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segunda-feira, setembro 28

Domingo, onze e meia da noite

Para quem ligo e confesso minha saudade? Para as mulheres que me abandonaram ou para as que abandonei? Para os amigos que me esqueceram ou para os que esqueci? Na verdade, entre mortos e feridos ninguém é inocente.

Não há inocência, nem trégua. Para o coração iniciado nas batalhas do amor todos os dias são dias de guerra, de luta árdua e inútil como são sempre os conflitos armados e o coração bate ao som das marchas militares se questionando se hoje é dia de morrer ou de matar.

Assim, neste quarto silêncioso e sem vida, meu coração é como o soldado já tão habituado às batalhas que só encontra paz no barulho das granadas e entre o aço das espadas. Que se entende vivo por ver a morte nos olhos, bem de perto.

Neste quarto de paredes brancas e luz fria, neste silêncio sepulcral, sinto definhar como muralhas a flor desta lira.

Como os domingos são tediosos, meu Deus! E esse telefone que não toca, esse e-mail que não chega! Queria que meus amigos entendessem que não ligo para eles porque tenho pudores de incomodá-los de meia em meia hora com minhas carências. Meus afetos, modéstia aparte, são pessoas importantes e ocupadas, tenho vergonha de querê-los só pra mim, para os carinhos que venho guardando de meia em meia hora, para toda essa saudade cá comigo, a fim de vazar.

Queria mesmo que eles pressentissem, por esses mistérios da amizade, minha saudade e lembrassem de mim. Talvez verdadeiras amizades não devessem ter pudores, e as mulheres que fiz sofrer não mais sofressem e as pelas quais sofri se arrependessem. Mas aí já é querer demais.

Vou dormir, amanhã é outro Sol.

domingo, abril 5

confessionário

Coisa interessante a verdade. Principalmente a inconfessável, se gritada para todos, sem pudor algum, se torna silenciosa como um eco, torna qualquer mentira muda, e todos somos mudos.

Bem, viajei. Primeiro e muitíssimo importante, primeiro retifico todas as postagem em que escrevi o sobrenome de Ianah errado - o nome correto é Ianah Maia, meu erro, nunca mais cometo. Dois - comentarei a festa do ratão ao longo da semana mas hoje não. A festa foi um momento histórico e em respeito à todos os envolvidos prefiro checar todas as minhas fontes antes de teclar bobagens. Três - amanhã ou terça inauguro um novo blog - www.bbbsescdeteatro.blogspot.com - onde discorro dos temas do curso entre outras reflexões pertinentes, a quem interessar possa conferir.

Sem falar de ontem, mas ainda falando do ratão, a grande habilidade dos ratos é permanecer juntos. Julyana Carla - minha estrela derradeira, minha amiga e companheira no infinito de nós dois - teve seu primeiro contato com o ratão ontem e um dos comentários que ela fez foi "dá pra ver que vocês são muito de sentimento, não é? vocês se unem por dentro". Chamou a todos nós de feios, é verdade; mas falou algo importantíssimo - nosso elo é mais profundo que uma cervejinha ou sapatos que combinam. Por isso nessa longa história do rato, olhando para trás vou vendo e contando mortos e feridos, como disse bruninha na Bodega, e vejo todos vivos e unidos. O curioso é que vivendo apenas o momento presente eu não havia percebido, mas ao olhar para trás vi tantos laços trocarem de cor, de forma, às vezes se estreitarem e às vezes se afrouxarem, mas depois de ontem estou convencido que a força que nos une é maior que o álcool. Que existe o divino no nosso amor.

Quantas vezes mulheres já não trocaram de homens ou homens trocaram de mulheres, ou coisas foram ditas na hora errada mas nós continuamos e eu digo o motivo - eu me humilharia às últimas consequências por qualquer um deles, sem pensar duas vezes.

Errar erramos muito, mas pedir perdão com sinceridade é uma arte que cultivamos - Eu mesmo outro dia, ia dando uns beijinhos numa rata que não sabia comprometida, quando soube o estrago já estava feito, só faltei me matar na frente do traído para me desculpar. Levou um tempo mas fui perdoado. Outra vez saí falando da vida sexual de um para outro e fui censurado, enfim, a falta de discrição me persegue. Eu tenho a mania da exposição, da mostra.

Por isso que era preciso contar também meus pecados no blog, sem pudor. Além é semana santa, tempo de se confessar, e não há melhor lugar para isso que aqui.

Estou com uns parentes em casa - dois tios e uma avó, ficam até a páscoa, passei o almoço com eles ouvindo as histórias das bebedeiras do passado e pensando - dos que bebiam juntos, quantos ficaram? Poucos ou nenhum, foi a resposta que obtive.

Por isso, hoje faço alguns apelos

1º) me perdoem pela falta de tato com que conto tudo aqui, procurarei mais sutileza no futuro.

2º) nos mantenhamos unidos, pois para mim, o verdadeiro milagre do rato é o amor que transforma a nós, um bando de desconhecidos, numa família.

Alcides, meus parábens, sinto muito não ter ido hoje, faça muito barulho no cajon.

sexta-feira, março 20

Msn

Tenho meus receios com palavrão. Nelson Rodrigues mesmo, o "tarado" só foi escrever seu primeiro palavrão em um texto dramático depois de ter feito as pazes com público e censura, ou quase isso.

Mas vá lá: o msn é uma merda, é uma invenção vil, criada por um amargo, um desiludido, um inseto qualquer como forma direta de protesto ao amor.

De onde tal conclusão? Das mulheres. Talvez o leitor não acredite, mas eu nunca tomei um fora ao vivo, com todas as letras. Algumas mulheres, hábeis, já me levaram a crer que minhas esperanças eram sem futuro, mas isso são quinhentos. Já o msn não! O msn é maquiavélico, é mefistofélico, é diabólico mesmo. E eu direi por quê: Porque o msn te dá o direito de privar-se dos próprios sentimentos, o msn é anti-humano, e venenosamente desprovem o indivíduo de paixão, ternura ou bondade.

Principalmente as mulheres, filhas da maçã e da cobra, como dizem no livro. Não foi uma nem duas, mas umas trezentas vezes que vi conversas de msn tornarem-se prodigiosas DR's ou até mesmo a derrocada de um relacionamento.

E eu medroso pedindo, implorando pra Lúcia, uma tal de quem gosto muito "Lú, pelo msn não, pelo amor de Deus! Vai dar tudo errado pelo msn!" Ela, na condição de mulher, não entende. Tudo bem. Mas também não respeita, abro o msn e lá estão as mensagens, aos montes, aos milhões.

Pelo menos com Lú é diferente, entra no msn agoniada, faz uma bagunça danada para organizar os pensamentos na mensagem e me manda textos entre o cômico e o trágico, tipo "desculpa por ontem é que vc falou que não queria conversar e como eu não estava me sentindo muito bem dei boa noite saí pensando que vc tb tinha saido", logo em seguida "bom quero muuuuuuuito falar com vc mais isso vai ter que esperar para segunda feira pq eu tinha marcado umas coisas pra esse fim de semana" ainda recheia esse bolo de complicações com "passei o dia como o celular na mao pensando se devia ou não ligar pra sua casa, me enchi de coragem mas no fim das contas perdi ela enquanto digitava o numero".

Nem precisa dizer que para um rapaz pobre e vaidoso como eu isso é puro veneno no ego, mas aí vem umas coisas complicadas pra chuchú, como por exemplo "na verdade eu não sei se quero conversar, tenho medo do que voce tem pra me dizer tenho medo do que eu tenho pra dizer a voce". Isso treme qualquer um na base. E isso porque eu entrei off não sei às quantas da madrugada, que era para não ter que papear pelo msn, me borrando de medo.

Dando tudo certo segunda-feira eu resolvo minha vida romanesca. E pensando no assunto ela deveria ter ligado, passei o dia olhando o teto e esperando a ligação...

Mas ela é excessão da regra. Só nos últimos seis meses vi duas conversas por msn se transformarem num completo caos e uma delas me levou às lágrimas. Vou contar o caso, ele merece ser contado.

Me apaixonei pela mulher mais triste do mundo, Isabel Araújo. Eu queria mesmo era dar meu sangue por ela. Eu queria tirar satisfações com o ex-namorado, queria fazer do melhor amigo dela um novo irmão, queria que ela ganhasse flores todos os dias de sua vida. Enfim, queria todas aquelas todas as idiotices do amor, e nunca me senti tão bem sendo idiota. Mal abria os olhos, já começava a cantar, e minha mãe me disse que eu estava cantando bem (isso não acontece, nunca). Chorava de saudades por causa de um dia, contava segundos, coisa e tal. Ela dizia "Diogo, vou te magoar" e eu, cego "Vai nada, bom mesmo é sofrer por você!" - Mas ela não me deixou, ela me procurou e me beijou e me beijou de novo e ia continuar até que... Ela veio falar comigo no msn. Parece piada, mas o leitor é capaz de deduzir o resultado da valsa. Eu nunca entendi isso, e acho que nunca irei.

Eu não menti, sofri por ela cada segundo, sofri até não ter mais sofrimento no meu peito para sofrer. Me enchi de trabalho para esquecer. No último dia de carnaval, me iludi para sofrer. E só quando não havia mais sentimento para sofrer e eu me encontrava completamente vazio, desumano; pude começar tudo de novo.

O jeito é esperar que Lúcia seja uma moça diferente, mas ainda assim tenho medo do msn.

Ou talvez no final o que me assuta não seja o msn, sejam as mulheres mesmo, estandartes do divino e do profano.

segunda-feira, março 16

O mentiroso

Sei que são duas da manhã, mas já que não dormi, no meu relógio biológico essa ainda é a coluna de segunda-feira, o dia ingrato.

Primeiro, se não deixei claro aqui ainda deixo agora: todo o conteúdo do blog é mentira, me inspiro em fatos e acontecimentos reais e invento à vontade. Meu principal objetivo é fazer folclore com as pessoas que me cercam e exibir um olhar crítico sobre a sociedade que me rodeia.

Dentro dessa liberdade que comparo um curso técnico para atores à um "big brother" ou chamo algumas mulheres de "bruxas da aparência"

Pingo posto no i, convenhamos que nada melhor que uma boa mentira para dizer a verdade. Existem coisas inconfessáveis, e o apelo, o charme o blog é a confissão pública, ainda que mascarada nas metáforas, ainda que justificada nas mentiras.

E dessas conclusões vi que é preciso coragem para escrever o que se pensa. As palavras ditas são fogo de palha - queimam e apagam - mas o que registrado for ficará como um fantasma para te assombrar, não importa quantas palavras cubram a primeira.

Por isso que devo me atacar e ser o mais sincero possível, principalmente quanto à meus deslises. Os jargões da moral burguesa me e católica regeram minha vida como leis do universo, e ainda que me faltem experiências para a maturidade, as consequências de meus atos bateram tão rápido à minha porta que mais pareceram reações.

Compliquei? Descomplico - Tentei fazer sexo sem amor e falhei antes mesmo de começar. Tentei um relacionamento aberto e assim que apareceu a segunda fugiu a primeira. E fui sincero o tempo todo, ouviu? Nunca menti para nenhuma sobre a outra. 'O golpe é mentir, o golpe é enganar', dirão o cínicos, mas não há maior solitário que o cínico. O golpe é amar, e esse é bem mais difícil.

E a única que amei, a única, agora está longe. Mas na época a separei por medo. Assim como um amigo querido "quis conhecer mais vida além do amor" e tudo que vi foi desilusão. Sou um amargo.

domingo, março 8

O Espelho

Digo sempre ao meu irmão "Ponha a mão na consciência". Bem, hoje é minha vez.

Pensei na crônica de hoje durante meu banho ontem. E todas as idéias que tenho embaixo d'água soam tão geniais que ao passar a toalha nas costas já a tinha por certa.

Todo literato é um grande Narciso. Digo mais, é a evolução de Narciso, tão apaixonado pela própria imagem que convida os outros à assisti-la através de suas palavras. Perto de um literato, Narciso é humilde. E não sou exceção à regra.

Túlio me ligou ontem. "Gostei muito da coluna, Onirê é mesmo um gênio" - é mesmo - "tem uma sutilezas legais, coisa e tal..." E eu, um vendido, derriti antes mesmo da primeira palavra, me vendi na primeira inflexão de elogio.

E pus a mão na consciência, como sempre aconselho ao meu irmão. Essa coluna é ficcional porque ponho palavras na boca dos outros, aumento este ou aquele contorno que considero importante ao ponto da fraude, se não pior. Mas intrisecamente ligada à pessoas e fatos reais. Faço todo o possível para não ferir ninguém - invento pecadores, troco santos, chamo padres, o diabo. A principio não vi mal nenhum nisso porque tinha certeza que ninguém lia então poderia exibir nua e crua uma visão íntima do mundo que me cerca. Mas já sei de duas pessoas que estão lendo, aí a consciência pesou.

Não mentirei, quando sento para bater estas palavras, elas sempre saem ácidas, amargas e um pouco irônicas. Decidi que não posso fazer folclore às custas de meus amigos se não fizer comigo mesmo antes.

Assim, farei o que nenhum literato jamais fez, algo quase inédito e maldito na literatura. Pelo menos dentre esses meninos de famílias boas - Drummond, Vinícius, João Cabral, Cecília, Nelson, Bandeira - Cuspo no espelho e mostro no meu reflexo meu maior demônio, meu fantasma mais profundo. Só assim, mostrando a hipócrisia de mim mesmo, estarei livre para olhar o mundo com meus olhos. Seguirei o exemplo do poeta pobre, que nunca escondeu quem era, vou de Lima Barreto.

Conto para quem quiser ouvir, e contei para Túlio inclusive, na primeira noite em que bebemos e fumamos toda sorte de aventura sexual protagonisada pela minha pessoa. Potoca. Sou virgem como um recém-nascido. Tenho certa vaidade pela mentira, esmerada, colhida e criada como uma personagem de mim mesmo em mil e outras aventuras de terceiros que eu, como escritor e ator, soube escutar, moldar e representar.

Sem dúvida meu maior arrependimento foi para com uma mulher que tive que soube de meu legado fraudulento antes de saber a mim mesmo. E eu, mesquinho, mantive o mito pelo mito. Meus motivos? Medo da chacota, uma apavorante, absurda, inexplicável vergonha de mim mesmo, da minha condição impotente, humana.

"A verdade é questão de maturidade" Já dizia minha avó. Vivi o suficiente para ter os olhos capazes de escrever essas palavras, portanto já vivi o suficiente para aceitar o rídiculo de meu erro e as sombras de minha hipocrisia.

Cuspo no meu espelho e finalmente, abro os olhos.