domingo, março 29

mundo cínico e mundo lírico

Antes de mais nada, para os que pensam que atores são uns vagabundos inconsequentes (há quem ainda pense isso) a crônica de hoje surgiu de uma discussão entre atores e suas visões de mundo.

Colonialismo, estudamos no colégio como movimento político tipicamente europeu, onde os estados descobriam ou conquistavam uma nova terra e em troca de levar à essa terra inexplorada o progresso, exigiam o direito à livre exploração da mesma, chamada colônia.

Acabou mesmo? Nem oito nem oitenta, como diria a minha avó. Ninguém descobriu nada e tudo que se fez foi subjulgar e explorar os povos que já habitavam as novas terras. A América Latina, o Sudeste da Ásia e a África são heranças da colonização. Mas o que me impressionou foi o novo arranjo social Europeu - os imigrantes.

É comum aqui no Brasil agências de intercâmbio que oferecem empregos no exterior, é uma boa linha de cúrriculo, acrescenta bagagem cultural, consolida o conchecimento em língua estrangeira e geralmente paga em dolar ou euro, ambas atualmente mais fortes que o real (aliás, com o governo assumindo o mercado imobiliário e bancário americano, ambos de forma geral à égide da falência, como a moeda america ainda não desvalorizou diante tamanha fraude?).

O que eu desconhecia era a posição do Europeu frente ao emigrante - descobri dia desses que as tarefas de subsistência ou menores não são dignas dos nobres europeus - serviço doméstico e de atendimento em geral, por exemplo - assim, qualquer tarefa considerada pela cultura européia como de "menor importância" é trabalho de imigrantes.

O que me assusta, o que me revolta nesse senso de globalização - como as fábricas de multinacionais na China, por exemplo - são dois conceitos que faço questão de desconstruir no blog: 1- Infelizmente, ao fazer tal discernimento, fica implícita idéia que os imigrantes são inferiores aos magnânimos povos brancos. 2- Fica caracterizado o gênero de subdesenvolvimento entre as nações.

Thiago Godin, ator e advogado, fez o favor de me informar que as constituições de certos paises da Europa, como a Espanha, por exemplo, foram baseadas também nesse mecanismo, onde a desigualdade é necessária para o abastecimento da mão de obra inferior e barata dos imigrantes.

Trocando em miúdos, fica claro o completo desinteresse das nações ricas e decadentes em combater o subdesenvolvimento, pois nele elas se alicerçam. Me parece uma piada de muito mal gosto. Acabar com a fome na Africa? Tudo bem, se não interferir com o petróleo (outro com os dias contados) e os diamantes. Dar anistia, perdão de dívida externa, o diabo a quatro... Tudo bem. Abolir a idéia de subdesenvolvimento e dar início a um trabalho em prol do fim da desigualdade. Adotar a idéia que estamos todos no mesmo barco - desculpe, meu filho, aí já é demais.

Talvez se eu fosse Espanhol, ou Alemão, eu mesmo Canadense, eu pensasse diferente, mas sou brasileiro, e cada um de nossos estados vale um país inteiro na Europa. E sim, há uma classe dominante no país que não se interessa em combater a desigualdade. Há sim no país os que recorrem ao assistencialismo, à aglomeração e alienação do cidadão ordinário - principalmente para angariar votos, há sim camadas intrísecas e inacabáveis de corrupção no poder. Mas, às vezes, por graça divina, nos une a consciência que somos todos brasileiros; e, mais raro ainda, às vezes a nação brasileira inteira se lembra que faz toda parte da mesma humanidade. E nossa constituição, antiga, frouxa e sem graça ainda pensa que a declaração dos direitos humanos não é estória de carochinha.

Tomei uma decisão - De hoje em diante chamo o que se convencionou 1º mundo de 'mundo cínico' e o 3º mundo de 'mundo lírico', porque aqui em baixo do mundo ainda há quem acredite no que diz.

Coisas assim me deixam desgostoso com o mundo.

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