A única sabedoria útil é a popular. Não confundamos com a unânime, mas a popular. A do indivíduo popular, da pessoa única, singular, que dentre a maioria e destacando-se como representante da mesma demonstra sabedoria.
O presidente é um nítido exemplo disso, pena que ignore os dizeres e só lembre que veio "do povo" ignorando o "para o povo e pelo povo". A grande inteligência de nosso 'Aurélio às avessas' é a esmola legislada, entregue como uma engrenagem à uma maioria campestre, marginalizada e alienada todos os meses pelas agências do banco do Brasil e postos credenciados.
Mas não é dessa sabedoria egoísta que trato. Trato da sabedoria de Onirê, que na mesa do bar me dizia "Diogo, você nunca vai se realizar como homem enquanto não assumir que é um cafajeste, põe isso na cabeça". E eu, relutante "Mas eu queria amar de verdade, queria experimentar um sentimento!" E ele, me lendo por dentro "Mas você não sonha, não fantasia só com cafajestagem?" Eu "sim, mas... tenho excrúpulos" E ele, definitivo "Então, são esses escrúpulos que te impedem de se realizar".
Fui vencido pela retórica. E pelo carnaval, ora veja. Tantas pessoas pelas ruas, pelas ladeiras, a multidão se funde tão profundamente em nosso espírito que ela nos acompanha à nossa casa, deita em nossa cama e assombra nossos sonhos. Antes da quarta-feira de cinzas já nos deitamos, acordamos e amamos não mais como indivíduo, mas como multidão. E durante as troças, ao passar dos blocos, em cada esquina uma fantasia, e todas solicitas, alegres, repletas de corpo e de fluídos. Nessas condições, ou se morre de solidão ou a folia enraiza na alma da gente.
E a retórica de Onirê foi clara, é preciso amar muito, todos que se puder. É preciso se doar aos outros tanto quanto os outros te desejam. Desejar não é satisfazer suas fantasias, mas satisfazer as alheias. Não digo que ninguém deva deitar-se com buchos porque elas querem, não desejo tal sorte a nenhum companheiro e à nenhuma companheira. Digo apenas que é melhor se dar.
E quanto à se dar e ainda sobre a útilíssima sabedoria popular, conto um causo. Sentaram conosco na mesa do cavanhaque duas amigas e uma fez uma lista das cantadas que recebera no carnaval, entre elas figurava "você pega ônibus? Porque você está no ponto." ou "Aposto um beijo que levo ou fora", etc. etc.
A cantada é um verdadeiro reflexo da cultura e criatividade de um povo. Você não vê literatos, velhos e chatos, publicando suas cantadas. Entratanto uma cantada não é qualquer texto à toa. É preciso o domínio da concisão, da função apelativa ou emotiva, de senso de humor e subtexto, sem falar das qualidades poéticas, como o uso de metáforas ou matonímias. Enfim, uma cantada é uma verdadeira pérola literária popular, como um berro de Dante proferido pela massa.
E isso sim é útil, assim como "cada macaco no seu galho", "passarinho que come pedra sabe o rabo que tem", "quem cochicha o rabo espicha" e tantos outros. A sabedoria acadêmica, que existe de si para si mesma, visando seu enobrecimento, é tão vistosa e vazia quanto as esmolas do Presidente.
quarta-feira, março 4
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