sábado, março 14

Boneca de Lolita 2

Ganhei as seis estrelas em GTA. Foi só fazer bem muito estrago, talvez seja até mesmo um presságio.

Sou um autor displicente mas também tenho limites. Criei ontem uma personagem que se tem contorno é muito. Movido por sentimento a deixei em estado bruto, expus um momento de sua poesia sem nenhuma consideração com o leitor.

Portanto, quem é Ingrid? Ingrid é a moça dos cabelos encaracolados, tão fartos que se enche a mão e se perdem os dedos ali. Ingrid é a moça que usa o mesmo óculos que minha tia usava em 1980, idênticos: fundo de garrafa, armação grossa em âmbar. É ela primeira a fazer barulho e a última a fazer silêncio - pula nas pessoas num impudor dos diabos, fala besteira, ri com todos os dentes, chega a inventar dentes para sorrir daquele jeito, tem um piercing em forma de gancho na boca. E tem excentricidades - é fã incondional e para sempre da Britney Spears, e nela (só nela) isso não é infantil ou rídiculo. Outro dia no carro, tocava uma música da Britney e ela exclamou "essa mulher sofreu tanto na mão do marido!" numa sensibilidade humana que eu nem ouso compreender.

Ela se lembra das coreografias do Backstreet Boys mas parece um pato ouvindo MPB "Tô completamente por fora de música brasileira, meu filho!". É sincera o tanto que pode, evita meter o dedo na cara dos outros, coisa que faço eu num impudor dos diabos.

É um pouquinho tarada, abre as pernas sempre que vai falar baixaria, mas até onde eu sei pára aí. Passa a mão na bunda de todo mundo, gosta de bater e de cuecas boxer.

Enfim é assim, assim, como qualquer um, humano. Só que boa, capaz de dar à Otello o mesmo tratamento que daria à Petrúquio.

Tem um namorado que nunca vi, mas que põe um freio invisível em seus impulsos. Era inocente de certos vícios até data recente, como fiquei sabendo ontem. Faz cênicas na Federal e diz para quem quiser ouvir "ver o povo do SESC é a melhor parte do meu dia" ou então "eu te conheço há séculos carequinha!" Carequinha sou eu. A amizade paga o apelido e ainda fico devendo o troco.

E toda a descrição só reforça o ditirâmbo - Por que uma pessoa assim precisa lamber a sarjeta?

sexta-feira, março 13

Boneca de Lolita

É fácil saber a razão social da crônica. Ontem, antes de Túlio ligar para falar da mulher sem sorriso eu estava desesperado "vou escrever o quê? Já estou sem assunto?". Nada, assim que ele começou a falar eu sabia o que deveria fazer.

Aconteceu de novo nesta madrugada. Duas da manhã, no carro de Mauro Monezzi, grande homem, bom - dos últimos homens bons - eu soube com uma certeza absoluta e inapelável a crônica, sabia ao título, sabia às personagens, era até mesmo capaz de escutar as palavras, como se uma ferida em flor gritasse em meus sentidos.

Biaggio, que dentre tantas funções que exerce chamo apenas de artista e amigo, se apresentou ontem, quinta-feira, no bar do burburinho com o projeto "ouça Elis" que visita o repertório da intérprete.

Afirmo aqui as palmas e 'bravos' que gritei no bar, como prova de que os fiz lúcido e orgulhoso de os ter feito. A vocalista, Julia, realmente tem qualquer coisa na maneira de cantar que lembra Elis. E eu, como fã preguiçoso mas vendido, completamente entregue, ao Jazz e ao Samba, tive no mesmo show um pouco dos dois.

E o que foi bom termina aí. Agora preciso falar da sarjeta, e não só da sarjeta, mas da podridão, dos vermes da alma, do veneno no sangue.

Fui com amigos do curso técnico de preparação de atores do SESC Piedade. Biaggio também é aluno e nos convidou. São pessoas muito queridas mas que conheço há pouco tempo, mês e meio. Nos vemos quatro noites na semana por três horas, mais os ensaios que marcamos para as apresentações que fazemos para o grupo.

Ingrid comparou nosso curso ao Big Brother - cursos de teatro, por mais sérios que sejam, acabam virando um BBB mesmo. Atores são cínicos ingênuos, todos - todos querem ser amigos, e sem se perceber estão todos abraçando, apertando e beijando desconhecidos num impudor dos diabos. Além disso, há as desistências, os "paredões", como nós chamamos. Se me lembro bem houve quatro desde o ínicio, duas moças que tentaram conciliar o curso com a faculdade (no mesmo horário, pérolas da inteligência) e foram eliminadas; um senhor de sessentas anos, José, de quem eu gosto muito, que saiu para fazer uma peça com Constantino, um outro José que não sei pronde foi e por enquanto é só.

Mas eu ainda prevejo outros paredões. Alunos marcados por professores, alguns comportamentos estranhos... Enfim, muitas emoções nesse BBB de nós mesmos. Mas o pior veneno, a maior vileza de nossa 'casa de vidro' cênica apenas começa a destilar entre nossos participantes: o amor.

Ou coisa que o valha, porque amor, óbvio, não é, amor nunca é. Amor não é veneno, amor não se destila furtivamente em nossas almas. Apenas agora se manifesta o desejo, a obsessão e o sexo. Ontem no burburinho vi a primeira apoteose e, confesso, quis chorar.

Primeiro descobri os fumantes - todos sociais, assim como eu, mas me surpreendi com o cínismo de nós todos, ou responsabilidade, vamos às aulas sóbrios, limpos e saudáveis, não enfio o dedo na cara de ninguém pelos seus vícios se não na minha própria.

Mas já temos nosso primeiro triângulo. Fulano que agarrou Cicrana. Fulano queria mais, Cicrana menos e acabou agarrando Beltrano. E o futuro disso não sei. Sei do bico de Fulano, sei da falta de olhares de ambos, sei dos laços que se estreitam e se contorcem e se quebram na égide do desejo que nos punge a nós todos.

E vi mais, vi um homem apaixonado ver a mulher amada atraí-lo e rejeitado para seu bel deleite enquanto ostentava alianças nos dedos. E vi um amigo sofrendo de amor por uma bêbada promíscua.

O problema dos bares é esse: cria as amizades mais fortes ou transforma qualquer colega num pedaço de carne estragada - dura, fedorenta e sabendo à moscas.

Desculpem a repetição, mas quero enfatizar: Pensem, em uma noite, ver uma moça que aos teus olhos sempre fora uma mulher linda, uma mulher boa - numa bêbada promíscua.

Não, não somos personagens de romance, mas o contraste é gritante, é estúpido.

E há Ingrid. Meu maior afeto, por ela ponho minha mão no fogo e deixo queimar, por ela enfrento o que precisar, por ela rio e por ela choro. Estou prostrado e submisso aos seus pés porque é uma pessoa boa, uma pessoa capaz de amar qualquer um despregada de preconceitos. E isso não tem preço e isso não se perde.

E essa musa de sonho, essa doce ilusão de meus olhos, minha grande amiga e afeto, vi estrebuchada no chão da sarjeta, rolando e gritando como uma epiléptica enquanto tirava sua roupa aos indigentes do Recife antigo e aos garçons constrangidos, enquanto tentávamos a levantar e a acalmar. E a vi tombar em estranhos, e a vi derrubar mesas, e a vi ter crises de histeria e a vi babar e rosnar como um bicho. E vi com olhos crus, sem qualquer beleza, sem qualquer poesia além dos versos concretos da carne. Sem qualque metáfora, sem qualquer floreio, apenas dos olhos, tal qual ela é.

E a pusemos no carro. Mauro, como o homem bom que ele é, a deixou em casa enquanto ela gritava e tantava sair do carro pela janela, do cais de Santa Rita ao Catamarã. E eu ao seu lado, triste como um tubercoloso. E tudo que eu queria era chorar. Muito.

Me despedi por monossílabos (porque também fui deixado na porta de casa por um cansado e sonolento Mauro, desiludido e sóbrio) e fui chorar no sofá. Muito.

quinta-feira, março 12

A mulher sem sorriso

Túlio me liga "Preciso de você para uma música". E eu, triste "Ruim pra chuchu Túlio, ensiaos e tal..." Mas a curiosidade falou mais alto, perguntei

- É do que hein?

- Conheci uma mulher que não sorri.

Parei tudo, até mesmo o GTA, que estava jogando (quase consigo as seis estrelas). "Como é?" Desliguei o jogo e corri ao bloco de notas, o quadro que me pintaram foi esse que humilde, e com as flores da minha imaginação, apresento.

Na faculdade Maurício de Nassau há uma mulher que não sorri. Seu nome ainda me é um mistério, o que reforça a poder de mito de Fulana. Seu rosto é bonito e geométrico como As Senhoritas de Avingnon, de Picasso, olhos agudos, queixo anguloso, bochechas lisas e testa retangular. Entretanto a boca é uma linha árida e imóvel.

"Mas ela nunca sorri?" E Túlio como quem diz amém para o padre na missa "Nunca, é como se ela tivesse transtorno bipolar de um lado só. Seu rosto é tinta seca na tela".

Me surpreendi com aquela estátua, aquele monumento vivo à beleza estática, proporcional e completamente desprovida de vida. "Ela ao menos fala?" Eu queria qualquer coisa, queria ao menos imaginar o timbre de sua voz.

"Ih..." Foi a resposta profunda de Túlio. Eu não entendi, tão profundo que foi "O quê?". Ao que parece, uma amiga em comum classifica Fulana e suas amigas como o "grupo da cobra lagartixa". Não me explicaram o que exatamente a expressão quer dizer, mas alguns dados podem levar o leitor às próprias conclusões:

1) ambos são répteis, sem qualquer calor próprio.

2) ambos rastejam

3) lagartixas são esguias, e sobem pelas paredes quado ameaçadas

4) ambas vivem abrindo a boca para não dizer nada

5) (meu favorito) cobras - não todas, eu sei - são venenosas. Mas as que não são venenosas esmagam a presa até morte. Tanto melhor.

Eu me pergunto, eu quase a posso ver em meus olhos de dentro: nem alta, nem baixa, nem gorda, nem magra, nem branca, nem preta; Enfim, nem bela, nem feia - o corpo definido na acadêmia. Os cabelos, nem assim nem assados - escondidos pelos cremes e o salão. Da personalidade, nem se sabe, é definida pela roupa, pelo sapato, pelo batom.

Nelson criou para seu imaginário a grã-fina das narinas de cadáver, e há quem pense "é um tipo do século". É nada. Há mulheres cuja mulher interior jamais transparesse, jamais se expõe - verdadeiras bruxas da aparência.

O que me tocou foi que de toda a descrição, e pedi detalhes, pedi qualquer detalhe, sórdido, ciumento, belo, poético, ridículo, qualquer detalhe me era importante. Mas tudo que ele pode fazer foi descrevê-la. "É uma obsessão Diogo, o gelo de seus lábios me enlouquece". Imagino.

E vale aqui espaço para um alto contraste e alguns elogios deslavados à uma grande amiga. Calu, namorada de Túlio, justo oposto à 'bruxa da aparência' sem sorriso. Calu é assim como é - basta olhar se vê que é morena, que de olhos fechados sempre parece sonhar. É possível ver seus olhos, a curva de seus lábios, as sombras de seu nariz. A luz refletir em sua testa. Há mulheres tão enfeitiçadas pelo próprio blush que a luz é absorvida pela rubra maquiagem antes mesmo de atingir seus rostos. Assim é possível ver a mulher e admirar a mulher. Só num mundo completamente artificial, com pessoas completamente artificiais, somente no tempo dos "filhos de incubadora", somente na era do enlatado, do conservante, da anorexia um homem poderia amar a máscara de mulher frente à uma mulher deveras.

Me dispus inclusive a imaginar razões racionais para justificar a maldição de seu sorriso.

- será banguela? Se banguela for e filha de família afeiçoada, pode achar pouco educado mostrar as gengivas nuas em público, e assim é na verdade uma mulher de família, com pudores. Mas nem para contrair os lábios? Acho pouco provável. E se qualquer fiteiro, desses que ficam na porta do Teatro Santa Isabel em dia de espetáculo, exibe até com certo orgulho um sorriso de três, às vezes dois dentes, que mal faria se banguela fosse mostrar as gengivas nuas. Vemos tantas outras coisas nuas na televisão que um par de gengivas ao vivo não machucaria muito.

- Será cardíaca? É possível, assim, talvez tenha medo de num excesso de fôlego ter, por exemplo, um enfarte. Mas mesmo assim, nem um leve crepitar, uma contorção, ainda que grotesca. Será possível?

- Terá uma doença grave nos músculos? Pouco provável, Túlio não citou tal e essas coisas se percebem fácil.

Quanto mais penso no assunto, mais me convenço que para uma existência sem sorriso não existe poesia, amor, ódio. O homem que nunca sorri é com uma pedra jogada no mundo para ser devorada pelo vento sem jamais ter dado um passo por vontade própria.

Outra coisa que vale é o caso, que a amiga em comum descreveu - Fulana tem duas amigas - Cicrana e Beltrana (perdão não ter os nomes, no futuro tenho certeza que eles virão). Bem, Cicrana viu que Beltrana usava o mesmo esmalte que ela, com as unhas à mesma maneira (à francesinha) e exigiu que a outra, em nome da preservação da identidade de ambas como indivíduo, se retratasse e mudasse de esmalte.

Beltrana, indignada, alegou que fazia as unhas àquela maneira muito antes de Cicrana e que ela deveria mudar as unhas a fim de recuperar sua identidade como indivíduo, há muito perdida na cópia de Beltrana.

A discussão se estendeu semanas, há quem diga meses, sem novos argumentos de ambas as partes e sem que qualquer uma arredasse o pé. Falam até mesmo em trapaças, em trocas de esmalte furtivas nas bolsas, ou até mesmo pimenta em baixo de unhas. No entanto, esse carnaval de 69 apoteoses só encontrou seu fim quando Caras mostrou, em reportagem de cinco páginas, as novas unhas da Amy Whinehouse (não leitor, ela ainda está viva, pois é) - quando ambas mudaram discretamente as unhas e ainda não perceberam que continuam se copiando.

Túlio está obstinado, é um compositor talentoso e decidiu conseguir uma música, uma melodia poderosa o suficiente para derreter o gelo nos lábios de Fulana. Uma melodia capaz de fazer uma mulher sorrir. (como isso é lindo, boa sorte em sua empreitada Túlio).

De mim ele queria ajuda com a letra. Diga que tem medo que ela seja banguela, pode ser que isso empurre uma risada. Mas acho que a solução é pueril para um desafio tão nobre.

Apesar de tudo, ainda falho para explicar o mistério da mulher que não sorri, que sente, imagino, mas se permite sentir apenas até a estátua, até o frio mármore de seu batom.

quarta-feira, março 11

O banco

Minha dedicação profissional é notável, pelo menos para a literatura. Já à engenharia...

Túlio me ligou "saudade da porra!" eu "Também ouxe, vamos tomar uma no Mercado da Boa Vista?" ele "bora"

Inventei uma entrevista profissional no serviço e fui ver Túlio.

Não importa se você ganha nove ou nove mil reais por mês, não há dinheiro que pague uma uma tarde de papo-furado com um amigo, e Túlio não foge da regra. "Mas o dinheiro da cerveja?" Perguntarão os idiotas do consumo, "se não houvesse dinheiro, sentaríamos num banco de praça e conversariámos do mesmo jeito" eu remendo.

Falando em banco de praça, um protesto. Estava voltando da Aliança Francesa com Lydia Mesquita e Roberto França, futuro professor de inglês da universidade federal e gatinho solteiro, a quem interessar possa conferir no nucleo de línguas do CAC - e é comum sentarmos nos balanços da praça do Derby para batermos papo.

Aquela foi a primeira noite que fizemos isso após a reforma na praça. Aliás, sobre a reforma na praça, perdão minha falta de informação, mas por quê os corredores de areia? Faltaram os blocos, os operários para os blocos ou o dinheiro para os blocos? O governo não costuma aprovar obras sem orçamento e eu duvido que exista um paisagista burro o suficiente para assinar um parque com aqueles grotescos corredores de areia.

Ademais, dinheiro para os funcionários não faltou, foi o que descobrimos eu, Roberto e Lydia, quando um grupo de serventes que pernoita na guarita, no meio do parque, veio nos dizer que não podíamos sentar no balanço, ora veja.

Quase pus um ovo. Primeiro porque o servente lembrava o Leoncio do pica-pau - gordo, bigode de leão marinho e palpebras de Buldog, e nunca me imaginei submisso à Leoncio, culpa do meu ego, claro. Segundo, e me perdoem os defensores dos direitos do uso dos balanços para as crianças, mas o homem não tinha mais nada para fazer?

Já passavam de dez da noite, não havia mais crianças no parque, eu não fico empurrando meninos de dez anos para sentar no balanço. O charme, a poesia está na praça deserta (nem deserta ela fica agora, com os amargos dos serventes) e no movimento humilde do balanço.

Se alguém com mais instrução se dispor a me mostrar que meus assutadores 60 kilos ou os 50 e pouco de Roberto ou a levíssima Lydia são capazes de prejudicar o brinquedo e por tabela as crianças, humilde eu me retrato deste protesto. Mas caso contrário o homem que vá descascar bananas.

Nada mais inconveniente que um amargurado. Os executivos os adoram para posições de chefia, são incansáveis, minuciosos e notavelmente chatos. Meu chefe, por exemplo, mas dele falo depois.

Ignorei sumariamente o homem, compreendi que ele tinha ordens, mas só as exerceu pela própria tristeza que carregava na alma. Mas Roberto e Lydia, aturdidos pelo senso de ordem começaram "Vamos Diogo, não tem mais clima". Por mim só saia levado pela PM.

Contei o caso em casa e meu pai me perguntou "E se a PM pedisse?" eu, muito sério, não vendo o sinistro humor de meu progenitor escondido na pergunta "Eu saia, claro". Os abjetos me verão como um rebelde, um metido. Mas não, a PM tem mais o que fazer, e há sempre uma viatura rondando a praça do Derby, justamente pelos indigentes que rondam o lugar à noite. Outro motivo para a dispensa do servente, que fica ali fazendo nada e enchendo meu saco. E se a PM, que tem mais o que fazer, for se incomodar em me tirar de um balanço, ou eu realmente estou oferecendo um perigo à segurança nacional ou a amargura do servente é sem precedentes, de ambas as formas eu jogaria a toalha branca.

Joguei por Roberto e Lydia, mas aquilo me marcou como o primeiro tapa de um pai marca um filho. Aquele balanço era um lugar meu para ficar sozinho, e o dinheiro dos serventes, que poderia ao menos terminar a obra que sabe Deus por que está pela metade, serve para manter um bando de velhos amargos roubando uma parcela da poesia da cidade do Recife - A solidão de um balanço, na praça deserta, sob a luz sépia dos postes, lado a lado com a multidão do terminal, apressada e atarantado em ir e vir para lugar nenhum.

terça-feira, março 10

O buchinho

Aluadaa, uma das musas do rato, atende também por Stephanie Alcantara é uma moça assim, assim - Delgada, de olhos agudos e uma boca tão grande que faz o sorriso das carrancas parecerem biquinhos.

Falei em Aluadaa (dois 'a' mesmo) para falar em outra das grandes belezas do rato: o buchinho; Que é muito mais uma atitude politica do que estética, e Stephanie, musa desta tese, é a prova viva. Qualquer um que a veja não encontrará mais magra, mais esbelta, entretanto basta a intimidade de lhe dar um aperto de leve e lá estará ele: um buchinho moreno, macio e agradavelmente apertável.

A explicação física é óbvia - qualquer um que se preste à certas maratonas de cerveja, como os ratos comumente se prestam - não pode escapar sem as cicatrizes da batalha. O que vale a nota, a contemplação é a beleza deste adereço, que torna as donzelas fofas e os rapazes mais atraentes (sic). Pedro Augusto, Onirê, Túlio, Basílio, Cidão e Joca, todos grandes difusores da filosofia do rato - Acaso algum tem laranjas no abdômen? Claro que não, todos sustentam um bem torneado e sexy depositário de cerveja abaixo do umbigo, para as vacas magras.

Digo mais, é muito importante cuidar do corpo, coisa e tal. Mas quem ama não tem tempo para séries de dois mil abdonimais por dia. E em absoluto os ratos preferem o amor e as mesas do Novo Pina à qualquer série de abnominais.

Não que sejamos de todo sedentários. Na verdade e em maioria, somos. Mas Basílio mesmo, ano passado, dava corridinhas na Beira-rio com Bruna... Está bem, eu desconfio das intenções de Basílio nessas corridinhas, mas ele dava e isso é o que importa.

Calú mesmo, outro dia, disse algo que vai ficar para a história. Estávamos andando na cidade eu, ela, Túlio e Jean. Passamos em frente à uma loja de artigos esportivos, eu suscitei o assunto para perguntar se ela iria com Túlio ao estádio assistir (lamentar) os jogos do Náutico e ela "Claro, por isso mesmo que estou com Túlio, nunca tive um namorado esportista".

Nem oito nem oitenta, é verdade. Salvo a poética da hipérbole, é importante notar como ela vê Túlio como um rapaz atlético, mesmo que ele, como qualquer membro do rato, tenha sua cota de cerveja armazenada na barriga.

Inclusive passo a desconfiar que os membros do rato, por processos míticos desenvolvem mesmo um orgão oculto, à parte, na frente dos intestinos, embaixo do umbigo e acima da bexiga, unica e exclusivamente para o armazenamento da cerveja e molde do bucho.

Tudo isso para dizer, que altos, gordos, magros, baixos, carecas ou cabeludos, o bucho não só nos identifica como membros do rato como nos enobrece como seres humanos.

Ratão

segunda-feira, março 9

O ovo

Numa vitrine do shopping Boa Vista, há um ovo de páscoa que custa R$150,00, o ovo é imenso, mas a etiqueta com o preço é quase tão grande quanto. Não cheguei a ver o ovo com meus olhos, me contaram o causo, minha primeira reação foi "e é de ouro é?" a pessoa que me contava enfatisou "mas é enorme o ovo!", "Não importa" disse eu, "fosse de ouro maçiço eu não acreditava no preço. O ovo é algo que que a galinha bota, e nada que uma galinha bota pode ser tão caro".

Agora o impressionante, o absurdo de lúcido foi a resposta de meu interlocutor "É verdade, se fosse tão bom ela guardava para ela e não botava pra fora". Assunto encerrado. Eu desafio qualquer 'intelectual' com vaidade por seus diplomas a atingir a metafísica dessa frase.

Falando em metafísica vou falar de Antonin Artaud. Eu sabia do causo, mas ainda não sabia do conteúdo da crônica até digitar metafísica. Artaud era um louco gerado, pode-se pressupor que sua lucidez era grande ao ponto da clarividência. Assim, quando suas idéias chegaram ao extremo oposto do moralismo hipócrita ele foi internado e tido como louco. Sua loucura era tão lúcida que seu médico no sanatório mantinha correspondência com ele, e o incentivava a escrever e a pensar enquanto o mandava para o eletrochoque "pense num soneto Artaud - enquanto se virava para seu assistente - Mais seis volts, por favor".

Artaud acreditava numa metafísica da cena e qualquer elemento que a compusesse - sonoplastia, cenografia, gesto, voz, raio laser. Eu não acredito em metafísica nenhuma. Mesmo num palco, qualquer ciclo fechado é frívolo. O que ele queria dizer, é claro, é que justamente meu argumento para contradizê-lo: Que nossos excessos de psicologia tornam a ação em cena vazia. Por isso o gesto preciso de um significado. Eis o argumento para a metafísica cênica. Nada mais claro que o diálogo dos loucos.

Além, ele escreveu em francês, e como diria Nelson Rodrigues "Toda idiotice escrita em francês soa como uma verdade absoluta e incontestável, enquanto nós temos que nos esmerar para parecermos inteligentes catando cacos em português" Nem tão verdade, nem tão mentira, não é Nelson?

Falando nele, outro louco. Acabei de ler que em vinte anos desde que seu teatro se iniciara nunca houve um que se manifestasse nas ruas contra a interdição de suas peças pela censura. E no primeiro movimento deste tipo a ser realizado no Brasil, já na ditadura, lá foi ele pedir pela liberação dos espetáculos alheios. Ao lado dos que o chamaram de tarado.

Falando em tarado, nada mais tarado que a imprensa brasileira. E agora hipócrita, antes do jornal limpo, de copydesk, pelo menos havia algum romance e nenhuma pretensão de imparcialidade no jornalismo. Hoje além de parcial, a impresna é hipócrita e insossa. Perdeu tudo numa só tacada. Puro medo da inteligência das classes menos abonadas.

Falando em medo não sei por quê. As classes menos abonadas estão às favas com o jornal. O jornal poderia ser o último reduto estilístico, pelo seu quase anonimato ou ancestralismo. Hoje a informação está na TV, acima de tudo. A internet está chegando, uma nova realidade desponta aos poucos para grupos emergentes. Mas olho para meus pais, olho para as casas dos vizinhos, dos parentes, e choro: Lá está ela, ainda dominando o pensamento.

A TV sim se dá o direito de alguma poesia vendendo idéias, comportamentos e estética em suas novelas, o instrumento mais poderosos de massificação já criado na história da humanidade. Minto? Talvez sim, talvez não.

domingo, março 8

O Espelho

Digo sempre ao meu irmão "Ponha a mão na consciência". Bem, hoje é minha vez.

Pensei na crônica de hoje durante meu banho ontem. E todas as idéias que tenho embaixo d'água soam tão geniais que ao passar a toalha nas costas já a tinha por certa.

Todo literato é um grande Narciso. Digo mais, é a evolução de Narciso, tão apaixonado pela própria imagem que convida os outros à assisti-la através de suas palavras. Perto de um literato, Narciso é humilde. E não sou exceção à regra.

Túlio me ligou ontem. "Gostei muito da coluna, Onirê é mesmo um gênio" - é mesmo - "tem uma sutilezas legais, coisa e tal..." E eu, um vendido, derriti antes mesmo da primeira palavra, me vendi na primeira inflexão de elogio.

E pus a mão na consciência, como sempre aconselho ao meu irmão. Essa coluna é ficcional porque ponho palavras na boca dos outros, aumento este ou aquele contorno que considero importante ao ponto da fraude, se não pior. Mas intrisecamente ligada à pessoas e fatos reais. Faço todo o possível para não ferir ninguém - invento pecadores, troco santos, chamo padres, o diabo. A principio não vi mal nenhum nisso porque tinha certeza que ninguém lia então poderia exibir nua e crua uma visão íntima do mundo que me cerca. Mas já sei de duas pessoas que estão lendo, aí a consciência pesou.

Não mentirei, quando sento para bater estas palavras, elas sempre saem ácidas, amargas e um pouco irônicas. Decidi que não posso fazer folclore às custas de meus amigos se não fizer comigo mesmo antes.

Assim, farei o que nenhum literato jamais fez, algo quase inédito e maldito na literatura. Pelo menos dentre esses meninos de famílias boas - Drummond, Vinícius, João Cabral, Cecília, Nelson, Bandeira - Cuspo no espelho e mostro no meu reflexo meu maior demônio, meu fantasma mais profundo. Só assim, mostrando a hipócrisia de mim mesmo, estarei livre para olhar o mundo com meus olhos. Seguirei o exemplo do poeta pobre, que nunca escondeu quem era, vou de Lima Barreto.

Conto para quem quiser ouvir, e contei para Túlio inclusive, na primeira noite em que bebemos e fumamos toda sorte de aventura sexual protagonisada pela minha pessoa. Potoca. Sou virgem como um recém-nascido. Tenho certa vaidade pela mentira, esmerada, colhida e criada como uma personagem de mim mesmo em mil e outras aventuras de terceiros que eu, como escritor e ator, soube escutar, moldar e representar.

Sem dúvida meu maior arrependimento foi para com uma mulher que tive que soube de meu legado fraudulento antes de saber a mim mesmo. E eu, mesquinho, mantive o mito pelo mito. Meus motivos? Medo da chacota, uma apavorante, absurda, inexplicável vergonha de mim mesmo, da minha condição impotente, humana.

"A verdade é questão de maturidade" Já dizia minha avó. Vivi o suficiente para ter os olhos capazes de escrever essas palavras, portanto já vivi o suficiente para aceitar o rídiculo de meu erro e as sombras de minha hipocrisia.

Cuspo no meu espelho e finalmente, abro os olhos.