"Nada mais socialista que um baseado". Partindo dessa frase lembrei de outro causo que vale contar.
É sobre Pedro, outro fundador do rato e um dos principais líderes do movimento. Eu o conheci no gramado do extra, oita da noite, bêbado, rolando e dormindo no colo de uma amiga.
Ele estragou meu encontro naquela noite, era meu primeiro encontro com uma garota linda, de cachinhos dourados. Marquei com ela no cinema da Aliança Francesa. O filme estava chato pra burro, é verdade - e eis que no meio da projeção o celular dela toca, atende e me diz "Diogo, minha melhor amiga tá de babá duns três bêbados lá no extra, vou ter que ajudar". E eu "tá, vamos".
Os bêbados eram Pedro, Arcoverde, e outro que já esqueci quem era. Onirê estava lá também, se não me engano. Realmente Dani era a única moça naquela roda de etér e testosterona. O esport tinha ganhado um jogo aí, eles gritavam "casa, casa..." de vez em quando, mas isso foi tudo. Até Pedro começar a falar.
Não sei por quê, onde, nem como, mas Pedro Augusto, bêbado no colo de Dani, me olhou nos olhos de uma maneira transcendente e absoluta e disse: "Mermão, tu tem que entender que o Diabo é o cara mais socialista que tem. E Deus, Deus é capitalismo selvagem mermão!"
Eu, humilde, "como é?" - Ele "isso mesmo, vê a cor pô; a cor do capeta é vermelho, vermelho é a cor do socialismo, da luta de classes, tu acha que é de graça isso? É tudo pensado! O Cão foi na casa de Marx, que era considerado na época, entrou de sola e 'agora tu vai escrever pra todo mundo meu regime de governo, agora é a vez do Cão!' Marx que não era doido e tinha pacto com o coisa ruim aceitou, só o que ele fez foi copiar o ditado do outro. E quase deu certo - Mas Deus não quis, Deus é eletista mermão, ouve aí, no céu só entra quem ele quer, só entra a elite politizada de extrema direita. O inferno não, é aberto, entra qualquer mundiça. Aí a prova!"
Me assombrei tanto com aquelas palavras, com aquela verdade inapelável sobre o bom, o mal e os regimens de governo que quase esqueci da galega.
Engraçado como ébrios somos mais lúcidos. Onirê mesmo, no cavanhaque, me disse "Diogo, a embriaguez não tem nada a ver com o álcool" verdade, verdade. É um estado de espírito, pode surgir do álcool tanto quanto do ciúme, da feijoada ou da dor de corno.
Inclusive isso também explica porque cada bêbado é diferente. Se fosse uma reação simplesmente química os bêbados seriam mais ou menos iguais, posto que a homeostase humana é similar. Mas não, como um verdadeiro estado de espírito, psicológico, transcendental, a embriaguez define e molda a indivíduo. Quem nunca viu os bêbados por vocação, por exemplo, que vão sozinhos aos bares e só voltam de táxi. Ou os por desculpa, que ao primeiro gole de cerveja assumem a própria embriaguez e podem, à vontade, fazer tudo que não poderiam sem a farsa, a falta de responsabilidade do álcool.
Existe, é fato, uma verdadeira fauna de bêbados e não pretendo esgotar o assunto aqui, cada um libera seu grito mais profundo, mais pungente, sobre a máscara do álcool.
Dizem que o nariz de palhaço é a menor máscara do mundo, a que cobre menos, a que mais obriga o indivíduo a se expor, tarefa apavorante. O álcool seria então, em oposto, a maior máscara do mundo, que lubrifica todo o corpo, isentando o indíviduo de qualquer consequência por sua exposição, mostrando ao mundo quem se é realmente.
Mas só isso por hoje, não desvendar os bêbados nessa crônica ou ela vira ensaio.
Ratão
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Um comentário:
Pedro me contou sobre
diabo socialista x Deus capitalista um dia depois do acontecido.
Foi um pena eu ter ido mais cedo pra casa nesse dia e não ter visto esse episódio na íntegra =/
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