com o petróleo (outro com os dias contados) e os diamantes. Dar anistia, perdão de dívida externa, o diabo a quatro... Tudo bem. Abolir a idéia de subdesenvolvimento e dar início a um trabalho em prol do fim da desigualdade. Adotar a idéia que estamos todos no mesmo barco - desculpe, meu filho, aí já é demais.
Talvez se eu fosse Espanhol, ou Alemão, eu mesmo Canadense, eu pensasse diferente, mas sou brasileiro, e cada um de nossos estados vale um país inteiro na Europa. E sim, há uma classe dominante no país que não se interessa em combater a desigualdade. Há sim no país os que recorrem ao assistencialismo, à aglomeração e alienação do cidadão ordinário - principalmente para angariar votos, há sim camadas intrísecas e inacabáveis de corrupção no poder. Mas, às vezes, por graça divina, nos une a consciência que somos todos brasileiros; e, mais raro ainda, às vezes a nação brasileira inteira se lembra que faz toda parte da mesma humanidade. E nossa constituição, antiga, frouxa e sem graça ainda pensa que a declaração dos direitos humanos não é estória de carochinha.
Tomei uma decisão - De hoje em diante chamo o que se convencionou 1º mundo de 'mundo cínico' e o 3º mundo de 'mundo lírico', porque aqui em baixo do mundo ainda há quem acredite no que diz.
Coisas assim me deixam desgostoso com o mundo.
Colonialismo, estudamos no colégio como movimento político tipicamente europeu, onde os estados descobriam ou conquistavam uma nova terra e em troca de levar à essa terra inexplorada o progresso, exigiam o direito à livre exploração da mesma, chamada colônia.
Acabou mesmo? Nem oito nem oitenta, como diria a minha avó. Ninguém descobriu nada e tudo que se fez foi subjulgar e explorar os povos que já habitavam as novas terras. A América Latina, o Sudeste da Ásia e a África são heranças da colonização. Mas o que me impressionou foi o novo arranjo social Europeu - os imigrantes.
É comum aqui no Brasil agências de intercâmbio que oferecem empregos no exterior, é uma boa linha de cúrriculo, acrescenta bagagem cultural, consolida o conchecimento em língua estrangeira e geralmente paga em dolar ou euro, ambas atualmente mais fortes que o real (aliás, com o governo assumindo o mercado imobiliário e bancário americano, ambos de forma geral à égide da falência, como a moeda america ainda não desvalorizou diante tamanha fraude?).
O que eu desconhecia era a posição do Europeu frente ao emigrante - descobri dia desses que as tarefas de subsistência ou menores não são dignas dos nobres europeus - serviço doméstico e de atendimento em geral, por exemplo - assim, qualquer tarefa considerada pela cultura européia como de "menor importância" é trabalho de imigrantes.
O que me assusta, o que me revolta nesse senso de globalização - como as fábricas de multinacionais na China, por exemplo - são dois conceitos que faço questão de desconstruir no blog: 1- Infelizmente, ao fazer tal discernimento, fica implícita idéia que os imigrantes são inferiores aos magnânimos povos brancos. 2- Fica caracterizado o gênero de subdesenvolvimento entre as nações.
Thiago Godin, ator e advogado, fez o favor de me informar que as constituições de certos paises da Europa, como a Espanha, por exemplo, foram baseadas também nesse mecanismo, onde a desigualdade é necessária para o abastecimento da mão de obra inferior e barata dos imigrantes.
Trocando em miúdos, fica claro o completo desinteresse das nações ricas e decadentes em combater o subdesenvolvimento, pois nele elas se alicerçam. Me parece uma piada de muito mal gosto. Acabar com a fome na Africa? Tudo bem, se não interferir com o petróleo (outro com os dias contados) e os diamantes. Dar anistia, perdão de dívida externa, o diabo a quatro... Tudo bem. Abolir a idéia de subdesenvolvimento e dar início a um trabalho em prol do fim da desigualdade. Adotar a idéia que estamos todos no mesmo barco - desculpe, meu filho, aí já é demais.
Talvez se eu fosse Espanhol, ou Alemão, eu mesmo Canadense, eu pensasse diferente, mas sou brasileiro, e cada um de nossos estados vale um país inteiro na Europa. E sim, há uma classe dominante no país que não se interessa em combater a desigualdade. Há sim no país os que recorrem ao assistencialismo, à aglomeração e alienação do cidadão ordinário - principalmente para angariar votos, há sim camadas intrísecas e inacabáveis de corrupção no poder. Mas, às vezes, por graça divina, nos une a consciência que somos todos brasileiros; e, mais raro ainda, às vezes a nação brasileira inteira se lembra que faz toda parte da mesma humanidade. E nossa constituição, antiga, frouxa e sem graça ainda pensa que a declaração dos direitos humanos não é estória de carochinha.
Tomei uma decisão - De hoje em diante chamo o que se convencionou 1º mundo de 'mundo cínico' e o 3º mundo de 'mundo lírico', porque aqui em baixo do mundo ainda há quem acredite no que diz.
Coisas assim me deixam desgostoso com o mundo.
quadra do suicida
Quem me amaria se eu fosse um suicida?
Quem se me enxergasse do topo dos andares
Me beijaria com entrega a me salvar da morte certa
Quem me empurraria se eu fosse um suicida?
Inspirado no clipe "leave before the lights come on" do Artic Monkeys
Quem se me enxergasse do topo dos andares
Me beijaria com entrega a me salvar da morte certa
Quem me empurraria se eu fosse um suicida?
Inspirado no clipe "leave before the lights come on" do Artic Monkeys
sábado, março 28
O Prédio da Torre II
Há quem compare o ratão - boêmia artística emergente no Recife - a um Papado. Nem oito nem oitenta, como diria minha avó, mas com certeza o movimento propõe traços de uma ritualística, tem algo de mítico, capaz de tocar no mistério da alma humana.
E se o ratão fosse um papado o Recife Antigo seria nosso Vaticano, e nos finais de semana à noite nossos encontros seriam os Conclaves e o Novo Pina seria nossa Capela Sistina. Portanto, assim como a igreja Católica tem um estado, nós, os ratos, temos um bairro. Assim como a Sistina é protegida pela arte dos mestres - Pinturicchio, Botticelli, Cosimo Rosselli, entre outros - o Recife antigo, é cercado pela arte de Brennand e sua infamosíssima pica, Cícero Dias entre outros.
Ainda na analogida, se o ratão fosse um papado, o Recife Antigo seria nosso Vaticano, mas o Prédio de Bruninha seria a Catedral de N. S. Aparecida, a maior do Brasil.
Outro dia fui para lá mais Robertinho - Roberto França, professor de inglês do CAC, solteiro, à procura de sua gatinha manhosa, interessadas favor procurá-lo - e foi uma coisa dessas que não mais esqueço.
Larguei do serviço e fui para o cinema da Fundação, Roberto me encontrou no caminho, tinha um festival de cinema, com a coletânia dos filmes mais relevantes já exibidos lá. Isso era sexta, acho.
Fui lá para ver Bruninha, dar um oi, bater papo, coisa e tal. Ela tinha acabado de sair de uma sessão e ia emendar em outra. Mas papo vai, papo vem, terminámos eu, Roberto e ela no palco do jardim do andar térreo.
Não sei se todos estão familiarizados com o espaço, acho que só as pessoas que trabalham ou fazem cursos lá tem conhecimento do lugar - um lindo jardim em volta de um patamar para apresentaçõse e três degraus de platéia afastados em direção à uma das paredes. O que me facina no lugar é que é um dos poucos lugares que conheço no centro da cidade para roubar rosas - rosas vermelhas, o que não é pouca coisa.
Quem me mostrou as rosas foi Roberto, que olhou planta por planta para passar o tempo. Fiz um dos carinhos mais estéticos da minha vida soprando e despetalando as pétalas de uma rosa no rosto de Bruninha e vendo sua pele branca se fundir em sangue com o vermelho da rosa e o perfume da rosa aderir seu pescoço e a delicadez de uma pétala se imprimir em seu rosto.
Uma grande amiga, Clarissa Santos, escritora de mão cheia, estava na cidade e eu achei que tinha que ir embora para me encontrar com ela. Clarissa, para mim, é uma celebridade e quando ela está eu tenho que correr para vê-la. Foi assim aquela noite, mas no meio do caminho descobri que ela tinha ido com a família para o show do Rosas de Sharon e eu só a veria no dia seguinte.
Sentei no balanço da Praça do Derby com Roberto para jogar conversa fora. Naquela época bater papo num balanço de praça não era contra a lei - a praça era mais abandonada, contudo, pelo menos não havia os vagabundos pagos pela prefeitura para encher o meu saco e atrasar a conclusão da obra. Quando mando uma mensagem de texto para Bruninha, dando boa noite ou coisa parecida e ela responde que está numa festa - onde, ora vejam? No prédio dela - de pilhéria, respondi dizendo que estava de doce porque não fora convidado e ela disse vem.
Até aí nada demais, impressionante mesmo foi Roberto ter ido comigo e as peripécias pelas quais ele passou. Primeiro fomos comprar umas besterias para comer no Habib's da Rosa e Silva, depois pegamos um ônibus até a torre. Roberto é uma pluma, Fred Fonseca, um amigo da gente, diz que quem o vê correndo na praia de sunga pensa que é o homem invisível numa sunguinha amarela.
Enfim, ele comeu um pastel do Habib's e começou a regurgitá-lo no ônibus, quase põe pra fora em cima do cobrador, mas graças às energias ratônicas daquela noite, sobrevivemos todos.
E Roberto também não pode reclamar, quando chegamos havia uns homens, mas do meio parao final só havia mulheres para a festa, e na sua maioria, todas lindas. Ele não sabia ainda, mas quando eu ia para o prédio na Torre, eu ia para virar a noite. Naquela noite, eu tinha ganhado uma toca à la mano chao; mas naquela época eu e Bruna estávamos juntos e saímos da vista para fazermos juras de amor escondido entre os carros do estacionamento, embaixo das luzes frias, da noite fria.
Engraçado como quando a gente gosta esquece de tanta coisa, quanto mais rídiculo, melhor para o enamorado. O que sei é que no meio dessas juras eu perdi minha toquinha, para sempre.
E Roberto, esse rapaz de família, esse exemplo de bom comportamento, que não bebe (só vinho, isso mesmo garotas, é um rapaz de gosto refinado), não fuma passou a noite cercado de mulheres e ainda por cima roubou um beijinho de Bruna na minha frente num jogo de verdade ou desafio recheado de cubos de gelo que não sei de onde vieram ou para onde foram.
Toda noite é uma ilusão - quatro da manhã todas as mulheres foram dormir, pois todas moravam no prédio e nós dois - moços da zona sul, pobres e sem carro - fomos dormir no chão do salão de festas num frio de lascar. Não, não é meu fim de noite ideal.
Cinco e pouco acordamos e fomos embora, em poucas horas ele tinha psicólogo (e agora muito o que contar) e eu ia para casa. Fomos andando, paramos na padaria das cinco esquinas para comer pão com ovo e tomar café. A família dele ligou, estava preocupada, ele tranquilizou os parentes e ficamos na FAFIRE entre o dormindo e o alesado até a hora do psicólogo dele. Depois fui para casa.
Como os ratos são em maioria adolescentes, na árdua e interminável tarefa de tornarem-se adultos, conceito abstrato; muitas vezes temos que nos entender com nossas famílias antes de sairmos para nos encontrar pelas noites. E o curiosos como isso é uma questão de hábito.
Minha experiência me mostra que homem, mulher, velho ou novo, rico ou pobre - liberdade é uma questão de exercício, hábito e luta. Quem não luta pela liberdade, qualquer, dos pais, dos chefes, do sistema, do que for; viverá acorrentado ao próprio medo de modificar o mundo que o cerca com a misteriosa força do amor.
Tudo isso para avisar que dia quatro, haverá uma festa do ratão. Local - o Prédio na Torre, encontro meus ratos lá.
E se o ratão fosse um papado o Recife Antigo seria nosso Vaticano, e nos finais de semana à noite nossos encontros seriam os Conclaves e o Novo Pina seria nossa Capela Sistina. Portanto, assim como a igreja Católica tem um estado, nós, os ratos, temos um bairro. Assim como a Sistina é protegida pela arte dos mestres - Pinturicchio, Botticelli, Cosimo Rosselli, entre outros - o Recife antigo, é cercado pela arte de Brennand e sua infamosíssima pica, Cícero Dias entre outros.
Ainda na analogida, se o ratão fosse um papado, o Recife Antigo seria nosso Vaticano, mas o Prédio de Bruninha seria a Catedral de N. S. Aparecida, a maior do Brasil.
Outro dia fui para lá mais Robertinho - Roberto França, professor de inglês do CAC, solteiro, à procura de sua gatinha manhosa, interessadas favor procurá-lo - e foi uma coisa dessas que não mais esqueço.
Larguei do serviço e fui para o cinema da Fundação, Roberto me encontrou no caminho, tinha um festival de cinema, com a coletânia dos filmes mais relevantes já exibidos lá. Isso era sexta, acho.
Fui lá para ver Bruninha, dar um oi, bater papo, coisa e tal. Ela tinha acabado de sair de uma sessão e ia emendar em outra. Mas papo vai, papo vem, terminámos eu, Roberto e ela no palco do jardim do andar térreo.
Não sei se todos estão familiarizados com o espaço, acho que só as pessoas que trabalham ou fazem cursos lá tem conhecimento do lugar - um lindo jardim em volta de um patamar para apresentaçõse e três degraus de platéia afastados em direção à uma das paredes. O que me facina no lugar é que é um dos poucos lugares que conheço no centro da cidade para roubar rosas - rosas vermelhas, o que não é pouca coisa.
Quem me mostrou as rosas foi Roberto, que olhou planta por planta para passar o tempo. Fiz um dos carinhos mais estéticos da minha vida soprando e despetalando as pétalas de uma rosa no rosto de Bruninha e vendo sua pele branca se fundir em sangue com o vermelho da rosa e o perfume da rosa aderir seu pescoço e a delicadez de uma pétala se imprimir em seu rosto.
Uma grande amiga, Clarissa Santos, escritora de mão cheia, estava na cidade e eu achei que tinha que ir embora para me encontrar com ela. Clarissa, para mim, é uma celebridade e quando ela está eu tenho que correr para vê-la. Foi assim aquela noite, mas no meio do caminho descobri que ela tinha ido com a família para o show do Rosas de Sharon e eu só a veria no dia seguinte.
Sentei no balanço da Praça do Derby com Roberto para jogar conversa fora. Naquela época bater papo num balanço de praça não era contra a lei - a praça era mais abandonada, contudo, pelo menos não havia os vagabundos pagos pela prefeitura para encher o meu saco e atrasar a conclusão da obra. Quando mando uma mensagem de texto para Bruninha, dando boa noite ou coisa parecida e ela responde que está numa festa - onde, ora vejam? No prédio dela - de pilhéria, respondi dizendo que estava de doce porque não fora convidado e ela disse vem.
Até aí nada demais, impressionante mesmo foi Roberto ter ido comigo e as peripécias pelas quais ele passou. Primeiro fomos comprar umas besterias para comer no Habib's da Rosa e Silva, depois pegamos um ônibus até a torre. Roberto é uma pluma, Fred Fonseca, um amigo da gente, diz que quem o vê correndo na praia de sunga pensa que é o homem invisível numa sunguinha amarela.
Enfim, ele comeu um pastel do Habib's e começou a regurgitá-lo no ônibus, quase põe pra fora em cima do cobrador, mas graças às energias ratônicas daquela noite, sobrevivemos todos.
E Roberto também não pode reclamar, quando chegamos havia uns homens, mas do meio parao final só havia mulheres para a festa, e na sua maioria, todas lindas. Ele não sabia ainda, mas quando eu ia para o prédio na Torre, eu ia para virar a noite. Naquela noite, eu tinha ganhado uma toca à la mano chao; mas naquela época eu e Bruna estávamos juntos e saímos da vista para fazermos juras de amor escondido entre os carros do estacionamento, embaixo das luzes frias, da noite fria.
Engraçado como quando a gente gosta esquece de tanta coisa, quanto mais rídiculo, melhor para o enamorado. O que sei é que no meio dessas juras eu perdi minha toquinha, para sempre.
E Roberto, esse rapaz de família, esse exemplo de bom comportamento, que não bebe (só vinho, isso mesmo garotas, é um rapaz de gosto refinado), não fuma passou a noite cercado de mulheres e ainda por cima roubou um beijinho de Bruna na minha frente num jogo de verdade ou desafio recheado de cubos de gelo que não sei de onde vieram ou para onde foram.
Toda noite é uma ilusão - quatro da manhã todas as mulheres foram dormir, pois todas moravam no prédio e nós dois - moços da zona sul, pobres e sem carro - fomos dormir no chão do salão de festas num frio de lascar. Não, não é meu fim de noite ideal.
Cinco e pouco acordamos e fomos embora, em poucas horas ele tinha psicólogo (e agora muito o que contar) e eu ia para casa. Fomos andando, paramos na padaria das cinco esquinas para comer pão com ovo e tomar café. A família dele ligou, estava preocupada, ele tranquilizou os parentes e ficamos na FAFIRE entre o dormindo e o alesado até a hora do psicólogo dele. Depois fui para casa.
Como os ratos são em maioria adolescentes, na árdua e interminável tarefa de tornarem-se adultos, conceito abstrato; muitas vezes temos que nos entender com nossas famílias antes de sairmos para nos encontrar pelas noites. E o curiosos como isso é uma questão de hábito.
Minha experiência me mostra que homem, mulher, velho ou novo, rico ou pobre - liberdade é uma questão de exercício, hábito e luta. Quem não luta pela liberdade, qualquer, dos pais, dos chefes, do sistema, do que for; viverá acorrentado ao próprio medo de modificar o mundo que o cerca com a misteriosa força do amor.
Tudo isso para avisar que dia quatro, haverá uma festa do ratão. Local - o Prédio na Torre, encontro meus ratos lá.
quinta-feira, março 26
Seis em uma
Suzane Elisa Camilla Gabriela Fontes Rios, nascida e registrada em cartório assim, talvez com um ene a mais ou a menos, pois nunca vi o nome escrito por extenso, mas sei que ele é assim.
E pra quê tanto nome? Para proteger a dona. Nasceu prematura, era miúda, leve e pequena, portanto a família decidiu que ela deveria ter alguma coisa de grande, nem que fosse o nome. Hoje de pequeno tem pouco, talvez a altura, talvez o tamanho da boca, mas em geral é uma grande e adorável mulher.
Vale notar como cada nome representa uma personagem de si mesma. Camilla é ela mesma, Suzane é a mulher que existe nela, Elisa foi a criança e Gabriela será a memória de tantas mulheres que viveram numa só.
Sem falar que não é todo mundo que pode mudar de nome assim, como quem muda de roupa. Nada mais natural que fosse atriz, que tivesse o gosto pela multiplicidade, pela transição.
Dia desses estávamos voltando para casa Eu, Mauro Monezi e ela, no meio do caminho ela pára "meu celular sumiu. Estava na pasta antes, quando começamos a andar, e agora sumiu". Pensei "pronto, é agora".
Na verdade a princípio não entendi, não assimilei direito a informação. Depois fui compreendendo e vi que só tinha uma solução - voltar e procurar o bicho.
Pensei "que saco" eram para lá de dez da noite, estávamos todos cansados e pela frente ainda tinha quinze minutos de caminhada, janta e banho para eu finalmente dormir, tudo que eu mais queria. E ela ia deixando a responsabilidade fugir "Não, vamos não, está tarde, deixa para lá, já foi..." - Mauro estava pela metade, pelo que vi, por ele voltávamos para procurar, mas também estava cansado e não queria contradizer ela.
Entretanto perdi o celular dia desses em circunstância parecida. Ela não sabe, mas uma verdadeira revolução se passou em minha mente naqueles poucos momentos entre a descoberta da perda e minha resolução; mais ou menos essa "Que saco, o jeito é voltar... Eita, ela não quer, então que se dane, vou para casa dormir... Diogo, isso não se pensa, e se fosse com você?... Diogo, você não tem bondade nenhuma dentro de você, você não dá a mínima para os outros..."
E foi assim, não num acesso de bravura, mas esmagado pela mais abjeta culpa, que a vi lamentando a perda do telefone e decidi "eu vou, se vocês quiserem ir embora, vão; tu não precisa se preocupar Camilla, eu vou voltar e acho o celular".
Foi de tal forma definitivo que eles, como as pessoas maravilhosas - e boas - que são voltaram comigo para procurar o aparelho. A noite estava deserta e umas três quadras atrás ela viu o celular caido no meio da rua. "Encontrei" ela disse "tá ali".
O celular era da mãe dela, que há poucos dias perdeu outro aparelho, seria uma desgraça em cadeia perder o segundo. Eu, ao mesmo tempo, me lavei da frustração de perder o meu como da culpa do lobo que existe em mim.
A crônica de hoje tem duas funções - 1ª pedir cuidado com os gestos nobres, pois eles não partem da nobreza de espíritos elevados, mas da culpa de almas atormentadas.
E 2º) Dar os meus grandes e sinceros parabéns à Suzane Elisa Camilla Gabriela Fontes Rios, seis mulheres encarnadas em uma, que faz anos hoje.
É o tempo senhores, varrendo todos nós...
E pra quê tanto nome? Para proteger a dona. Nasceu prematura, era miúda, leve e pequena, portanto a família decidiu que ela deveria ter alguma coisa de grande, nem que fosse o nome. Hoje de pequeno tem pouco, talvez a altura, talvez o tamanho da boca, mas em geral é uma grande e adorável mulher.
Vale notar como cada nome representa uma personagem de si mesma. Camilla é ela mesma, Suzane é a mulher que existe nela, Elisa foi a criança e Gabriela será a memória de tantas mulheres que viveram numa só.
Sem falar que não é todo mundo que pode mudar de nome assim, como quem muda de roupa. Nada mais natural que fosse atriz, que tivesse o gosto pela multiplicidade, pela transição.
Dia desses estávamos voltando para casa Eu, Mauro Monezi e ela, no meio do caminho ela pára "meu celular sumiu. Estava na pasta antes, quando começamos a andar, e agora sumiu". Pensei "pronto, é agora".
Na verdade a princípio não entendi, não assimilei direito a informação. Depois fui compreendendo e vi que só tinha uma solução - voltar e procurar o bicho.
Pensei "que saco" eram para lá de dez da noite, estávamos todos cansados e pela frente ainda tinha quinze minutos de caminhada, janta e banho para eu finalmente dormir, tudo que eu mais queria. E ela ia deixando a responsabilidade fugir "Não, vamos não, está tarde, deixa para lá, já foi..." - Mauro estava pela metade, pelo que vi, por ele voltávamos para procurar, mas também estava cansado e não queria contradizer ela.
Entretanto perdi o celular dia desses em circunstância parecida. Ela não sabe, mas uma verdadeira revolução se passou em minha mente naqueles poucos momentos entre a descoberta da perda e minha resolução; mais ou menos essa "Que saco, o jeito é voltar... Eita, ela não quer, então que se dane, vou para casa dormir... Diogo, isso não se pensa, e se fosse com você?... Diogo, você não tem bondade nenhuma dentro de você, você não dá a mínima para os outros..."
E foi assim, não num acesso de bravura, mas esmagado pela mais abjeta culpa, que a vi lamentando a perda do telefone e decidi "eu vou, se vocês quiserem ir embora, vão; tu não precisa se preocupar Camilla, eu vou voltar e acho o celular".
Foi de tal forma definitivo que eles, como as pessoas maravilhosas - e boas - que são voltaram comigo para procurar o aparelho. A noite estava deserta e umas três quadras atrás ela viu o celular caido no meio da rua. "Encontrei" ela disse "tá ali".
O celular era da mãe dela, que há poucos dias perdeu outro aparelho, seria uma desgraça em cadeia perder o segundo. Eu, ao mesmo tempo, me lavei da frustração de perder o meu como da culpa do lobo que existe em mim.
A crônica de hoje tem duas funções - 1ª pedir cuidado com os gestos nobres, pois eles não partem da nobreza de espíritos elevados, mas da culpa de almas atormentadas.
E 2º) Dar os meus grandes e sinceros parabéns à Suzane Elisa Camilla Gabriela Fontes Rios, seis mulheres encarnadas em uma, que faz anos hoje.
É o tempo senhores, varrendo todos nós...
quarta-feira, março 25
Meu fundinho

Ontem não teve crônica. Culpa do modem.
Couso de Petrolina. Era feriado, primeiro de maio, dia do trabalho, acho. Estávamos todos no terceiro ano colegial - Eu, Raimundo, Tarina, Raissa, Laíse, Cássia e Akemi Toma Keiko - e decidimos cozinhar um almoço comunitário no feriado, não tínhamos nada para fazer mesmo.
Explico, em Petrolina não se vende queijo de fundue, os motivos são por demais metafísicos para que eu os compreenda, mas suspeito que não tenha quem o compre. Mas tenho uma panela para fundue em casa, comentei isso com Akemi, matuta de gosto refinadíssimo. Na época meu pai estava em Recife à trabalho e comentei "Aka, eu podia pedir para meu pai comprar o queijo e nós podíamos comer fundue" ela "Adoro, tão europeu fundue" e eu "foi, agente chama o povo e come no feriado" ela "fechou, vai ser na minha casa, vou fazer yaksoba".
E fomos, painho comprou o queijo, akemi com a ajuda das meninas fez muita bagunça na cozinha e macarrão com shoyo, daí para yaksoba são quinhentos, não é akemi? E eu trouxe o fundue e panelinha, que logo foi apelidado de "o fundinho do Diogo" e passei a tarde ouvindo comentários do tipo "então, hoje todo mundo vai comer o fundinho do Diogo" ou então "Nossa, teu fundinho é tão bom Diogo..." coisa e tal.
O fundue de queijo deu certo, graças, nunca tinha feito antes, exceto pelo calor, que já é excepicional em Petrolina, somado às panelas, comemos numa sauna e todos perdemos uns dois quilos durante a refeição.
Passava ou alugaram o filme do 007 mas ninguém conseguia assistir por causa da zuada. Num descuido todos sairam do sofá para comer e deitei, quando as moças me viram esparramado no sofá, como um rei, me confundiram com a mobília e tiraram essa foto, a primeira que publico no blog.
O sucesso do meu "fundinho de queijo" foi tão grande que decidi tentar o "fundinho de chocolate". Havia uma barra de chocolate meio amargo e imaginei que se derretéssemos na panela o chocolate e passássemos no pão seria uma delícia. E seria mesmo.
Se eu não tivesse inventado de no meio do derretimento do chocolate jogar vinho branco na mistura. Não sei porque, mas tive uma dessas certezas inapeláveis que seria delicioso se eu jogasse vinho no chocolate derretido.
Minha certeza estava errada, óbvio. O chocolate virou uma gosma dura que sinceramente lembrava... Bem, o leitor é inteligente o suficiente para saber o que lembra uma gosma marrom grudenta e meio dura.
Akemi salvou o dia e fez brigadeiro para a gente. Mas meu fundinho permanece na memória.
A crônica de hoje é uma homenagem à Akemi Toma Keiko, Design em Curitiba. Que no tempo em que passamos juntos em Petrolina, foi uma mestre, mãe, professora, amiga, irmã, consciência, coragem e acima de tudo muito amada. Apesar dos pesares. Como ela fez anos ontem, hoje com a crônica a dou meus parabéns.
segunda-feira, março 23
Tango
Estou ouvindo tango. Osvaldo Pugliese. Difícil até mesmo descrever o que sinto ao ouvir a música.
Seguinte, pela perspectiva da sinceridade que escolhi para reger o blog, afirmo humilde que não posso escrever uma crônica hoje, segunda-feira, dia 23 de março, pois hoje é um dia de poesia, e vou improvisar algo aqui, ao som do tango.
Au revoir
E tu, que estavas tão certa
Nas almofadas de meu sofá
Sorriu ao ver a porta aberta
E chorou quando a viu fechar
E tu, que nunca dançaste um samba
De largas ancas, sem espaldar
Mas cujas pernas quando me enrosca
Balança o juizo de a ver passar
Pois tu, que para mim não é nada
No teu vazio me aconchegar
E no último sino, badalada
A hora de te abandonar
au revoir
Seguinte, pela perspectiva da sinceridade que escolhi para reger o blog, afirmo humilde que não posso escrever uma crônica hoje, segunda-feira, dia 23 de março, pois hoje é um dia de poesia, e vou improvisar algo aqui, ao som do tango.
Au revoir
E tu, que estavas tão certa
Nas almofadas de meu sofá
Sorriu ao ver a porta aberta
E chorou quando a viu fechar
E tu, que nunca dançaste um samba
De largas ancas, sem espaldar
Mas cujas pernas quando me enrosca
Balança o juizo de a ver passar
Pois tu, que para mim não é nada
No teu vazio me aconchegar
E no último sino, badalada
A hora de te abandonar
au revoir
domingo, março 22
Todo homem é uma ilha
Todo homem é uma ilha, e só a cerveja é capaz de reuní-los em arquipélagos.
Percebi isso voltando para Candeias de carona. Mauro, que também voltava na mesma carona ia de um lado do carro pensando na sua vida e eu do outro pensando na minha. Por quê não nos confessávamos um ao outro? Por quê não dividiámos nossos pesares? Falta de cerveja, logicamente. Viemos de uma pizzaria e tudo que tomaram foi refrigerante.
Quão diferente de ontem, que me encontrei com os ratos no Novo Pina não sei depois de quanto tempo. E que saudade! Vi Tulinho, Calú, Basílio, Joca, Laís. E nem deu meia hora, estavámos confessando tudo, eu gritava meus maiores pecados para e mesa, e a mesa respondia seus próprios maiores pecados. Bravo!
Menos Basílio, que discutia em vão filosofia e mitologia grega, mas talvez essa intelectualidade exarcebada seja o pecado inconfessável de Basílio, vai saber.
Domingo é sempre mais triste, talvez seja apenas isso, não sei. Domingo é o dia da praça, da preguiça. Eu ia explicando tudo isso na mesa para Roberto Brandão, grande amigo, hoje "Temos que deixar as meninas de lado e sentar os caras num boteco para beber" E ele, "é mesmo Diogo, bora" e eu "Não tô aguentando mais, preciso me confessar" e ele "bote fé".
Engraçado, hoje assisti com o big brother do SESC de Piedade Rasif, do coletivo Angu de Teatro, um sério parabéns para eles pelo trabalho bem feito. O espetáculo é uma junção de esquetes que discutem a realidade urbana, destaque para o esquete do carro "minha namorada me deixou, culpa do carro. A fome, o petróleo, a guerra no oriente médio, tudo culpa do carro, você não vê" que entra em perfeita comunhão com a crônica 'Energia Solar' publicada nesse blog, dia 15 de março.
O que me deixou comovido foi ver a comunhão com algumas idéias que tenho faz tempo, mas que desenvolvi por observação, como a solidão dos prédios, por exemplo. As classes altas já há algumas décadas, e há alguns anos a classe média vem se privando do contato com o mundo dentro do conceito de condomínio. Bom era no tempo do meu pai, que menino jogava pelada na rua - erámos (nós humanos) menos preconceituosos. Hoje podemos definir o padrão financeiro da compainha de nossos filhos dentro da taxa de condomínio. Podemos oferecer piscinas, gramados, áreas de lazer. Podemos escondê-los do mundo, podemos reduzir a violência à uma estatística de jornal e ensiná-los a ter medo de qualquer indigente, a correr nas pontes do Recife pela madrugada como verdadeiros animais de medo, filhos do medo. Os pais podem moldar a visão de vida de seus filhos à uma gaiola dentro da taxa do condomínio.
Sem falar na questão do carro - ouvi uma moça dizer, dia desses "Estou no último período da faculdade, minha carona vai mudar-se e ir para a faculade no último período de ônibus é inadmissível" - outra prova da minha teoria das ilhas. Se para mim a coisa mais comum do mundo é o lotação. Comum e filosófico, posto que boa parte da minha visão da vida, do amor, da condição humana e da morte foram desenvolvidas no lotação. Mais especificamente na linha CANDEIAS/CDE. DA BOA VISTA, 071, da Borborema, onde passava duas horas por dia para ir e voltar do serviço por mais de um ano. Quando começar a faculdade começa também a linha 020, CANDEIAS/DOIS IRMÃOS; e estou ansioso pelas experiências, personagens e reflexões que a condução me trará.
E fulana achando um ultraje pegar um ônibus. Para mim a prova absoluta e definitiva da solidão que somos cada um de nós.
Percebi isso voltando para Candeias de carona. Mauro, que também voltava na mesma carona ia de um lado do carro pensando na sua vida e eu do outro pensando na minha. Por quê não nos confessávamos um ao outro? Por quê não dividiámos nossos pesares? Falta de cerveja, logicamente. Viemos de uma pizzaria e tudo que tomaram foi refrigerante.
Quão diferente de ontem, que me encontrei com os ratos no Novo Pina não sei depois de quanto tempo. E que saudade! Vi Tulinho, Calú, Basílio, Joca, Laís. E nem deu meia hora, estavámos confessando tudo, eu gritava meus maiores pecados para e mesa, e a mesa respondia seus próprios maiores pecados. Bravo!
Menos Basílio, que discutia em vão filosofia e mitologia grega, mas talvez essa intelectualidade exarcebada seja o pecado inconfessável de Basílio, vai saber.
Domingo é sempre mais triste, talvez seja apenas isso, não sei. Domingo é o dia da praça, da preguiça. Eu ia explicando tudo isso na mesa para Roberto Brandão, grande amigo, hoje "Temos que deixar as meninas de lado e sentar os caras num boteco para beber" E ele, "é mesmo Diogo, bora" e eu "Não tô aguentando mais, preciso me confessar" e ele "bote fé".
Engraçado, hoje assisti com o big brother do SESC de Piedade Rasif, do coletivo Angu de Teatro, um sério parabéns para eles pelo trabalho bem feito. O espetáculo é uma junção de esquetes que discutem a realidade urbana, destaque para o esquete do carro "minha namorada me deixou, culpa do carro. A fome, o petróleo, a guerra no oriente médio, tudo culpa do carro, você não vê" que entra em perfeita comunhão com a crônica 'Energia Solar' publicada nesse blog, dia 15 de março.
O que me deixou comovido foi ver a comunhão com algumas idéias que tenho faz tempo, mas que desenvolvi por observação, como a solidão dos prédios, por exemplo. As classes altas já há algumas décadas, e há alguns anos a classe média vem se privando do contato com o mundo dentro do conceito de condomínio. Bom era no tempo do meu pai, que menino jogava pelada na rua - erámos (nós humanos) menos preconceituosos. Hoje podemos definir o padrão financeiro da compainha de nossos filhos dentro da taxa de condomínio. Podemos oferecer piscinas, gramados, áreas de lazer. Podemos escondê-los do mundo, podemos reduzir a violência à uma estatística de jornal e ensiná-los a ter medo de qualquer indigente, a correr nas pontes do Recife pela madrugada como verdadeiros animais de medo, filhos do medo. Os pais podem moldar a visão de vida de seus filhos à uma gaiola dentro da taxa do condomínio.
Sem falar na questão do carro - ouvi uma moça dizer, dia desses "Estou no último período da faculdade, minha carona vai mudar-se e ir para a faculade no último período de ônibus é inadmissível" - outra prova da minha teoria das ilhas. Se para mim a coisa mais comum do mundo é o lotação. Comum e filosófico, posto que boa parte da minha visão da vida, do amor, da condição humana e da morte foram desenvolvidas no lotação. Mais especificamente na linha CANDEIAS/CDE. DA BOA VISTA, 071, da Borborema, onde passava duas horas por dia para ir e voltar do serviço por mais de um ano. Quando começar a faculdade começa também a linha 020, CANDEIAS/DOIS IRMÃOS; e estou ansioso pelas experiências, personagens e reflexões que a condução me trará.
E fulana achando um ultraje pegar um ônibus. Para mim a prova absoluta e definitiva da solidão que somos cada um de nós.
sexta-feira, março 20
Msn
Tenho meus receios com palavrão. Nelson Rodrigues mesmo, o "tarado" só foi escrever seu primeiro palavrão em um texto dramático depois de ter feito as pazes com público e censura, ou quase isso.
Mas vá lá: o msn é uma merda, é uma invenção vil, criada por um amargo, um desiludido, um inseto qualquer como forma direta de protesto ao amor.
De onde tal conclusão? Das mulheres. Talvez o leitor não acredite, mas eu nunca tomei um fora ao vivo, com todas as letras. Algumas mulheres, hábeis, já me levaram a crer que minhas esperanças eram sem futuro, mas isso são quinhentos. Já o msn não! O msn é maquiavélico, é mefistofélico, é diabólico mesmo. E eu direi por quê: Porque o msn te dá o direito de privar-se dos próprios sentimentos, o msn é anti-humano, e venenosamente desprovem o indivíduo de paixão, ternura ou bondade.
Principalmente as mulheres, filhas da maçã e da cobra, como dizem no livro. Não foi uma nem duas, mas umas trezentas vezes que vi conversas de msn tornarem-se prodigiosas DR's ou até mesmo a derrocada de um relacionamento.
E eu medroso pedindo, implorando pra Lúcia, uma tal de quem gosto muito "Lú, pelo msn não, pelo amor de Deus! Vai dar tudo errado pelo msn!" Ela, na condição de mulher, não entende. Tudo bem. Mas também não respeita, abro o msn e lá estão as mensagens, aos montes, aos milhões.
Pelo menos com Lú é diferente, entra no msn agoniada, faz uma bagunça danada para organizar os pensamentos na mensagem e me manda textos entre o cômico e o trágico, tipo "desculpa por ontem é que vc falou que não queria conversar e como eu não estava me sentindo muito bem dei boa noite saí pensando que vc tb tinha saido", logo em seguida "bom quero muuuuuuuito falar com vc mais isso vai ter que esperar para segunda feira pq eu tinha marcado umas coisas pra esse fim de semana" ainda recheia esse bolo de complicações com "passei o dia como o celular na mao pensando se devia ou não ligar pra sua casa, me enchi de coragem mas no fim das contas perdi ela enquanto digitava o numero".
Nem precisa dizer que para um rapaz pobre e vaidoso como eu isso é puro veneno no ego, mas aí vem umas coisas complicadas pra chuchú, como por exemplo "na verdade eu não sei se quero conversar, tenho medo do que voce tem pra me dizer tenho medo do que eu tenho pra dizer a voce". Isso treme qualquer um na base. E isso porque eu entrei off não sei às quantas da madrugada, que era para não ter que papear pelo msn, me borrando de medo.
Dando tudo certo segunda-feira eu resolvo minha vida romanesca. E pensando no assunto ela deveria ter ligado, passei o dia olhando o teto e esperando a ligação...
Mas ela é excessão da regra. Só nos últimos seis meses vi duas conversas por msn se transformarem num completo caos e uma delas me levou às lágrimas. Vou contar o caso, ele merece ser contado.
Me apaixonei pela mulher mais triste do mundo, Isabel Araújo. Eu queria mesmo era dar meu sangue por ela. Eu queria tirar satisfações com o ex-namorado, queria fazer do melhor amigo dela um novo irmão, queria que ela ganhasse flores todos os dias de sua vida. Enfim, queria todas aquelas todas as idiotices do amor, e nunca me senti tão bem sendo idiota. Mal abria os olhos, já começava a cantar, e minha mãe me disse que eu estava cantando bem (isso não acontece, nunca). Chorava de saudades por causa de um dia, contava segundos, coisa e tal. Ela dizia "Diogo, vou te magoar" e eu, cego "Vai nada, bom mesmo é sofrer por você!" - Mas ela não me deixou, ela me procurou e me beijou e me beijou de novo e ia continuar até que... Ela veio falar comigo no msn. Parece piada, mas o leitor é capaz de deduzir o resultado da valsa. Eu nunca entendi isso, e acho que nunca irei.
Eu não menti, sofri por ela cada segundo, sofri até não ter mais sofrimento no meu peito para sofrer. Me enchi de trabalho para esquecer. No último dia de carnaval, me iludi para sofrer. E só quando não havia mais sentimento para sofrer e eu me encontrava completamente vazio, desumano; pude começar tudo de novo.
O jeito é esperar que Lúcia seja uma moça diferente, mas ainda assim tenho medo do msn.
Ou talvez no final o que me assuta não seja o msn, sejam as mulheres mesmo, estandartes do divino e do profano.
Mas vá lá: o msn é uma merda, é uma invenção vil, criada por um amargo, um desiludido, um inseto qualquer como forma direta de protesto ao amor.
De onde tal conclusão? Das mulheres. Talvez o leitor não acredite, mas eu nunca tomei um fora ao vivo, com todas as letras. Algumas mulheres, hábeis, já me levaram a crer que minhas esperanças eram sem futuro, mas isso são quinhentos. Já o msn não! O msn é maquiavélico, é mefistofélico, é diabólico mesmo. E eu direi por quê: Porque o msn te dá o direito de privar-se dos próprios sentimentos, o msn é anti-humano, e venenosamente desprovem o indivíduo de paixão, ternura ou bondade.
Principalmente as mulheres, filhas da maçã e da cobra, como dizem no livro. Não foi uma nem duas, mas umas trezentas vezes que vi conversas de msn tornarem-se prodigiosas DR's ou até mesmo a derrocada de um relacionamento.
E eu medroso pedindo, implorando pra Lúcia, uma tal de quem gosto muito "Lú, pelo msn não, pelo amor de Deus! Vai dar tudo errado pelo msn!" Ela, na condição de mulher, não entende. Tudo bem. Mas também não respeita, abro o msn e lá estão as mensagens, aos montes, aos milhões.
Pelo menos com Lú é diferente, entra no msn agoniada, faz uma bagunça danada para organizar os pensamentos na mensagem e me manda textos entre o cômico e o trágico, tipo "desculpa por ontem é que vc falou que não queria conversar e como eu não estava me sentindo muito bem dei boa noite saí pensando que vc tb tinha saido", logo em seguida "bom quero muuuuuuuito falar com vc mais isso vai ter que esperar para segunda feira pq eu tinha marcado umas coisas pra esse fim de semana" ainda recheia esse bolo de complicações com "passei o dia como o celular na mao pensando se devia ou não ligar pra sua casa, me enchi de coragem mas no fim das contas perdi ela enquanto digitava o numero".
Nem precisa dizer que para um rapaz pobre e vaidoso como eu isso é puro veneno no ego, mas aí vem umas coisas complicadas pra chuchú, como por exemplo "na verdade eu não sei se quero conversar, tenho medo do que voce tem pra me dizer tenho medo do que eu tenho pra dizer a voce". Isso treme qualquer um na base. E isso porque eu entrei off não sei às quantas da madrugada, que era para não ter que papear pelo msn, me borrando de medo.
Dando tudo certo segunda-feira eu resolvo minha vida romanesca. E pensando no assunto ela deveria ter ligado, passei o dia olhando o teto e esperando a ligação...
Mas ela é excessão da regra. Só nos últimos seis meses vi duas conversas por msn se transformarem num completo caos e uma delas me levou às lágrimas. Vou contar o caso, ele merece ser contado.
Me apaixonei pela mulher mais triste do mundo, Isabel Araújo. Eu queria mesmo era dar meu sangue por ela. Eu queria tirar satisfações com o ex-namorado, queria fazer do melhor amigo dela um novo irmão, queria que ela ganhasse flores todos os dias de sua vida. Enfim, queria todas aquelas todas as idiotices do amor, e nunca me senti tão bem sendo idiota. Mal abria os olhos, já começava a cantar, e minha mãe me disse que eu estava cantando bem (isso não acontece, nunca). Chorava de saudades por causa de um dia, contava segundos, coisa e tal. Ela dizia "Diogo, vou te magoar" e eu, cego "Vai nada, bom mesmo é sofrer por você!" - Mas ela não me deixou, ela me procurou e me beijou e me beijou de novo e ia continuar até que... Ela veio falar comigo no msn. Parece piada, mas o leitor é capaz de deduzir o resultado da valsa. Eu nunca entendi isso, e acho que nunca irei.
Eu não menti, sofri por ela cada segundo, sofri até não ter mais sofrimento no meu peito para sofrer. Me enchi de trabalho para esquecer. No último dia de carnaval, me iludi para sofrer. E só quando não havia mais sentimento para sofrer e eu me encontrava completamente vazio, desumano; pude começar tudo de novo.
O jeito é esperar que Lúcia seja uma moça diferente, mas ainda assim tenho medo do msn.
Ou talvez no final o que me assuta não seja o msn, sejam as mulheres mesmo, estandartes do divino e do profano.
O Prédio na Torre
O ratão, boemia emergente dos bares do Recife é, além de tudo, um movimento artístico completo, que por hora contempla música, artes plásticas e literatura nas atividades de seus membros.
A música é representada pela banda Alegoria, ilustre anônima, composta por Túlio Albuquerque na voz e violão, Joca no cavaquinho, Basílio Queiroz no contra-baixo, Caio Rocco na guitarra e Alcides Cursino na percussão. O repertório é de MPB voltada para o samba, tudo com um gostinho da terra "Diogo, eu escrevo as letras e encho de metáforas para falar com beleza das coisas simples da vida" Frase de Túlio, por hora o principal compositor. Frase que eu acho linda e muito delicada. Pedro Augusto também é músico, mas se comparado à banda, muito mais marginal, muito mais caótico. Pedro é por vezes, junto de Onirê, nossa bandeira, o símbolo que seguimos.
Nas artes plásticas temos Ianah Maria, a rata musa. Moça de muito talento, faz faculdade de animação na aeso e é a responsável por quase todas as imagens ligadas ao ratão, desde futuros encartes de CD à futuras bandeiras do movimento e futuros projetos gráficos para meus poemas.
Falando em meus poemas, na literatura o responsável pelo ratão sou eu, que faço o possível para nessa coluna exibir a quem interessar possa, nossa visão da vida, do mundo e do amor, entre tantas outras coisas.
Estou enchendo linguiça, é verdade. Hoje precisaria do terreno baldio e da cabra vadia para escrever alguma coisa. Hoje estou inconfessável. Mas vamos para amenidades então.
Fiquei sabendo que Bruna Barros, musa do ratão... Um momento, pronto, vou falar de Bruna Barros, musa do ratão.
Não posso falar dela sem falar de sua residência. Ela mora num prédio, assim assim, na Torre. O prédio é famoso por ter sido palco de grandes momentos do ratão, principalmente no que tange o salão de festas e a piscina.
Os ratos, depois das festas na cidade, bêbados de doer e sem tostão no bolso, por vezes pedem penico e abrigo no prédio de Bruninha, relativamente próximo. Assim dormem todos, suados e bêbados, em baixo de uma churrasqueira num ladrilho sujo.
Já tive algumas experiências em dormir ali, e garanto que não é nada agradável, o que nos salva a todos é a companhia. O prédio também foi palco da festa de aniversário de Pedro Augusto, no dia da segunda fase do vestibular. Todos doidos, desesperados para desopilar, jogamos futebol no campinho numa partida histórica entre ratos x ratas, onde presenciei coisas que só se vêem uma vez na vida, como Túlio correndo (sim!) Onirê driblando ou eu me aproximando de uma bola de futebol, depois de não sei quantos anos.
Destaque para Ianah, que marcou um gol por entre as minhas pernas. Também foi nesse dia que a conheci e com certeza ela já entrou familiarizada com os preceitos do rato (Pedro ensinou): Veio não sei de onde, junto de ninguém e para ficar. Amém.
A festa começou sem o aniversariante porque a Vodka chegou antes. Assim estavámos todos relaxados quando Pedro entra gritando "Eu fiz a caminhada do ratão! Eu fiz".
O que é a caminhada do ratão, o leitor pode se perguntar. Existem variáveis, mas é um processo místico, onde um membro do movimento, notavelmente bêbado e sozinho faz uma longa caminhada por lugares estranhos e perigosos. No caso de Pedro, do Detran à Torre.
Depois do grito ele se atirou na piscina e me beijou. Onirê se atirou depois e antes que houvesse uma orgia homossexual, o porteiro do prédio apareceu, com seu uniforme solene de porteiro de prédio e expulsou todos da água.
O porteiro do prédio de Bruna também é história para mais de metro, mas essa fica para amanhã, se eu lembrar.
Bem, molhados, bêbados e decididamente sem clima de olhar para Bruna, a residente do prédio, puta conosco. Fomos eu, Ianah, Pedro e Marina, uma que foi e não mais voltou terminar a noite queimando guardanapos numa pracinha abandonada da Torre.
E isso não é nem o começo das histórias do prédio. Se a churrasqueira falasse...
Ratão
A música é representada pela banda Alegoria, ilustre anônima, composta por Túlio Albuquerque na voz e violão, Joca no cavaquinho, Basílio Queiroz no contra-baixo, Caio Rocco na guitarra e Alcides Cursino na percussão. O repertório é de MPB voltada para o samba, tudo com um gostinho da terra "Diogo, eu escrevo as letras e encho de metáforas para falar com beleza das coisas simples da vida" Frase de Túlio, por hora o principal compositor. Frase que eu acho linda e muito delicada. Pedro Augusto também é músico, mas se comparado à banda, muito mais marginal, muito mais caótico. Pedro é por vezes, junto de Onirê, nossa bandeira, o símbolo que seguimos.
Nas artes plásticas temos Ianah Maria, a rata musa. Moça de muito talento, faz faculdade de animação na aeso e é a responsável por quase todas as imagens ligadas ao ratão, desde futuros encartes de CD à futuras bandeiras do movimento e futuros projetos gráficos para meus poemas.
Falando em meus poemas, na literatura o responsável pelo ratão sou eu, que faço o possível para nessa coluna exibir a quem interessar possa, nossa visão da vida, do mundo e do amor, entre tantas outras coisas.
Estou enchendo linguiça, é verdade. Hoje precisaria do terreno baldio e da cabra vadia para escrever alguma coisa. Hoje estou inconfessável. Mas vamos para amenidades então.
Fiquei sabendo que Bruna Barros, musa do ratão... Um momento, pronto, vou falar de Bruna Barros, musa do ratão.
Não posso falar dela sem falar de sua residência. Ela mora num prédio, assim assim, na Torre. O prédio é famoso por ter sido palco de grandes momentos do ratão, principalmente no que tange o salão de festas e a piscina.
Os ratos, depois das festas na cidade, bêbados de doer e sem tostão no bolso, por vezes pedem penico e abrigo no prédio de Bruninha, relativamente próximo. Assim dormem todos, suados e bêbados, em baixo de uma churrasqueira num ladrilho sujo.
Já tive algumas experiências em dormir ali, e garanto que não é nada agradável, o que nos salva a todos é a companhia. O prédio também foi palco da festa de aniversário de Pedro Augusto, no dia da segunda fase do vestibular. Todos doidos, desesperados para desopilar, jogamos futebol no campinho numa partida histórica entre ratos x ratas, onde presenciei coisas que só se vêem uma vez na vida, como Túlio correndo (sim!) Onirê driblando ou eu me aproximando de uma bola de futebol, depois de não sei quantos anos.
Destaque para Ianah, que marcou um gol por entre as minhas pernas. Também foi nesse dia que a conheci e com certeza ela já entrou familiarizada com os preceitos do rato (Pedro ensinou): Veio não sei de onde, junto de ninguém e para ficar. Amém.
A festa começou sem o aniversariante porque a Vodka chegou antes. Assim estavámos todos relaxados quando Pedro entra gritando "Eu fiz a caminhada do ratão! Eu fiz".
O que é a caminhada do ratão, o leitor pode se perguntar. Existem variáveis, mas é um processo místico, onde um membro do movimento, notavelmente bêbado e sozinho faz uma longa caminhada por lugares estranhos e perigosos. No caso de Pedro, do Detran à Torre.
Depois do grito ele se atirou na piscina e me beijou. Onirê se atirou depois e antes que houvesse uma orgia homossexual, o porteiro do prédio apareceu, com seu uniforme solene de porteiro de prédio e expulsou todos da água.
O porteiro do prédio de Bruna também é história para mais de metro, mas essa fica para amanhã, se eu lembrar.
Bem, molhados, bêbados e decididamente sem clima de olhar para Bruna, a residente do prédio, puta conosco. Fomos eu, Ianah, Pedro e Marina, uma que foi e não mais voltou terminar a noite queimando guardanapos numa pracinha abandonada da Torre.
E isso não é nem o começo das histórias do prédio. Se a churrasqueira falasse...
Ratão
Antunes filho na cidade
Então, breve agenda, a quem interessar possa
São 80 anos de idade, sendo 60 dedicados ao teatro. Esta é a vida de Antunes Filho, um dos maiores ícones culturais do Brasil. Para celebrar, será realizada a mostra O Universo de Antunes Filho, com palestras, oficinas, exposição e, é claro, peças teatrais. A mostra se inicia no Recife, entre os dias 21 e 29/03. Destaque para “Vapt-Vupt: A Falecida, de Nelson Rodrigues”. Para quem estranhou o “vapt-vupt’", trata-se do modo que o encenador escolheu para mostrar a rapidez da vida. Este ano também é o do trigésimo aniversário do espetáculo Macunaíma, marco teatral brasileiro. Dá uma olhada na programação completa do Universo de Antunes Filho no Recife:
* Espetáculo - Foi Carmen
Período - 21 e 22 / O3 (20h)
Local – Teatro Santa Isabel
* Espetáculo Prêt – à – porter – Coletânea 2
Período – 24 a 26/03 (20h)
Local – Teatro Hermilo Borba Filho
* Estréia Nacional do Espetáculo “Vapt-Vupt: A Falecida”
Local – Teatro Armazém 14
Período - 27 a 29 /03
* Exposição Universo de Antunes Filho
Local – Torre Malakoff
Período - 21 /03 a 22 /04
* Ciclo de Palestras
24 a 29 de março – 15h, Teatro Apolo
- 24/03
“Territórios Poéticos de Antunes Filho”
Tema: Abordagem teórica aos processos estéticos desenvolvidos por Antunes Filho no CPT – Centro de Pesquisa Teatral.
Palestrante: Sebastião Milaré
- 25/03
“Poética Sonora”
Tema: O desenvolvimento do designer sonoro no CPT, dos anos 80 à atualidade. Haverá também a leitura de um comunicado sobre iluminação cênica no CPT, feito por Davi Brito.
Palestrante: Raul Teixeira
-26/03
“A Poética do Espaço”
Tema: O Núcleo de Cenografia do CPT – história, processos estéticos, dinâmica, realizações.
Palestrante: J. C. Serroni
- 27/03
“Imaginação Poética”
Tema: O Núcleo de Dramaturgia do CPT – história, dinâmica, conceitos, obras.
Palestrante: Paulo Santoro
- 28/03
“Revendo Poéticas”, dia 28/03
Tema: Uma das principais figuras do teatro pernambucano fala sobre os 30 anos da estréia de “Macunaíma”, expondo a importância do evento na História do Teatro Brasileiro.
Palestrante: Antônio Cadengue
- 29/03
“A Poética Rodriguiana”, dia 29/03
Tema: Dramaturgo pernambucano contextualiza “A Falecida” na obra de Nelson Rodrigues, comentando a versão encenada por Antunes Filho.
Palestrante: Moisés Neto
São 80 anos de idade, sendo 60 dedicados ao teatro. Esta é a vida de Antunes Filho, um dos maiores ícones culturais do Brasil. Para celebrar, será realizada a mostra O Universo de Antunes Filho, com palestras, oficinas, exposição e, é claro, peças teatrais. A mostra se inicia no Recife, entre os dias 21 e 29/03. Destaque para “Vapt-Vupt: A Falecida, de Nelson Rodrigues”. Para quem estranhou o “vapt-vupt’", trata-se do modo que o encenador escolheu para mostrar a rapidez da vida. Este ano também é o do trigésimo aniversário do espetáculo Macunaíma, marco teatral brasileiro. Dá uma olhada na programação completa do Universo de Antunes Filho no Recife:
* Espetáculo - Foi Carmen
Período - 21 e 22 / O3 (20h)
Local – Teatro Santa Isabel
* Espetáculo Prêt – à – porter – Coletânea 2
Período – 24 a 26/03 (20h)
Local – Teatro Hermilo Borba Filho
* Estréia Nacional do Espetáculo “Vapt-Vupt: A Falecida”
Local – Teatro Armazém 14
Período - 27 a 29 /03
* Exposição Universo de Antunes Filho
Local – Torre Malakoff
Período - 21 /03 a 22 /04
* Ciclo de Palestras
24 a 29 de março – 15h, Teatro Apolo
- 24/03
“Territórios Poéticos de Antunes Filho”
Tema: Abordagem teórica aos processos estéticos desenvolvidos por Antunes Filho no CPT – Centro de Pesquisa Teatral.
Palestrante: Sebastião Milaré
- 25/03
“Poética Sonora”
Tema: O desenvolvimento do designer sonoro no CPT, dos anos 80 à atualidade. Haverá também a leitura de um comunicado sobre iluminação cênica no CPT, feito por Davi Brito.
Palestrante: Raul Teixeira
-26/03
“A Poética do Espaço”
Tema: O Núcleo de Cenografia do CPT – história, processos estéticos, dinâmica, realizações.
Palestrante: J. C. Serroni
- 27/03
“Imaginação Poética”
Tema: O Núcleo de Dramaturgia do CPT – história, dinâmica, conceitos, obras.
Palestrante: Paulo Santoro
- 28/03
“Revendo Poéticas”, dia 28/03
Tema: Uma das principais figuras do teatro pernambucano fala sobre os 30 anos da estréia de “Macunaíma”, expondo a importância do evento na História do Teatro Brasileiro.
Palestrante: Antônio Cadengue
- 29/03
“A Poética Rodriguiana”, dia 29/03
Tema: Dramaturgo pernambucano contextualiza “A Falecida” na obra de Nelson Rodrigues, comentando a versão encenada por Antunes Filho.
Palestrante: Moisés Neto
quinta-feira, março 19
Quantas famílias
Perdi o celular sábado agora, coisa interessante como ele se perdeu.
Estava num ônibus Piedade / Derby, 011, da Borborema, pelas duas e pouco da tarde, mandei de dentro do ônibus uma mensagem de texto para Túlio do celular avisando que teria que suspender a cachaça por conta de um ensaio e pus no bolso.
Logo que desci do ônibus, em frente ao Memorial São José, na Agamenom, quis pegar o celular para ver que horas eram, e, ora vejam, o celular não estava mais lá.
Pensei "caiu do bolso quando eu levantei". Essa linha dá a volta um pouco depois da praça do Derby e volta para Piedade, então corri ao outro lado da Agamenon e parei o ônibus, falei com o motorista e ele permitiu que eu subisse e inspecionasse os bancos. Nada. Falei com os passageiros, pedi, supliquei, etc. Nada.
Desci do ônibus desiludido com a bondade humana. Fui até a Galharufas, produtora cultural na rua do Aragão onde ensaio e chegando lá, quinze minutos depois de ter subido no ônibus, pedi para um amigo emprestar o celular, liguei para o meu e não me surpreendi ao constatar que ele já estava desligado, bateria para um canto, chip para o outro e eu sem nada.
Idiota o ladrão, o chip era pós pago e eu só cancelei as oito da noite, quando cheguei em casa. Se ele afoito não tivesse depenado logo meu aparelho poderia ter falado à vontade as minhas custas.
O que surpreendo é que aquele aparelho não vale nada. Não tem funções legais, como câmera, tocador de rádio ou MP3, não tem cartão de memória, não tem nenhum serviço de conectivdade habilitado. Seu maior atrativo é um display colorido, e só. Sem falar que a aparência dele é bastante surrada, já que não tenho muito cuidado.
Mesmo assim alguém o quis. Devia estar mesmo precisando.
Entretanto agora, dia dezenove, experimento a exclusão. Exclusão tecnológica e financeira. Estava almoçando com minha família e mainha comentou "Diogo, pega o número de Roberto e liga do meu celular" eu "Roberto é dos poucos que ligo só para falar bobagem" meu irmão completou "Ianah também tu liga para falar besteira"
Pensei "é mesmo" E que saudade deu de Ianah! E de Roberto França também, professor de línguas do CAC, solteiro procurando gatinha manhosa, interessadas favor procurá-lo. Inclusive ele fez anos ontem, meu grande abraço por escrito.
Mas não apenas Roberto França, mas Ianah Maria, Basílio Queiroz, Túlio Albuquerque, Pedro Augusto. Essa breve exclusão tecnológica aliada à minha outra breve, porém cortante exclusão financeira (até mês que vem estou mais duro que pinto saído da prisão) me isolaram dos ratos, minha grande família, de quem agora tenho saudade.
E umas gotas de remorso. Cidoca (Alcides Cursino, percussionista da Alegoria, a próxima banda que todos desejarão escutar) faz anos sábado, não sei se poderei comparecer, preciso sentar com Basílio, com Túlio, com Pedro.
Até Bruna Barros, galega linda dos cabelos cacheados, cujas minhas desculpas jamais bastarão, mandou um recado me procurando. Minha família me chama. E eu trancado na ausência de celular, dinheiro e tempo.
Tempo também, essa história de atuar é muito bonito, mas não é café pequeno. Agora isso já fica para próxima crônica, depois que começo a escrever não paro e preciso ir ao SESC (ora veja) trabalhar.
Estava num ônibus Piedade / Derby, 011, da Borborema, pelas duas e pouco da tarde, mandei de dentro do ônibus uma mensagem de texto para Túlio do celular avisando que teria que suspender a cachaça por conta de um ensaio e pus no bolso.
Logo que desci do ônibus, em frente ao Memorial São José, na Agamenom, quis pegar o celular para ver que horas eram, e, ora vejam, o celular não estava mais lá.
Pensei "caiu do bolso quando eu levantei". Essa linha dá a volta um pouco depois da praça do Derby e volta para Piedade, então corri ao outro lado da Agamenon e parei o ônibus, falei com o motorista e ele permitiu que eu subisse e inspecionasse os bancos. Nada. Falei com os passageiros, pedi, supliquei, etc. Nada.
Desci do ônibus desiludido com a bondade humana. Fui até a Galharufas, produtora cultural na rua do Aragão onde ensaio e chegando lá, quinze minutos depois de ter subido no ônibus, pedi para um amigo emprestar o celular, liguei para o meu e não me surpreendi ao constatar que ele já estava desligado, bateria para um canto, chip para o outro e eu sem nada.
Idiota o ladrão, o chip era pós pago e eu só cancelei as oito da noite, quando cheguei em casa. Se ele afoito não tivesse depenado logo meu aparelho poderia ter falado à vontade as minhas custas.
O que surpreendo é que aquele aparelho não vale nada. Não tem funções legais, como câmera, tocador de rádio ou MP3, não tem cartão de memória, não tem nenhum serviço de conectivdade habilitado. Seu maior atrativo é um display colorido, e só. Sem falar que a aparência dele é bastante surrada, já que não tenho muito cuidado.
Mesmo assim alguém o quis. Devia estar mesmo precisando.
Entretanto agora, dia dezenove, experimento a exclusão. Exclusão tecnológica e financeira. Estava almoçando com minha família e mainha comentou "Diogo, pega o número de Roberto e liga do meu celular" eu "Roberto é dos poucos que ligo só para falar bobagem" meu irmão completou "Ianah também tu liga para falar besteira"
Pensei "é mesmo" E que saudade deu de Ianah! E de Roberto França também, professor de línguas do CAC, solteiro procurando gatinha manhosa, interessadas favor procurá-lo. Inclusive ele fez anos ontem, meu grande abraço por escrito.
Mas não apenas Roberto França, mas Ianah Maria, Basílio Queiroz, Túlio Albuquerque, Pedro Augusto. Essa breve exclusão tecnológica aliada à minha outra breve, porém cortante exclusão financeira (até mês que vem estou mais duro que pinto saído da prisão) me isolaram dos ratos, minha grande família, de quem agora tenho saudade.
E umas gotas de remorso. Cidoca (Alcides Cursino, percussionista da Alegoria, a próxima banda que todos desejarão escutar) faz anos sábado, não sei se poderei comparecer, preciso sentar com Basílio, com Túlio, com Pedro.
Até Bruna Barros, galega linda dos cabelos cacheados, cujas minhas desculpas jamais bastarão, mandou um recado me procurando. Minha família me chama. E eu trancado na ausência de celular, dinheiro e tempo.
Tempo também, essa história de atuar é muito bonito, mas não é café pequeno. Agora isso já fica para próxima crônica, depois que começo a escrever não paro e preciso ir ao SESC (ora veja) trabalhar.
terça-feira, março 17
Galã não tem cor
Melhor escrever logo de manhã que é para não madrugar pensando no texto. Falando em pensar, surpreende como coisas simples, em teoria - como uma cena, dois atores, umas dez falas para cada lado - pode se tornar uma sombra te assombrando.
Vou falar de Anjo negro, tragédia de Nelson Rodrigues escrita em 1946 e encenada pela primeira vez em 1948. Conta a história do negro Ismael, que se odeia aos extremos mais violentos por ser preto. Viu a mãe preta trocar um marido preto por um branco, torturava o irmão branco de criação, Elias, com um chicote, como se ele fosse um escravo e depois pingou ácido em seus olhos para que ele não enxergasse, tornando-se o verdadeiro profeta cego.
O irmão tornou-se maltrapilho, a mãe está entrevada e Ismael é médico, sempre vestido à Panamà, em seu armário, as únicas roupas que existem é uma extensa coleção de ternos Panamá - tudo para ser mais que os brancos, tudo por orgulho, afirma seu irmão.
Além de médico é casado. Uma viúva cuidava de quatro filhas; todas feias e solteiras, menos a caçula, que estava para casar; e uma sobrinha, Virgína, branca como a neve e linda.
O noivo da caçula gostava mesmo é de Virgínia e Ismael também, mas Ismael é negro. Belo dia Virgínia e o noivo cruzam sozinho o corredor e ele a beija, definitivo, enquanto escorre sua mão por entre o vestido dela.
A tia vê tudo, o noivo foge, a noiva se suicida e Ismael é convidado pela tia, ardente de vingança, a subir no quarto de Virgínia durante o velório "deixa que ela grite, deixa ela gritar"
Ismael estupra a mulher todas as noites e com ela tem três filhos: todos homens e negros, que Virgínia mata para não perpetuar a cor. Ismael os isola, ninguém entra, ninguém sai, existem apenas os dois. Até o dia em que Elias, seu irmão cego e indigente, volta para amaldiçoar a todos.
A história é forte o bonita, mas o que realmente surpreende é que o espetáculo foi censurado numa época em que se dizia "no Brasil não há preconceito", nem oito, nem oitenta, como diria minha avó.
Mas pior que a censura, que foi vencida em questão de meses, foi que o primeiro ator a representar Ismael, na estréia do espetáculo, Orlando Guy, é branco como floco de neve. "Mas como branco se Ismael é negro?" pergunta o leitor. O que acontece, é que até dia desses, teatro brasileiro 'sério' não tinha negro no protagonista. Na mais completa abjeção, os 'artistas', adeptos ao 'livre pensamento' não acreditavam que um negro tivesse a intensidade dramática de um branco. Ora veja.
Mudou? Nem tanto. Em toda a dramaturgia da Rede Globo, não há um protagonista negro. Suzana Vieria, quando fez a nordestina, para ela ser morena, tinha que ser nordestina, ora veja, e usar aquele sotaque que, me pordoe, é de muito mal gosto. Taís Araujo, para ser a mocinha de 'da cor do pecado', precisou que no título se dissesse que sua cor de pele é pecaminosa, ou que ela viesse da Bahia, porque simplesmente não se pode crer, é assaz inverossímil uma preta com habilidade dramática carioca, por exemplo, quase impossível.
O preconceito no Brasil é cultural, e por mais que perca espaço todos os dias, continua escondido nos cantos mais profundos da alma. Pregando peças em nossa mente.
Vou falar de Anjo negro, tragédia de Nelson Rodrigues escrita em 1946 e encenada pela primeira vez em 1948. Conta a história do negro Ismael, que se odeia aos extremos mais violentos por ser preto. Viu a mãe preta trocar um marido preto por um branco, torturava o irmão branco de criação, Elias, com um chicote, como se ele fosse um escravo e depois pingou ácido em seus olhos para que ele não enxergasse, tornando-se o verdadeiro profeta cego.
O irmão tornou-se maltrapilho, a mãe está entrevada e Ismael é médico, sempre vestido à Panamà, em seu armário, as únicas roupas que existem é uma extensa coleção de ternos Panamá - tudo para ser mais que os brancos, tudo por orgulho, afirma seu irmão.
Além de médico é casado. Uma viúva cuidava de quatro filhas; todas feias e solteiras, menos a caçula, que estava para casar; e uma sobrinha, Virgína, branca como a neve e linda.
O noivo da caçula gostava mesmo é de Virgínia e Ismael também, mas Ismael é negro. Belo dia Virgínia e o noivo cruzam sozinho o corredor e ele a beija, definitivo, enquanto escorre sua mão por entre o vestido dela.
A tia vê tudo, o noivo foge, a noiva se suicida e Ismael é convidado pela tia, ardente de vingança, a subir no quarto de Virgínia durante o velório "deixa que ela grite, deixa ela gritar"
Ismael estupra a mulher todas as noites e com ela tem três filhos: todos homens e negros, que Virgínia mata para não perpetuar a cor. Ismael os isola, ninguém entra, ninguém sai, existem apenas os dois. Até o dia em que Elias, seu irmão cego e indigente, volta para amaldiçoar a todos.
A história é forte o bonita, mas o que realmente surpreende é que o espetáculo foi censurado numa época em que se dizia "no Brasil não há preconceito", nem oito, nem oitenta, como diria minha avó.
Mas pior que a censura, que foi vencida em questão de meses, foi que o primeiro ator a representar Ismael, na estréia do espetáculo, Orlando Guy, é branco como floco de neve. "Mas como branco se Ismael é negro?" pergunta o leitor. O que acontece, é que até dia desses, teatro brasileiro 'sério' não tinha negro no protagonista. Na mais completa abjeção, os 'artistas', adeptos ao 'livre pensamento' não acreditavam que um negro tivesse a intensidade dramática de um branco. Ora veja.
Mudou? Nem tanto. Em toda a dramaturgia da Rede Globo, não há um protagonista negro. Suzana Vieria, quando fez a nordestina, para ela ser morena, tinha que ser nordestina, ora veja, e usar aquele sotaque que, me pordoe, é de muito mal gosto. Taís Araujo, para ser a mocinha de 'da cor do pecado', precisou que no título se dissesse que sua cor de pele é pecaminosa, ou que ela viesse da Bahia, porque simplesmente não se pode crer, é assaz inverossímil uma preta com habilidade dramática carioca, por exemplo, quase impossível.
O preconceito no Brasil é cultural, e por mais que perca espaço todos os dias, continua escondido nos cantos mais profundos da alma. Pregando peças em nossa mente.
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