terça-feira, abril 21

Tiradentes

Prece nº21

Senhor, que onde ela existir eu exista
E as distâncias sejam todas destruídas
E os quilometros não mais contem
E os dias não mais atrasem
Para que nossa presença seja completa
E eu possa existir na pele dela
Como ela existe no meu sangue
Pai, que o tempo da ausência
Seja dias, meses ou anos
Nunca passe de um suspiro
Se comparado ao reencontro
E que todas as barreiras caiam
E os muros de pedra virem areia
A dançar no som de minhas músicas
Futuras e passadas. Que o som presente
Seja o estalo de nossos lábios
O ranger de nossas unhas
O roçar de nossas pernas
E o suspiro de nosso olhos
Apenas
Lorde, fazei do dia de hoje
O laço invisível de nosso amor
E me ata nos pensamentos da mulher amada
Para que mesmo distante
Eu possa senti-la, acaso sofra
Acarinhá-la, acaso chore
Ir, acaso chame

Amém



p.s - Parábens a Ju Caminha, meu grande amor, que faz anos hoje

segunda-feira, abril 20

Apresentando-me!

Olá a todos!! Bem, como Diogo disse, ele abriu o blog dele (só o blog) para outras pessoas, convidadas, postarem, e eu sou uma delas.
Meu nome é Onirê, tenho 20 anos, e sou um orc que sofre alguns surtos filosóficos de vez em quando (principalmente depois de uma cerveja - que, álias, me proporciona o melhor jeito de ficar bêbado - e outros sucos etílicos). Como Diogo é uma bi... Quero dizer, um rapaz muito ocupado, eu de vez em quando venho postar alguma loucura por aqui. Espero que cês curtam, e ajudem-me a tornar-me um escritor mais decente. XD
Enfim...
Fui povo.
o/

domingo, abril 19

No dia seguinte

Somos cínicos emocionais. Conceito do novo século, se o século XX será lembrado como os cem anos da velocidade absurda, do liberalismo e mecanização de nosso ser emocional. O novo século ressurge resgatando o valor do sentimento, relegado ao segundo plano, mas juntando-o com as 'asinhas de fora' que ganhamos anteriormente. Afinal, é difícil pensar em amor e moral como pensávamos antes da queima dos sutiãs, da eleição de Obama e coisas parecidas.

Isso porque somos todos uns antigos, quando digo todos, me refiro logicamente aos ratos. Túlio mesmo, é tão antigo que digita no teclado catando milho, quer dizer, feijão, acabo de ser informado que no sudeste se cata milho e nordeste feijão, ou fava, ou o que for.

Enfim, não dá pra dizer que quem ouve Chico Buarque nos tempos de João do Morro é um antenado, deixamos esse legado para os mangue boys. Não tenho certeza se fazemos por bem ou mal, mas às vezes somos verdadeiras personagens de "Álbum de Família" de mestre Nelson. É um tal amor que fulano que estava com cicrana ontem, hoje conheceu Beltrana, e levou ela para casa no meio da favela de Candeias, tão excitado que teve que dormir com ela, nem que fosse por uma noite.

Ou então às vezes estamos perdidos, sem ter quem amar - além de todo mundo, mas amar todo mundo também cansa - e temos que olhar para quem está só e dizer coisas como "Seu cabelo é tão volumoso" e beijar, como quem não tem mais amor para conter, como quem precisa se dar.

Onde está o cinismo? No dia seguinte contar tudo a todos, sem pudor, aí temos um traço do cinismo emocional; No dia seguinte olhar para todos com a cara mais lavada do mundo, fingindo que nada aconteceu; No dia seguinte voltar para a casa de antigos amores e passar horas lá, enquanto chove, fingindo que nada aconteceu.

Por quê, meu Deus, por quê: Como amar a todos amando um de cada vez? Por isso somos cínicos emotivos, por isso Chico Buarque vem nos salvar, de vez em quando pelo menos.

P.S - Dentro da nova proposta (ou propósta) comunitária do blog, essa crônica é escrita e assinada por Bruna Barros e Diogo Testa.

sexta-feira, abril 17

Chamado Ratatônico de Praia

Ahn, mais uma postadora aqui \o/
Não faço crônicas tão bem quanto diogo, mas pelo menos isso aqui vai continuar bem humorado =]
Sem muitas novidades por hora, vou tentar fazer com que as novidades surjam:

Ratos e ratas desta nação cachaçeira, tenho a honra de convocá-los para o próximo ratão de praia, que acontecerá na manhã da terça-feira de Tiradentes, na praia de Boa Viagem, em frente ao Ed. Segóvia (4700, próximo à pracinha).

Porque tem muito ratinho precisando de um bronze.

quinta-feira, abril 16

Antes e Depois

Queria jogar video-game, acordei ontem com uma vontade furiosa de jogar video-game. Mas aí comecei a escrever num blog, no outro e já sabem né, vídeo-game se tornou apenas uma vontade roendo meu espírito, azar.

Bruninha andou viajando e ganhou um apelido: bêbada. Ele bebeu demais na viagem? Não. Mas toda santa foto que bateram dela... Já sabem, lá estava a garrafinha, ornamental.

Até porque, como já disse antes, o alcoolismo é um estado de espírito muito antes de biológico. A garrafa é um simbolo, um ícone, uma bandeira sobre a qual nos reunimos. Por isso que bruninha, mesmo que inteiramente sóbria durante toda a viagem, preservou-se perto da garrafa, para nos inspirar a todos. Temos que admitir, que bruninha, viajando o tanto que viaja (em ambos os sentidos) e galega, dos cabelos encaracolados, o 'leãozinho' do veloso é uma verdadeira musa. Sem falar de sua voz, linda quanto canta, engraçadíssima no Jiglypuf.

O que é o Jiglypuf? Um pokémon, logicamente. Para quem assistiu, um pokémon com o poder de adormecer os outros com seu canto, e foi assim que mazelados pela madrugada ardente ouvindo uma música em francês linda que tenho certeza que bruninha terá a bondade de dizer qual foi depois aqui no blog nós - Eu, Lis, Dandara, e Bruninha - inventamos o 'Jinkalinka back'n vocals' coro de back vocal que sintoniza qualquer melodia com o 'jinkaalinka, jinkalin...iinka' enobrecendo a música como um todo.

Falando nisso, as primeiras considerações do chamado ratônico. Como era de praxe, quase que estrago tudo mergulhando na piscina e gritando como um louco. Mil perdões pela milésima vez.

Tulinho fazia aniversário na semana seguinte e decidimos dar uma festa surpresa, assim que cheguei estavam todos enchendo bexiguinhas rosa e dispondo chapéu cônicos do Herby, o fusquinha, para que entrássemos no clima de festa, realmente a cara de Tulinho, inclusive para deixar claro meu ponto, decidi fazer um antes de depois, para explicar ao leitor o que os vinte anos podem fazer à uma pessoa:

Antes


Depois


Espero ser perdoado por isso, mas uma imagem vale por mil palavras. Como dizia, queria mesmo ter enchido a piscina de balões rosa, mas infelizmente não tive tempo. O bolo, por outro lado, estava delicioso, parabéns as cozinheiras. Por isso que eu sempre digo, lugar de mulher é na cozinha. Se eu e Onirê tivéssemos cozinhado o bolo, por exemplo, alguém conseguiria comê-lo? Não sei das destrezas culinárias de Onirê, é verdade, mas tenho as sutil suspeita que se cozinhássemos algo o resultado ficaria entre coriza e o esmalte.

Onirê tentou algumas frases de efeito mas não estava bêbado o suficiente, e quando finalmente atingiu o nirvana do rato, quem estava bêbado o suficiente era eu, então infelizmente não posso agora reproduzir sua sabedoria. Ele deveria andar com um linotipista atrás dele, registrando tudo que ele fala.

Por hora é só. Mas passagens do chamado ratônico no próximo capítulo. Não percam.

Vamos às apresentações.

Diogo me pediu pra dar uma ajuda a ele com o blog. Ele é um rapaz muito atarefado, como todo artista, faz três mil e quatrocentas coisas ao mesmo tempo, desde peças de teatro e roteiros pro cinema, a amar e farrear, enfim. Gostei disso de escrever umas crônicas aqui, e da ideia de convidar outras pessoas pra escreverem também. Esse era mais ou menos o propósito inicial da Bodega do Rato, eu ia chamar todos os ratos pra postarem nela, ia ser algo "público". Mas aos poucos o sentido da coisa foi mudando e eu havia desistido (ao menos por agora) de abrir o blog aos ratos. Acabou que Diogo decidiu por mim e abriu o DesConceito.
Então é isso, a partir de hoje vou dar as caras nesse espaço contando os acasos da rataria e os causos desse mundo.

Aos ratos e não ratos, Ratão!

quarta-feira, abril 15

abertura

breve aviso. Abri o blog para outros autores, tá foda escrever a coluna todo dia entre as tantas outras coisas que ando fazendo. Agradeço pela força que de quem se dispuser, e se houver alguém que deseje e não recebeu o convite, basta entrar em contato comigo que o mando

O músico

Lúcio Mendonça é compositor e grande amigo. Escreve uma poesia rara, rica em metáforas das coisas mais simples da vida, como um copo de cerveja ou um aperto de mão.

Nunca acertou no amor entretanto. No filme do Woody Allen "Vicky Christina Barcelona" há um narrador que diz a respeito da personagem de Javier Barden, que é artista plástico "e como todo artista, ele não sabia viver sem a companhia de uma mulher". Ponho um adendo na frase "e não saberá nuna viver na companhia de apenas uma". Na última crônica discuti o quanto a sensibilidade de artista pode sensibilizar em excesso o heterossexual, hoje discuto o quanto a inquietação de artista pode inquietar em excesso o monogâmo, modelo de nossa sociedade.

Assim é com Lúcio, tadinho. No filme The Spirit (uma porcaria, não assistam) tem uma frase mais ou menos assim "Você é apaixonado por toda mulher que conhece, e ama a todas do seu jeito", mais ou menos isso. Assim é Lúcio, tadinho - ama tudo, todas e um bocado; Mas seu envolvimento com mulheres tem sempre um prazo fixo - uma música. Já chegou a me dizer, outro dia - 'Diogo, não seria lindo se eu fizesse uma música pra cada mulher que eu conhecesse, mas uma música de verdade, a altura de fulana?" Eu achei lindo.

Até ver a galeria das desquitadas, e o pior é ouvir a música, hoje para mim sempre a 'música da véspera' e ver em cada nota as curvas do corpo da fulana da vez, ver na letra da música os sorrisos, os trejeitos de olhar com a certeza que no dia seguinte ele romperá com ela.

Quer dizer, o que é isso? Há realmente os casos de pessoas tão devotadas à própria arte que esquecem da existência mundana para enobrecê-la. Mas não sei, não sei.

Sei de Martinha, cuja música me foi apresentada ontem, é linda. Que será dela hoje?

segunda-feira, abril 13

O armário

Eita, tempo de renascer. Mas renascer não é sair do armário, se controlem, moças e rapazes.

Estou falando de Ópera, espetáculo do coletivo Angu de Teatro em pauta até próxima sábados e domingos no Teatro Apolo, às 21:30, que aborda o universo homossexual e dá pontadas também na sua relação com a arte contemporânea.

Isso é algo que sempre me perguntei, e nunca me perguntei pouco. Existem homossexuais em todos os lugares óbvio, mas os do meio artístico são mais óbvios que os outros. Não são estereotipados, cada um é cada um, uns mais escandalosos, outros mais discretos, uns falam da própria condição, outros falam da condição dos heterossexuais com mais sensibilidade que alguns dos próprios heterossexuais, uns são politicos... enfim; mas sua presença é marcante e desperta minha curiosidade acerca do assunto.

Eu fico me perguntando coisas como - é necessário mais sensibilidade para gostar do semelhante fisiológico? Eu procuro entender o que essa distorção de orientação causa na alma da pessoa e o que nisso a aproxima da sensibilidade e fazer artístico.

E até os heteros artistas são meio homossexuais. Os ratos, por exemplo. Para uma pessoa formada nos generalismos da classe média recifense, o primeiro contato com o movimento do ratão pode parecer uma verdadeira gaiola das loucas. Com homens se abraçando, beijando e paquerando (todos, ou quase, hetero, até onde eu sei) num impudor danado. "Homofobia zero" como diria Fred Fonseca, grande ator e amigo.

Daí já passo para os reflexos da sociedade patriarcal nas classes instruídas de nossa capital. O liberalismo, os movimentos feministas e anti-homofóbicos do século terminou por estruturar famílias e tendencias de pensamento menos preconceituosas. Ainda um pouco afetadas, com cacuetes e gírias, mas menos preconceituosas.

Feliz mesmo eu fico quado tenho a presença de espiríto ou ouço alguém dizer assim "Fulando, que é namorado de Cicrano" ou o extremo oposto. Sem afetação, sem risinhos, sem gírias coloridas, apenas aceita com naturalidade o amor da forma que ele se manifesta.

Outra reflexão do espetáculo é o poder da comunidade. Certas características da classe dominante não são fortes o suficiente para uni-la em comunidade, entretanto nas classes marginais qualquer semelhança é dispositivo de união. Assim é com a orientação sexual. Os gays realmente constituem uma comunidade, com gírias, movimentos, entreterimento e visual próprios. Isso também leva sociólogos a associar o homossexualismo à necessidades de atenção, à falhas na estrutura familiar, coisa e tal. É possível, bastante possível.

Enfim é páscoa, tempo de Renascer. Sair do armário não. Renascer.

sábado, abril 11

Páscoa

Amanhã não tem crônica, é páscoa. E hoje um poeminha para Deus e para a mulher amada, figuras importantíssimas nessas datas religiosas.



Prece para que ela não diga que me ama

Senhor,
Permita que ela não fale
Que as palavras não se formulem em sua boca
Na língua vil e negligente dos homens
Não deixe que as notas de sua voz
Se tornem símbolos, convenções vulgares
Meu Rei,
Mantém em seu canto o que há de divino
Guarda em sua voz a nota do mistério
O timbre do mítico, do inexplicável
Pois meu Lorde
O amor que ela me dá
Amor assim não se fala
É um amor que se faz
E ainda que as palavras trinquem
Seu amor irradia da pele e entra nos póros
E sinto que ela me ama
Pois o amor está no grito de seus olhos
No sabor de sua pele
Na força de suas gengivas
E no perfume de seus beijos
Portanto meu Deus
A mantém calada
Para que eu nunca saiba do amor que me tens
Mas o sinta como eu sinto ao Sol, à chuva
E à todas as outras sombras de Tua existência
Em minha vida

Amém

sexta-feira, abril 10

A esquisita

Nada mais estranho que Mallu Magalhães. O mundo cult é um fenômeno estranho, que promove pessoas como ela, João do Morro, DJ dolores e tal. Não são artistas ruins, dentro da minha concepção do universo, vejo como artistas de talento duvidoso.

A verdade é que não são artistas acabados, exceto João do Morro, que está acabado e fala para as massas, na verdade o curioso é sua adoção pelo mundo cult, provavelmente o principal motivo disso seja o produtor dele ser o mesmo de Cordel. Simples assim. Mas no geral o mundo cult, na ânsia de promover suas idéias tem promovido artistas imaturos, pois o mundo cult é um mundo imaturo.

Comecei essa reflexão ao assistir um vídeo de Marcelo Camelo, outro idiota cult, explicando sua relação com Mallu. Me perdoem pelo tradicionalismo, não é uma questão de bagagem cultural, o homem é culto. É uma questão de idiotice mesmo. O aclamado vocalista dos los hermanos (muertos) não soube falar, expressar suas idéias de maneira coesa e lógica, falava o tempo todo "porque a parada com Mallu... E o lance de Mallu..." viesse do morro nos anos 70 Marcelo?

Sem falar que é ridículo, o relacionamento deles não mostra que Mallu é uma criança, assisti a entrevista dela com Jô Soares pensando "Deus do céu! Jô vai comer essa menina viva, ela não sai daí com vida" Me enganei, a menina é surpreendentemente espontânea e adivinhem... Uma menina; uma menina que colocou as músicas na internet. O resto foi circo da mídia e uma família bem relacionada. Chico Buarque vazia músicas na idade dela, Vínicius de Moraes vazia música. Mas no tempo deles não tinha Internet, nem circo da mídia. Só famílias bem relacionadas e com valores o suficiente para esperar a maturidade do artísta antes de atirá-lo aos leões e aos cornos carentes.

Se eu estou dizendo que Marcelo Camelo é corno? Vejam por esse ângulo - o homem é, depois de Reginaldo Rossi, Wando, Fagner e afins, o maior cantor de dor de cotovelo do País. Mas os nomes que citei antes são maduros, tiveram seu tempo para sentir no fundo de suas almas a mais completa depreciação e decadência de suas ilusões amorosas. Marcelo não chegou nem na metade do caminho e já saiu choramingando. Além de praticar abertamente a pedofília.

Na entrevista ele falava justamente isso sobre os diários da Maluzinha "Tipo ela escreve coisas muito parecidas com a do meu amigo, que é poeta, só o que ele escreve tem valor porque ele é casado e duas filhas" Ele diz como se isso fosse ruim. Não é. Mallu é um gênio? Talvez. Para mim ela é apenas uma cópia muito bem feita do Dylan e do Cash, outros fenômenos cult, mas do gênero da ressurreição esses dois.

O fato é que quem dirá é o tempo. Promovê-la assim de imediato é o pecado da antecipação, mal muito comum de nosso mundo e péssimo filtro para o verdadeiro motivo da arte: A sensibilidade humana

Feliz páscoa a todos

quinta-feira, abril 9

Ode ao Túlio

Hoje é aniversário dele, então vou publicar um poema que escrevi em sua homenagem uns tempos atrás:

Ode ao Túlio

Tulinho

Meu Túlio
Meu Lírio
Chama o mundo
Vamos juntos
Sair sexta-feira

Túlipa
Somos jovens
E chove demais
Demais para ter medo
Demais para prendermos
Nossos executores
Deixemos uns aos outros
Morrermos em paz Túlio
Deixemos
O mundo é velho demais
Para deter-nos

Tu Lio
Lenga lenga
Que preguiça de viver
Que medo de ser tarde demais
Mas nunca foi cedo Túlio
Então adeus
Um abraço apertado
Ou uma carrera de doido

Um rato pelas ruas
É um rato morto
Temo, Túlio

E, Túlio, a torre
Está sem Rapunzel
Que azar da porra
Eu largar Fulana
Quando Cicrana quase largou o namorado
Por você
Mas tudo bem, encontro à quatro
Comigo mais tu
Terminaria de quatro

Túlio etílico
Chama todo mundo
Vamos beber na sexta
Vamos pro antigo mesmo
Ninguém tem pronde ir
Mesmo

Túlio nicotino
Cadê o cigarro? Cadê lola?
Ou Maria Joana? Pra quem tinha medo
Você me saiu um viciado
Mas vício maior
Que os mil cigarros fumados
É quem fumando
Se mata ao teu lado

Seu tu Lio Narciso
Que entra nas calças
Com as pernas
Mas deixa o ego
Sem regras
Vamos embora, sem regras
Nem os erros são errados
Então erra
Mas chama todo mundo
Pra beber e fumar
Nessa sexta

Es(Túl)p(i)d(o)

Sinto, logo existo

Capoeira que é bom não cai, e se um dia ele cai, cai bem. Já dizia o poeta. Perdi minha boina. Isso não se faz, não é Onirê? Pois me surpreendi ao constatar que nosso filosófo é também um punguista. Nada mais marginal que um pensador, já dizia minha avó. Vou reavê-la, espere e verá.

Pois fiquei com o cinto dele, como objeto de barganha na troca, descobri ontem, entretanto, que ele fica mais que folgado em mim, deveria ter suspeitado desde o princípio, pela diferença de nosso buchos, mas azar, azar.

Li o livro que Túlio me emprestou "Crônica de uma morte anunciada" do Gabriel García Márquez e aconselho seriamente aos meninos da Nassau lerem o livro. Já que a própria estética que eles adoram não condiz em absoluto com a do livro.

Entre os elementos que o autor trabalha no campo estético, e que podem ser defendidos na produção de um curta-metragem, se encontram:

- O narrador completamente distanciado da ação narrativa. Assim, é preciso explorar dentro da linguagem visual a reprodução desse fato, provavelmente com um protagonista que não é protagonista coisa nenhuma ou uma câmera objetiva em terceira pessoa. Isso é com vocês.

- O resgate da história pelos envolvidos. O livro é uma ficção que simula o trabalho jornalístico, possivelmente o motivo de sua escolha para esse trabalho. Portanto o curta deveria de alguma forma procurar contar a história a partir da reconstituição dos inúmeros pontos de vista que a permeiam e fragmentam. Sem dúvida o principal recurso formal e estético do livro.

- A banalização da tragédia a partir de sua revelação. Um argumento defendido à dentes pelo livro e que também seria bom se fosse pensado.

Enfim, muito trabalho pela frente meninos.

Vou sentar e esboçar essa parada, mas aqui em linhas gerais uma sugestão. Podemos combinar a metáfora de um com o desejo de promoção do outro. Ao invés de um ordinário que troca a namorada por um manequim, mostrando a maquinização da mulher, conceito do século passado, podemos banalizar plenamente nosso século XXI, um século de volta ao romantismo anos antes dos imbecis dos acadêmicos o perceberem; podemos banalizar o tempo do "sinto, logo existo" com o seguinte mote: Um músico que arranja namoradas para compôr suas músicas, quando consegue a plena expressão de seu sentimento abandona sua namorada, preferindo o ideal transposto na música. Morto e perfeito para sua alma de artista. Assim aproveitamos tudo nas devidas proporções. Mais, a ação se passa entre os relatos dos conhecidos de ambos, que já sabiam do fim do relacionamento muito, muito antes do mesmo. E o dissecaríamos pelos olhos de terceiros até que o fato fosse inevitável.

Sento para escrever em breve, se possível ainda hoje. Espero que dê certo, e Túlio podia me atender, para variar.

terça-feira, abril 7

crônica só quarta-feira, culpa do sesc

domingo, abril 5

confessionário

Coisa interessante a verdade. Principalmente a inconfessável, se gritada para todos, sem pudor algum, se torna silenciosa como um eco, torna qualquer mentira muda, e todos somos mudos.

Bem, viajei. Primeiro e muitíssimo importante, primeiro retifico todas as postagem em que escrevi o sobrenome de Ianah errado - o nome correto é Ianah Maia, meu erro, nunca mais cometo. Dois - comentarei a festa do ratão ao longo da semana mas hoje não. A festa foi um momento histórico e em respeito à todos os envolvidos prefiro checar todas as minhas fontes antes de teclar bobagens. Três - amanhã ou terça inauguro um novo blog - www.bbbsescdeteatro.blogspot.com - onde discorro dos temas do curso entre outras reflexões pertinentes, a quem interessar possa conferir.

Sem falar de ontem, mas ainda falando do ratão, a grande habilidade dos ratos é permanecer juntos. Julyana Carla - minha estrela derradeira, minha amiga e companheira no infinito de nós dois - teve seu primeiro contato com o ratão ontem e um dos comentários que ela fez foi "dá pra ver que vocês são muito de sentimento, não é? vocês se unem por dentro". Chamou a todos nós de feios, é verdade; mas falou algo importantíssimo - nosso elo é mais profundo que uma cervejinha ou sapatos que combinam. Por isso nessa longa história do rato, olhando para trás vou vendo e contando mortos e feridos, como disse bruninha na Bodega, e vejo todos vivos e unidos. O curioso é que vivendo apenas o momento presente eu não havia percebido, mas ao olhar para trás vi tantos laços trocarem de cor, de forma, às vezes se estreitarem e às vezes se afrouxarem, mas depois de ontem estou convencido que a força que nos une é maior que o álcool. Que existe o divino no nosso amor.

Quantas vezes mulheres já não trocaram de homens ou homens trocaram de mulheres, ou coisas foram ditas na hora errada mas nós continuamos e eu digo o motivo - eu me humilharia às últimas consequências por qualquer um deles, sem pensar duas vezes.

Errar erramos muito, mas pedir perdão com sinceridade é uma arte que cultivamos - Eu mesmo outro dia, ia dando uns beijinhos numa rata que não sabia comprometida, quando soube o estrago já estava feito, só faltei me matar na frente do traído para me desculpar. Levou um tempo mas fui perdoado. Outra vez saí falando da vida sexual de um para outro e fui censurado, enfim, a falta de discrição me persegue. Eu tenho a mania da exposição, da mostra.

Por isso que era preciso contar também meus pecados no blog, sem pudor. Além é semana santa, tempo de se confessar, e não há melhor lugar para isso que aqui.

Estou com uns parentes em casa - dois tios e uma avó, ficam até a páscoa, passei o almoço com eles ouvindo as histórias das bebedeiras do passado e pensando - dos que bebiam juntos, quantos ficaram? Poucos ou nenhum, foi a resposta que obtive.

Por isso, hoje faço alguns apelos

1º) me perdoem pela falta de tato com que conto tudo aqui, procurarei mais sutileza no futuro.

2º) nos mantenhamos unidos, pois para mim, o verdadeiro milagre do rato é o amor que transforma a nós, um bando de desconhecidos, numa família.

Alcides, meus parábens, sinto muito não ter ido hoje, faça muito barulho no cajon.

sábado, abril 4

Tripé

Brasil! Os ratos agora ganharam representatividade no braço militar. Tenente Jardelino é nosso grande representante na infantaria nacional. Verdadeiro cão de guerra, desses que recarregam o fuzil com o dente e põe a mão no isqueiro aceso para provar que é macho.

O ilustríssimo tenente Jardelino (ou Fábio, como o chamávamos antes da transformação em cão do exército) mostra todas as características prezadas pela corporação - objetividade, clareza, força, velocidade, um verdadeiro cão artístico de Bukowski, pronto para pegar a boneca e dar na cara dela, assim, sem dó.

Alías, pensando no tenente, que ao me explicar que ele mandava nos soldados, nos cabos e nos sargentos disse "a tropa que eu comando é grande, brinque comigo!" e eu "brinco nada, tenho cara de quem leva tiro?" - pensei na capacidade de pessoas polares conviverem de forma rica e produtiva.

Como por exemplo Vínicius de Moraes, no tempo que passou em Buenos Aires, a casa dele dava de frente para um quintal onde viviam um pavão, uma galinha, um cachorro e um gato; de muito os observar, Vínicius fez a seguinte declaração à Toquinho, creio "Toquinho, eu aprendi mais com esses quatro bichos que a minha vida toda no Itamaraty. Eles vivem juntos Toquinho, um cachorro, um gato, uma galinha e um pavão, juntos!" Assim é o Ten. Jardelino, Tulinho e Jean.

Tu vê os três juntos pensa "mas será possível?", então vê - eles são como o cachorro, o gato, a galinha e o pavão; humanos o suficiente para viver juntos.

Quem é Jean? Não sei nem seu sobrenome, mas se Fábio é o braço do ratão na infantaria, Túlio na música, Jean é o braço silencioso do ratão. Escritor de mão cheia, violonista clássico e tímido convicto; o verdadeiro eixo desse tripé de artístas tão polares, entretanto tão produtivos, e por que não dizer bonitos, combinados.

Falando em tripé, uma anedota: existe um teórico de teatro que diz "o fenômeno cênico acontece quando se unem os três elementos: o público, o ator e o palco". Na Bahia, encenou-se um espetáculo chamado "R$1,99" cuja ficha técnica era:

Elenco: Ricardo Castro
Iluminação: Ricardo Castro
Sonoplastia: Ricardo Castro
Produção: Ricardo Castro
Diração: Ricardo Castro

Preço? - o Título, com direito, alías, com dever a um centavo de troco (assisti à peça duas vezes, tenho as moedas guardadas comigo até hoje, acho). Nesse monólogo, com um crítica seríssima ao teatro comercial, principalmente no Sudeste, já que aqui em Recife, pelo menos, teatro comercial é quase um sonho, salvo o Chocolate e o Hipopocaré; grande teatro comercial o nosso.

Enfim, durante o monólogo, enquanto operava a luz, o som, se dirigia e atuava Ricardo deu o seguinte texto, máxima da verdade teatral muito maior que essa história de ator, platéia e palco. "O teatro está baseado num tripé" ele começou "1-) prego. Não dá pra fazer teatro sem prego" explico - fixar cartazes na rua, prender as cordas da contra-regragem, preparar os movéis falsos "2-) fita crepe. Não existe teatro sem fita crepre" explico - toda a marcação de cena e da mesa de luz e som é feita com fita crepe, um espetáculo de teatro que não consuma uns dois rolos de fita crepe, acreditem, será ruim. O bilheteiro na porta do teatro deveria anunciar "ingressos a R$15,00, gastaram sete rolos de fita crepe, é ótimo, ótimo" extasiado. Por fim "3-) Viado. Não existe teatro sem viado" o último nem vou comentar, quem já foi ao teatro sabe. E se não sabe, levante as mãos para o céu e agradeça. Enfim, é tudo uma questão de tripé.

Dois avisos - hoje festa acontece a festa ratônica no prédio de Bruninha, desça mesmo a vitrola minha filha. Outra, Dandara Morais, bailarina lindíssima, estará lá, a partir das 18:30 da noite, à procura de seu moço dengoso. Quem for esperto não perderá a oportunidade.

quarta-feira, abril 1

A bodega

Venho, feliz da vida, dar o dito de outra crônica por não dito. Informei ao leitor que eu, eu sozinho e mais ninguém estava responsável pela documentação literária do ratão. Nem oito nem oitenta. Entretanto no mundo dos blogs eu ainda detinha a vaidade de ser o único a falar abertamente do ratão. Até hoje de manhã.

Hoje de manhã li um blog chamado bodega do rato, e portanto acho importantíssimo avisar ao leitor que desse momento em diante oficialmente divido a literatura ratônica com Bruna Barros, galega dos cabelos cacheados, gestora da informação e como soube recentemente, atriz. Enfim, uma pequena assim assim, que tem vivido para o amor.

Primeiro dou meu graças à Deus que alguém pegou essa bola comigo. Bruna está no ratão desde o início e sabe histórias e estórias que sequer imagino. Além, ela mora no Recife não é. Eu, na minha condição simplória de Jaboatonense sofro um pouco para documentar essas histórias da cidade grande.

Aproveitei para incluir outros blogs importantes na lista de indicações, como o do onirê, grande filósofo do ratão, o do cinerevezes, cineclube da Católica que acontece quinzenalmente às quartas-feiras, no caso de hoje à quinze, organizado pela musa do rato Gabriela Alcântara, que nunca pude comparecer a assistir por culpa do SESC, paciência. Dia desses ainda vou Gabi, espere eu tirar Stanislavski da minha vida, por favor.

Falando em Stanlislavski lembrei de Túlio; como o bom artista que é andou preocupado com sua performance em palco e me pediu conselho, disse "leia Stan, ele ajuda bastante". Vê, o rapaz nem pisou no palco e já está preocupado com a performace. Como diria minha tia Célia, que era dessas tias que gostava de apertar buchechas enquanto falava "que coisinha mais fofo o empenho de Tulinho"

Falando em Tulinho lembrei de Basílio e a cuíca inédita. Inédita porque nunca foi vista nem tocada. Não sei direito de onde nem porque Túlio estava um dia com uma cuíca para Basílio, de presente de uma moça - Isso mesmo, quem pensava que Basílio é solteiro, engana-se, Basílio é mineiro, come quieto, desconfiem sempre meninas... Desconfiem mas aproveitem, que ele é um pedaço de bom caminho. Enfim, a cuíca era dessas artesanais, para turista. Túlio deu, Basílio adorou e nós começamos "toca aí, pow" então ele tentou, mas estava meio estranho, primeiro pensamos que ele não sabia. Mas o som foi ficando estanho, estranho... até que o couro se separou da cabaça. Paciência, artigo de turista é assim mesmo.

Pelo menos esses, vivemos tão estigmatizados pela exportação, onde tudo que temos de melhor é dado de mão beijada para o gringo que conforta saber que quando ele está na terra é sumariamente passado para trás pela sabedoria popular.

Ainda hoje a cuíca enfeita a sala da casa de Basílio, como prova que se o cavalo for dado o negócio é não olhar os dentes.

Tudo isso para dizer - leiam a bodega, bruninha tem pegada no teclado

O Filme da meia-noite

A fundação Joaquim Nabuco, ano passado decidiu exibir um filme à meia noite, de zumbis. Eu não me recordo do nome, mas a onda de assisti-lo pareceu por demais irresistível e o ratão foi marcar presença. Fomos eu, Basílio, Túlio, Onirê, Pedro Augusto (praticamente, os pontos cardeais, a bússola do ratão) eu e Roberto França - Professor de inglês do núcleo de línguas do CAC, solteiro, a eterna procura de sua gatinha manhosa, interessadas favor procurá-lo.

A Fundação Joaquem Nabuco é um prédio com seu charme, escondida numa esquina sem rumo do Derby, vista de fora um grande cubo cinza, mas mesmo assim existe qualquer coisa de antiga no prédio, seja a fechada, sejam as pilastras, seja disposição altamente geométrica das janelas. O prédio me lembra meus antigos colégios de freira - os ladrilhos no piso, os desenhos do ferro do corrimão, a aparência geral das salas.

Entretanto no primeiro andar, o do cinema, sou completamente desiludido dessa impressão nostalgica - Cartazes de filmes, todos muito cult, o que mais me chama a atenção, sempre, é de Terra em Transe, do Glauber Rocha, genial. O corredor se estende à um café, outro ponto extremamente cult, e aproveitando que falo do café deixa eu contar uma histórinha.

O charme do café é inegável, bonito, chic, com mesinhas de cadeira, carta de menu bem desenhada, opções irreverentes, como sorvetes de milk-shake, milk-shakes de sorvete, bolbo com sorvete, lanches com queijos estranhos, coisa e tal. A cerveja vem no copo de cerveja, o rum no copo de rum e assim vai. Tudo à um preço relativo, que eu, um rapaz que anda mais duro que pinto saido da prisão, acho caro. Mas vá lá, tem seu valor.

O que me deixa indignado são os 10%. O garçon, uma bixa muito chata, certa vez me trouxe a conta e adicionou os 10% pelo serviço dele. Ok. Infelizmente o café da Fundação não é o tipo de lugar que realmente necessite de garçon, a cozinha é acessível à todos - fica logo depois do balcão - e da última mesa à ela são, se muito, dez passos.

Enfim, outro dia estava lá para ver um filme e fui tomar um suco, olhei minha carteira - as moedas contadas para o preço do cardápio - o que fiz foi pedir no balcão e tomar lá. Eis que o abjeto do garçon vem me cobrar seus 10%. Eu, muito humilhado por estar com o dinheiro contado e completamente possesso pela falta de educação da bixa digo "moço, perdão, mas o senhor não me atendeu, eu já paguei e tenho meu dinheiro contado" ele, como se ser panaca fosse a idéia mais genial desde a roda respondeu "mas aqui não interessa, tem sempre 10%"

Duas sugestões para a administração do café:

1º - demitir o infeliz - eu teria ido à um caixa e pago os 30 centavos do garçon se ele fosse educado e simpático.

2º - incluir os 10% nos preços da carta, mil vezes menos constragedor.

Enfim o filme. Como ia dizendo, o prédio tem seu charme, entretanto seus muros cinzas e àsperos, na contagem regressiva para a meia noite adquiriram um clima fantasmagórico. Na própria súcia de cults que foi assistir ao filme naquele sábado à noite era sensível uma tensão surda, um brilho no fundo de seus olhos, com o se os zumbis da película estivessem prestes a sair dos cartazes e atacar os espectadores a qualquer momento. Os rostos estavam mais pálidos, a luz mais fraca, as conversas eram ora histéricas e nervosas, ora sussuros desconfiados - salvo tudo isso, era uma súcia de cults muito agradável.

Começou o filme, Túlio achou genial, genial mesmo eu achei esse diálogo entre ele e Onirê no meio da sessão

Túlio - Nossa, confortável o braço dessa poltrona.

Onirê - Túlio.

Túlio - Sim?

Onirê - Esse não é o braço da poltrona.

Fizemos um barulho gigantesco, mas ninguém percebeu. No filme, os zumbis morriam e nasciam da forma menos pretensiosa possível - trash mesmo - e a platéia ria horrores, para mim a melhor foi a voadora do policial num zumbi logo na primeira sequência - golpe digno de qualquer jogo de street fighter.

Acabou o filme e estávamos todos leves pela morte coletiva em vídeo. Túlio achou genial, ele faz jornalismo e a perspectiva do filme aborda, dentro da sua forma despretensiosa, as relações entre a imprensa e a desgraça alheia com grande seriedade (no filme a pessoa que foge dos zumbis está muito mais preocupada em documentar a hitória do que solucioná-la, uma espécia de fuga do clímax); nós outros só estávamos tirando onda.

Entretanto desde aquela noite, as vezes andando nos corredores antigos da fundação ainda penso ver um zumbi me espianda por uma quina escura. Ou isso ou garçon, rancoroso.

segunda-feira, março 30

A flor do cacto

Talvez a coisa mais bonita de um edifício seja o nome. Monstrusidades de concreto, o edifício é um memorial do egoísmo e megalomânia humana, mas observar um e vêlo finalizado, talvez já com algumas infiltrações, talvez com ladrilhos já soltos, talvez com pichações, talvez com o servente já dormindo e ver-se obrigado a vê-lo na sua composição sem um nome que o indentifique é angustiante, quiçá cruel.

Pensei isso quando passando na orla de Piedade encontrei um Edifício com o seguinte nome - Hilda - é quase uma torre de uns nove, dez andares no meio de uma enorme área vazia, me lembrou a torre de Rapunzel. Pensei que talvez fosse uma analogia à Hilda Hilst, um edifício árido e solitário batizado com o nome de uma mulher árida e solitária. Mas isso é mera suposição.

No caminho de Piedade à minha casa ainda há dois que me chamaram a atenção pelos nomes - Vinícius de Moraes e Pasárgada - não que eles tenham algo a ver com a literatura, para mim são depravações da natureza; mas o nome, admito, os preenche de poesia.

Passei a noite de sexta para sábado no último andar de um pequeno prédio em boa viagem, acho que tinha uns seis andares e fica à umas boas seis quadras da beira mar. Ao chegar no último patamar corri aos muros da laje para admirar a vista. E o que vi foi o anão onde eu estava cercado por montes de pedra e granito, foi uma sensação curiosa, no último andar de um prédio de uns seis andares, há algo entre vinte e trinta metros do chão, eu me senti claustrofóbico, não havia paisagem, simplesmente não havia. Há mais de dez metros do chão minha vista não se podia estender além de uns cem metros de horizonte. E olhe lá!

Daí vale olhar o egoísmo humano. Fulano quer ser mais bonito e faz uma casa maior para ter mais vista que Cicrano. Cicrano não quer deixar por menos e constrói uma nova maior que a de Fulano. Beltrano vai lá e supera os dois. Os dois indignados, cada um constrói mais alto para superar Beltrano e quando se pára a ver os cacos dessa guerra, encontramos estilhaços de paisagem destroçados por uma guerra fútil de egos e concreto. Ao passo que se todos tivessem uma casa baixa, humilde, ao fim da tarde, todos poderiam subir em um muro, um teto ou mesmo uma colina próxima e admirar o mar - infinatamente maior que qualquer coisa que um ser humano fará em sua existência.

Inclusive, uma das coisas mais lindas do caminho é o terreno dos Cactos, mostrei-o para dois amigos dia desses que fizeram pouco da minha cara. Entre dois prédios monstruosos da beira mar de Candeias há um terreno completamente abandonado, cercado por um muro de pedra onde crescem cactos, aos montes. Crescem tão livremente que suas folhas violentas e ásperas já rompem o muro e invadem, ainda que timidamente, a calçada.

Meus amigos não puderam entender, entretanto faço votos que o leitor possa. Não há quem regue, não há quem cuide da terra, os cactos passam o dia respirando o stress dos transeuntes e o carbono dos carros. À direita uma monstruosidade de vinte andares, de Fulano; À esquerda outra de vinte e cinco, de Cicrano. No meio, rebelde, inviolável, cactos brotando no meio da cidade cinza como que por mágica, como se as suas palmas verdes e grossas fossem a palma de Deus a implorar pela misericórdia dos homens. Digo mais, eles estão florindo. Não há andares suficientes para encerrar a beleza de uma flor de cacto, minúscula.

Não desmereço o crédito de um arquiteto - edifícios são verdadeiras obras de arte. Mas me perdoem os antropológicos, o que é a arte dos homens frente à arte de Deus?

domingo, março 29

mundo cínico e mundo lírico

Antes de mais nada, para os que pensam que atores são uns vagabundos inconsequentes (há quem ainda pense isso) a crônica de hoje surgiu de uma discussão entre atores e suas visões de mundo.

Colonialismo, estudamos no colégio como movimento político tipicamente europeu, onde os estados descobriam ou conquistavam uma nova terra e em troca de levar à essa terra inexplorada o progresso, exigiam o direito à livre exploração da mesma, chamada colônia.

Acabou mesmo? Nem oito nem oitenta, como diria a minha avó. Ninguém descobriu nada e tudo que se fez foi subjulgar e explorar os povos que já habitavam as novas terras. A América Latina, o Sudeste da Ásia e a África são heranças da colonização. Mas o que me impressionou foi o novo arranjo social Europeu - os imigrantes.

É comum aqui no Brasil agências de intercâmbio que oferecem empregos no exterior, é uma boa linha de cúrriculo, acrescenta bagagem cultural, consolida o conchecimento em língua estrangeira e geralmente paga em dolar ou euro, ambas atualmente mais fortes que o real (aliás, com o governo assumindo o mercado imobiliário e bancário americano, ambos de forma geral à égide da falência, como a moeda america ainda não desvalorizou diante tamanha fraude?).

O que eu desconhecia era a posição do Europeu frente ao emigrante - descobri dia desses que as tarefas de subsistência ou menores não são dignas dos nobres europeus - serviço doméstico e de atendimento em geral, por exemplo - assim, qualquer tarefa considerada pela cultura européia como de "menor importância" é trabalho de imigrantes.

O que me assusta, o que me revolta nesse senso de globalização - como as fábricas de multinacionais na China, por exemplo - são dois conceitos que faço questão de desconstruir no blog: 1- Infelizmente, ao fazer tal discernimento, fica implícita idéia que os imigrantes são inferiores aos magnânimos povos brancos. 2- Fica caracterizado o gênero de subdesenvolvimento entre as nações.

Thiago Godin, ator e advogado, fez o favor de me informar que as constituições de certos paises da Europa, como a Espanha, por exemplo, foram baseadas também nesse mecanismo, onde a desigualdade é necessária para o abastecimento da mão de obra inferior e barata dos imigrantes.

Trocando em miúdos, fica claro o completo desinteresse das nações ricas e decadentes em combater o subdesenvolvimento, pois nele elas se alicerçam. Me parece uma piada de muito mal gosto. Acabar com a fome na Africa? Tudo bem, se não interferir com o petróleo (outro com os dias contados) e os diamantes. Dar anistia, perdão de dívida externa, o diabo a quatro... Tudo bem. Abolir a idéia de subdesenvolvimento e dar início a um trabalho em prol do fim da desigualdade. Adotar a idéia que estamos todos no mesmo barco - desculpe, meu filho, aí já é demais.

Talvez se eu fosse Espanhol, ou Alemão, eu mesmo Canadense, eu pensasse diferente, mas sou brasileiro, e cada um de nossos estados vale um país inteiro na Europa. E sim, há uma classe dominante no país que não se interessa em combater a desigualdade. Há sim no país os que recorrem ao assistencialismo, à aglomeração e alienação do cidadão ordinário - principalmente para angariar votos, há sim camadas intrísecas e inacabáveis de corrupção no poder. Mas, às vezes, por graça divina, nos une a consciência que somos todos brasileiros; e, mais raro ainda, às vezes a nação brasileira inteira se lembra que faz toda parte da mesma humanidade. E nossa constituição, antiga, frouxa e sem graça ainda pensa que a declaração dos direitos humanos não é estória de carochinha.

Tomei uma decisão - De hoje em diante chamo o que se convencionou 1º mundo de 'mundo cínico' e o 3º mundo de 'mundo lírico', porque aqui em baixo do mundo ainda há quem acredite no que diz.

Coisas assim me deixam desgostoso com o mundo.