Brasil! Os ratos agora ganharam representatividade no braço militar. Tenente Jardelino é nosso grande representante na infantaria nacional. Verdadeiro cão de guerra, desses que recarregam o fuzil com o dente e põe a mão no isqueiro aceso para provar que é macho.
O ilustríssimo tenente Jardelino (ou Fábio, como o chamávamos antes da transformação em cão do exército) mostra todas as características prezadas pela corporação - objetividade, clareza, força, velocidade, um verdadeiro cão artístico de Bukowski, pronto para pegar a boneca e dar na cara dela, assim, sem dó.
Alías, pensando no tenente, que ao me explicar que ele mandava nos soldados, nos cabos e nos sargentos disse "a tropa que eu comando é grande, brinque comigo!" e eu "brinco nada, tenho cara de quem leva tiro?" - pensei na capacidade de pessoas polares conviverem de forma rica e produtiva.
Como por exemplo Vínicius de Moraes, no tempo que passou em Buenos Aires, a casa dele dava de frente para um quintal onde viviam um pavão, uma galinha, um cachorro e um gato; de muito os observar, Vínicius fez a seguinte declaração à Toquinho, creio "Toquinho, eu aprendi mais com esses quatro bichos que a minha vida toda no Itamaraty. Eles vivem juntos Toquinho, um cachorro, um gato, uma galinha e um pavão, juntos!" Assim é o Ten. Jardelino, Tulinho e Jean.
Tu vê os três juntos pensa "mas será possível?", então vê - eles são como o cachorro, o gato, a galinha e o pavão; humanos o suficiente para viver juntos.
Quem é Jean? Não sei nem seu sobrenome, mas se Fábio é o braço do ratão na infantaria, Túlio na música, Jean é o braço silencioso do ratão. Escritor de mão cheia, violonista clássico e tímido convicto; o verdadeiro eixo desse tripé de artístas tão polares, entretanto tão produtivos, e por que não dizer bonitos, combinados.
Falando em tripé, uma anedota: existe um teórico de teatro que diz "o fenômeno cênico acontece quando se unem os três elementos: o público, o ator e o palco". Na Bahia, encenou-se um espetáculo chamado "R$1,99" cuja ficha técnica era:
Elenco: Ricardo Castro
Iluminação: Ricardo Castro
Sonoplastia: Ricardo Castro
Produção: Ricardo Castro
Diração: Ricardo Castro
Preço? - o Título, com direito, alías, com dever a um centavo de troco (assisti à peça duas vezes, tenho as moedas guardadas comigo até hoje, acho). Nesse monólogo, com um crítica seríssima ao teatro comercial, principalmente no Sudeste, já que aqui em Recife, pelo menos, teatro comercial é quase um sonho, salvo o Chocolate e o Hipopocaré; grande teatro comercial o nosso.
Enfim, durante o monólogo, enquanto operava a luz, o som, se dirigia e atuava Ricardo deu o seguinte texto, máxima da verdade teatral muito maior que essa história de ator, platéia e palco. "O teatro está baseado num tripé" ele começou "1-) prego. Não dá pra fazer teatro sem prego" explico - fixar cartazes na rua, prender as cordas da contra-regragem, preparar os movéis falsos "2-) fita crepe. Não existe teatro sem fita crepre" explico - toda a marcação de cena e da mesa de luz e som é feita com fita crepe, um espetáculo de teatro que não consuma uns dois rolos de fita crepe, acreditem, será ruim. O bilheteiro na porta do teatro deveria anunciar "ingressos a R$15,00, gastaram sete rolos de fita crepe, é ótimo, ótimo" extasiado. Por fim "3-) Viado. Não existe teatro sem viado" o último nem vou comentar, quem já foi ao teatro sabe. E se não sabe, levante as mãos para o céu e agradeça. Enfim, é tudo uma questão de tripé.
Dois avisos - hoje festa acontece a festa ratônica no prédio de Bruninha, desça mesmo a vitrola minha filha. Outra, Dandara Morais, bailarina lindíssima, estará lá, a partir das 18:30 da noite, à procura de seu moço dengoso. Quem for esperto não perderá a oportunidade.
sábado, abril 4
quarta-feira, abril 1
A bodega
Venho, feliz da vida, dar o dito de outra crônica por não dito. Informei ao leitor que eu, eu sozinho e mais ninguém estava responsável pela documentação literária do ratão. Nem oito nem oitenta. Entretanto no mundo dos blogs eu ainda detinha a vaidade de ser o único a falar abertamente do ratão. Até hoje de manhã.
Hoje de manhã li um blog chamado bodega do rato, e portanto acho importantíssimo avisar ao leitor que desse momento em diante oficialmente divido a literatura ratônica com Bruna Barros, galega dos cabelos cacheados, gestora da informação e como soube recentemente, atriz. Enfim, uma pequena assim assim, que tem vivido para o amor.
Primeiro dou meu graças à Deus que alguém pegou essa bola comigo. Bruna está no ratão desde o início e sabe histórias e estórias que sequer imagino. Além, ela mora no Recife não é. Eu, na minha condição simplória de Jaboatonense sofro um pouco para documentar essas histórias da cidade grande.
Aproveitei para incluir outros blogs importantes na lista de indicações, como o do onirê, grande filósofo do ratão, o do cinerevezes, cineclube da Católica que acontece quinzenalmente às quartas-feiras, no caso de hoje à quinze, organizado pela musa do rato Gabriela Alcântara, que nunca pude comparecer a assistir por culpa do SESC, paciência. Dia desses ainda vou Gabi, espere eu tirar Stanislavski da minha vida, por favor.
Falando em Stanlislavski lembrei de Túlio; como o bom artista que é andou preocupado com sua performance em palco e me pediu conselho, disse "leia Stan, ele ajuda bastante". Vê, o rapaz nem pisou no palco e já está preocupado com a performace. Como diria minha tia Célia, que era dessas tias que gostava de apertar buchechas enquanto falava "que coisinha mais fofo o empenho de Tulinho"
Falando em Tulinho lembrei de Basílio e a cuíca inédita. Inédita porque nunca foi vista nem tocada. Não sei direito de onde nem porque Túlio estava um dia com uma cuíca para Basílio, de presente de uma moça - Isso mesmo, quem pensava que Basílio é solteiro, engana-se, Basílio é mineiro, come quieto, desconfiem sempre meninas... Desconfiem mas aproveitem, que ele é um pedaço de bom caminho. Enfim, a cuíca era dessas artesanais, para turista. Túlio deu, Basílio adorou e nós começamos "toca aí, pow" então ele tentou, mas estava meio estranho, primeiro pensamos que ele não sabia. Mas o som foi ficando estanho, estranho... até que o couro se separou da cabaça. Paciência, artigo de turista é assim mesmo.
Pelo menos esses, vivemos tão estigmatizados pela exportação, onde tudo que temos de melhor é dado de mão beijada para o gringo que conforta saber que quando ele está na terra é sumariamente passado para trás pela sabedoria popular.
Ainda hoje a cuíca enfeita a sala da casa de Basílio, como prova que se o cavalo for dado o negócio é não olhar os dentes.
Tudo isso para dizer - leiam a bodega, bruninha tem pegada no teclado
Hoje de manhã li um blog chamado bodega do rato, e portanto acho importantíssimo avisar ao leitor que desse momento em diante oficialmente divido a literatura ratônica com Bruna Barros, galega dos cabelos cacheados, gestora da informação e como soube recentemente, atriz. Enfim, uma pequena assim assim, que tem vivido para o amor.
Primeiro dou meu graças à Deus que alguém pegou essa bola comigo. Bruna está no ratão desde o início e sabe histórias e estórias que sequer imagino. Além, ela mora no Recife não é. Eu, na minha condição simplória de Jaboatonense sofro um pouco para documentar essas histórias da cidade grande.
Aproveitei para incluir outros blogs importantes na lista de indicações, como o do onirê, grande filósofo do ratão, o do cinerevezes, cineclube da Católica que acontece quinzenalmente às quartas-feiras, no caso de hoje à quinze, organizado pela musa do rato Gabriela Alcântara, que nunca pude comparecer a assistir por culpa do SESC, paciência. Dia desses ainda vou Gabi, espere eu tirar Stanislavski da minha vida, por favor.
Falando em Stanlislavski lembrei de Túlio; como o bom artista que é andou preocupado com sua performance em palco e me pediu conselho, disse "leia Stan, ele ajuda bastante". Vê, o rapaz nem pisou no palco e já está preocupado com a performace. Como diria minha tia Célia, que era dessas tias que gostava de apertar buchechas enquanto falava "que coisinha mais fofo o empenho de Tulinho"
Falando em Tulinho lembrei de Basílio e a cuíca inédita. Inédita porque nunca foi vista nem tocada. Não sei direito de onde nem porque Túlio estava um dia com uma cuíca para Basílio, de presente de uma moça - Isso mesmo, quem pensava que Basílio é solteiro, engana-se, Basílio é mineiro, come quieto, desconfiem sempre meninas... Desconfiem mas aproveitem, que ele é um pedaço de bom caminho. Enfim, a cuíca era dessas artesanais, para turista. Túlio deu, Basílio adorou e nós começamos "toca aí, pow" então ele tentou, mas estava meio estranho, primeiro pensamos que ele não sabia. Mas o som foi ficando estanho, estranho... até que o couro se separou da cabaça. Paciência, artigo de turista é assim mesmo.
Pelo menos esses, vivemos tão estigmatizados pela exportação, onde tudo que temos de melhor é dado de mão beijada para o gringo que conforta saber que quando ele está na terra é sumariamente passado para trás pela sabedoria popular.
Ainda hoje a cuíca enfeita a sala da casa de Basílio, como prova que se o cavalo for dado o negócio é não olhar os dentes.
Tudo isso para dizer - leiam a bodega, bruninha tem pegada no teclado
O Filme da meia-noite
A fundação Joaquim Nabuco, ano passado decidiu exibir um filme à meia noite, de zumbis. Eu não me recordo do nome, mas a onda de assisti-lo pareceu por demais irresistível e o ratão foi marcar presença. Fomos eu, Basílio, Túlio, Onirê, Pedro Augusto (praticamente, os pontos cardeais, a bússola do ratão) eu e Roberto França - Professor de inglês do núcleo de línguas do CAC, solteiro, a eterna procura de sua gatinha manhosa, interessadas favor procurá-lo.
A Fundação Joaquem Nabuco é um prédio com seu charme, escondida numa esquina sem rumo do Derby, vista de fora um grande cubo cinza, mas mesmo assim existe qualquer coisa de antiga no prédio, seja a fechada, sejam as pilastras, seja disposição altamente geométrica das janelas. O prédio me lembra meus antigos colégios de freira - os ladrilhos no piso, os desenhos do ferro do corrimão, a aparência geral das salas.
Entretanto no primeiro andar, o do cinema, sou completamente desiludido dessa impressão nostalgica - Cartazes de filmes, todos muito cult, o que mais me chama a atenção, sempre, é de Terra em Transe, do Glauber Rocha, genial. O corredor se estende à um café, outro ponto extremamente cult, e aproveitando que falo do café deixa eu contar uma histórinha.
O charme do café é inegável, bonito, chic, com mesinhas de cadeira, carta de menu bem desenhada, opções irreverentes, como sorvetes de milk-shake, milk-shakes de sorvete, bolbo com sorvete, lanches com queijos estranhos, coisa e tal. A cerveja vem no copo de cerveja, o rum no copo de rum e assim vai. Tudo à um preço relativo, que eu, um rapaz que anda mais duro que pinto saido da prisão, acho caro. Mas vá lá, tem seu valor.
O que me deixa indignado são os 10%. O garçon, uma bixa muito chata, certa vez me trouxe a conta e adicionou os 10% pelo serviço dele. Ok. Infelizmente o café da Fundação não é o tipo de lugar que realmente necessite de garçon, a cozinha é acessível à todos - fica logo depois do balcão - e da última mesa à ela são, se muito, dez passos.
Enfim, outro dia estava lá para ver um filme e fui tomar um suco, olhei minha carteira - as moedas contadas para o preço do cardápio - o que fiz foi pedir no balcão e tomar lá. Eis que o abjeto do garçon vem me cobrar seus 10%. Eu, muito humilhado por estar com o dinheiro contado e completamente possesso pela falta de educação da bixa digo "moço, perdão, mas o senhor não me atendeu, eu já paguei e tenho meu dinheiro contado" ele, como se ser panaca fosse a idéia mais genial desde a roda respondeu "mas aqui não interessa, tem sempre 10%"
Duas sugestões para a administração do café:
1º - demitir o infeliz - eu teria ido à um caixa e pago os 30 centavos do garçon se ele fosse educado e simpático.
2º - incluir os 10% nos preços da carta, mil vezes menos constragedor.
Enfim o filme. Como ia dizendo, o prédio tem seu charme, entretanto seus muros cinzas e àsperos, na contagem regressiva para a meia noite adquiriram um clima fantasmagórico. Na própria súcia de cults que foi assistir ao filme naquele sábado à noite era sensível uma tensão surda, um brilho no fundo de seus olhos, com o se os zumbis da película estivessem prestes a sair dos cartazes e atacar os espectadores a qualquer momento. Os rostos estavam mais pálidos, a luz mais fraca, as conversas eram ora histéricas e nervosas, ora sussuros desconfiados - salvo tudo isso, era uma súcia de cults muito agradável.
Começou o filme, Túlio achou genial, genial mesmo eu achei esse diálogo entre ele e Onirê no meio da sessão
Túlio - Nossa, confortável o braço dessa poltrona.
Onirê - Túlio.
Túlio - Sim?
Onirê - Esse não é o braço da poltrona.
Fizemos um barulho gigantesco, mas ninguém percebeu. No filme, os zumbis morriam e nasciam da forma menos pretensiosa possível - trash mesmo - e a platéia ria horrores, para mim a melhor foi a voadora do policial num zumbi logo na primeira sequência - golpe digno de qualquer jogo de street fighter.
Acabou o filme e estávamos todos leves pela morte coletiva em vídeo. Túlio achou genial, ele faz jornalismo e a perspectiva do filme aborda, dentro da sua forma despretensiosa, as relações entre a imprensa e a desgraça alheia com grande seriedade (no filme a pessoa que foge dos zumbis está muito mais preocupada em documentar a hitória do que solucioná-la, uma espécia de fuga do clímax); nós outros só estávamos tirando onda.
Entretanto desde aquela noite, as vezes andando nos corredores antigos da fundação ainda penso ver um zumbi me espianda por uma quina escura. Ou isso ou garçon, rancoroso.
A Fundação Joaquem Nabuco é um prédio com seu charme, escondida numa esquina sem rumo do Derby, vista de fora um grande cubo cinza, mas mesmo assim existe qualquer coisa de antiga no prédio, seja a fechada, sejam as pilastras, seja disposição altamente geométrica das janelas. O prédio me lembra meus antigos colégios de freira - os ladrilhos no piso, os desenhos do ferro do corrimão, a aparência geral das salas.
Entretanto no primeiro andar, o do cinema, sou completamente desiludido dessa impressão nostalgica - Cartazes de filmes, todos muito cult, o que mais me chama a atenção, sempre, é de Terra em Transe, do Glauber Rocha, genial. O corredor se estende à um café, outro ponto extremamente cult, e aproveitando que falo do café deixa eu contar uma histórinha.
O charme do café é inegável, bonito, chic, com mesinhas de cadeira, carta de menu bem desenhada, opções irreverentes, como sorvetes de milk-shake, milk-shakes de sorvete, bolbo com sorvete, lanches com queijos estranhos, coisa e tal. A cerveja vem no copo de cerveja, o rum no copo de rum e assim vai. Tudo à um preço relativo, que eu, um rapaz que anda mais duro que pinto saido da prisão, acho caro. Mas vá lá, tem seu valor.
O que me deixa indignado são os 10%. O garçon, uma bixa muito chata, certa vez me trouxe a conta e adicionou os 10% pelo serviço dele. Ok. Infelizmente o café da Fundação não é o tipo de lugar que realmente necessite de garçon, a cozinha é acessível à todos - fica logo depois do balcão - e da última mesa à ela são, se muito, dez passos.
Enfim, outro dia estava lá para ver um filme e fui tomar um suco, olhei minha carteira - as moedas contadas para o preço do cardápio - o que fiz foi pedir no balcão e tomar lá. Eis que o abjeto do garçon vem me cobrar seus 10%. Eu, muito humilhado por estar com o dinheiro contado e completamente possesso pela falta de educação da bixa digo "moço, perdão, mas o senhor não me atendeu, eu já paguei e tenho meu dinheiro contado" ele, como se ser panaca fosse a idéia mais genial desde a roda respondeu "mas aqui não interessa, tem sempre 10%"
Duas sugestões para a administração do café:
1º - demitir o infeliz - eu teria ido à um caixa e pago os 30 centavos do garçon se ele fosse educado e simpático.
2º - incluir os 10% nos preços da carta, mil vezes menos constragedor.
Enfim o filme. Como ia dizendo, o prédio tem seu charme, entretanto seus muros cinzas e àsperos, na contagem regressiva para a meia noite adquiriram um clima fantasmagórico. Na própria súcia de cults que foi assistir ao filme naquele sábado à noite era sensível uma tensão surda, um brilho no fundo de seus olhos, com o se os zumbis da película estivessem prestes a sair dos cartazes e atacar os espectadores a qualquer momento. Os rostos estavam mais pálidos, a luz mais fraca, as conversas eram ora histéricas e nervosas, ora sussuros desconfiados - salvo tudo isso, era uma súcia de cults muito agradável.
Começou o filme, Túlio achou genial, genial mesmo eu achei esse diálogo entre ele e Onirê no meio da sessão
Túlio - Nossa, confortável o braço dessa poltrona.
Onirê - Túlio.
Túlio - Sim?
Onirê - Esse não é o braço da poltrona.
Fizemos um barulho gigantesco, mas ninguém percebeu. No filme, os zumbis morriam e nasciam da forma menos pretensiosa possível - trash mesmo - e a platéia ria horrores, para mim a melhor foi a voadora do policial num zumbi logo na primeira sequência - golpe digno de qualquer jogo de street fighter.
Acabou o filme e estávamos todos leves pela morte coletiva em vídeo. Túlio achou genial, ele faz jornalismo e a perspectiva do filme aborda, dentro da sua forma despretensiosa, as relações entre a imprensa e a desgraça alheia com grande seriedade (no filme a pessoa que foge dos zumbis está muito mais preocupada em documentar a hitória do que solucioná-la, uma espécia de fuga do clímax); nós outros só estávamos tirando onda.
Entretanto desde aquela noite, as vezes andando nos corredores antigos da fundação ainda penso ver um zumbi me espianda por uma quina escura. Ou isso ou garçon, rancoroso.
segunda-feira, março 30
A flor do cacto
Talvez a coisa mais bonita de um edifício seja o nome. Monstrusidades de concreto, o edifício é um memorial do egoísmo e megalomânia humana, mas observar um e vêlo finalizado, talvez já com algumas infiltrações, talvez com ladrilhos já soltos, talvez com pichações, talvez com o servente já dormindo e ver-se obrigado a vê-lo na sua composição sem um nome que o indentifique é angustiante, quiçá cruel.
Pensei isso quando passando na orla de Piedade encontrei um Edifício com o seguinte nome - Hilda - é quase uma torre de uns nove, dez andares no meio de uma enorme área vazia, me lembrou a torre de Rapunzel. Pensei que talvez fosse uma analogia à Hilda Hilst, um edifício árido e solitário batizado com o nome de uma mulher árida e solitária. Mas isso é mera suposição.
No caminho de Piedade à minha casa ainda há dois que me chamaram a atenção pelos nomes - Vinícius de Moraes e Pasárgada - não que eles tenham algo a ver com a literatura, para mim são depravações da natureza; mas o nome, admito, os preenche de poesia.
Passei a noite de sexta para sábado no último andar de um pequeno prédio em boa viagem, acho que tinha uns seis andares e fica à umas boas seis quadras da beira mar. Ao chegar no último patamar corri aos muros da laje para admirar a vista. E o que vi foi o anão onde eu estava cercado por montes de pedra e granito, foi uma sensação curiosa, no último andar de um prédio de uns seis andares, há algo entre vinte e trinta metros do chão, eu me senti claustrofóbico, não havia paisagem, simplesmente não havia. Há mais de dez metros do chão minha vista não se podia estender além de uns cem metros de horizonte. E olhe lá!
Daí vale olhar o egoísmo humano. Fulano quer ser mais bonito e faz uma casa maior para ter mais vista que Cicrano. Cicrano não quer deixar por menos e constrói uma nova maior que a de Fulano. Beltrano vai lá e supera os dois. Os dois indignados, cada um constrói mais alto para superar Beltrano e quando se pára a ver os cacos dessa guerra, encontramos estilhaços de paisagem destroçados por uma guerra fútil de egos e concreto. Ao passo que se todos tivessem uma casa baixa, humilde, ao fim da tarde, todos poderiam subir em um muro, um teto ou mesmo uma colina próxima e admirar o mar - infinatamente maior que qualquer coisa que um ser humano fará em sua existência.
Inclusive, uma das coisas mais lindas do caminho é o terreno dos Cactos, mostrei-o para dois amigos dia desses que fizeram pouco da minha cara. Entre dois prédios monstruosos da beira mar de Candeias há um terreno completamente abandonado, cercado por um muro de pedra onde crescem cactos, aos montes. Crescem tão livremente que suas folhas violentas e ásperas já rompem o muro e invadem, ainda que timidamente, a calçada.
Meus amigos não puderam entender, entretanto faço votos que o leitor possa. Não há quem regue, não há quem cuide da terra, os cactos passam o dia respirando o stress dos transeuntes e o carbono dos carros. À direita uma monstruosidade de vinte andares, de Fulano; À esquerda outra de vinte e cinco, de Cicrano. No meio, rebelde, inviolável, cactos brotando no meio da cidade cinza como que por mágica, como se as suas palmas verdes e grossas fossem a palma de Deus a implorar pela misericórdia dos homens. Digo mais, eles estão florindo. Não há andares suficientes para encerrar a beleza de uma flor de cacto, minúscula.
Não desmereço o crédito de um arquiteto - edifícios são verdadeiras obras de arte. Mas me perdoem os antropológicos, o que é a arte dos homens frente à arte de Deus?
Pensei isso quando passando na orla de Piedade encontrei um Edifício com o seguinte nome - Hilda - é quase uma torre de uns nove, dez andares no meio de uma enorme área vazia, me lembrou a torre de Rapunzel. Pensei que talvez fosse uma analogia à Hilda Hilst, um edifício árido e solitário batizado com o nome de uma mulher árida e solitária. Mas isso é mera suposição.
No caminho de Piedade à minha casa ainda há dois que me chamaram a atenção pelos nomes - Vinícius de Moraes e Pasárgada - não que eles tenham algo a ver com a literatura, para mim são depravações da natureza; mas o nome, admito, os preenche de poesia.
Passei a noite de sexta para sábado no último andar de um pequeno prédio em boa viagem, acho que tinha uns seis andares e fica à umas boas seis quadras da beira mar. Ao chegar no último patamar corri aos muros da laje para admirar a vista. E o que vi foi o anão onde eu estava cercado por montes de pedra e granito, foi uma sensação curiosa, no último andar de um prédio de uns seis andares, há algo entre vinte e trinta metros do chão, eu me senti claustrofóbico, não havia paisagem, simplesmente não havia. Há mais de dez metros do chão minha vista não se podia estender além de uns cem metros de horizonte. E olhe lá!
Daí vale olhar o egoísmo humano. Fulano quer ser mais bonito e faz uma casa maior para ter mais vista que Cicrano. Cicrano não quer deixar por menos e constrói uma nova maior que a de Fulano. Beltrano vai lá e supera os dois. Os dois indignados, cada um constrói mais alto para superar Beltrano e quando se pára a ver os cacos dessa guerra, encontramos estilhaços de paisagem destroçados por uma guerra fútil de egos e concreto. Ao passo que se todos tivessem uma casa baixa, humilde, ao fim da tarde, todos poderiam subir em um muro, um teto ou mesmo uma colina próxima e admirar o mar - infinatamente maior que qualquer coisa que um ser humano fará em sua existência.
Inclusive, uma das coisas mais lindas do caminho é o terreno dos Cactos, mostrei-o para dois amigos dia desses que fizeram pouco da minha cara. Entre dois prédios monstruosos da beira mar de Candeias há um terreno completamente abandonado, cercado por um muro de pedra onde crescem cactos, aos montes. Crescem tão livremente que suas folhas violentas e ásperas já rompem o muro e invadem, ainda que timidamente, a calçada.
Meus amigos não puderam entender, entretanto faço votos que o leitor possa. Não há quem regue, não há quem cuide da terra, os cactos passam o dia respirando o stress dos transeuntes e o carbono dos carros. À direita uma monstruosidade de vinte andares, de Fulano; À esquerda outra de vinte e cinco, de Cicrano. No meio, rebelde, inviolável, cactos brotando no meio da cidade cinza como que por mágica, como se as suas palmas verdes e grossas fossem a palma de Deus a implorar pela misericórdia dos homens. Digo mais, eles estão florindo. Não há andares suficientes para encerrar a beleza de uma flor de cacto, minúscula.
Não desmereço o crédito de um arquiteto - edifícios são verdadeiras obras de arte. Mas me perdoem os antropológicos, o que é a arte dos homens frente à arte de Deus?
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do mistério e do divino
domingo, março 29
mundo cínico e mundo lírico
Antes de mais nada, para os que pensam que atores são uns vagabundos inconsequentes (há quem ainda pense isso) a crônica de hoje surgiu de uma discussão entre atores e suas visões de mundo.
Colonialismo, estudamos no colégio como movimento político tipicamente europeu, onde os estados descobriam ou conquistavam uma nova terra e em troca de levar à essa terra inexplorada o progresso, exigiam o direito à livre exploração da mesma, chamada colônia.
Acabou mesmo? Nem oito nem oitenta, como diria a minha avó. Ninguém descobriu nada e tudo que se fez foi subjulgar e explorar os povos que já habitavam as novas terras. A América Latina, o Sudeste da Ásia e a África são heranças da colonização. Mas o que me impressionou foi o novo arranjo social Europeu - os imigrantes.
É comum aqui no Brasil agências de intercâmbio que oferecem empregos no exterior, é uma boa linha de cúrriculo, acrescenta bagagem cultural, consolida o conchecimento em língua estrangeira e geralmente paga em dolar ou euro, ambas atualmente mais fortes que o real (aliás, com o governo assumindo o mercado imobiliário e bancário americano, ambos de forma geral à égide da falência, como a moeda america ainda não desvalorizou diante tamanha fraude?).
O que eu desconhecia era a posição do Europeu frente ao emigrante - descobri dia desses que as tarefas de subsistência ou menores não são dignas dos nobres europeus - serviço doméstico e de atendimento em geral, por exemplo - assim, qualquer tarefa considerada pela cultura européia como de "menor importância" é trabalho de imigrantes.
O que me assusta, o que me revolta nesse senso de globalização - como as fábricas de multinacionais na China, por exemplo - são dois conceitos que faço questão de desconstruir no blog: 1- Infelizmente, ao fazer tal discernimento, fica implícita idéia que os imigrantes são inferiores aos magnânimos povos brancos. 2- Fica caracterizado o gênero de subdesenvolvimento entre as nações.
Thiago Godin, ator e advogado, fez o favor de me informar que as constituições de certos paises da Europa, como a Espanha, por exemplo, foram baseadas também nesse mecanismo, onde a desigualdade é necessária para o abastecimento da mão de obra inferior e barata dos imigrantes.
Trocando em miúdos, fica claro o completo desinteresse das nações ricas e decadentes em combater o subdesenvolvimento, pois nele elas se alicerçam. Me parece uma piada de muito mal gosto. Acabar com a fome na Africa? Tudo bem, se não interferir com o petróleo (outro com os dias contados) e os diamantes. Dar anistia, perdão de dívida externa, o diabo a quatro... Tudo bem. Abolir a idéia de subdesenvolvimento e dar início a um trabalho em prol do fim da desigualdade. Adotar a idéia que estamos todos no mesmo barco - desculpe, meu filho, aí já é demais.
Talvez se eu fosse Espanhol, ou Alemão, eu mesmo Canadense, eu pensasse diferente, mas sou brasileiro, e cada um de nossos estados vale um país inteiro na Europa. E sim, há uma classe dominante no país que não se interessa em combater a desigualdade. Há sim no país os que recorrem ao assistencialismo, à aglomeração e alienação do cidadão ordinário - principalmente para angariar votos, há sim camadas intrísecas e inacabáveis de corrupção no poder. Mas, às vezes, por graça divina, nos une a consciência que somos todos brasileiros; e, mais raro ainda, às vezes a nação brasileira inteira se lembra que faz toda parte da mesma humanidade. E nossa constituição, antiga, frouxa e sem graça ainda pensa que a declaração dos direitos humanos não é estória de carochinha.
Tomei uma decisão - De hoje em diante chamo o que se convencionou 1º mundo de 'mundo cínico' e o 3º mundo de 'mundo lírico', porque aqui em baixo do mundo ainda há quem acredite no que diz.
Coisas assim me deixam desgostoso com o mundo.
Colonialismo, estudamos no colégio como movimento político tipicamente europeu, onde os estados descobriam ou conquistavam uma nova terra e em troca de levar à essa terra inexplorada o progresso, exigiam o direito à livre exploração da mesma, chamada colônia.
Acabou mesmo? Nem oito nem oitenta, como diria a minha avó. Ninguém descobriu nada e tudo que se fez foi subjulgar e explorar os povos que já habitavam as novas terras. A América Latina, o Sudeste da Ásia e a África são heranças da colonização. Mas o que me impressionou foi o novo arranjo social Europeu - os imigrantes.
É comum aqui no Brasil agências de intercâmbio que oferecem empregos no exterior, é uma boa linha de cúrriculo, acrescenta bagagem cultural, consolida o conchecimento em língua estrangeira e geralmente paga em dolar ou euro, ambas atualmente mais fortes que o real (aliás, com o governo assumindo o mercado imobiliário e bancário americano, ambos de forma geral à égide da falência, como a moeda america ainda não desvalorizou diante tamanha fraude?).
O que eu desconhecia era a posição do Europeu frente ao emigrante - descobri dia desses que as tarefas de subsistência ou menores não são dignas dos nobres europeus - serviço doméstico e de atendimento em geral, por exemplo - assim, qualquer tarefa considerada pela cultura européia como de "menor importância" é trabalho de imigrantes.
O que me assusta, o que me revolta nesse senso de globalização - como as fábricas de multinacionais na China, por exemplo - são dois conceitos que faço questão de desconstruir no blog: 1- Infelizmente, ao fazer tal discernimento, fica implícita idéia que os imigrantes são inferiores aos magnânimos povos brancos. 2- Fica caracterizado o gênero de subdesenvolvimento entre as nações.
Thiago Godin, ator e advogado, fez o favor de me informar que as constituições de certos paises da Europa, como a Espanha, por exemplo, foram baseadas também nesse mecanismo, onde a desigualdade é necessária para o abastecimento da mão de obra inferior e barata dos imigrantes.
Trocando em miúdos, fica claro o completo desinteresse das nações ricas e decadentes em combater o subdesenvolvimento, pois nele elas se alicerçam. Me parece uma piada de muito mal gosto. Acabar com a fome na Africa? Tudo bem, se não interferir com o petróleo (outro com os dias contados) e os diamantes. Dar anistia, perdão de dívida externa, o diabo a quatro... Tudo bem. Abolir a idéia de subdesenvolvimento e dar início a um trabalho em prol do fim da desigualdade. Adotar a idéia que estamos todos no mesmo barco - desculpe, meu filho, aí já é demais.
Talvez se eu fosse Espanhol, ou Alemão, eu mesmo Canadense, eu pensasse diferente, mas sou brasileiro, e cada um de nossos estados vale um país inteiro na Europa. E sim, há uma classe dominante no país que não se interessa em combater a desigualdade. Há sim no país os que recorrem ao assistencialismo, à aglomeração e alienação do cidadão ordinário - principalmente para angariar votos, há sim camadas intrísecas e inacabáveis de corrupção no poder. Mas, às vezes, por graça divina, nos une a consciência que somos todos brasileiros; e, mais raro ainda, às vezes a nação brasileira inteira se lembra que faz toda parte da mesma humanidade. E nossa constituição, antiga, frouxa e sem graça ainda pensa que a declaração dos direitos humanos não é estória de carochinha.
Tomei uma decisão - De hoje em diante chamo o que se convencionou 1º mundo de 'mundo cínico' e o 3º mundo de 'mundo lírico', porque aqui em baixo do mundo ainda há quem acredite no que diz.
Coisas assim me deixam desgostoso com o mundo.
quadra do suicida
Quem me amaria se eu fosse um suicida?
Quem se me enxergasse do topo dos andares
Me beijaria com entrega a me salvar da morte certa
Quem me empurraria se eu fosse um suicida?
Inspirado no clipe "leave before the lights come on" do Artic Monkeys
Quem se me enxergasse do topo dos andares
Me beijaria com entrega a me salvar da morte certa
Quem me empurraria se eu fosse um suicida?
Inspirado no clipe "leave before the lights come on" do Artic Monkeys
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