Para a direita e para a esquerda
A cidade se esconde
Pela muralha de árvores que vela o rio
Morcegos Kamikazes cortam razantes as margens
E diluem sua forma entre a noite e as águas
O brilho de uma estrela, de muito a olhar
Tem setecentas cores - todas morrem
Refletidas nas águas sujas do Capibaribe
No que passa uma planta e as apaga
Donde estou, as tábuas são tão antigas
Que contam histórias
Se as ouvir em silêncio
As televisões emanam apenas mofo e pó
Nenhum comercial, nenhuma novela
Graças!
As garrafas de plástico formam lustres
Brancos, vermelhos e amarelos
Latas são velas de alumínio escorrendo
As paredes de Pepsi, Coca e Kuat incandescentes
Os orelhões, carcomidos e enferrujados
São, ora, túmulos de anjo
Ora, berço de Iemanjá
Horizontais e acústicos
Sacolas de supermercado
São línguas na parede
Um bote solitário chora a lua
Cujo reflexo circunda a geometria de suas tábuas
Enfim, na fluência do rio fluem as pessoas
À mercê de qualquer ritmo, qualquer compasso
Refluem como as águas que as cercam
E a noite são curvas, e a noite são ondas
Que torneiam joelhos e balançam cabeças
Cacheadas, louras, carecas
Untando corpos com o lacre do suor
Pelo canto do bacurau até o grito do galo
Enquanto o rio permanente e cinza
Segue espelho dos homens
sábado, março 7
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