domingo, março 22

Todo homem é uma ilha

Todo homem é uma ilha, e só a cerveja é capaz de reuní-los em arquipélagos.

Percebi isso voltando para Candeias de carona. Mauro, que também voltava na mesma carona ia de um lado do carro pensando na sua vida e eu do outro pensando na minha. Por quê não nos confessávamos um ao outro? Por quê não dividiámos nossos pesares? Falta de cerveja, logicamente. Viemos de uma pizzaria e tudo que tomaram foi refrigerante.

Quão diferente de ontem, que me encontrei com os ratos no Novo Pina não sei depois de quanto tempo. E que saudade! Vi Tulinho, Calú, Basílio, Joca, Laís. E nem deu meia hora, estavámos confessando tudo, eu gritava meus maiores pecados para e mesa, e a mesa respondia seus próprios maiores pecados. Bravo!

Menos Basílio, que discutia em vão filosofia e mitologia grega, mas talvez essa intelectualidade exarcebada seja o pecado inconfessável de Basílio, vai saber.

Domingo é sempre mais triste, talvez seja apenas isso, não sei. Domingo é o dia da praça, da preguiça. Eu ia explicando tudo isso na mesa para Roberto Brandão, grande amigo, hoje "Temos que deixar as meninas de lado e sentar os caras num boteco para beber" E ele, "é mesmo Diogo, bora" e eu "Não tô aguentando mais, preciso me confessar" e ele "bote fé".

Engraçado, hoje assisti com o big brother do SESC de Piedade Rasif, do coletivo Angu de Teatro, um sério parabéns para eles pelo trabalho bem feito. O espetáculo é uma junção de esquetes que discutem a realidade urbana, destaque para o esquete do carro "minha namorada me deixou, culpa do carro. A fome, o petróleo, a guerra no oriente médio, tudo culpa do carro, você não vê" que entra em perfeita comunhão com a crônica 'Energia Solar' publicada nesse blog, dia 15 de março.

O que me deixou comovido foi ver a comunhão com algumas idéias que tenho faz tempo, mas que desenvolvi por observação, como a solidão dos prédios, por exemplo. As classes altas já há algumas décadas, e há alguns anos a classe média vem se privando do contato com o mundo dentro do conceito de condomínio. Bom era no tempo do meu pai, que menino jogava pelada na rua - erámos (nós humanos) menos preconceituosos. Hoje podemos definir o padrão financeiro da compainha de nossos filhos dentro da taxa de condomínio. Podemos oferecer piscinas, gramados, áreas de lazer. Podemos escondê-los do mundo, podemos reduzir a violência à uma estatística de jornal e ensiná-los a ter medo de qualquer indigente, a correr nas pontes do Recife pela madrugada como verdadeiros animais de medo, filhos do medo. Os pais podem moldar a visão de vida de seus filhos à uma gaiola dentro da taxa do condomínio.

Sem falar na questão do carro - ouvi uma moça dizer, dia desses "Estou no último período da faculdade, minha carona vai mudar-se e ir para a faculade no último período de ônibus é inadmissível" - outra prova da minha teoria das ilhas. Se para mim a coisa mais comum do mundo é o lotação. Comum e filosófico, posto que boa parte da minha visão da vida, do amor, da condição humana e da morte foram desenvolvidas no lotação. Mais especificamente na linha CANDEIAS/CDE. DA BOA VISTA, 071, da Borborema, onde passava duas horas por dia para ir e voltar do serviço por mais de um ano. Quando começar a faculdade começa também a linha 020, CANDEIAS/DOIS IRMÃOS; e estou ansioso pelas experiências, personagens e reflexões que a condução me trará.

E fulana achando um ultraje pegar um ônibus. Para mim a prova absoluta e definitiva da solidão que somos cada um de nós.

Um comentário:

Bruna Barros disse...

deu saudade dos ratos, há quanto tempo não os vejo =/