É fácil saber a razão social da crônica. Ontem, antes de Túlio ligar para falar da mulher sem sorriso eu estava desesperado "vou escrever o quê? Já estou sem assunto?". Nada, assim que ele começou a falar eu sabia o que deveria fazer.
Aconteceu de novo nesta madrugada. Duas da manhã, no carro de Mauro Monezzi, grande homem, bom - dos últimos homens bons - eu soube com uma certeza absoluta e inapelável a crônica, sabia ao título, sabia às personagens, era até mesmo capaz de escutar as palavras, como se uma ferida em flor gritasse em meus sentidos.
Biaggio, que dentre tantas funções que exerce chamo apenas de artista e amigo, se apresentou ontem, quinta-feira, no bar do burburinho com o projeto "ouça Elis" que visita o repertório da intérprete.
Afirmo aqui as palmas e 'bravos' que gritei no bar, como prova de que os fiz lúcido e orgulhoso de os ter feito. A vocalista, Julia, realmente tem qualquer coisa na maneira de cantar que lembra Elis. E eu, como fã preguiçoso mas vendido, completamente entregue, ao Jazz e ao Samba, tive no mesmo show um pouco dos dois.
E o que foi bom termina aí. Agora preciso falar da sarjeta, e não só da sarjeta, mas da podridão, dos vermes da alma, do veneno no sangue.
Fui com amigos do curso técnico de preparação de atores do SESC Piedade. Biaggio também é aluno e nos convidou. São pessoas muito queridas mas que conheço há pouco tempo, mês e meio. Nos vemos quatro noites na semana por três horas, mais os ensaios que marcamos para as apresentações que fazemos para o grupo.
Ingrid comparou nosso curso ao Big Brother - cursos de teatro, por mais sérios que sejam, acabam virando um BBB mesmo. Atores são cínicos ingênuos, todos - todos querem ser amigos, e sem se perceber estão todos abraçando, apertando e beijando desconhecidos num impudor dos diabos. Além disso, há as desistências, os "paredões", como nós chamamos. Se me lembro bem houve quatro desde o ínicio, duas moças que tentaram conciliar o curso com a faculdade (no mesmo horário, pérolas da inteligência) e foram eliminadas; um senhor de sessentas anos, José, de quem eu gosto muito, que saiu para fazer uma peça com Constantino, um outro José que não sei pronde foi e por enquanto é só.
Mas eu ainda prevejo outros paredões. Alunos marcados por professores, alguns comportamentos estranhos... Enfim, muitas emoções nesse BBB de nós mesmos. Mas o pior veneno, a maior vileza de nossa 'casa de vidro' cênica apenas começa a destilar entre nossos participantes: o amor.
Ou coisa que o valha, porque amor, óbvio, não é, amor nunca é. Amor não é veneno, amor não se destila furtivamente em nossas almas. Apenas agora se manifesta o desejo, a obsessão e o sexo. Ontem no burburinho vi a primeira apoteose e, confesso, quis chorar.
Primeiro descobri os fumantes - todos sociais, assim como eu, mas me surpreendi com o cínismo de nós todos, ou responsabilidade, vamos às aulas sóbrios, limpos e saudáveis, não enfio o dedo na cara de ninguém pelos seus vícios se não na minha própria.
Mas já temos nosso primeiro triângulo. Fulano que agarrou Cicrana. Fulano queria mais, Cicrana menos e acabou agarrando Beltrano. E o futuro disso não sei. Sei do bico de Fulano, sei da falta de olhares de ambos, sei dos laços que se estreitam e se contorcem e se quebram na égide do desejo que nos punge a nós todos.
E vi mais, vi um homem apaixonado ver a mulher amada atraí-lo e rejeitado para seu bel deleite enquanto ostentava alianças nos dedos. E vi um amigo sofrendo de amor por uma bêbada promíscua.
O problema dos bares é esse: cria as amizades mais fortes ou transforma qualquer colega num pedaço de carne estragada - dura, fedorenta e sabendo à moscas.
Desculpem a repetição, mas quero enfatizar: Pensem, em uma noite, ver uma moça que aos teus olhos sempre fora uma mulher linda, uma mulher boa - numa bêbada promíscua.
Não, não somos personagens de romance, mas o contraste é gritante, é estúpido.
E há Ingrid. Meu maior afeto, por ela ponho minha mão no fogo e deixo queimar, por ela enfrento o que precisar, por ela rio e por ela choro. Estou prostrado e submisso aos seus pés porque é uma pessoa boa, uma pessoa capaz de amar qualquer um despregada de preconceitos. E isso não tem preço e isso não se perde.
E essa musa de sonho, essa doce ilusão de meus olhos, minha grande amiga e afeto, vi estrebuchada no chão da sarjeta, rolando e gritando como uma epiléptica enquanto tirava sua roupa aos indigentes do Recife antigo e aos garçons constrangidos, enquanto tentávamos a levantar e a acalmar. E a vi tombar em estranhos, e a vi derrubar mesas, e a vi ter crises de histeria e a vi babar e rosnar como um bicho. E vi com olhos crus, sem qualquer beleza, sem qualquer poesia além dos versos concretos da carne. Sem qualque metáfora, sem qualquer floreio, apenas dos olhos, tal qual ela é.
E a pusemos no carro. Mauro, como o homem bom que ele é, a deixou em casa enquanto ela gritava e tantava sair do carro pela janela, do cais de Santa Rita ao Catamarã. E eu ao seu lado, triste como um tubercoloso. E tudo que eu queria era chorar. Muito.
Me despedi por monossílabos (porque também fui deixado na porta de casa por um cansado e sonolento Mauro, desiludido e sóbrio) e fui chorar no sofá. Muito.
sexta-feira, março 13
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3 comentários:
=O
Você escreve legal.Bacana.
Fiquei preocupado depois de ter lido esse texto.
Mas nada que uma boa conversa ajude a melhorar isso!ABraço cara!
=O [2]
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