A moça que intermediou meu encontro com Túlio, ou seja, a principal irresponsável pela minha participação no Ratão, Joana Liberal, a moça ex-careca mais linda que já tive o prazer de conhecer fez anos dia quatro de março e comemoramos ontem.
Coisa curiosa essas festas de aniversário. Mudam os dançarinos mas o baile é sempre o mesmo. O bar, Capibar, fica às orlas do rio e vale a propaganda: um decoração mais que interessante, que se vale de materiais recicláveis e quinquilharias, como globos de garrafas pet ou colunas de latinhas de alumínio, línguas de sacolas plásticas pelas paredes, orelhões espalhados em três pontos do bar, velhos, inúteis, como estandartes da decadência. Um grande espelho à la "Bonequinha de luxo" na entrada, segundo Dandara. Um casal de proprietários cujas barbas e a simplicidade exigem, no mínimo, dignidade. E conectando o bar ao Capibaribe as tábuas que servem de cais do porto para uma jangadinha devorada pelas traças.
Mas quanto aos dançarinos e o baile - primeiro todos estão sentados, um rapaz escolhe as músicas, primeiro sambinhas inteligentes, cult (porque todos são cult depois do João do Morro), as cervejas vão e vem, pessoas chegam, se reconhecem, se abraçam, mais cerveja e alguém vai para a pista, um mais corajoso.
A festa é definida sempre pela primeira pessoa que pisa na pista, ela é a responsável pela segunda, a terceira e todas as outras. Quando já existem rodas na pista, e tudo é calor, e o suor se confunde com as respirações a festa aproxima-se da apoteose.
E por apoteose eu digo a ignorância à qualquer inteligência. Do samba ao brega, do brega ao funk, e vemos, para qualquer alívio da evolução, moças lindas, engenheiras, psicólogas, envergadas como se envergavam os camponeses em certas torturas medievais enquanto gritam, enlouquecidas "sou uma cachorra!" Amém.
Pena que não dancei, ontem me senti um vouyer: observei muito amiúde a curva dos corpos, o detalhe dos vestidos, como uma moça tirou os sapatos para dançar e como era mais bonito o contato direto e carnal de seu pé com a pista em meio ao furor, ao esquecimento coletivo. Danado é o homem que por amar todos não ama ninguém, o asno.
E é como o relógio que para sempre se repetirá no ponteiro das doze. Dias atrás meus pais me contavam de seus bailes. Idênticos. Há coisas na vida que se repetirão à eternidade: o adultério, o furto, a falta de amor e os bailes de adolescentes, mudarão os instrumentos, mas a partitura permanecerá.
sábado, março 7
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Um comentário:
Agora trata-se da minha prazerosa leitura diária. Vou guardar tudo isso, meu homem.
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