sábado, março 7

Capibar

Para a direita e para a esquerda
A cidade se esconde
Pela muralha de árvores que vela o rio

Morcegos Kamikazes cortam razantes as margens
E diluem sua forma entre a noite e as águas

O brilho de uma estrela, de muito a olhar
Tem setecentas cores - todas morrem
Refletidas nas águas sujas do Capibaribe
No que passa uma planta e as apaga

Donde estou, as tábuas são tão antigas
Que contam histórias
Se as ouvir em silêncio

As televisões emanam apenas mofo e pó
Nenhum comercial, nenhuma novela
Graças!

As garrafas de plástico formam lustres
Brancos, vermelhos e amarelos

Latas são velas de alumínio escorrendo
As paredes de Pepsi, Coca e Kuat incandescentes

Os orelhões, carcomidos e enferrujados
São, ora, túmulos de anjo
Ora, berço de Iemanjá
Horizontais e acústicos

Sacolas de supermercado
São línguas na parede

Um bote solitário chora a lua
Cujo reflexo circunda a geometria de suas tábuas

Enfim, na fluência do rio fluem as pessoas
À mercê de qualquer ritmo, qualquer compasso
Refluem como as águas que as cercam

E a noite são curvas, e a noite são ondas
Que torneiam joelhos e balançam cabeças
Cacheadas, louras, carecas

Untando corpos com o lacre do suor
Pelo canto do bacurau até o grito do galo
Enquanto o rio permanente e cinza
Segue espelho dos homens

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