quarta-feira, agosto 31

Sete requiéns para a personificação do passado.

Nota: Vou jogar tudo de uma vez. Se alguém ainda é tolo o suficiente para ler, desculpe.

I

Você quer saber porque eu rio meio de repente quando a gente se abraça e eu nunca tenho coragem de te dizer que é porque eu desconfio que te amo. Desconfio, porque desconfiar é ter certeza que você teria certeza se tentasse sem tentar e é isso eu sinto essa certeza de que teria certeza se tentasse mas na última hora no momento mais íntimo e mais importante me faltam as forças para tentar porque no fundo eu tenho medo dessa certeza ser apenas minha certeza e você não compartilhá-la também e aí se eu tentar e falhar eu não terei nem certeza nem desconfiança nem você nem amor nem nenhuma dessas coisas.

Mas eu tenho tantas razões para desconfiar que te amo e sempre que eu penso nisso eu desconfio (tenho quase certeza) que não sei o que é o amor, porque se soubesse eu poderia ter certeza em vez de desconfiar: eu desconfio que te amo porque teu pescoço encaixa direitinho no contorno do meu ombro e tua cabeça pousa perfeita no vão do meu peito e até meus braços que eu acho assim meio desajeitados tem a envergadura exata de tuas costas é tão preciso que o dedo anelar termina exatamente em cima da marca de vacina que você tem no ombro e tuas mãos também parecem ter a espessura exata da minha cintura, enfim, é tudo tão bem feito que eu tenho a impressão (desconfio) que isso quer dizer que nosso corpo foi planejado nos menores detalhes para encaixar mesmo e pronto é isso aí não adianta fazer nada nem pra impedir nem pra permitir é pra ser porque eu desconfio que você é a peça do quebra-cabeça que fica ao lado da minha.

Eu também desconfio porque sempre que te vejo eu não sei se o que sinto é uma tristeza de ser pra sempre ou uma alegria de nunca mais esse sentimento que eu sinto quando te vejo e é muito mais fácil explicar um riso do que um monte de lágrimas não choradas e não explicadas aí eu aproveito pra apertar os olhos bem fundo e torcer a boca nesse sorriso amarelo pra engolir qualquer coisa idiota que eu possa vir fazer ao te ver como por exemplo chorar sem motivo que só iria te preocupar mais e vamos combinar a vida já tá bem difícil às vezes tenho a impressão de que somos mesmo dois anjos caídos da mesma asa alçando vôos  e viagens para um céu que há muito nos deixou e por isso que eu tenho uma vontade violenta da enlouquecer tudo de vez ainda que eu desconfie (tenho a impressão) que esconder essas lágrimas e todas as outras coisas que faço para não enlouquecer tudo de vez assim como não ligar pra você uma da manhã sem a menor idéia do que falar ou sempre responder que está tudo bem quando me perguntam e pensar fantasias de todos os nossos amigos muito ricos e importantes e felizes quando me deparo com um problema insolúvel assim como a morte da minha amiga da qual lhe falei hoje cedo me aproximam cada vez mais de enlouquecer tudo de vez e pior, sozinho.

Tem mais, eu desconfio que eu te amo porque desconfio igualmente que você não existe e é alguma coisa sonhada ou inventada que se separou da minha memória e saiu andando por aí e eu não sei se isso já aconteceu com você mas não é muito agradável ver bem na sua frente existindo uma loucura da sua memória é mais ou menos como ver seu pulmão dizer "bye bye baby, vou nessa" e continuar respirando sem a menor idéia de como ou por quê você demora tanto na hora da despedida e tudo que vivemos no tempo em que passamos juntos deve ter sido sonho porque o tempo dilata tanto nesse desperdício de momento nomeado despedida que eu só posso concluir duas coisas: primeiro que tudo foi um sonho e você sabe que não existe por isso me aperta bem forte até o ponto de me deixar sem jeito na hora do adeus já que os sonhos não retornam e você não retorna nem liga e eu acho que você nem desconfia o quanto isso me dói apesar de eu saber que nós somos pobres de dar dó e talvez você simplesmente não tenha dinheiro pra ficar me ligando mas eu gostaria de te dizer que você pode me ligar a cobrar a dobrar do orelhão você pode gritar meu nome pela rua se você quiser mas o que eu não quero é ficar assim dias sem você me procurar porque isso me deixa perto do desespero porque não pode ser eu não posso gostar tanto do tempo que nós passamos juntos sozinhos isso não pode ser tudo invenção da minha cabeça se for assim eu devia mesmo me internar ir voar pra fora da asa ou entrar em outra tanto faz enfim em segundo lugar eu não quero nem saber o que é sonho e o que é miséria eu quero mesmo é não ir nunca quando nós nos despedimos e mandar o trabalho a família os amigos o computador e o raio que o parta tudo às favas e ficar simplesmente com você mesmo pobres e lascados mesmo que não pare de chover nunca e na sua casa tenham goteiras eu quero mais é que goteje bem muito se eu estiver abraçado com você na espuma úmida do colchão sem qualquer preocupação do onde ou do quê.

Acima de tudo eu desconfio essa coisa que eu desconfio e que não vou repetir porque eu já cansei de repetir principalmente porque quando eu te deixo eu não me sinto triste e não é que eu não me sinta triste porque eu não sinta a tua falta coisa aliás que eu sinto aos montes eu não me entristeço depois que te deixo porque eu não me sinto vazio e sempre que eu te deixo é como se eu fosse uma massa quente e cheia dum recheio imenso e meio nonsense assim como salsicha e bolo de rolo ou omelete e brigadeiro e isso é como ver uma luz bem pequeninha no fim do túnel e estar tão acostumado às trevas e a imensidão silenciosa e vazia do túnel que essa luz não dá mais esperança nenhuma mas me aterroriza com a possibilidade de que as coisas podem ou pior ainda podiam ser diferentes a verdade é que como você bem sabe a noites e mais noites o retorno pra casa é sempre um passeio no vazio e inclusive para mim isso é tão natural que quando eu penso em escuridão eu não penso mais em na ausência de luz mas numa sensação serena de vazio.


Enfim eu desconfio que te amo porque quando estou com você a única coisa que eu quero é te abraçar bem forte e a vontade de fumar beber e ficar muito louco diminuem assim como naquele verso que meu amigo fez e recitou pra gente ontem lembra? aquele que dizia assim 'porque antes de te conhecer eu era um suicida em potencial, e eu corro atrás de ti porque eu me amo' quando eu estou com você eu desconfio que estou em paz e é mesmo uma pena que eu só possa desconfiar isso porque eu também não sei o que é paz na verdade eu não quero estar com nenhuma outra pessoa quando estou com você e você sabe como eu sou carente e quero todo por perto o tempo todo e não querer estar com ninguém  assim além de você me deixa muito sem chão porque é uma coisa completamente fora do comum e pra ser bem sincero eu não entendo isso muito bem ainda por cima você nem é tão bonita pra eu não querer mais ninguém o problema é que infelizmente quando eu estou com você eu sinto que tanto faz tua beleza Q.I conta bancária opção sexual estado civil estatura CIC e RG porque eu te amo quer dizer desconfio e que é meu destino gostar de você tanto faz qualquer uma dessas coisas e que eu nem sequer tive vez ou voz nessa decisão e talvez seja isso que me espante tanto é difícil dizer mas quando estou com você eu desconfio que sinto coisas inexplicáveis e adormecidas que estão fora do meu alcance ou compreensão portanto quando estou com você desconfio que sinto Deus mas não tenho certeza porque assim como o amor ou a paz eu não sei o que é Deus.

II

Saudade Carmim

A saudade é carmim como a toalha da mesa
Ou nossa xícara favorita
É carmim como os olhos ardentes
Esbugalhados de pranto
E nossos dedos apertados, pressionados
Uns contra os outros
As veias pulsando em uníssono

A saudade é carmim como uma ausência
O pôr-do-sol encoberto de nuvens
E as ondas que quebram pelas madrugadas
Carmim como nossa carne aos suspiros
A língua ferida nos dentes do outro
As flores que brotaram de nossas juras
Cortando nossa timidez com seus espinhos

A saudade é carmim como as marcas de um golpe
A cara dada ao tapa
A impressão dos dedos gravados na pele
Muito depois
Que teus dedos carregaram as malas
E compraram a passagem de ida
Só ida

III

O tempo passou e eu perdi, perdi a calma, perdi a responsabilidade, perdi o interesse em ficar sóbrio ou dizer a verdade, assumi o caos da minha natureza com fome, com desespero, implorando dos outros um nada, talvez alguma piedade, eu preveni a todos, falei do meu fim, do poço, da queda, da necessidade de estragar-me, de comparar minha própria essência à essência do mal causado, de trazer justiça pela deterioração. Nada disso impediu a partida, ela fez as malas, sabendo que só havia sofrimento nas gavetas, ela entrou no avião sabendo que o destino seria trágico. Ela sabia de tudo, apenas que era inevitável , apenas que já era a hora, que os relógios, nem sei o que dizer dos relógios, que eles badalam cruéis como o rumorejo das cordas na madrugada. Eu não sei o que falar, as palavras não resolveriam o nó do silêncio, e seu olhar me fulminaria como armas de guerra, seu olhar me poria a chorar feito criança, feito uma menininha que caiu do trepa-trepa aos cinco anos de idade e acha que seu salvador, não importa se ele for um menino amarelo que passa as tardes sozinho jogando video-game e vendo televisão; ela acredita que seu salvador será o homem da sua vida, mesmo que eles permaneçam juntos apenas até a terceira série sem jamais terem dado um beijo sequer, mas ela acredita, acredita porque é sonho, e no sonho qualquer lasca de realidade se molda pela utopia. Mas antes de tudo isso ela caiu do trepa-trepa e chora como eu choraria se pusesse meus olhos nos teus, teus olhos perigosos, teus olhos que são como uma dor no peito, uma angustia sem motivo, ou o motivo submerso, uma angustia escondida num orgulho, um orgulho que não serve para nada.

Sou covarde, o mais covarde dos covardes, sou um maricas; mas não sei se aguentaria teus olhos no meu corpo, se não queimaria em chamas, se não pegaria fogo ali mesmo, na sala de uma casa estranha, na rua Rui Barbosa, rua do hospital dos loucos, do clube dos ricos e caminho para a Jaqueira, local do beijo na minha primeira namorada. Você me deixa a impressão de sempre ser assim - a queda no meio do caminho, o entrave; sempre foi a estrada, a esquina, e principalmente o sussurro que vem dos becos. É o desvio, a curva, o acidente, é motivo para eu não ter carteira de motorista, é a risca que divide a faixa, é a faca que entrecorta a vida.

Você é a despedida, a carne da saudade, o suspiro da melancolia, os olhos da tristeza, se a tristeza fosse gente e tivesse olhos, seriam os teus, ela mandaria roubar, ficaria igual a Édipo, o criminoso de sua inocência. Não que haja inocência, já perdemos tudo, calças e meias, blusas, tudo já está espalhado pelo chão; sobrou nossa carne, meus dedos de carência e tuas unhas de consolo, um vulto na sombra dum quarto escuro na casa de um amigo que mal nos conhece e apenas nos cede um quarto para dormir com sua melhor amiga, a quem ele resgatou de um outro da minha laia, um outro rato, um outro morto. Um sussurro de medo, um elo sem força, uma falta do que não dói.

E do que foi a dor, de quem foi, de quem vai. O compasso do cursor a espera da letra na tela do computador, o silêncio da tecla a espera do golpe no teclado, o olho queimando antes do pranto, a idiotice de tudo. A noite em claro, a TV ligada para silenciar os pensamentos. "Não, não pode ser assim, é muito estúpido! Sim, é muito estúpido, porque o que é estúpido é imenso! É muito burro, isso sim, você só a ama porque ela vai partir; É muito fácil amar que não estará aqui depois que o fogo queimar a paixão! Talvez, talvez eu só ame porque esse amor está datado, talvez eu seja tão covarde que só seja capaz de amar um amor embalado para dar errado, talvez. Ou talvez eu tivesse que ter esperado a consequência extrema, a inevitabilidade, talvez eu tivesse que ver a fatalidade escarnada na minha cara para meus sentimentos virem à tona. A velha história de só dar valor ao que se perde. Sim, mas não só; a velha história de mostrar o valor do que se perde. Mostrar que o que vai é o que fica mais forte e mais fundo!" A verdade é que nunca fui homem para ela, nunca fui homem de ninguém a não ser de mim mesmo; sou o poço do ego, o abismo da ira.

Porém idolatro demais sua tristeza, esqueço qualquer coisa em suas pernas. E desse pessimismo surgiu o silêncio de amá-la à distância, de esquecê-la por outras, há muito não sei amar, há muito o amor é uma palavra gasta nos meus ouvidos, há muito as traças devoraram esta folha. Como um tipo tão desesperado como eu poderia acreditar no amor que eu de fato sentia; não me cria amando assim, não de novo, me desiludi do meu próprio amor por ela; por ela sim, sabia que jamais me amaria como eu a amei, ela é muito triste para isso; e a tristeza dela me assombra, pressiona meus nervos, seca minha boca, aperta meu peito feito nó, feito espinho. Ela precisa de alguém que traga luz na sua treva, não que se engalfinhe nela como eu faço, como eu fiz, não mais farei; nunca mais...

E de repente, quando o fim se fez presente minhas máscaras todas rolaram por terra, viraram não sei, não vale comparar; as máscaras partiram e ficou a essência, a sensação, o sentido, o tato. Jamais saberei se a amo porque vai partir ou se meu amor veio à tona na partida. Não faz muita diferença, o peito é o mesmo, o nó não muda. Não muda nada, não muda o vôo, não muda a hora marcada. Não mudam seus olhos, sua tristeza de mulher sem jornada; não muda o vir-a-ser que no fim nunca foi nada.

No dia de sua partida eu aparentarei um tom jovial, me reunirei a ela e aos amigos como se nada houvesse acontecido, como se não houvesse desespero, como se o amor fosse uma piada entre dois goles de cerveja, fosse um suspiro entre dois tragos de um cigarro sem filtro. Eu a verei de longe como se ela não me pertencesse, como se sentimento não me pertencesse, como se eu fosse eu, como se eu não sentisse nada. Tamanho o esforço para não sentir, tamanha a força para o efêmero, para o calor da noite, para o romance da madrugada, tamanha força para fechar as persianas e evitar o Sol que finalmente de tanto engatá-la, fui fazendo da minha hipocrisia realidade, não mais sinto, não mais permaneço além da noite, não mais amo depois da alvorada. Fica apenas o cinismo de a ver com os amigos brincando e falando e comendo pão francês com hamburguer e yogurte como outro dia qualquer, todos calam o grito que sufoca minha garganta. Parece tão inapropriado dilacerar-me os sentimentos se eles já se tornaram inúteis, fúteis, ridículos; mastigo o hamburguer e converso mecanicamente pensando, o cérebro trabalhando como um louco, se consumindo feito um cigarro "se era tão verdadeiro esse sentimento, onde ele estava quando era possível, onde você estava quando era possível?" E eu "Perdido, mais que perdido, perdendo". E então me nego o direito ao grito preso entre os dentes. Engulo o hamburguer maquinalmente e te vejo ir para o aeroporto como se fosse outra, outra qualquer. Estou doente disso! Você não é outra qualquer, você é meu destino! Eu só não quis te ferir neste veneno, eu apenas não queria te destruir nas minhas armadilhas; mas como eu quis, como eu sonhei que fosse minha. E tu me diz adeus como se voltasse dia desses, e sei por experiência que dia desses é quase nunca, e como um furo o amor escorreu, o amor vazou pelo ralo, eterno no peito do mal, eterno nos espinhos do ego.

Todas essas letras e o avião partindo, porque as máquinas não aguardam os sentimentos.

IV

Não quero, não posso, não vou te trair
Não fujo, eu fico pra te acordar
Te encho de beijos pra te consumir
É ralo o gargalo do verbo 'teamar'

Eu sofro, eu choro mas fico aqui
Aqui ao teu lado que é meu lugar
Eu peço aos teus olhos pra me destruir
É tanta a tristeza que trazes no olhar

E se é pra casar eu caso feliz
Me algemo às chagas que traz o altar
Repito os versos que o padre me diz
E até um emprego eu posso arranjar

Sou surdo e não quero outras vozes ouvir
Sou cego e não quero outros olhos olhar
Sou o mudo e o silêncio que faço é por ti
Me anulo e renego se é pra te encontrar

É sacro o ofício que faço no fim
É morte e me atiro só pra te alcançar
Me amolo e me humilho pra te ouvir um sim
Naufrago o meu barco ancorado em seu cais

V

Encarnação da saudade

Você para mim é a encarnação da saudade
E os teus olhinhos, são feitos de pura melancolia

Vejo tua boca, parece feita de uma despedida
E as tuas mãos, a fôrma de carne da simplicidade

E se tu me abraças, eu sei que é pra nunca mais voltar
E quando fecha os olhos, parece a mocidade a cochilar

E cada reencontro, é como se fosse nossa última vez
E nossa fazenda desfolhada a faca foice, ferro, fogo e fé

Suspira no meu ouvido, teu sopro de voz que se distancia
É o fogo do afago, é o fardo do findo, é o fim da linha

E o teu silêncio, prenuncio de ausência, logo se anuncia
A fome ficará, do corpo sedento cedendo as minhas mordidas

E quando eu espremo, meus dedos fremindo para junto aos teus
Apertas com coragem, pois sabes que agora é a hora do adeus

Dor não tem mais volta, na portão de embarque acena a partida
Da parte que me reparte, pedaços de peito batendo sem companhia

E é cada reencontro, é como se fosse nossa última vez

E nossa fazenda desfolhada a faca foice, ferro, fogo e fé

VI

Ah, como é bom
Acordar ao teu lado
São tempos de guerra
E entre os destroços

Que deixa o amor
A trincheira dos fracos
Dormir ao teu lado
É um instante de paz

VII

Os teus olhos
São relógios sem ponteiros
Pendulam como o tempo
Sem pressa de passar

Mas eu não vim à passeio
Meus joelhos tremiam
De tanto hesitar

Que eles possam se partir
Ou partir
A qualquer momento

Os teus olhos
Sem menos dizer "venha"
E eles não diziam nada
Mas teu olhar dizia tudo
No olhar que tu me davas

Ninguém sabe, ninguém soube
Eu continuo sem saber
Porque ao ver teus olhos
Eu te amei, eu te adorei

Ninguém sabe, ninguém soube
Ninguém disse, ninguém viu
No entanto ao ver partir teus olhos
Meu amor também partiu