Vou deixar Túlio me esperando no amarelinho. Paciência Túlio.
Hoje preciso falar de Onirê, outro fundador do rato, figura importantíssima no movimento - cientista da computação, filósofo e orc. Estava bebendo com ele no cavanhaque, o amarelinho da federal, e não posso omitir certas passagens.
Primeiro quanto à filosofia do rato. Eu sei que ele foi para a universidade estudar, assisir aula, coisa e tal. Mas o rato, no seu momento de maior comunhão com a filosofia está sempre duro. Foi assim com Pedro Augusto, dia desses "Diogo, vamos tomar uma, suadade de porra de tu!" e eu "bora, onde?" ele, sem nennuma vergonha, numa belíssima naturalidade "No Extra, tô com R$1,50 no bolso!". E eu fui. Com Onirê não foi diferente "vamos para o cavanhaque Diogo? Tô com R$2,00 no bolso!" E eu, categórico "É agora"
Tem sempre um com dinheiro, graças, se não tiver a gente fica andando até morgar e cada um pega seu ônibus. Mas Onirê e Pedro se destacam na sutil arte de sair com um, dois reais no bolso e voltarem para casa com verdadeiras fortunas em álcool no organismo.
Mas isso não tem nada a ver com o que eu queria falar. Entre um copo de cerveja e outro ele soltou uma dessa filósofias absolutas, que jamais poderiam nascer em qualquer outro lugar que não fosse o bar "O carnaval é uma ilusão. E a gente tem que ir vivendo até que a vida chegue na gente". Impossível descrever meu assombro ante esse gênio absoluto.
Logo depois alguém esbarrou nele e a cerveja molhou sua camisa. Vocês pensam que esse gênio se rebaixou à violência? Não (queria ver Onirê brigando). Pensam que ele se abalou? Não. Com todo seu mito, sua aura, cheirou a camiseta disse, simples e agudo, "chegando em casa digo que é perfume de lúpulo. E francês"
Meu ponto é que coisas assim só nascem nos bares, não existe lugar mais propício à verdadeira cultura popular, ao desenvolvimento do intelecto, à reflexão, que uma mesa de bar repleta de copos coloridos, cintilantes, rútilos. Eu também não fiquei por menos, durante o curso da conversa um cigarro de palha ia e via vertiginosamente entre os fregueses do bar. Bebi um gole e tive um momento de luz em meio às trevas do pensamento. Respirei e disse "Não há nada mais socialista que um baseado".
E pouco preconceituoso também. Existe sobre as mais diversas formas - cigarro, fumo, brigadeiro, biscoito, chá - E só é consumido por apenas uma pessoa quando o dono se encontra completamente solitário. Mas mesmo assim ele não é egoísta, pois está de consolo ao melancólico.
Acabei não chegando nos pontos importantes. Azar, fica para a próxima postagem.
À todos que seguirem o rato, ratão
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segunda-feira, março 2
Os amarelinhos
Ainda sobre o rato. Depois do Senart e do Luciano Hulk verde guache fiquei de tomar uma cerveja com Túlio no amarelinho da Católica. Abro um parênteses aqui, o amarelinho é dessas importantíssimas entidades recifenses, toda universidade, cursinho técnico ou pré-vestibular tem o seu amarelinho, com nomes e aparências das mais diversas. Na verdade creio que isso seja um fenômeno brasileiro e até mundial. Pelo menos sul-americano deve ser. Eu nunca entendi o laço intrínseco entre o álcool e a sala de aula, mas sempre o aceitei com grande naturalidade.
Não pretendo esgotar o assunto aqui, mas darei a ele mais um parágrafo. É realmente curioso como esses bares existem de maneira etérea, além do tempo e do espaço. Não precisam de mesas bonitas, não investem um centavo em decoração, aparência, atendimento; existem simplesmente, na mais completa falta de pretensão e com a certeza absoluta que se acaso algum movimento das estrelas cause sua falência dez outros botecos igualmente despretensiosos estarão prontos para assumir seu posto histórico. São na verdade uma das provas mais ilustrativas do capitalismo: enquanto houver demanda haverá oferta. E não existe demanda mais voraz, mais obsessiva por álcool que o estudante (talvez o corno ou o melancólico do século passado, posto que o melancólico do século toma energético e usa franja, o imbecil. Mas sem duvida o estudante encabeça a lista). Comparado aos bares de universidade em termos de capitalismo selvagem apenas as prostitutas de Boa Viagem e os taxistas da madrugada. Apenas.
Os donos desses bares também merecem parágrafo: são dessas figuras folclóricas, de bigodes triunfais e barris de chopes escondidos na barriga; parecem existir desde os tempos do império e se mantiveram vivos, de bar em bar, através dos séculos. Em geral tem os dentes amarelos e uma unha maior que as outras, mística, onde deixam fermentar o tempero da carne à moda da casa. Como prova de sua idade têm sempre uma história para contar. Normalmente nessas histórias que se entregam, começam com um causo da semana, do ano e entre a terceira e a quarta garrafa de cerveja já estão contando os causos do império, ou piores. "Nos tempos de Nassau é que isso era bonito, outro dia mesmo, em 40 eu pedi a ele uma réplica da ponte para decorar o bar e etc...", eu, surpreso da revelação e crente da embriaguez do homem ainda tentei "Nassau?! 1940?" e ele, soberbo e convicto "que 1900 o quê, 1640! Maurício de Nassau, tu não estudou ele na escola não menino?! Então, mas ele nunca me deu a maquete..." revelando toda a lenda, o mito e transcendência dos donos de boteco. Outra coisa a se notar é que eles não tem qualquer pudor em sentar e beber com os clientes, consideram um gesto de amizade, de camaradagem. Se o bar está vazio e a mesa tem menos de quatro pessoas, o dono se sente o amigo mais íntimo, o padrinho oculto de cada membro da mesa, seja homem, mulher, travesti ou cachorro (nada incomum ver um dono de boteco bebendo com um vira-lata que apareceu, e convenhamos que o vira-lata é uma companhia formidável de mesa de bar - calado, fiel, compreensivo, sabe quando fazer barulhos de entendimento e presta muita atenção em tudo que seu locutor diz). Outra prova de sua ancestralidade, e da minha também, pois concordo quanto a nobreza do gesto. Nada mais triste que um estranho que permanece estranho. As pessoas foram feitas para se conhecer. Ao vivo.
A digressão está enorme e possivelmente, mas sou desses pais condescendes com minhas palavras, vaidoso e preguiçoso. Enfim, contando do dono de bar que se aproxima dos estranhos no maior impudor me lembrei de um causo. Vá lá.
Estava voltando de carona com Roberto França, grande amigo, desses com quem posso chorar sem vergonha. Mas nessa noite, era noite, não chorava nem nada. Eu visitara a igreja dele, ele fora para um acampamento de jovens com a igreja no carnaval e eles tiveram um encontro uma semana depois no culto para ver fotos, lembrar as músicas, coisa e tal. Ao meu lado no carro, estava uma tal que não me lembro o nome, nem bonita nem feia, assim assim. Se fosse Nelson diria que era dona de umas narinas de cadáver. Como não sou digo que era dessas moças de feições plásticas, uma bruxa da aparência, com pouca ou nenhuma naturalidade.
O carro estava apertado, mas eu estava completamente à vontade. Íamos conversando no carro, ela estava ao meu lado... Retifico o que disse antes: eu estava à vontade psicologicamente, meu corpo estava espremido entre as outras cinco pessoas que iam no banco de traz para o bar do Jabá. Espremido e conversando com ela estendi meu braço pelo banco do carro, tenho certeza que todos conhecem o gesto, que oferece diversas interpretações é verdade, minha intenção estava entre o folgado e o paxá. E continuava conversando com ela, na primeira risada acariciei levemente o braço dela, agora ao alcance da minha mão, com a ponta dos dedos. E deu-se a farsa.
Sou um rapaz grato, meu orixá e meu anjo da guarda nunca me deixaram na mão, mas eles poderiam ter me dado um aviso, por mais sutil que fosse, do escândalo. A moça pôs-se a gritar no carro "Eu tenho namorado! Sou moça de família! Tá pensando o quê?!" Murchei mais que uva passa. Realmente não vira essa chegando. Faço carinhos mais indecentes em Roberto, que é homem, e nunca recebi um escândalo em resposta. Todos no carro se espantaram, Roberto ia tirando a vista da direção para ver se todos viviam, uma muvuca tremenda e eu, inocente, humilhado, exclamava "Era só um carinho! Não é casamento! Não te levei pro motel! Um carinho porque fui com tua cara! Mas nunca mais ouviu?! Nunca mais!" E ela revidava minhas desculpas, transfigurada "Jamais ouviu?! Jamais!"
Nessas horas que me julgo um antigo mesmo. Aí daquele que vive sem carinho, que não aceita com complacência e humildade a carência alheia. A infame! Também nunca mais me arrisquei por ali e nem fui ao Jabá, voltei para casa, beber e chorar a falta de amor no mundo.
Não pretendo esgotar o assunto aqui, mas darei a ele mais um parágrafo. É realmente curioso como esses bares existem de maneira etérea, além do tempo e do espaço. Não precisam de mesas bonitas, não investem um centavo em decoração, aparência, atendimento; existem simplesmente, na mais completa falta de pretensão e com a certeza absoluta que se acaso algum movimento das estrelas cause sua falência dez outros botecos igualmente despretensiosos estarão prontos para assumir seu posto histórico. São na verdade uma das provas mais ilustrativas do capitalismo: enquanto houver demanda haverá oferta. E não existe demanda mais voraz, mais obsessiva por álcool que o estudante (talvez o corno ou o melancólico do século passado, posto que o melancólico do século toma energético e usa franja, o imbecil. Mas sem duvida o estudante encabeça a lista). Comparado aos bares de universidade em termos de capitalismo selvagem apenas as prostitutas de Boa Viagem e os taxistas da madrugada. Apenas.
Os donos desses bares também merecem parágrafo: são dessas figuras folclóricas, de bigodes triunfais e barris de chopes escondidos na barriga; parecem existir desde os tempos do império e se mantiveram vivos, de bar em bar, através dos séculos. Em geral tem os dentes amarelos e uma unha maior que as outras, mística, onde deixam fermentar o tempero da carne à moda da casa. Como prova de sua idade têm sempre uma história para contar. Normalmente nessas histórias que se entregam, começam com um causo da semana, do ano e entre a terceira e a quarta garrafa de cerveja já estão contando os causos do império, ou piores. "Nos tempos de Nassau é que isso era bonito, outro dia mesmo, em 40 eu pedi a ele uma réplica da ponte para decorar o bar e etc...", eu, surpreso da revelação e crente da embriaguez do homem ainda tentei "Nassau?! 1940?" e ele, soberbo e convicto "que 1900 o quê, 1640! Maurício de Nassau, tu não estudou ele na escola não menino?! Então, mas ele nunca me deu a maquete..." revelando toda a lenda, o mito e transcendência dos donos de boteco. Outra coisa a se notar é que eles não tem qualquer pudor em sentar e beber com os clientes, consideram um gesto de amizade, de camaradagem. Se o bar está vazio e a mesa tem menos de quatro pessoas, o dono se sente o amigo mais íntimo, o padrinho oculto de cada membro da mesa, seja homem, mulher, travesti ou cachorro (nada incomum ver um dono de boteco bebendo com um vira-lata que apareceu, e convenhamos que o vira-lata é uma companhia formidável de mesa de bar - calado, fiel, compreensivo, sabe quando fazer barulhos de entendimento e presta muita atenção em tudo que seu locutor diz). Outra prova de sua ancestralidade, e da minha também, pois concordo quanto a nobreza do gesto. Nada mais triste que um estranho que permanece estranho. As pessoas foram feitas para se conhecer. Ao vivo.
A digressão está enorme e possivelmente, mas sou desses pais condescendes com minhas palavras, vaidoso e preguiçoso. Enfim, contando do dono de bar que se aproxima dos estranhos no maior impudor me lembrei de um causo. Vá lá.
Estava voltando de carona com Roberto França, grande amigo, desses com quem posso chorar sem vergonha. Mas nessa noite, era noite, não chorava nem nada. Eu visitara a igreja dele, ele fora para um acampamento de jovens com a igreja no carnaval e eles tiveram um encontro uma semana depois no culto para ver fotos, lembrar as músicas, coisa e tal. Ao meu lado no carro, estava uma tal que não me lembro o nome, nem bonita nem feia, assim assim. Se fosse Nelson diria que era dona de umas narinas de cadáver. Como não sou digo que era dessas moças de feições plásticas, uma bruxa da aparência, com pouca ou nenhuma naturalidade.
O carro estava apertado, mas eu estava completamente à vontade. Íamos conversando no carro, ela estava ao meu lado... Retifico o que disse antes: eu estava à vontade psicologicamente, meu corpo estava espremido entre as outras cinco pessoas que iam no banco de traz para o bar do Jabá. Espremido e conversando com ela estendi meu braço pelo banco do carro, tenho certeza que todos conhecem o gesto, que oferece diversas interpretações é verdade, minha intenção estava entre o folgado e o paxá. E continuava conversando com ela, na primeira risada acariciei levemente o braço dela, agora ao alcance da minha mão, com a ponta dos dedos. E deu-se a farsa.
Sou um rapaz grato, meu orixá e meu anjo da guarda nunca me deixaram na mão, mas eles poderiam ter me dado um aviso, por mais sutil que fosse, do escândalo. A moça pôs-se a gritar no carro "Eu tenho namorado! Sou moça de família! Tá pensando o quê?!" Murchei mais que uva passa. Realmente não vira essa chegando. Faço carinhos mais indecentes em Roberto, que é homem, e nunca recebi um escândalo em resposta. Todos no carro se espantaram, Roberto ia tirando a vista da direção para ver se todos viviam, uma muvuca tremenda e eu, inocente, humilhado, exclamava "Era só um carinho! Não é casamento! Não te levei pro motel! Um carinho porque fui com tua cara! Mas nunca mais ouviu?! Nunca mais!" E ela revidava minhas desculpas, transfigurada "Jamais ouviu?! Jamais!"
Nessas horas que me julgo um antigo mesmo. Aí daquele que vive sem carinho, que não aceita com complacência e humildade a carência alheia. A infame! Também nunca mais me arrisquei por ali e nem fui ao Jabá, voltei para casa, beber e chorar a falta de amor no mundo.
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