Há quem compare o ratão - boêmia artística emergente no Recife - a um Papado. Nem oito nem oitenta, como diria minha avó, mas com certeza o movimento propõe traços de uma ritualística, tem algo de mítico, capaz de tocar no mistério da alma humana.
E se o ratão fosse um papado o Recife Antigo seria nosso Vaticano, e nos finais de semana à noite nossos encontros seriam os Conclaves e o Novo Pina seria nossa Capela Sistina. Portanto, assim como a igreja Católica tem um estado, nós, os ratos, temos um bairro. Assim como a Sistina é protegida pela arte dos mestres - Pinturicchio, Botticelli, Cosimo Rosselli, entre outros - o Recife antigo, é cercado pela arte de Brennand e sua infamosíssima pica, Cícero Dias entre outros.
Ainda na analogida, se o ratão fosse um papado, o Recife Antigo seria nosso Vaticano, mas o Prédio de Bruninha seria a Catedral de N. S. Aparecida, a maior do Brasil.
Outro dia fui para lá mais Robertinho - Roberto França, professor de inglês do CAC, solteiro, à procura de sua gatinha manhosa, interessadas favor procurá-lo - e foi uma coisa dessas que não mais esqueço.
Larguei do serviço e fui para o cinema da Fundação, Roberto me encontrou no caminho, tinha um festival de cinema, com a coletânia dos filmes mais relevantes já exibidos lá. Isso era sexta, acho.
Fui lá para ver Bruninha, dar um oi, bater papo, coisa e tal. Ela tinha acabado de sair de uma sessão e ia emendar em outra. Mas papo vai, papo vem, terminámos eu, Roberto e ela no palco do jardim do andar térreo.
Não sei se todos estão familiarizados com o espaço, acho que só as pessoas que trabalham ou fazem cursos lá tem conhecimento do lugar - um lindo jardim em volta de um patamar para apresentaçõse e três degraus de platéia afastados em direção à uma das paredes. O que me facina no lugar é que é um dos poucos lugares que conheço no centro da cidade para roubar rosas - rosas vermelhas, o que não é pouca coisa.
Quem me mostrou as rosas foi Roberto, que olhou planta por planta para passar o tempo. Fiz um dos carinhos mais estéticos da minha vida soprando e despetalando as pétalas de uma rosa no rosto de Bruninha e vendo sua pele branca se fundir em sangue com o vermelho da rosa e o perfume da rosa aderir seu pescoço e a delicadez de uma pétala se imprimir em seu rosto.
Uma grande amiga, Clarissa Santos, escritora de mão cheia, estava na cidade e eu achei que tinha que ir embora para me encontrar com ela. Clarissa, para mim, é uma celebridade e quando ela está eu tenho que correr para vê-la. Foi assim aquela noite, mas no meio do caminho descobri que ela tinha ido com a família para o show do Rosas de Sharon e eu só a veria no dia seguinte.
Sentei no balanço da Praça do Derby com Roberto para jogar conversa fora. Naquela época bater papo num balanço de praça não era contra a lei - a praça era mais abandonada, contudo, pelo menos não havia os vagabundos pagos pela prefeitura para encher o meu saco e atrasar a conclusão da obra. Quando mando uma mensagem de texto para Bruninha, dando boa noite ou coisa parecida e ela responde que está numa festa - onde, ora vejam? No prédio dela - de pilhéria, respondi dizendo que estava de doce porque não fora convidado e ela disse vem.
Até aí nada demais, impressionante mesmo foi Roberto ter ido comigo e as peripécias pelas quais ele passou. Primeiro fomos comprar umas besterias para comer no Habib's da Rosa e Silva, depois pegamos um ônibus até a torre. Roberto é uma pluma, Fred Fonseca, um amigo da gente, diz que quem o vê correndo na praia de sunga pensa que é o homem invisível numa sunguinha amarela.
Enfim, ele comeu um pastel do Habib's e começou a regurgitá-lo no ônibus, quase põe pra fora em cima do cobrador, mas graças às energias ratônicas daquela noite, sobrevivemos todos.
E Roberto também não pode reclamar, quando chegamos havia uns homens, mas do meio parao final só havia mulheres para a festa, e na sua maioria, todas lindas. Ele não sabia ainda, mas quando eu ia para o prédio na Torre, eu ia para virar a noite. Naquela noite, eu tinha ganhado uma toca à la
mano chao; mas naquela época eu e Bruna estávamos juntos e saímos da vista para fazermos juras de amor escondido entre os carros do estacionamento, embaixo das luzes frias, da noite fria.
Engraçado como quando a gente gosta esquece de tanta coisa, quanto mais rídiculo, melhor para o enamorado. O que sei é que no meio dessas juras eu perdi minha toquinha, para sempre.
E Roberto, esse rapaz de família, esse exemplo de bom comportamento, que não bebe (só vinho, isso mesmo garotas, é um rapaz de gosto refinado), não fuma passou a noite cercado de mulheres e ainda por cima roubou um beijinho de Bruna na minha frente num jogo de verdade ou desafio recheado de cubos de gelo que não sei de onde vieram ou para onde foram.
Toda noite é uma ilusão - quatro da manhã todas as mulheres foram dormir, pois todas moravam no prédio e nós dois - moços da zona sul, pobres e sem carro - fomos dormir no chão do salão de festas num frio de lascar. Não, não é meu fim de noite ideal.
Cinco e pouco acordamos e fomos embora, em poucas horas ele tinha psicólogo (e agora muito o que contar) e eu ia para casa. Fomos andando, paramos na padaria das cinco esquinas para comer pão com ovo e tomar café. A família dele ligou, estava preocupada, ele tranquilizou os parentes e ficamos na FAFIRE entre o dormindo e o alesado até a hora do psicólogo dele. Depois fui para casa.
Como os ratos são em maioria adolescentes, na árdua e interminável tarefa de tornarem-se adultos, conceito abstrato; muitas vezes temos que nos entender com nossas famílias antes de sairmos para nos encontrar pelas noites. E o curiosos como isso é uma questão de hábito.
Minha experiência me mostra que homem, mulher, velho ou novo, rico ou pobre - liberdade é uma questão de exercício, hábito e luta. Quem não luta pela liberdade, qualquer, dos pais, dos chefes, do sistema, do que for; viverá acorrentado ao próprio medo de modificar o mundo que o cerca com a misteriosa força do amor.
Tudo isso para avisar que dia quatro, haverá uma festa do ratão. Local - o Prédio na Torre, encontro meus ratos lá.