segunda-feira, março 16

O mentiroso

Sei que são duas da manhã, mas já que não dormi, no meu relógio biológico essa ainda é a coluna de segunda-feira, o dia ingrato.

Primeiro, se não deixei claro aqui ainda deixo agora: todo o conteúdo do blog é mentira, me inspiro em fatos e acontecimentos reais e invento à vontade. Meu principal objetivo é fazer folclore com as pessoas que me cercam e exibir um olhar crítico sobre a sociedade que me rodeia.

Dentro dessa liberdade que comparo um curso técnico para atores à um "big brother" ou chamo algumas mulheres de "bruxas da aparência"

Pingo posto no i, convenhamos que nada melhor que uma boa mentira para dizer a verdade. Existem coisas inconfessáveis, e o apelo, o charme o blog é a confissão pública, ainda que mascarada nas metáforas, ainda que justificada nas mentiras.

E dessas conclusões vi que é preciso coragem para escrever o que se pensa. As palavras ditas são fogo de palha - queimam e apagam - mas o que registrado for ficará como um fantasma para te assombrar, não importa quantas palavras cubram a primeira.

Por isso que devo me atacar e ser o mais sincero possível, principalmente quanto à meus deslises. Os jargões da moral burguesa me e católica regeram minha vida como leis do universo, e ainda que me faltem experiências para a maturidade, as consequências de meus atos bateram tão rápido à minha porta que mais pareceram reações.

Compliquei? Descomplico - Tentei fazer sexo sem amor e falhei antes mesmo de começar. Tentei um relacionamento aberto e assim que apareceu a segunda fugiu a primeira. E fui sincero o tempo todo, ouviu? Nunca menti para nenhuma sobre a outra. 'O golpe é mentir, o golpe é enganar', dirão o cínicos, mas não há maior solitário que o cínico. O golpe é amar, e esse é bem mais difícil.

E a única que amei, a única, agora está longe. Mas na época a separei por medo. Assim como um amigo querido "quis conhecer mais vida além do amor" e tudo que vi foi desilusão. Sou um amargo.

domingo, março 15

Energia Solar

Estava vendo o auto-esporte, na globo, enquanto comia pão sovado com Nescau. Eles fizeram uma reportagem sobre o salão de Genebra e durante a reportagem algumas alusões interessantes sobre como o mercado automotivo reagia à crise mundial.

Outra coisa engraçada é como nos Estados Unidos, eles chamam o saque de crise. Vender por preços inexistentes e cobrir empréstimos com empréstimos, quebrando os bancos, é roubo e saque. Mas já que todo mundo (importante) fez é crise. Bonito. Nós, brasileiros, roubamos, é verdade, mas pelo há sempre alguém para nos acusar com a verdade: Ladrões, corruptos. No topo da humanidade, nem isso.

Enfim, o auto-esporte, pendurou o slogan, quase gritou para o público com a voz do locutor de enquanto exibia uma lamborghini amarela e possante "o mercado responde a crise com novidade" e o diretor executivo da ferrari dizia "a solução é produto novo no mercado".

Babei minha mesa com o Nescau. Parece piada que tudo em que as montadoras pensem é em produzir mais sucata em plena queda do império do petróleo. Dos modelos apresentados apenas um era flex, que convenhamos, não é nenhuma novidade para os nacionais, apenas para os importados. E mesmo assim a uso de álcool ainda não é nem metade do que pode vir a ser uma solução.

Do Pina em direção à Agamenon passa-se por um viaduto que dá vista para um ferro velho de carros, perto da AACD. Passei por lá pelas três da tarde ontem e o eram tantos carros entregues às traças que pela janela do ônibus o Sol parecia desenhar estrelas nos capôs.

Isso e o marcado querendo novidades. Querendo, desesperadamente, nesses tempos de saque (ou crise, o leitor escolhe) vender, não importando o quê, para quem ou quanto. Desta forma, a montadora não é melhor que um fabricante de armas enfiando semi automáticas nas mãos de crianças.

O mercado automobilístico existe há pouco mais de um século e é algo que não vai cair tão cedo nem tão fácil, surgiu e inventou a era do petróleo e o padrão de vida das classes dominantes nos dias atuais. Entretanto, com a derrocada do petróleo, já que a transição é tão delicada e terá de ser lenta. Já era tempo dos fabricantes começarem a pensar no assunto e apresentar soluções conscientes.

Não se pode trocar o transporte da noite para o dia. Carros movidos a energia elétrica existem desde dos anos noventa ou até antes. Ontem no Discovery vi um protótipo que faz 0-100 em quatro segundos, é quase um esportivo, dependendo unicamente de energia elétrica. Já é tempo de algumas montadores porem esses protótipos no mercado, de alguns postos oferecerem abastecimento elétrico.

Quem não quer? As petrolíferas. Pensem, a Petrobrás manda no Brasil. Financia mais que alguns bancos e principalmente, paga muitas das contas do governo. Os principais politicos do pais tem ações da Petrobrás, nada mais inteligente, além defazer da privatização uma grande piada. Então as montadoras freiam.

Trocar de montadoras, inviável. No nordeste há menos, mas vim de São Paulo e sei como cidades inteiras nascem e morrer para abastecer uma montadora. A dependência dos carros e do petróleo chegou à tal égide que não é a montadora que abastece o mercado, é o mercado que abastece a montadora, a montadora abastece a petrolífera e ambos abastecem milhões de pessoas e a economia de paises inteiros.

Durante a troca do petróleo a briga no oriente médio precisará de outras desculpas e o mercado armistício dos Estados Unidos principalmente, precisará de outro cliente, o que será difícil e legamente mais caro.

Eu poderia passar o dia pintando esse quadro mas acho que dei as noções gerais. Ao curso de nossa história surgiram mecanismos venenosos de poder. O resultado são os verões que mataram inocentes na Europa anos atrás, o aumento do nível do mar (olhem a praia de recife) o flagelação da saúde dos habitantes de qualquer centro urbano e uma sociedade viciada, dependente de um mecânismo que vai ruir - o que nos resta é decidir se vamos ou não afundar no barco. E aí faço meu apelo para as montadoras, para as petrolíferas e para os que estudam a energia do Sol e organização sustentável. Está na hora de começar as mudanças, e fazê-las de forma a não causar grandes rombos mas o mais rápido para que salvemos nossa triste existência mais algumas gerações de seu fim.

sábado, março 14

Boneca de Lolita 2

Ganhei as seis estrelas em GTA. Foi só fazer bem muito estrago, talvez seja até mesmo um presságio.

Sou um autor displicente mas também tenho limites. Criei ontem uma personagem que se tem contorno é muito. Movido por sentimento a deixei em estado bruto, expus um momento de sua poesia sem nenhuma consideração com o leitor.

Portanto, quem é Ingrid? Ingrid é a moça dos cabelos encaracolados, tão fartos que se enche a mão e se perdem os dedos ali. Ingrid é a moça que usa o mesmo óculos que minha tia usava em 1980, idênticos: fundo de garrafa, armação grossa em âmbar. É ela primeira a fazer barulho e a última a fazer silêncio - pula nas pessoas num impudor dos diabos, fala besteira, ri com todos os dentes, chega a inventar dentes para sorrir daquele jeito, tem um piercing em forma de gancho na boca. E tem excentricidades - é fã incondional e para sempre da Britney Spears, e nela (só nela) isso não é infantil ou rídiculo. Outro dia no carro, tocava uma música da Britney e ela exclamou "essa mulher sofreu tanto na mão do marido!" numa sensibilidade humana que eu nem ouso compreender.

Ela se lembra das coreografias do Backstreet Boys mas parece um pato ouvindo MPB "Tô completamente por fora de música brasileira, meu filho!". É sincera o tanto que pode, evita meter o dedo na cara dos outros, coisa que faço eu num impudor dos diabos.

É um pouquinho tarada, abre as pernas sempre que vai falar baixaria, mas até onde eu sei pára aí. Passa a mão na bunda de todo mundo, gosta de bater e de cuecas boxer.

Enfim é assim, assim, como qualquer um, humano. Só que boa, capaz de dar à Otello o mesmo tratamento que daria à Petrúquio.

Tem um namorado que nunca vi, mas que põe um freio invisível em seus impulsos. Era inocente de certos vícios até data recente, como fiquei sabendo ontem. Faz cênicas na Federal e diz para quem quiser ouvir "ver o povo do SESC é a melhor parte do meu dia" ou então "eu te conheço há séculos carequinha!" Carequinha sou eu. A amizade paga o apelido e ainda fico devendo o troco.

E toda a descrição só reforça o ditirâmbo - Por que uma pessoa assim precisa lamber a sarjeta?

sexta-feira, março 13

Boneca de Lolita

É fácil saber a razão social da crônica. Ontem, antes de Túlio ligar para falar da mulher sem sorriso eu estava desesperado "vou escrever o quê? Já estou sem assunto?". Nada, assim que ele começou a falar eu sabia o que deveria fazer.

Aconteceu de novo nesta madrugada. Duas da manhã, no carro de Mauro Monezzi, grande homem, bom - dos últimos homens bons - eu soube com uma certeza absoluta e inapelável a crônica, sabia ao título, sabia às personagens, era até mesmo capaz de escutar as palavras, como se uma ferida em flor gritasse em meus sentidos.

Biaggio, que dentre tantas funções que exerce chamo apenas de artista e amigo, se apresentou ontem, quinta-feira, no bar do burburinho com o projeto "ouça Elis" que visita o repertório da intérprete.

Afirmo aqui as palmas e 'bravos' que gritei no bar, como prova de que os fiz lúcido e orgulhoso de os ter feito. A vocalista, Julia, realmente tem qualquer coisa na maneira de cantar que lembra Elis. E eu, como fã preguiçoso mas vendido, completamente entregue, ao Jazz e ao Samba, tive no mesmo show um pouco dos dois.

E o que foi bom termina aí. Agora preciso falar da sarjeta, e não só da sarjeta, mas da podridão, dos vermes da alma, do veneno no sangue.

Fui com amigos do curso técnico de preparação de atores do SESC Piedade. Biaggio também é aluno e nos convidou. São pessoas muito queridas mas que conheço há pouco tempo, mês e meio. Nos vemos quatro noites na semana por três horas, mais os ensaios que marcamos para as apresentações que fazemos para o grupo.

Ingrid comparou nosso curso ao Big Brother - cursos de teatro, por mais sérios que sejam, acabam virando um BBB mesmo. Atores são cínicos ingênuos, todos - todos querem ser amigos, e sem se perceber estão todos abraçando, apertando e beijando desconhecidos num impudor dos diabos. Além disso, há as desistências, os "paredões", como nós chamamos. Se me lembro bem houve quatro desde o ínicio, duas moças que tentaram conciliar o curso com a faculdade (no mesmo horário, pérolas da inteligência) e foram eliminadas; um senhor de sessentas anos, José, de quem eu gosto muito, que saiu para fazer uma peça com Constantino, um outro José que não sei pronde foi e por enquanto é só.

Mas eu ainda prevejo outros paredões. Alunos marcados por professores, alguns comportamentos estranhos... Enfim, muitas emoções nesse BBB de nós mesmos. Mas o pior veneno, a maior vileza de nossa 'casa de vidro' cênica apenas começa a destilar entre nossos participantes: o amor.

Ou coisa que o valha, porque amor, óbvio, não é, amor nunca é. Amor não é veneno, amor não se destila furtivamente em nossas almas. Apenas agora se manifesta o desejo, a obsessão e o sexo. Ontem no burburinho vi a primeira apoteose e, confesso, quis chorar.

Primeiro descobri os fumantes - todos sociais, assim como eu, mas me surpreendi com o cínismo de nós todos, ou responsabilidade, vamos às aulas sóbrios, limpos e saudáveis, não enfio o dedo na cara de ninguém pelos seus vícios se não na minha própria.

Mas já temos nosso primeiro triângulo. Fulano que agarrou Cicrana. Fulano queria mais, Cicrana menos e acabou agarrando Beltrano. E o futuro disso não sei. Sei do bico de Fulano, sei da falta de olhares de ambos, sei dos laços que se estreitam e se contorcem e se quebram na égide do desejo que nos punge a nós todos.

E vi mais, vi um homem apaixonado ver a mulher amada atraí-lo e rejeitado para seu bel deleite enquanto ostentava alianças nos dedos. E vi um amigo sofrendo de amor por uma bêbada promíscua.

O problema dos bares é esse: cria as amizades mais fortes ou transforma qualquer colega num pedaço de carne estragada - dura, fedorenta e sabendo à moscas.

Desculpem a repetição, mas quero enfatizar: Pensem, em uma noite, ver uma moça que aos teus olhos sempre fora uma mulher linda, uma mulher boa - numa bêbada promíscua.

Não, não somos personagens de romance, mas o contraste é gritante, é estúpido.

E há Ingrid. Meu maior afeto, por ela ponho minha mão no fogo e deixo queimar, por ela enfrento o que precisar, por ela rio e por ela choro. Estou prostrado e submisso aos seus pés porque é uma pessoa boa, uma pessoa capaz de amar qualquer um despregada de preconceitos. E isso não tem preço e isso não se perde.

E essa musa de sonho, essa doce ilusão de meus olhos, minha grande amiga e afeto, vi estrebuchada no chão da sarjeta, rolando e gritando como uma epiléptica enquanto tirava sua roupa aos indigentes do Recife antigo e aos garçons constrangidos, enquanto tentávamos a levantar e a acalmar. E a vi tombar em estranhos, e a vi derrubar mesas, e a vi ter crises de histeria e a vi babar e rosnar como um bicho. E vi com olhos crus, sem qualquer beleza, sem qualquer poesia além dos versos concretos da carne. Sem qualque metáfora, sem qualquer floreio, apenas dos olhos, tal qual ela é.

E a pusemos no carro. Mauro, como o homem bom que ele é, a deixou em casa enquanto ela gritava e tantava sair do carro pela janela, do cais de Santa Rita ao Catamarã. E eu ao seu lado, triste como um tubercoloso. E tudo que eu queria era chorar. Muito.

Me despedi por monossílabos (porque também fui deixado na porta de casa por um cansado e sonolento Mauro, desiludido e sóbrio) e fui chorar no sofá. Muito.

quinta-feira, março 12

A mulher sem sorriso

Túlio me liga "Preciso de você para uma música". E eu, triste "Ruim pra chuchu Túlio, ensiaos e tal..." Mas a curiosidade falou mais alto, perguntei

- É do que hein?

- Conheci uma mulher que não sorri.

Parei tudo, até mesmo o GTA, que estava jogando (quase consigo as seis estrelas). "Como é?" Desliguei o jogo e corri ao bloco de notas, o quadro que me pintaram foi esse que humilde, e com as flores da minha imaginação, apresento.

Na faculdade Maurício de Nassau há uma mulher que não sorri. Seu nome ainda me é um mistério, o que reforça a poder de mito de Fulana. Seu rosto é bonito e geométrico como As Senhoritas de Avingnon, de Picasso, olhos agudos, queixo anguloso, bochechas lisas e testa retangular. Entretanto a boca é uma linha árida e imóvel.

"Mas ela nunca sorri?" E Túlio como quem diz amém para o padre na missa "Nunca, é como se ela tivesse transtorno bipolar de um lado só. Seu rosto é tinta seca na tela".

Me surpreendi com aquela estátua, aquele monumento vivo à beleza estática, proporcional e completamente desprovida de vida. "Ela ao menos fala?" Eu queria qualquer coisa, queria ao menos imaginar o timbre de sua voz.

"Ih..." Foi a resposta profunda de Túlio. Eu não entendi, tão profundo que foi "O quê?". Ao que parece, uma amiga em comum classifica Fulana e suas amigas como o "grupo da cobra lagartixa". Não me explicaram o que exatamente a expressão quer dizer, mas alguns dados podem levar o leitor às próprias conclusões:

1) ambos são répteis, sem qualquer calor próprio.

2) ambos rastejam

3) lagartixas são esguias, e sobem pelas paredes quado ameaçadas

4) ambas vivem abrindo a boca para não dizer nada

5) (meu favorito) cobras - não todas, eu sei - são venenosas. Mas as que não são venenosas esmagam a presa até morte. Tanto melhor.

Eu me pergunto, eu quase a posso ver em meus olhos de dentro: nem alta, nem baixa, nem gorda, nem magra, nem branca, nem preta; Enfim, nem bela, nem feia - o corpo definido na acadêmia. Os cabelos, nem assim nem assados - escondidos pelos cremes e o salão. Da personalidade, nem se sabe, é definida pela roupa, pelo sapato, pelo batom.

Nelson criou para seu imaginário a grã-fina das narinas de cadáver, e há quem pense "é um tipo do século". É nada. Há mulheres cuja mulher interior jamais transparesse, jamais se expõe - verdadeiras bruxas da aparência.

O que me tocou foi que de toda a descrição, e pedi detalhes, pedi qualquer detalhe, sórdido, ciumento, belo, poético, ridículo, qualquer detalhe me era importante. Mas tudo que ele pode fazer foi descrevê-la. "É uma obsessão Diogo, o gelo de seus lábios me enlouquece". Imagino.

E vale aqui espaço para um alto contraste e alguns elogios deslavados à uma grande amiga. Calu, namorada de Túlio, justo oposto à 'bruxa da aparência' sem sorriso. Calu é assim como é - basta olhar se vê que é morena, que de olhos fechados sempre parece sonhar. É possível ver seus olhos, a curva de seus lábios, as sombras de seu nariz. A luz refletir em sua testa. Há mulheres tão enfeitiçadas pelo próprio blush que a luz é absorvida pela rubra maquiagem antes mesmo de atingir seus rostos. Assim é possível ver a mulher e admirar a mulher. Só num mundo completamente artificial, com pessoas completamente artificiais, somente no tempo dos "filhos de incubadora", somente na era do enlatado, do conservante, da anorexia um homem poderia amar a máscara de mulher frente à uma mulher deveras.

Me dispus inclusive a imaginar razões racionais para justificar a maldição de seu sorriso.

- será banguela? Se banguela for e filha de família afeiçoada, pode achar pouco educado mostrar as gengivas nuas em público, e assim é na verdade uma mulher de família, com pudores. Mas nem para contrair os lábios? Acho pouco provável. E se qualquer fiteiro, desses que ficam na porta do Teatro Santa Isabel em dia de espetáculo, exibe até com certo orgulho um sorriso de três, às vezes dois dentes, que mal faria se banguela fosse mostrar as gengivas nuas. Vemos tantas outras coisas nuas na televisão que um par de gengivas ao vivo não machucaria muito.

- Será cardíaca? É possível, assim, talvez tenha medo de num excesso de fôlego ter, por exemplo, um enfarte. Mas mesmo assim, nem um leve crepitar, uma contorção, ainda que grotesca. Será possível?

- Terá uma doença grave nos músculos? Pouco provável, Túlio não citou tal e essas coisas se percebem fácil.

Quanto mais penso no assunto, mais me convenço que para uma existência sem sorriso não existe poesia, amor, ódio. O homem que nunca sorri é com uma pedra jogada no mundo para ser devorada pelo vento sem jamais ter dado um passo por vontade própria.

Outra coisa que vale é o caso, que a amiga em comum descreveu - Fulana tem duas amigas - Cicrana e Beltrana (perdão não ter os nomes, no futuro tenho certeza que eles virão). Bem, Cicrana viu que Beltrana usava o mesmo esmalte que ela, com as unhas à mesma maneira (à francesinha) e exigiu que a outra, em nome da preservação da identidade de ambas como indivíduo, se retratasse e mudasse de esmalte.

Beltrana, indignada, alegou que fazia as unhas àquela maneira muito antes de Cicrana e que ela deveria mudar as unhas a fim de recuperar sua identidade como indivíduo, há muito perdida na cópia de Beltrana.

A discussão se estendeu semanas, há quem diga meses, sem novos argumentos de ambas as partes e sem que qualquer uma arredasse o pé. Falam até mesmo em trapaças, em trocas de esmalte furtivas nas bolsas, ou até mesmo pimenta em baixo de unhas. No entanto, esse carnaval de 69 apoteoses só encontrou seu fim quando Caras mostrou, em reportagem de cinco páginas, as novas unhas da Amy Whinehouse (não leitor, ela ainda está viva, pois é) - quando ambas mudaram discretamente as unhas e ainda não perceberam que continuam se copiando.

Túlio está obstinado, é um compositor talentoso e decidiu conseguir uma música, uma melodia poderosa o suficiente para derreter o gelo nos lábios de Fulana. Uma melodia capaz de fazer uma mulher sorrir. (como isso é lindo, boa sorte em sua empreitada Túlio).

De mim ele queria ajuda com a letra. Diga que tem medo que ela seja banguela, pode ser que isso empurre uma risada. Mas acho que a solução é pueril para um desafio tão nobre.

Apesar de tudo, ainda falho para explicar o mistério da mulher que não sorri, que sente, imagino, mas se permite sentir apenas até a estátua, até o frio mármore de seu batom.

quarta-feira, março 11

O banco

Minha dedicação profissional é notável, pelo menos para a literatura. Já à engenharia...

Túlio me ligou "saudade da porra!" eu "Também ouxe, vamos tomar uma no Mercado da Boa Vista?" ele "bora"

Inventei uma entrevista profissional no serviço e fui ver Túlio.

Não importa se você ganha nove ou nove mil reais por mês, não há dinheiro que pague uma uma tarde de papo-furado com um amigo, e Túlio não foge da regra. "Mas o dinheiro da cerveja?" Perguntarão os idiotas do consumo, "se não houvesse dinheiro, sentaríamos num banco de praça e conversariámos do mesmo jeito" eu remendo.

Falando em banco de praça, um protesto. Estava voltando da Aliança Francesa com Lydia Mesquita e Roberto França, futuro professor de inglês da universidade federal e gatinho solteiro, a quem interessar possa conferir no nucleo de línguas do CAC - e é comum sentarmos nos balanços da praça do Derby para batermos papo.

Aquela foi a primeira noite que fizemos isso após a reforma na praça. Aliás, sobre a reforma na praça, perdão minha falta de informação, mas por quê os corredores de areia? Faltaram os blocos, os operários para os blocos ou o dinheiro para os blocos? O governo não costuma aprovar obras sem orçamento e eu duvido que exista um paisagista burro o suficiente para assinar um parque com aqueles grotescos corredores de areia.

Ademais, dinheiro para os funcionários não faltou, foi o que descobrimos eu, Roberto e Lydia, quando um grupo de serventes que pernoita na guarita, no meio do parque, veio nos dizer que não podíamos sentar no balanço, ora veja.

Quase pus um ovo. Primeiro porque o servente lembrava o Leoncio do pica-pau - gordo, bigode de leão marinho e palpebras de Buldog, e nunca me imaginei submisso à Leoncio, culpa do meu ego, claro. Segundo, e me perdoem os defensores dos direitos do uso dos balanços para as crianças, mas o homem não tinha mais nada para fazer?

Já passavam de dez da noite, não havia mais crianças no parque, eu não fico empurrando meninos de dez anos para sentar no balanço. O charme, a poesia está na praça deserta (nem deserta ela fica agora, com os amargos dos serventes) e no movimento humilde do balanço.

Se alguém com mais instrução se dispor a me mostrar que meus assutadores 60 kilos ou os 50 e pouco de Roberto ou a levíssima Lydia são capazes de prejudicar o brinquedo e por tabela as crianças, humilde eu me retrato deste protesto. Mas caso contrário o homem que vá descascar bananas.

Nada mais inconveniente que um amargurado. Os executivos os adoram para posições de chefia, são incansáveis, minuciosos e notavelmente chatos. Meu chefe, por exemplo, mas dele falo depois.

Ignorei sumariamente o homem, compreendi que ele tinha ordens, mas só as exerceu pela própria tristeza que carregava na alma. Mas Roberto e Lydia, aturdidos pelo senso de ordem começaram "Vamos Diogo, não tem mais clima". Por mim só saia levado pela PM.

Contei o caso em casa e meu pai me perguntou "E se a PM pedisse?" eu, muito sério, não vendo o sinistro humor de meu progenitor escondido na pergunta "Eu saia, claro". Os abjetos me verão como um rebelde, um metido. Mas não, a PM tem mais o que fazer, e há sempre uma viatura rondando a praça do Derby, justamente pelos indigentes que rondam o lugar à noite. Outro motivo para a dispensa do servente, que fica ali fazendo nada e enchendo meu saco. E se a PM, que tem mais o que fazer, for se incomodar em me tirar de um balanço, ou eu realmente estou oferecendo um perigo à segurança nacional ou a amargura do servente é sem precedentes, de ambas as formas eu jogaria a toalha branca.

Joguei por Roberto e Lydia, mas aquilo me marcou como o primeiro tapa de um pai marca um filho. Aquele balanço era um lugar meu para ficar sozinho, e o dinheiro dos serventes, que poderia ao menos terminar a obra que sabe Deus por que está pela metade, serve para manter um bando de velhos amargos roubando uma parcela da poesia da cidade do Recife - A solidão de um balanço, na praça deserta, sob a luz sépia dos postes, lado a lado com a multidão do terminal, apressada e atarantado em ir e vir para lugar nenhum.

terça-feira, março 10

O buchinho

Aluadaa, uma das musas do rato, atende também por Stephanie Alcantara é uma moça assim, assim - Delgada, de olhos agudos e uma boca tão grande que faz o sorriso das carrancas parecerem biquinhos.

Falei em Aluadaa (dois 'a' mesmo) para falar em outra das grandes belezas do rato: o buchinho; Que é muito mais uma atitude politica do que estética, e Stephanie, musa desta tese, é a prova viva. Qualquer um que a veja não encontrará mais magra, mais esbelta, entretanto basta a intimidade de lhe dar um aperto de leve e lá estará ele: um buchinho moreno, macio e agradavelmente apertável.

A explicação física é óbvia - qualquer um que se preste à certas maratonas de cerveja, como os ratos comumente se prestam - não pode escapar sem as cicatrizes da batalha. O que vale a nota, a contemplação é a beleza deste adereço, que torna as donzelas fofas e os rapazes mais atraentes (sic). Pedro Augusto, Onirê, Túlio, Basílio, Cidão e Joca, todos grandes difusores da filosofia do rato - Acaso algum tem laranjas no abdômen? Claro que não, todos sustentam um bem torneado e sexy depositário de cerveja abaixo do umbigo, para as vacas magras.

Digo mais, é muito importante cuidar do corpo, coisa e tal. Mas quem ama não tem tempo para séries de dois mil abdonimais por dia. E em absoluto os ratos preferem o amor e as mesas do Novo Pina à qualquer série de abnominais.

Não que sejamos de todo sedentários. Na verdade e em maioria, somos. Mas Basílio mesmo, ano passado, dava corridinhas na Beira-rio com Bruna... Está bem, eu desconfio das intenções de Basílio nessas corridinhas, mas ele dava e isso é o que importa.

Calú mesmo, outro dia, disse algo que vai ficar para a história. Estávamos andando na cidade eu, ela, Túlio e Jean. Passamos em frente à uma loja de artigos esportivos, eu suscitei o assunto para perguntar se ela iria com Túlio ao estádio assistir (lamentar) os jogos do Náutico e ela "Claro, por isso mesmo que estou com Túlio, nunca tive um namorado esportista".

Nem oito nem oitenta, é verdade. Salvo a poética da hipérbole, é importante notar como ela vê Túlio como um rapaz atlético, mesmo que ele, como qualquer membro do rato, tenha sua cota de cerveja armazenada na barriga.

Inclusive passo a desconfiar que os membros do rato, por processos míticos desenvolvem mesmo um orgão oculto, à parte, na frente dos intestinos, embaixo do umbigo e acima da bexiga, unica e exclusivamente para o armazenamento da cerveja e molde do bucho.

Tudo isso para dizer, que altos, gordos, magros, baixos, carecas ou cabeludos, o bucho não só nos identifica como membros do rato como nos enobrece como seres humanos.

Ratão

segunda-feira, março 9

O ovo

Numa vitrine do shopping Boa Vista, há um ovo de páscoa que custa R$150,00, o ovo é imenso, mas a etiqueta com o preço é quase tão grande quanto. Não cheguei a ver o ovo com meus olhos, me contaram o causo, minha primeira reação foi "e é de ouro é?" a pessoa que me contava enfatisou "mas é enorme o ovo!", "Não importa" disse eu, "fosse de ouro maçiço eu não acreditava no preço. O ovo é algo que que a galinha bota, e nada que uma galinha bota pode ser tão caro".

Agora o impressionante, o absurdo de lúcido foi a resposta de meu interlocutor "É verdade, se fosse tão bom ela guardava para ela e não botava pra fora". Assunto encerrado. Eu desafio qualquer 'intelectual' com vaidade por seus diplomas a atingir a metafísica dessa frase.

Falando em metafísica vou falar de Antonin Artaud. Eu sabia do causo, mas ainda não sabia do conteúdo da crônica até digitar metafísica. Artaud era um louco gerado, pode-se pressupor que sua lucidez era grande ao ponto da clarividência. Assim, quando suas idéias chegaram ao extremo oposto do moralismo hipócrita ele foi internado e tido como louco. Sua loucura era tão lúcida que seu médico no sanatório mantinha correspondência com ele, e o incentivava a escrever e a pensar enquanto o mandava para o eletrochoque "pense num soneto Artaud - enquanto se virava para seu assistente - Mais seis volts, por favor".

Artaud acreditava numa metafísica da cena e qualquer elemento que a compusesse - sonoplastia, cenografia, gesto, voz, raio laser. Eu não acredito em metafísica nenhuma. Mesmo num palco, qualquer ciclo fechado é frívolo. O que ele queria dizer, é claro, é que justamente meu argumento para contradizê-lo: Que nossos excessos de psicologia tornam a ação em cena vazia. Por isso o gesto preciso de um significado. Eis o argumento para a metafísica cênica. Nada mais claro que o diálogo dos loucos.

Além, ele escreveu em francês, e como diria Nelson Rodrigues "Toda idiotice escrita em francês soa como uma verdade absoluta e incontestável, enquanto nós temos que nos esmerar para parecermos inteligentes catando cacos em português" Nem tão verdade, nem tão mentira, não é Nelson?

Falando nele, outro louco. Acabei de ler que em vinte anos desde que seu teatro se iniciara nunca houve um que se manifestasse nas ruas contra a interdição de suas peças pela censura. E no primeiro movimento deste tipo a ser realizado no Brasil, já na ditadura, lá foi ele pedir pela liberação dos espetáculos alheios. Ao lado dos que o chamaram de tarado.

Falando em tarado, nada mais tarado que a imprensa brasileira. E agora hipócrita, antes do jornal limpo, de copydesk, pelo menos havia algum romance e nenhuma pretensão de imparcialidade no jornalismo. Hoje além de parcial, a impresna é hipócrita e insossa. Perdeu tudo numa só tacada. Puro medo da inteligência das classes menos abonadas.

Falando em medo não sei por quê. As classes menos abonadas estão às favas com o jornal. O jornal poderia ser o último reduto estilístico, pelo seu quase anonimato ou ancestralismo. Hoje a informação está na TV, acima de tudo. A internet está chegando, uma nova realidade desponta aos poucos para grupos emergentes. Mas olho para meus pais, olho para as casas dos vizinhos, dos parentes, e choro: Lá está ela, ainda dominando o pensamento.

A TV sim se dá o direito de alguma poesia vendendo idéias, comportamentos e estética em suas novelas, o instrumento mais poderosos de massificação já criado na história da humanidade. Minto? Talvez sim, talvez não.

domingo, março 8

O Espelho

Digo sempre ao meu irmão "Ponha a mão na consciência". Bem, hoje é minha vez.

Pensei na crônica de hoje durante meu banho ontem. E todas as idéias que tenho embaixo d'água soam tão geniais que ao passar a toalha nas costas já a tinha por certa.

Todo literato é um grande Narciso. Digo mais, é a evolução de Narciso, tão apaixonado pela própria imagem que convida os outros à assisti-la através de suas palavras. Perto de um literato, Narciso é humilde. E não sou exceção à regra.

Túlio me ligou ontem. "Gostei muito da coluna, Onirê é mesmo um gênio" - é mesmo - "tem uma sutilezas legais, coisa e tal..." E eu, um vendido, derriti antes mesmo da primeira palavra, me vendi na primeira inflexão de elogio.

E pus a mão na consciência, como sempre aconselho ao meu irmão. Essa coluna é ficcional porque ponho palavras na boca dos outros, aumento este ou aquele contorno que considero importante ao ponto da fraude, se não pior. Mas intrisecamente ligada à pessoas e fatos reais. Faço todo o possível para não ferir ninguém - invento pecadores, troco santos, chamo padres, o diabo. A principio não vi mal nenhum nisso porque tinha certeza que ninguém lia então poderia exibir nua e crua uma visão íntima do mundo que me cerca. Mas já sei de duas pessoas que estão lendo, aí a consciência pesou.

Não mentirei, quando sento para bater estas palavras, elas sempre saem ácidas, amargas e um pouco irônicas. Decidi que não posso fazer folclore às custas de meus amigos se não fizer comigo mesmo antes.

Assim, farei o que nenhum literato jamais fez, algo quase inédito e maldito na literatura. Pelo menos dentre esses meninos de famílias boas - Drummond, Vinícius, João Cabral, Cecília, Nelson, Bandeira - Cuspo no espelho e mostro no meu reflexo meu maior demônio, meu fantasma mais profundo. Só assim, mostrando a hipócrisia de mim mesmo, estarei livre para olhar o mundo com meus olhos. Seguirei o exemplo do poeta pobre, que nunca escondeu quem era, vou de Lima Barreto.

Conto para quem quiser ouvir, e contei para Túlio inclusive, na primeira noite em que bebemos e fumamos toda sorte de aventura sexual protagonisada pela minha pessoa. Potoca. Sou virgem como um recém-nascido. Tenho certa vaidade pela mentira, esmerada, colhida e criada como uma personagem de mim mesmo em mil e outras aventuras de terceiros que eu, como escritor e ator, soube escutar, moldar e representar.

Sem dúvida meu maior arrependimento foi para com uma mulher que tive que soube de meu legado fraudulento antes de saber a mim mesmo. E eu, mesquinho, mantive o mito pelo mito. Meus motivos? Medo da chacota, uma apavorante, absurda, inexplicável vergonha de mim mesmo, da minha condição impotente, humana.

"A verdade é questão de maturidade" Já dizia minha avó. Vivi o suficiente para ter os olhos capazes de escrever essas palavras, portanto já vivi o suficiente para aceitar o rídiculo de meu erro e as sombras de minha hipocrisia.

Cuspo no meu espelho e finalmente, abro os olhos.

sábado, março 7

O baile

A moça que intermediou meu encontro com Túlio, ou seja, a principal irresponsável pela minha participação no Ratão, Joana Liberal, a moça ex-careca mais linda que já tive o prazer de conhecer fez anos dia quatro de março e comemoramos ontem.

Coisa curiosa essas festas de aniversário. Mudam os dançarinos mas o baile é sempre o mesmo. O bar, Capibar, fica às orlas do rio e vale a propaganda: um decoração mais que interessante, que se vale de materiais recicláveis e quinquilharias, como globos de garrafas pet ou colunas de latinhas de alumínio, línguas de sacolas plásticas pelas paredes, orelhões espalhados em três pontos do bar, velhos, inúteis, como estandartes da decadência. Um grande espelho à la "Bonequinha de luxo" na entrada, segundo Dandara. Um casal de proprietários cujas barbas e a simplicidade exigem, no mínimo, dignidade. E conectando o bar ao Capibaribe as tábuas que servem de cais do porto para uma jangadinha devorada pelas traças.

Mas quanto aos dançarinos e o baile - primeiro todos estão sentados, um rapaz escolhe as músicas, primeiro sambinhas inteligentes, cult (porque todos são cult depois do João do Morro), as cervejas vão e vem, pessoas chegam, se reconhecem, se abraçam, mais cerveja e alguém vai para a pista, um mais corajoso.

A festa é definida sempre pela primeira pessoa que pisa na pista, ela é a responsável pela segunda, a terceira e todas as outras. Quando já existem rodas na pista, e tudo é calor, e o suor se confunde com as respirações a festa aproxima-se da apoteose.

E por apoteose eu digo a ignorância à qualquer inteligência. Do samba ao brega, do brega ao funk, e vemos, para qualquer alívio da evolução, moças lindas, engenheiras, psicólogas, envergadas como se envergavam os camponeses em certas torturas medievais enquanto gritam, enlouquecidas "sou uma cachorra!" Amém.

Pena que não dancei, ontem me senti um vouyer: observei muito amiúde a curva dos corpos, o detalhe dos vestidos, como uma moça tirou os sapatos para dançar e como era mais bonito o contato direto e carnal de seu pé com a pista em meio ao furor, ao esquecimento coletivo. Danado é o homem que por amar todos não ama ninguém, o asno.

E é como o relógio que para sempre se repetirá no ponteiro das doze. Dias atrás meus pais me contavam de seus bailes. Idênticos. Há coisas na vida que se repetirão à eternidade: o adultério, o furto, a falta de amor e os bailes de adolescentes, mudarão os instrumentos, mas a partitura permanecerá.

Capibar

Para a direita e para a esquerda
A cidade se esconde
Pela muralha de árvores que vela o rio

Morcegos Kamikazes cortam razantes as margens
E diluem sua forma entre a noite e as águas

O brilho de uma estrela, de muito a olhar
Tem setecentas cores - todas morrem
Refletidas nas águas sujas do Capibaribe
No que passa uma planta e as apaga

Donde estou, as tábuas são tão antigas
Que contam histórias
Se as ouvir em silêncio

As televisões emanam apenas mofo e pó
Nenhum comercial, nenhuma novela
Graças!

As garrafas de plástico formam lustres
Brancos, vermelhos e amarelos

Latas são velas de alumínio escorrendo
As paredes de Pepsi, Coca e Kuat incandescentes

Os orelhões, carcomidos e enferrujados
São, ora, túmulos de anjo
Ora, berço de Iemanjá
Horizontais e acústicos

Sacolas de supermercado
São línguas na parede

Um bote solitário chora a lua
Cujo reflexo circunda a geometria de suas tábuas

Enfim, na fluência do rio fluem as pessoas
À mercê de qualquer ritmo, qualquer compasso
Refluem como as águas que as cercam

E a noite são curvas, e a noite são ondas
Que torneiam joelhos e balançam cabeças
Cacheadas, louras, carecas

Untando corpos com o lacre do suor
Pelo canto do bacurau até o grito do galo
Enquanto o rio permanente e cinza
Segue espelho dos homens

sexta-feira, março 6

O cínico

Quanto vale o cinismo? Numa mesa de sinuca jogam dois homens contra duas mulheres, um rapaz acompanha a partida, enquanto fuma. "Aposto dez contos nas meninas" ao que um dos rapazes do time adversário responde "topo"; e começa o embate.

Uma das moças desde o primeiro ano ginasial, ou seja, desde os quinze anos de idade, gazeia aula para ir na sinuca, aquela mesmo, naquele mesmo bar, o cavanhaque da federal. Isso mesmo, ela é aluna do colégio de aplicação, passou por concurso, derrotou não sei quantos mil concorrentes e passa manhãs a gazear aula no cavanhaque. Hoje estuda na faculdade federal, passou direto no vestibular. E não assiste uma aula.

O que importa é que ela derruba as bolas como se elas fossem feitas de ferro e as caçapas fossem imãs. Num momento glorioso, faltando uma bola para decidir a partida, o rapaz divide um cigarro com ela e comenta "Você é melhor investimento que já fiz na vida" ela retruca, olhos brilhando "que bom, eu tô precisando de um empresário".

Não foi preciso mais. Cada ouvinte em potencial sentiu frêmitos pelo diálogo, cortante, inteligente. Não aconteceu nada, nunca acontece. Eis o preço do cinismo.

Gusmão era gordo, ficou magro e se engraçou para o lado de Luciana. Passou dois anos com ela, que como uma verdadeira Joana, de Gota D'água, o inventou - lhe pôs em trajes, lhe ensinou a fazer samba, lhe levou bêbado para a cama, e se deitou, e tirou sua virgindade, e lhe lavaria a cueca de domingo, se esse permitice.

Mas Gusmão não permitiu e findo três anos ele queria mais, até hoje diz "casava com ela, caso com ela!" e depois, como num remorso de si mesmo "mas sou novo. Minha vida não pode acabar aí". E ele foi ver onde a vida acaba e encontrou outras mulheres, adultério, desilusão. Hoje anda com uma namorada no cabide, mas ela vira as costas ele diz "Não sei, não vai durar muito..." Mas ela retorna e retornam os beijinhos "meu amor" etc, etc.

Nem sempre são eles, em todo amor que se preze há um iludido e um cínico. O mistério do amor está na doação para o vazio, e ninguém preenche melhor esse papel que o cínico. Alguns se pungem de remorsos e recuam no último momento, alguns melancólicos simplesmente desistem de amar, os honestos admitem "pode ficar comigo, mas saiba que não sinto, só desejo" e os cafajestes vão às últimas consequências e permitem que os iludidos trancem, como inocentes, a corda que no futuro lhes servirá à forca.

quarta-feira, março 4

Popularesco

A única sabedoria útil é a popular. Não confundamos com a unânime, mas a popular. A do indivíduo popular, da pessoa única, singular, que dentre a maioria e destacando-se como representante da mesma demonstra sabedoria.

O presidente é um nítido exemplo disso, pena que ignore os dizeres e só lembre que veio "do povo" ignorando o "para o povo e pelo povo". A grande inteligência de nosso 'Aurélio às avessas' é a esmola legislada, entregue como uma engrenagem à uma maioria campestre, marginalizada e alienada todos os meses pelas agências do banco do Brasil e postos credenciados.

Mas não é dessa sabedoria egoísta que trato. Trato da sabedoria de Onirê, que na mesa do bar me dizia "Diogo, você nunca vai se realizar como homem enquanto não assumir que é um cafajeste, põe isso na cabeça". E eu, relutante "Mas eu queria amar de verdade, queria experimentar um sentimento!" E ele, me lendo por dentro "Mas você não sonha, não fantasia só com cafajestagem?" Eu "sim, mas... tenho excrúpulos" E ele, definitivo "Então, são esses escrúpulos que te impedem de se realizar".

Fui vencido pela retórica. E pelo carnaval, ora veja. Tantas pessoas pelas ruas, pelas ladeiras, a multidão se funde tão profundamente em nosso espírito que ela nos acompanha à nossa casa, deita em nossa cama e assombra nossos sonhos. Antes da quarta-feira de cinzas já nos deitamos, acordamos e amamos não mais como indivíduo, mas como multidão. E durante as troças, ao passar dos blocos, em cada esquina uma fantasia, e todas solicitas, alegres, repletas de corpo e de fluídos. Nessas condições, ou se morre de solidão ou a folia enraiza na alma da gente.

E a retórica de Onirê foi clara, é preciso amar muito, todos que se puder. É preciso se doar aos outros tanto quanto os outros te desejam. Desejar não é satisfazer suas fantasias, mas satisfazer as alheias. Não digo que ninguém deva deitar-se com buchos porque elas querem, não desejo tal sorte a nenhum companheiro e à nenhuma companheira. Digo apenas que é melhor se dar.

E quanto à se dar e ainda sobre a útilíssima sabedoria popular, conto um causo. Sentaram conosco na mesa do cavanhaque duas amigas e uma fez uma lista das cantadas que recebera no carnaval, entre elas figurava "você pega ônibus? Porque você está no ponto." ou "Aposto um beijo que levo ou fora", etc. etc.

A cantada é um verdadeiro reflexo da cultura e criatividade de um povo. Você não vê literatos, velhos e chatos, publicando suas cantadas. Entratanto uma cantada não é qualquer texto à toa. É preciso o domínio da concisão, da função apelativa ou emotiva, de senso de humor e subtexto, sem falar das qualidades poéticas, como o uso de metáforas ou matonímias. Enfim, uma cantada é uma verdadeira pérola literária popular, como um berro de Dante proferido pela massa.

E isso sim é útil, assim como "cada macaco no seu galho", "passarinho que come pedra sabe o rabo que tem", "quem cochicha o rabo espicha" e tantos outros. A sabedoria acadêmica, que existe de si para si mesma, visando seu enobrecimento, é tão vistosa e vazia quanto as esmolas do Presidente.

terça-feira, março 3

Deus e o Diabo no mundo de Pedro

"Nada mais socialista que um baseado". Partindo dessa frase lembrei de outro causo que vale contar.

É sobre Pedro, outro fundador do rato e um dos principais líderes do movimento. Eu o conheci no gramado do extra, oita da noite, bêbado, rolando e dormindo no colo de uma amiga.

Ele estragou meu encontro naquela noite, era meu primeiro encontro com uma garota linda, de cachinhos dourados. Marquei com ela no cinema da Aliança Francesa. O filme estava chato pra burro, é verdade - e eis que no meio da projeção o celular dela toca, atende e me diz "Diogo, minha melhor amiga tá de babá duns três bêbados lá no extra, vou ter que ajudar". E eu "tá, vamos".

Os bêbados eram Pedro, Arcoverde, e outro que já esqueci quem era. Onirê estava lá também, se não me engano. Realmente Dani era a única moça naquela roda de etér e testosterona. O esport tinha ganhado um jogo aí, eles gritavam "casa, casa..." de vez em quando, mas isso foi tudo. Até Pedro começar a falar.

Não sei por quê, onde, nem como, mas Pedro Augusto, bêbado no colo de Dani, me olhou nos olhos de uma maneira transcendente e absoluta e disse: "Mermão, tu tem que entender que o Diabo é o cara mais socialista que tem. E Deus, Deus é capitalismo selvagem mermão!"

Eu, humilde, "como é?" - Ele "isso mesmo, vê a cor pô; a cor do capeta é vermelho, vermelho é a cor do socialismo, da luta de classes, tu acha que é de graça isso? É tudo pensado! O Cão foi na casa de Marx, que era considerado na época, entrou de sola e 'agora tu vai escrever pra todo mundo meu regime de governo, agora é a vez do Cão!' Marx que não era doido e tinha pacto com o coisa ruim aceitou, só o que ele fez foi copiar o ditado do outro. E quase deu certo - Mas Deus não quis, Deus é eletista mermão, ouve aí, no céu só entra quem ele quer, só entra a elite politizada de extrema direita. O inferno não, é aberto, entra qualquer mundiça. Aí a prova!"

Me assombrei tanto com aquelas palavras, com aquela verdade inapelável sobre o bom, o mal e os regimens de governo que quase esqueci da galega.

Engraçado como ébrios somos mais lúcidos. Onirê mesmo, no cavanhaque, me disse "Diogo, a embriaguez não tem nada a ver com o álcool" verdade, verdade. É um estado de espírito, pode surgir do álcool tanto quanto do ciúme, da feijoada ou da dor de corno.

Inclusive isso também explica porque cada bêbado é diferente. Se fosse uma reação simplesmente química os bêbados seriam mais ou menos iguais, posto que a homeostase humana é similar. Mas não, como um verdadeiro estado de espírito, psicológico, transcendental, a embriaguez define e molda a indivíduo. Quem nunca viu os bêbados por vocação, por exemplo, que vão sozinhos aos bares e só voltam de táxi. Ou os por desculpa, que ao primeiro gole de cerveja assumem a própria embriaguez e podem, à vontade, fazer tudo que não poderiam sem a farsa, a falta de responsabilidade do álcool.

Existe, é fato, uma verdadeira fauna de bêbados e não pretendo esgotar o assunto aqui, cada um libera seu grito mais profundo, mais pungente, sobre a máscara do álcool.

Dizem que o nariz de palhaço é a menor máscara do mundo, a que cobre menos, a que mais obriga o indivíduo a se expor, tarefa apavorante. O álcool seria então, em oposto, a maior máscara do mundo, que lubrifica todo o corpo, isentando o indíviduo de qualquer consequência por sua exposição, mostrando ao mundo quem se é realmente.

Mas só isso por hoje, não desvendar os bêbados nessa crônica ou ela vira ensaio.

Ratão

segunda-feira, março 2

Perfume de Lúpulo

Vou deixar Túlio me esperando no amarelinho. Paciência Túlio.

Hoje preciso falar de Onirê, outro fundador do rato, figura importantíssima no movimento - cientista da computação, filósofo e orc. Estava bebendo com ele no cavanhaque, o amarelinho da federal, e não posso omitir certas passagens.

Primeiro quanto à filosofia do rato. Eu sei que ele foi para a universidade estudar, assisir aula, coisa e tal. Mas o rato, no seu momento de maior comunhão com a filosofia está sempre duro. Foi assim com Pedro Augusto, dia desses "Diogo, vamos tomar uma, suadade de porra de tu!" e eu "bora, onde?" ele, sem nennuma vergonha, numa belíssima naturalidade "No Extra, tô com R$1,50 no bolso!". E eu fui. Com Onirê não foi diferente "vamos para o cavanhaque Diogo? Tô com R$2,00 no bolso!" E eu, categórico "É agora"

Tem sempre um com dinheiro, graças, se não tiver a gente fica andando até morgar e cada um pega seu ônibus. Mas Onirê e Pedro se destacam na sutil arte de sair com um, dois reais no bolso e voltarem para casa com verdadeiras fortunas em álcool no organismo.

Mas isso não tem nada a ver com o que eu queria falar. Entre um copo de cerveja e outro ele soltou uma dessa filósofias absolutas, que jamais poderiam nascer em qualquer outro lugar que não fosse o bar "O carnaval é uma ilusão. E a gente tem que ir vivendo até que a vida chegue na gente". Impossível descrever meu assombro ante esse gênio absoluto.

Logo depois alguém esbarrou nele e a cerveja molhou sua camisa. Vocês pensam que esse gênio se rebaixou à violência? Não (queria ver Onirê brigando). Pensam que ele se abalou? Não. Com todo seu mito, sua aura, cheirou a camiseta disse, simples e agudo, "chegando em casa digo que é perfume de lúpulo. E francês"

Meu ponto é que coisas assim só nascem nos bares, não existe lugar mais propício à verdadeira cultura popular, ao desenvolvimento do intelecto, à reflexão, que uma mesa de bar repleta de copos coloridos, cintilantes, rútilos. Eu também não fiquei por menos, durante o curso da conversa um cigarro de palha ia e via vertiginosamente entre os fregueses do bar. Bebi um gole e tive um momento de luz em meio às trevas do pensamento. Respirei e disse "Não há nada mais socialista que um baseado".

E pouco preconceituoso também. Existe sobre as mais diversas formas - cigarro, fumo, brigadeiro, biscoito, chá - E só é consumido por apenas uma pessoa quando o dono se encontra completamente solitário. Mas mesmo assim ele não é egoísta, pois está de consolo ao melancólico.

Acabei não chegando nos pontos importantes. Azar, fica para a próxima postagem.

À todos que seguirem o rato, ratão

Os amarelinhos

Ainda sobre o rato. Depois do Senart e do Luciano Hulk verde guache fiquei de tomar uma cerveja com Túlio no amarelinho da Católica. Abro um parênteses aqui, o amarelinho é dessas importantíssimas entidades recifenses, toda universidade, cursinho técnico ou pré-vestibular tem o seu amarelinho, com nomes e aparências das mais diversas. Na verdade creio que isso seja um fenômeno brasileiro e até mundial. Pelo menos sul-americano deve ser. Eu nunca entendi o laço intrínseco entre o álcool e a sala de aula, mas sempre o aceitei com grande naturalidade.

Não pretendo esgotar o assunto aqui, mas darei a ele mais um parágrafo. É realmente curioso como esses bares existem de maneira etérea, além do tempo e do espaço. Não precisam de mesas bonitas, não investem um centavo em decoração, aparência, atendimento; existem simplesmente, na mais completa falta de pretensão e com a certeza absoluta que se acaso algum movimento das estrelas cause sua falência dez outros botecos igualmente despretensiosos estarão prontos para assumir seu posto histórico. São na verdade uma das provas mais ilustrativas do capitalismo: enquanto houver demanda haverá oferta. E não existe demanda mais voraz, mais obsessiva por álcool que o estudante (talvez o corno ou o melancólico do século passado, posto que o melancólico do século toma energético e usa franja, o imbecil. Mas sem duvida o estudante encabeça a lista). Comparado aos bares de universidade em termos de capitalismo selvagem apenas as prostitutas de Boa Viagem e os taxistas da madrugada. Apenas.

Os donos desses bares também merecem parágrafo: são dessas figuras folclóricas, de bigodes triunfais e barris de chopes escondidos na barriga; parecem existir desde os tempos do império e se mantiveram vivos, de bar em bar, através dos séculos. Em geral tem os dentes amarelos e uma unha maior que as outras, mística, onde deixam fermentar o tempero da carne à moda da casa. Como prova de sua idade têm sempre uma história para contar. Normalmente nessas histórias que se entregam, começam com um causo da semana, do ano e entre a terceira e a quarta garrafa de cerveja já estão contando os causos do império, ou piores. "Nos tempos de Nassau é que isso era bonito, outro dia mesmo, em 40 eu pedi a ele uma réplica da ponte para decorar o bar e etc...", eu, surpreso da revelação e crente da embriaguez do homem ainda tentei "Nassau?! 1940?" e ele, soberbo e convicto "que 1900 o quê, 1640! Maurício de Nassau, tu não estudou ele na escola não menino?! Então, mas ele nunca me deu a maquete..." revelando toda a lenda, o mito e transcendência dos donos de boteco. Outra coisa a se notar é que eles não tem qualquer pudor em sentar e beber com os clientes, consideram um gesto de amizade, de camaradagem. Se o bar está vazio e a mesa tem menos de quatro pessoas, o dono se sente o amigo mais íntimo, o padrinho oculto de cada membro da mesa, seja homem, mulher, travesti ou cachorro (nada incomum ver um dono de boteco bebendo com um vira-lata que apareceu, e convenhamos que o vira-lata é uma companhia formidável de mesa de bar - calado, fiel, compreensivo, sabe quando fazer barulhos de entendimento e presta muita atenção em tudo que seu locutor diz). Outra prova de sua ancestralidade, e da minha também, pois concordo quanto a nobreza do gesto. Nada mais triste que um estranho que permanece estranho. As pessoas foram feitas para se conhecer. Ao vivo.

A digressão está enorme e possivelmente, mas sou desses pais condescendes com minhas palavras, vaidoso e preguiçoso. Enfim, contando do dono de bar que se aproxima dos estranhos no maior impudor me lembrei de um causo. Vá lá.

Estava voltando de carona com Roberto França, grande amigo, desses com quem posso chorar sem vergonha. Mas nessa noite, era noite, não chorava nem nada. Eu visitara a igreja dele, ele fora para um acampamento de jovens com a igreja no carnaval e eles tiveram um encontro uma semana depois no culto para ver fotos, lembrar as músicas, coisa e tal. Ao meu lado no carro, estava uma tal que não me lembro o nome, nem bonita nem feia, assim assim. Se fosse Nelson diria que era dona de umas narinas de cadáver. Como não sou digo que era dessas moças de feições plásticas, uma bruxa da aparência, com pouca ou nenhuma naturalidade.

O carro estava apertado, mas eu estava completamente à vontade. Íamos conversando no carro, ela estava ao meu lado... Retifico o que disse antes: eu estava à vontade psicologicamente, meu corpo estava espremido entre as outras cinco pessoas que iam no banco de traz para o bar do Jabá. Espremido e conversando com ela estendi meu braço pelo banco do carro, tenho certeza que todos conhecem o gesto, que oferece diversas interpretações é verdade, minha intenção estava entre o folgado e o paxá. E continuava conversando com ela, na primeira risada acariciei levemente o braço dela, agora ao alcance da minha mão, com a ponta dos dedos. E deu-se a farsa.

Sou um rapaz grato, meu orixá e meu anjo da guarda nunca me deixaram na mão, mas eles poderiam ter me dado um aviso, por mais sutil que fosse, do escândalo. A moça pôs-se a gritar no carro "Eu tenho namorado! Sou moça de família! Tá pensando o quê?!" Murchei mais que uva passa. Realmente não vira essa chegando. Faço carinhos mais indecentes em Roberto, que é homem, e nunca recebi um escândalo em resposta. Todos no carro se espantaram, Roberto ia tirando a vista da direção para ver se todos viviam, uma muvuca tremenda e eu, inocente, humilhado, exclamava "Era só um carinho! Não é casamento! Não te levei pro motel! Um carinho porque fui com tua cara! Mas nunca mais ouviu?! Nunca mais!" E ela revidava minhas desculpas, transfigurada "Jamais ouviu?! Jamais!"

Nessas horas que me julgo um antigo mesmo. Aí daquele que vive sem carinho, que não aceita com complacência e humildade a carência alheia. A infame! Também nunca mais me arrisquei por ali e nem fui ao Jabá, voltei para casa, beber e chorar a falta de amor no mundo.

sábado, fevereiro 28

O Ratão

É fato que do tempo que o cronista leva para escrever uma crônica, metade é gasto no início. Escrever é como essas locomotivas antigas que precisam esquentar para pegar no tranco. Ainda no que tange essa inspiração, para o início da crônica, o tempo gasto na procura de um começo impactante é ainda maior. Pura vaidade - também medo do leitor cansar antes mesmo de ler o que você julgava ter de melhor.

Gastei meu tempo pensando em como começar bem essa crônica, mas não conseguindo nada de muito imediato irei direto ao ponto.

Nasce uma nova boemia na cidade do Recife, não uma boemia qualquer, mas uma verdadeira elite de pândegos unidas sobre a bandeira do ratão.

Outro escrúpulo que tive e mandei às favas foi quanto ao uso dessa palavra: ratão, me lembra ratos de porão, que me lembra o vendido do João Gordo e guitarras maltratadas, e ambos não correspondem ao movimento, mas optei por escrever estas palavras com sinceridade e sem muitos floreios, portanto vá lá, somos os ratos, discípulos do ratão.

Não conheço ao certo as origens do ratão, o que fortalece ainda mais sua força de mito, como essas coisas que existem misteriosamente, como o programa do Faustão e os erros gramaticais do presidente. Há muito que deveriam acabar, ou melhor, jamais deveriam ter existido, mas existem.

O que é certo são os mais de cinquenta jovens já unidos sobre a bandeira. E a cifra aumenta a cada noite, em cada copo, bituca ou guardanapo; a cada beijo, em cada língua o ratão se prolifera.

Por exemplo, Basílio, um grande amigo e sem dúvida um dos fundadores do rato, anteontem, explicava para um grupo de iniciados sobre os preceitos do movimento, depois de uma partida de frisbee com um desconhecido na praia de Boa viagem. Ele falava assim "sobretudo o rato não se mistura com o amor, negócios negócios, prazeres à parte e coisa e tal" enquanto atrás um casal de amigos se agarrava descaradamente. Não foi o momento mais feliz de Basílio, mas acho a passagem didática, sem dúvida.

Quem me iniciou no rato foi Túlio, tínhamos uma amiga em comum, uma moça careca, linda. Túlio é músico e prometeu tocar para ela no Senart, um evento promovido pelo Senai com seus alunos. Ela faz inglês lá e o grupo dela apresentou uma paródia do caldeirão do Huck no idioma dos gringos, com direito à um Luciano Huck coberto da cabeça aos pés com tinta guache verde e um dos piores sotaques que já ouvi na vida.

Pronto, eu estava só enchendo linguiça, esse é o assunto da crônica (descobri agora, é verdade). O assunto é arte, o que vou dizer é o óbvio ululante, mas a verdadeira obra de arte é sincera.

Escrito assim todo dirá "disso eu sei". Sabe nada. Uma análise do mercado de entreterimento, em qualquer meio - filmes, seriados, novelas, artes plásticas, cênicas, música - o que mais encontramos é a cópia, e pior, a cópia que se diz original. Existe algo menos sincero que isso?

Um filme, por exemplo. Vi um filme caseiro de um amigo e o achei ótimo. Não era um primor de acabemento técnico, não teve orçamento milhonáiro, mas ele soube admitir cada limitação na concepção da película. Aí a veradeira genialidade do artista! A maioria da produção artística é uma disputa mesquinha, sem qualquer humildade, para o melhor copydesk.

Essa é a reflexão que faço ao assistir um evento como Senart, daí surgiu a crônica. Nennum profissional, Luciano Huck pintado de verde da cabeça aos pés com tinta Guache, cheio de falhas ao longo do corpo, os sotaques todos horríveis, muitos risos. Porém todos os participantes se assumiram, ninguém fingiu que hulk era realmente verde e gigante, ninguém fingiu ser nativo da inglaterra. E a sinceridade das pessoas em cima do palco permitiu à imaginação da platéia voar. A mentira polui e neblina qualquer possibilidade imaginação.

Percebo, ao digitar essas palavras, que o ratão surgiu para mim anterior a si mesmo, e continuará existindo na exibição visceral de nós mesmos.

Ratão.

Voltei. Por quê?

Voltar a postar no desconceito parece piada após um ano sem escrever nesse blog. Meu projeto do ano passado, "conselhos de um poeta", terminou e algumas pessoas leram e ele deu o que tinha que dar.

Já sou outro, já não escrevo para o elogio, como fazia quando montei o blog. Mas ainda escrevo para o outro, por isso certas coisas quero publicar.

Como Desconceito é uma coisa transitória, estou mudando a linguagem, meus poemas andam chatos, obedecendo a projetos literários, coisa e tal, portanto vou experimentar certas crônicas, se possível trarei linhas novas todos os dias, acho difícil, veremos.

Abraços

domingo, janeiro 20

Ditadura do tempo

Oi,

Seis e meia é o horário em que meu expediente termina.

Seis e meia

Dá amanhã mas não dá seis e meia
Dá o relógio todo, mas não dá seis e meia


Nem metade disso
Nem um quarto do que poderia


Seis e meia
Seis e meia
Seis e meia


Dá uma semana, mas nunca seis e meia
Não, seis e meia não, de jeito nenhum

Como se estende, como se alenta, como
Estanca ante tudo, ante seis e meia

Não chega
Não chega
Não chega

Chega o carnaval, me esqueço na folia
Me perco nas ladeiras na picardia de Olinda

Mas seis e meia... Nunca mais que chega!

sábado, dezembro 15

Das luas

Oi

Estou vivo, estou feliz e o blog continua com este texto: quatro tercetos para a lua, por favor, quem se interessar tenha a gentileza de comentar.

Novidade: o excelente poeta Thacle de Souza Pinheiro se propôs a escrever um quinto terceto, completando a obra apresentada, assim eu revisei a postagem com o terceto dele, que de agora em diante comporá o último pedaço da série "das luas".

Ósculos a todos

Das luas

I

A lua nova é uma estrela no ventre da noite
Engendrada
Com todo seu brilho de não brilhar

II

O quarto minguante é uma estrela sorrindo
Faceira
Por estar mais perto do infinito que nós, porque sabe que a namoramos em sua sacada

III

O quarto crescente é uma estrela de queijo
Qualho
Para dar água na boca de quem come com os olhos

IV

A lua cheia é como uma estrela saliente,
Gorda
Enquanto as outras são estrelinhas anoréxas

Diogo Testa

V

Atribuía-se a si, a Noite, um idôneo e passional sorver,
Mortificava-se, exonerava-se, exorcisava-se - fulgores vis
Inebriados em lancinantes suicídios infindos a cada alvorecer.

Thacle de Souza Pinheiro