domingo, março 8

O Espelho

Digo sempre ao meu irmão "Ponha a mão na consciência". Bem, hoje é minha vez.

Pensei na crônica de hoje durante meu banho ontem. E todas as idéias que tenho embaixo d'água soam tão geniais que ao passar a toalha nas costas já a tinha por certa.

Todo literato é um grande Narciso. Digo mais, é a evolução de Narciso, tão apaixonado pela própria imagem que convida os outros à assisti-la através de suas palavras. Perto de um literato, Narciso é humilde. E não sou exceção à regra.

Túlio me ligou ontem. "Gostei muito da coluna, Onirê é mesmo um gênio" - é mesmo - "tem uma sutilezas legais, coisa e tal..." E eu, um vendido, derriti antes mesmo da primeira palavra, me vendi na primeira inflexão de elogio.

E pus a mão na consciência, como sempre aconselho ao meu irmão. Essa coluna é ficcional porque ponho palavras na boca dos outros, aumento este ou aquele contorno que considero importante ao ponto da fraude, se não pior. Mas intrisecamente ligada à pessoas e fatos reais. Faço todo o possível para não ferir ninguém - invento pecadores, troco santos, chamo padres, o diabo. A principio não vi mal nenhum nisso porque tinha certeza que ninguém lia então poderia exibir nua e crua uma visão íntima do mundo que me cerca. Mas já sei de duas pessoas que estão lendo, aí a consciência pesou.

Não mentirei, quando sento para bater estas palavras, elas sempre saem ácidas, amargas e um pouco irônicas. Decidi que não posso fazer folclore às custas de meus amigos se não fizer comigo mesmo antes.

Assim, farei o que nenhum literato jamais fez, algo quase inédito e maldito na literatura. Pelo menos dentre esses meninos de famílias boas - Drummond, Vinícius, João Cabral, Cecília, Nelson, Bandeira - Cuspo no espelho e mostro no meu reflexo meu maior demônio, meu fantasma mais profundo. Só assim, mostrando a hipócrisia de mim mesmo, estarei livre para olhar o mundo com meus olhos. Seguirei o exemplo do poeta pobre, que nunca escondeu quem era, vou de Lima Barreto.

Conto para quem quiser ouvir, e contei para Túlio inclusive, na primeira noite em que bebemos e fumamos toda sorte de aventura sexual protagonisada pela minha pessoa. Potoca. Sou virgem como um recém-nascido. Tenho certa vaidade pela mentira, esmerada, colhida e criada como uma personagem de mim mesmo em mil e outras aventuras de terceiros que eu, como escritor e ator, soube escutar, moldar e representar.

Sem dúvida meu maior arrependimento foi para com uma mulher que tive que soube de meu legado fraudulento antes de saber a mim mesmo. E eu, mesquinho, mantive o mito pelo mito. Meus motivos? Medo da chacota, uma apavorante, absurda, inexplicável vergonha de mim mesmo, da minha condição impotente, humana.

"A verdade é questão de maturidade" Já dizia minha avó. Vivi o suficiente para ter os olhos capazes de escrever essas palavras, portanto já vivi o suficiente para aceitar o rídiculo de meu erro e as sombras de minha hipocrisia.

Cuspo no meu espelho e finalmente, abro os olhos.

4 comentários:

Anônimo disse...

Mentiroso safado! hauhuhauhauhahuauha!

Túlio disse...

Lógico que não é só isso que eu tenho pra falar, mas isso eu deixo pra o próximo bar ou calçada.

Túlio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Túlio disse...

Lógico que não é só isso que eu tenho pra falar, mas deixo o resto para o próximo bar ou calçada.