domingo, janeiro 20

Ditadura do tempo

Oi,

Seis e meia é o horário em que meu expediente termina.

Seis e meia

Dá amanhã mas não dá seis e meia
Dá o relógio todo, mas não dá seis e meia


Nem metade disso
Nem um quarto do que poderia


Seis e meia
Seis e meia
Seis e meia


Dá uma semana, mas nunca seis e meia
Não, seis e meia não, de jeito nenhum

Como se estende, como se alenta, como
Estanca ante tudo, ante seis e meia

Não chega
Não chega
Não chega

Chega o carnaval, me esqueço na folia
Me perco nas ladeiras na picardia de Olinda

Mas seis e meia... Nunca mais que chega!

sábado, dezembro 15

Das luas

Oi

Estou vivo, estou feliz e o blog continua com este texto: quatro tercetos para a lua, por favor, quem se interessar tenha a gentileza de comentar.

Novidade: o excelente poeta Thacle de Souza Pinheiro se propôs a escrever um quinto terceto, completando a obra apresentada, assim eu revisei a postagem com o terceto dele, que de agora em diante comporá o último pedaço da série "das luas".

Ósculos a todos

Das luas

I

A lua nova é uma estrela no ventre da noite
Engendrada
Com todo seu brilho de não brilhar

II

O quarto minguante é uma estrela sorrindo
Faceira
Por estar mais perto do infinito que nós, porque sabe que a namoramos em sua sacada

III

O quarto crescente é uma estrela de queijo
Qualho
Para dar água na boca de quem come com os olhos

IV

A lua cheia é como uma estrela saliente,
Gorda
Enquanto as outras são estrelinhas anoréxas

Diogo Testa

V

Atribuía-se a si, a Noite, um idôneo e passional sorver,
Mortificava-se, exonerava-se, exorcisava-se - fulgores vis
Inebriados em lancinantes suicídios infindos a cada alvorecer.

Thacle de Souza Pinheiro

domingo, novembro 18

Vou-me embora para pasárgada

Oi

O tema hoje é tempo. Um amigo pediu que eu divulgasse através do blog uma história. Essa é sobre uma mulher de posição social respeitável, Ana Virgínia, que viajou com o filho para Portugal para se encontrar com o namorado e, às vésperas de seu retorno ao Brasil e já separada do mesmo por motivos de incompatibilidade, vê sozinha seu filho morrer, tenta o suicídio e é completamente desamparada pelas autoridades portuguesas, que passam a pintá-la como mãe assassina e negam-lhe seus direitos. A história completa pode ser lida em http://www.petitiononline.com/sardinha/petition.html. A quem possa interessar leia, pois é um forte elemento de reflexão social.

A história de Ana não deve ser tomada como um caso separado, ela deve ser vista como uma representação de uma tragédia que acontece todos os dias, em condições muito piores das descritas, mas raramente documentadas. Devido à família e condição social de Ana, ela tem ao menos quem lute por ela. Quando eu li sua história eu pensei: "que bom que alguém documentou, pois quantas vezes essa mesma tragédia não se repetiu até que ela fosse documentada para que as pessoas tomassem atitudes ou ao menos pensassem no assunto?".

E não falo sobre conflitos entre países. Falo sobre abandono, quantas vezes em periferias pessoas não são abandonadas sem família e a mercê de um sistema que as ignora? Foi preciso que uma mulher de família nobre sofresse o mesmo em território internacional para que eu voltasse os olhos para o problema. Isso mostra apenas minha pequenez ante tudo isso.

Por isso o poema hoje é sobre abandono e despedida. Eu o escrevi antes de mudar-me de Petrolina para o Recife e chama-se Vou-me embora para Pasárgada (Recife):


Vou-me embora pra Pasárgada (Recife)

O tempo passa diferente quando se tem os segundos contados
Tudo passa com uma lentidão e claridade e pigmentação
Como quem bebe e seca a última gota de mel do pote

Os olhos que te olham parecem revelar
No derradeiro segundo seu brilho secreto
E sua íris parece querer fotografar
Cada segundo e cada rosto e cada medo

O presente parece indefinível
E o passado vai ganhando tons ufânicos de perfeição
O filme vai ficando em câmera lenta
E começo a ser rebobinado no portão de embarque

A nostalgia se torna onipresente e torpe
O abandono prende-se às lágrimas
As lágrimas prendem-se aos olhos
E os olhos parecem gigantes cegos

Tão grandes que não cabem nos meus olhares
Meu corpo divide-se a cada fim
E eu sinto muita falta de algo insensível
Que poderia jurar que já tive comigo antes

Só no futuro saberei que foi um pedaço de minha alma
Que ficou brincando no portão de embarque
Um pedaço de minha alma ficou para trás
Um pedaço de minha alma maior que o tempo

sábado, novembro 10

Acordar

Não sei quanto a ti leitor, mas valorizo imensamente o sono. Ultimamente mais do que nunca devido aos meus horários que deixam pouco tempo para essa produtiva atividade.

O poema de hoje tem na sua temática justamente a alvorada, não fisíca, mas mental. A imensa poesia que existe no ato de despertar para um dia de possibilidades.

O poema chama-se alvorada e é uma descrição vulgar dos pensamentos e situações sob as quais acordo. Ele tem algumas particularidades que gostaria de ressaltar antes do exibi-lo:

1- Ele é escrito com três sílabas métricas e é uma espécie de reza, é algo como o café com pão de Bandeira misturado com cordel. Escolhi essa forma pela velocidade que dá ao poema, como um dia veloz que empurra o eu-lírico sonolento para fora da cama.

2- Ele foi feito para ser cantado (entretanto não é, sobremaneira, música), por isso deve ser lido com a tônica na primeira e última.

3- Já que é assim, eu gostaria que quem o lesse, após a primeira leitura, fizesse outra em voz alta dando a entonação adequada e me contasse, por meio dos comentários do blog, não apenas como ele foi sentido, mas também como ele foi escutado.


Alvorada


Ei chacoalha!
Ei chacoalha!
Ei chacoalha!
Olha o Sol!
Bora fora
Dessa cama
Já levanta
Ói relógio
Ói a hora
Não demora
Ei chacoalha!
Ei chacoalha!
Ei chacoalha!

Ai preguiça
Que espicha
Nessa cama
Nada anda
Ai sou lento
Não intento
Despertar

Não me vejo
Chacoalhando
Sono alheio

“Homem, deixa”
Mais um pouco
Nunca vi
Que sufoco
Não é queixa
Mas o trampo
Só começa
Oito e meia

Oh relógio
Bich’ ingrato
Me desperta
E sossega
Deixa o resto
É comigo
Ai que sono
Que preciso
Para acordar

São aqueles
Cinco caros
Preciosos
Minutinhos
De preguiça
Pra coçar

Banho frio
Café quente
Travesseiro
Nem comento
Que me sinto
Parecido
Com tu mesmo
Se pudesse
Te agarrava

Penso sério
"É bem feito
Quem mandou
Farrear
'dia inteiro?"
Põe a roupa
Ganha a rua
Que o jeito
É dormir
No almoço
Ai sesta!

sábado, outubro 27

Melecas do dia-a-dia

Oi

Mais um apanhado de poemas do dia-a-dia

O primeiro aconteceu quando fui ver um show no Sta Isabel e descobri que chegando 5min para o espetáculo não há mais ingressos dependendo do evento. Chama-se grande espetáculo e mostra que às vezes o show não acontece onde se espera, pois mesmo perdento o espetáculo, foi uma tarde divertidíssima.

O outro, portões, traz a melhor descrição que pude fazer até aqui do colégio, baseado no seu elemento mais marcante para mim, seus portões, suas grades.

O último, hai-kai do amor platônico vem de várias coisas. Mas principalmente de algumas músicas de dor de cotovelo que ouvi outro dia e de duas amigas que gostam de amar à distância não sei por qual razão. O fato é que aconselhei uma a parar de banhar os olhos e dar logo um beijo no homem desejado. A disse que na melhor das hipóteses, ele corresponderia, na pior, ela teria tirado uma casca.

Isso porque para mim beijar é uma coisa meio lúdica. Quer? Beije e veja o que acontece, sem pretensão, sem pressão. Ela me respondeu: "Você tá louco, se ele rejeitar, nunca mais vou conseguir olhar na cara dele..." aí me envoquei e escrevi a idéia desse hai-kai


Grande espetáculo

17h - Teatro Santa Isabel
16:30 - Ingressos esgotados

Grande espetáculo
16:45 - Chego ao teatro
16:50 - Perdi a viagem

Grande espetáculo
Eu, Roberto e Gabriela
Na praça da república

Grande espetáculo
Da praça viámos
O show no teatro

Grande espetáculo
No banco da praça
Muito papo furado

Grande espetáculo
Crepúsculo na paisagem
Dança e cantoria

Grande espetáculo
Três pessoas rindo
No banco da praça


Os portões

Ida

Um portão. Pátio
Um portão. Corredor
Um portão. Salas

Primeiro portão,
atravesse
Porteiro. Cadeado
Segundo portão,
atravesse
Porteiro. Cadeado. Policiais
Terceiro portão,
atravesse
Porteiro. Cadeado

Volta

Três, dois, um portões
Três, dois, um porteiros
Três, dois, um cadeados
Dois policiais

Terceiro portão,
atravesse
Adeus salas
Segundo portão,
atravesse
Adeus corredor
Primeiro portão,
atravesse
Adeus pátio

Portão, portão, portão
Três, dois, um -
Liberdade


Hai-kai do amor platônico

O amor que sorve a si mesmo
É inútil, pois que sobra
Para dar à pessoa amada?

quarta-feira, outubro 24

Capitalismo_Sentido_Pesquisa

Oi

Essa primeira postagem será um apanhado de poemas pequenos e rápidos que trazem algumas melecas engasgadas do dia-a-dia;

Capitalismo brasileiro


- Pois foi, ele deu-me esse celular

- De graça? Isso não é possível!

- Ele é meu amigo, não estava precisando, deu-me.

- Não pode! Este é um mundo capitalista!

- Pois é, às vezes é, às vezes não...



Sentido


Não tenho sentido
Nem visão
Nem audição
Nem instinto
Toque não tem mais
Gosto não tem mais
Cheiro não tem mais

Não tenho sentido
Dor nem gozo
Angústia nem calma
Pena nem orgulho
Não tenho sentido
As pessoas que amo
As pessoas que temo
E todos os meus amigos

Mas o relógio
Esse permanece
Tiquetaqueando
Interminavelmente
No sentido horário
Enquanto a vida:
Anti-horário



Pesquisa


Antes buscavámos as respostas
Em Deus: Liámos a Bíblia
Hoje vamos ao Google

domingo, maio 6

DesConceito

Oi

Esta é a primeira postagem, por isso vou fazer um blá blá blá sobre o
DesConceito.

DesConceito é uma idéia que já me persegue há algum tempo. Ela vem de todas as outras idéias que nos são imbuídas sem nossa vivência da realidade que as gerou. Assim, pode-se concluir que com o tempo toda pessoa tende a ser mecanizada por padrões de idéias alheias sem vivência crítica das mesmas.

Pondo no popular =
Vamos vivendo as idéias dos outros sem experimentar as nossas.

Daí o
DesConceito. Destruir tudo que nos foi dito e recriar isso segundo nossa realidade.

Exemplos simples mas importantes:


- Por que quem trabalha no banco usa roupa social? Muda se for jeans e camiseta?

- Só interessa saber escrever textos dissertativos argumentativos?

- Se todos aprendem a dirigir antes dos 18, para que proibir?

- Torcer para um time por quê?

- Refeições na sala ou na cozinha? Todos ao mesmo tempo ou cada um no seu tempo?

- Enrolar a alface ou cortar?


Vê? São coisas realmente pequenas que nos mecanizam muitas vezes sem razão de ser. Por isso,
DesConceito.

A melhor maneira de fazer isso é na
poesia. Poesia não são versos e estrofes, poesia é liberdade de palavras, é a forma de expressão escrita mais humana que conheço.

Obrigado a todos e chega de blá blá blá. Que comece o
DesConceito